5 de outubro de 2018

Capítulo 44

FICAMOS LÁ ATÉ O AMANHECER para conseguir bolar um plano que não terminaria com todos nós morrendo sob o fogo dos abdals.
Começamos a procurar o melhor lugar para interceptar o transporte que levaria Rahim para fora da cidade. Precisávamos chegar a ele antes que deixasse Izman. Lutar no espaço confinado das ruas da cidade era nossa vantagem. Se ele fosse para campo aberto, não teríamos a menor chance. Sam atravessou a parede enquanto nos amontoávamos sobre o mapa de Izman. Havia um roxo feio na sua bochecha que não estava lá da última vez que o vira.
— Onde arrumou isso? — Shazad perguntou, perdendo o foco por um momento.
— Um amigo — disse Sam, reservado, antes de se juntar a nós em volta da mesa. Ele me olhou tentando dizer alguma coisa que não consegui entender de imediato. Então o olhar desapareceu. — O que estamos fazendo? — Sam perguntou. — Escolhendo casas de veraneio?
— Só um bom lugar para uma emboscada — eu disse. — O sultão vai transportar Rahim pela cidade com guardas humanos e abdals. Não estamos preocupados com os primeiros. Hala pode cuidar deles. E, se não puder, as balas podem.
Os abdals já eram outra história.
Precisávamos de Leyla.
Ela estava tonta de sono e acorrentada quando foi trazida até nós. Mas seus olhos estavam arregalados e assustados. Apesar de não ser muito mais nova, parecia uma criança diante de Shazad.
— Leyla. — Minha amiga se apoiou na mesa. — Pense com cuidado antes de começar a me responder. Existe um jeito de parar os abdals? Consegue pensar em alguma coisa?
Os olhos dela varreram a sala, nervosos, passando por mim, por Imin e pelos homens que eram filhos de seu pai embora não fossem seus irmãos de verdade.
— Não tenho certeza — ela sussurrou. — Não quero que mais alguém se machuque se eu estiver errada. — Sua voz saiu embargada pelo choro que tentava conter.
Resisti ao impulso de reconfortá-la. Se conseguíssemos resgatar Rahim, haveria alguém para sentir pena dela. Até lá, Leyla precisaria amadurecer.
— É a vida do seu irmão que está em risco — eu disse. — Ele faria todo o possível para te salvar. O mínimo que pode fazer é tentar retribuir.
Leyla mordeu o lábio inferior, aflita com a situação. Eu não sabia dizer se ela estava pensando em uma resposta ou se já a tinha e estava decidindo se nos contava ou não.
— Vocês podem tentar destruir a palavra.
— A palavra? — Ahmed perguntou.
— A palavra que dá vida a eles. Ela canaliza o fogo do djinni em sua centelha. Eu a coloquei dentro de seus pés. — Leyla se remexeu inquieta. — Achei que poucos pensariam em atacar os abdals nesse lugar — ela disse. — Como parecem humanos, as pessoas mirariam naturalmente na cabeça ou no coração. Quem pensaria em mirar no pé?
— Isso foi inteligente — Shazad admitiu. — E bem inconveniente para nós.
— Acha que eles seriam enganados por uma ilusão? — perguntei. — Não como as de Hala, se esgueirando para dentro de suas cabeças, mas algo como um véu. — Como uma das ilusões de Delila. Mas não mencionei seu nome. Se a resposta fosse sim, teríamos outra discussão para tentar levar a irmã de Ahmed conosco, e eu não queria tratar daquilo na frente de Leyla.
— É possível — ela admitiu. — Algum de vocês consegue lançar ilusões desse tipo?
— Obrigado, Leyla. — Ahmed falou, em um tom que indicava que a conversa tinha terminado. — Você foi muito útil.
Ahmed olhou para mim enquanto a garota era levada, se preparando para falar. Eu estava pronta para a briga.
— Você não pode proteger sua irmã pra sempre, Ahmed. Precisamos dela…
— Eu sei. — Ele ergueu a mão para me interromper. — Sei que não posso protegê-la o tempo todo. Então espero que vocês façam isso por mim. — Cansado, Ahmed esfregou a mão no rosto. — Durmam um pouco antes de sair para salvar meu irmão.
Sam ficou comigo para trás enquanto os outros voltavam para a cama, apesar de o sol já estar surgindo. Jin olhou para mim, mas acenei para sinalizar que conversaríamos depois.
— Encontrei sua tia — Sam disse quando ninguém mais podia nos ouvir. — Ela está em um belo conjunto de quartos acima de uma joalheria, vivendo em condições muito melhores do que uma simples farmacêutica teria, pelo que deu para perceber. Isso a tornou fácil de encontrar.
Ela estava gastando o ouro que tinha ganhado comigo. Era um tipo de justiça poética Sam encontrá-la graças a isso.
— Ótimo. — Sacudi a cabeça. Ela estava pesada com o sono, os planos e os vários detalhes que podiam dar errado no resgate de Rahim. — Podemos ir daqui a alguns dias e…
— Se fizer isso, vai encontrar uma casa vazia — disse Sam, me interrompendo. — Ela está arrumando as coisas para deixar a cidade amanhã. Várias pessoas estão fazendo isso. Há bastante agitação por aí. E agora o toque de recolher. Cidades nunca são um bom lugar para viver em tempos de guerra.
Claro. Era bom demais para ser verdade.
— Então temos que ir esta noite se quisermos uma oportunidade de fazer com que ela tire o ferro de dentro de mim.
Precisaria de mais do que a ajuda de Sam para isso.


