29 de outubro de 2018

Capítulo 43

Dorian começou pequeno.
Primeiro, mudando os olhos para preto. Preto sólido, como os valg. Então, transformando sua pele em uma sombra gelada e pálida, do tipo que nunca viu a luz do sol. Seu cabelo, ele deixou escuro, mas conseguiu tornar seu nariz mais torto, sua boca mais fina.
Não uma mudança completa, mas uma feita em partes. Tecendo a imagem em si mesmo, formando a tapeçaria de seu novo rosto, nova pele, durante o longo e silencioso voo até a espinha dos Caninos.
Ele não havia dito a Manon que esta era uma missão igualmente suicida. Ele mal tinha falado com ela desde a clareira. Eles partiram com a aurora, quando ela anunciou a Glennis e às Crochans o que ela planejava fazer. Eles poderiam voar para o Desfiladeiro Férias e voltar para aquele acampamento escondido dentro dos Caninos em quatro dias, se tivessem sorte.
Ela pediu às Crochans que os encontrasse lá. Confiassem nela o suficiente para voltar ao acampamento da montanha e esperar.
Elas disseram sim. Talvez fosse a cova que as Treze haviam cavado o dia todo, mas as Crochans disseram que sim. Uma tentativa de confiança – só desta vez.
Então Dorian voou com Asterin. Tinha usado cada hora fria para o norte para alterar lentamente seu corpo.
Você quer tanto ir a Morath, Manon voltou a sibilar antes de partirem, então vamos ver se você consegue.
Um teste. Um em que ele ficaria feliz em se destacar. Mesmo que apenas para jogar na cara dela.
Manon conhecia uma porta dos fundos que apenas serpentes aladas usavam no Canino do Norte, junto com qualquer humano subordinado que tinha o azar de estar preso naquele lugar. Asterin e Manon tinham deixado as Treze mais longe nas montanhas antes de se aproximar, e mesmo assim elas pararam distantes o suficiente de quaisquer batedores e caminharam por horas, levando a montaria de Asterin com eles. Abraxos rosnara e puxara as rédeas, mas Sorrel segurou-o com firmeza.
Os dois picos gigantescos que flanqueavam o Desfiladeiro cresceram a cada quilômetro passado. No entanto, quando ele se aproximou do lado sul do Canino, ele não tinha percebido o quão maciço, exatamente, ele era.
Suficientemente grande para guardar um ninho em seu topo. Para treiná-los e criá-los.
Foi isso o que seu pai e Erawan haviam construído. O que Adarlan se tornara. Nenhuma serpente aladas circulava nos céus, mas seus rugidos e guinchos ecoavam na passagem enquanto ele caminhava para os antigos portões que se abriam para a própria montanha. Atrás dele, puxada por uma corrente, seguia a montaria azul de Asterin.
Outro treinador trazendo de volta sua montaria depois de uma viagem por um pouco de ar. Os poucos guardas – homens mortais – nos portões mal piscaram quando ele apareceu depois de uma curva na rocha.
As palmas de Dorian ficaram suadas dentro de suas luvas. Ele rezou para que a transformação se mantivesse.
Ele não teria como saber, embora supusesse que poucos aqui reconheceriam seu rosto natural. Ele tinha escolhido uma coloração próxima o suficiente da sua que, se a tapeçaria dentro dele se desfizesse, alguém poderia rejeitar a alteração de seu tom de pele, seus olhos, como um truque da luz.
Narene bufou, puxando as rédeas. Não querendo chegar perto desse lugar.
Ele não a culpava. O cheiro da montanha fez os seus joelhos tremerem.
Mas ele passou anos controlando sua expressão contra os perfumes que induziam dor de cabeça que os cortesãos de sua mãe usavam. A que distância esse mundo parecia – aquele palácio de perfumes e renda e música. Se eles não tivessem resistido a Erawan, ele teria permitido que ainda existissem? Se eles tivessem se curvado a ele, Erawan teria mantido seu papel como Perrington e governado como um rei mortal?
As pernas de Dorian queimaram, as horas de caminhada cobrando seu preço.
Manon e Asterin se ocultavam nas proximidades, escondidas entre neve e pedras. Elas sem dúvida marcaram todos os seus movimentos enquanto ele se aproximava dos portões.
Suas palavras de despedida com Manon foram breves. Concisas.
Ele deixou as duas chaves de Wyrd na palma da mão dela, o Amuleto de Orynth tilintando levemente contra suas unhas de ferro.
Apenas um idiota as levaria para uma das fortalezas de Erawan.
— Elas podem não ser sua prioridade — Dorian falou — mas eles continuam sendo vitais para o nosso sucesso.
Os olhos de Manon se estreitaram enquanto ela guardava as chaves no bolso, absolutamente imperturbável em carregar em sua jaqueta um poder grande o suficiente para aplainar reinos.
— Você acha que eu as jogaria fora como lixo?
Asterin de repente descobriu que a neve precisava de sua cuidadosa atenção. Dorian deu de ombros e desafivelou Damaris, a espada boa demais para pertencer a um simples tratador de serpentes aladas. Ele a passou para Manon também. Um punhal comum seria sua única arma, além da magia em suas veias.
— Se eu não voltar — ele falou enquanto ela prendia a lâmina antiga em seu cinto — as chaves devem ir para Terrasen.
Era o único lugar em que ele conseguia pensar – mesmo que Aelin não estivesse lá para pegá-las.
— Você vai voltar — disse Manon. Parecia mais uma ameaça do que qualquer coisa.
Dorian sorriu.
— Você sentiria minha falta se eu não voltasse?
Manon não respondeu. Ele não sabia por que esperava que ela respondesse. Ele deu um passo, quando Asterin apertou seu ombro.
— Entrar e sair, tão rápido quanto puder — ela o avisou. — Cuide de Narene.
Preocupação realmente brilhou nos olhos negros salpicados de ouro da tenente.
Dorian inclinou a cabeça.
— Com a minha vida — prometeu ele quando se aproximou da serpente alada e agarrou as rédeas.
Ele não deixou de sentir a gratidão que suavizou as feições de Asterin. Ou que Manon já havia se afastado dele.
Um tolo por enveredar por esse caminho com ela. Ele deveria ter sabido melhor.
Os rostos dos guardas se tornaram nítidos. Dorian abraçou o retrato de um tratador cansado e entediado.
Ele esperou pelo interrogatório, que nunca veio. Eles simplesmente acenaram para ele, igualmente cansados e entediados. E com frio.
Asterin havia lhe mostrado um mapa traçado do Canino do Norte e do Ômega em frente, então ele sabia que devia virar à esquerda ao entrar no corredor imponente. Os grunhidos e rugidos de serpentes aladas soavam por toda parte, e aquele cheiro de podridão encheu seu nariz.
Mas ele encontrou os estábulos precisamente onde Asterin falou que estariam, a fêmea alada esperando paciente enquanto ele amarrava frouxamente suas correntes no pino da parede.
Dorian deixou Narene com um tapinha reconfortante em seu pescoço e foi ver o que o Desfiladeiro Ferian poderia revelar.