— E você vai comigo. — As olheiras de exaustão de Hala davam à sua pele um tom mais escuro de dourado ali.
— Eu, em vez da sua querida Shazad ou do seu amado Jin?
Eles não sabem invadir a mente de alguém como você. A resposta estava na ponta da língua. Mas era verdade: Shazad ou Jin e algumas ameaças bem feitas provavelmente produziriam o mesmo resultado. Aquele não era o motivo real de eu pedir a ela. Nós duas éramos demdjis, e devíamos a verdade uma à outra.
— Eles são humanos — eu disse. Os dois lutariam ao meu lado. Nós morreríamos uns pelos outros. Mas, não importava o que fizessem, jamais entenderiam aquilo da mesma forma que Hala. Como era ter parte de si arrancada. Não entenderiam que alguém havia me machucado por eu ser o que era. Que eu queria retribuir a ela na mesma moeda. — A história que corre no acampamento é que sua mãe te vendeu para o homem que arrancou seus dedos.
A expressão de Hala mudou de imediato.
— Sabe o que nossas mães ganham de nossos pais? — ela perguntou enquanto eu a observava passar os dedos dourados pelo cabelo escuro. — Além de nós, claro.
— Um desejo — eu disse, lembrando da conversa que tivera com Shira na prisão.
— Sabe qual foi o desejo da sua mãe?
— Não — admiti. Acho que teria que perguntar ao meu pai, se tivéssemos sucesso em me colocar de volta no palácio.
— A minha quis ouro — disse Hala. Era um desejo tão simples e idiota. O que todo camponês, funileiro e mendigo pedia nas histórias. Eu não disse nada. Preferi aguardar.
Pelo seu olhar, dava para ver que queria me contar o restante, mantendo os lábios dourados levemente entreabertos. Se eu não a pressionasse, Hala contaria.
— Minha mãe cresceu pobre e desejou ser rica — ela disse, enfim. — E talvez tivesse boas intenções. Talvez, ao descobrir que teria uma criança, desejara riqueza para ser capaz de me criar com conforto, em vez de na sarjeta onde havia crescido. Eu costumava contar a mim mesma essa mentira quando pequena. Mas nunca consegui dizer isso em voz alta. — Seu sorriso pareceu amargo. — E então o dinheiro acabou, e tudo o que restou fui eu, sua filha dourada.
Hala se inclinou para trás, e a luz da abertura da tenda fez sua pele brilhar. Ela era uma das únicas pessoas que tinha se dado ao trabalho de montar uma tenda. Ocorreu-me que poderia ter feito isso para se esconder. Hala era a filha dourada de uma mulher que amava demais o ouro. Nós duas havíamos sido trocadas por dinheiro, cada uma ao seu modo.
— Vou te ajudar.


Encontrei Jin se barbeando dentro da casa, em um aposento pequeno ligado ao escritório. Para as longas noites em que o general não ia para a cama, imaginei.
Havia uma bacia de latão batido com água pela metade debaixo de um espelho rachado. Era um pouco baixa demais para ele, então Jin precisava se curvar. Sua camisa estava pendurada na maçaneta da porta. De trás, eu podia ver o modo como os músculos de seus ombros se contraíam, movendo a bússola desenhada no lado oposto ao do coração. Havia uma nova tatuagem no outro ombro. Uma série de pontinhos negros.
Como uma erupção de areia. Quando se endireitou, ele me viu no reflexo, observando-o apoiada na porta.
— Essa é nova. — O lugar era tão pequeno que só precisei dar um passo para conseguir tocá-lo. — Fiz enquanto estive com o exército xichan. — Eu sentia sua pele quente sob minha mão enquanto meus dedos dançavam pelos pontos, um de cada vez. — Estava pensando numa garota que conheci. — Jin virou rapidamente e segurou minha mão. Ele cheirava a menta, mas havia um fundo de pólvora e poeira do deserto quando me beijou que fez bater uma saudade profunda de casa. Isso só tornava mais difícil contar a ele o que eu ia fazer.
— Jin, preciso dizer uma coisa — comecei, me afastando — e não quero que me faça nenhuma pergunta. Só confie em mim. Preciso fazer uma coisa antes de resgatar Rahim. Preciso de Sam e Hala comigo, e não quero te contar o que é, caso dê errado.
— Já estou odiando, seja lá o que for. — Jin limpou um filete de água do maxilar com o dorso da mão.
— Imaginei que se sentiria assim. Mas preciso contar a alguém, e é mais provável que Shazad tente me impedir. E ela precisa chegar ao local da emboscada. Vocês dois precisam. Não podemos perder essa chance por minha causa.
— Um jeito de garantir isso é você vir conosco. — Jin brincou com as pontas do meu cabelo curto, me observando com cuidado, tentando me ler. Mas eu estava determinada a não deixar nada transparecer.
— Vá para o cruzamento. — Eu me mantive firme. — Espere pela gente lá. Se tudo correr bem, conseguiremos chegar a tempo de interceptar Rahim.
— Isso é uma promessa? — Eu sabia quando Jin estava concordando sem realmente dizer que sim. Sabia que estava do meu lado.
— Filhas de djinnis não devem fazer promessas. — Fiquei na ponta dos pés, alcançando uma sombra perto de sua orelha onde a lâmina não havia passado, me aproximando o suficiente para sentir as batidas do seu coração. — No fim, nunca acaba bem.
Jin virou a cabeça, me pegando desprevenida com um beijo, rápido e confiante. Ele parou logo em seguida, mas não se afastou. Sorriu com a boca encostada na minha.
— Então é melhor que esse não seja o fim, Bandida.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!