As horas que passaram foram as mais longas da existência de Manon.
De antecipação, ela disse a si mesma. Do que ela teria que fazer.
Abraxos, sem surpresa, encontrou-as em menos de uma hora, suas rédeas cortadas da luta que sem dúvida ele travou e venceu com Sorrel. Ele esperou, no entanto, em silêncio ao lado de Manon, totalmente focado no portão por onde Dorian e Narene haviam desaparecido.
O tempo rastejava. A espada do rei era um peso constante ao seu lado.
Ela se amaldiçoou por precisar provar – para ele, para si mesma – que se recusava a permiti-lo entrar em Morath por razões práticas e comuns. Erawan não estava no Desfiladeiro Ferian. Seria mais seguro.
Um pouco mais.
Mas se as Matriarcas estivessem lá... Era por isso que ele tinha ido. Para saber se estavam. Para ver se Petrah de fato comandava o ninho ali, e quantas Dentes de Ferro estavam presentes.
Ele não havia sido treinado como espião, mas crescera em uma corte onde as pessoas empunhavam sorrisos e roupas como armas. Ele sabia como se misturar, como ouvir. Como fazer as pessoas verem o que gostariam de ver.
Ela enviara Elide para as masmorras de Morath, Escuridão a danasse. Mandar o rei de Adarlan para o Desfiladeiro Ferian não era diferente.
Isso não impediu que sua respiração parasse quando Abraxos endureceu, examinando o céu. Como se ouvisse algo que não ela não podia.
E foi a alegria que brilhou nos olhos de sua montaria que lhe contou. Momentos depois, Narene voou na direção deles, fazendo um caminho preguiçoso sobre as montanhas, um cavaleiro de cabelos escuros e pele clara em cima dela.
Ele realmente foi capaz de transformar partes de si mesmo. Tornara seu rosto quase irreconhecível. E o manteve assim.
Asterin correu em direção à fêmea, e até Manon piscou enquanto ela atirava os braços em volta do pescoço de Narene. Apertando-a com força. A montaria apenas encostou a cabeça nas costas de Asterin e bufou.
Dorian deslizou da serpente alada, as rédeas pendendo.
— Bem? — Manon exigiu.
Os olhos dele – escuros como os de valg – brilharam. Ela não tentou explicar que seus joelhos tremiam. Ainda tremulavam enquanto ela entregava a espada, então as duas chaves, suas unhas roçando a mão enluvada dele.
Os olhos de Dorian se iluminaram com aquele tom de safira esmagador, sua pele tornando-se dourada mais uma vez.
— As Matriarcas não estão lá. Apenas Petrah Sangue Azul e cerca de trezentas Dentes de Ferro de todos os três clãs. — Sua boca se curvou em um meio sorriso cruel, frio como os picos ao redor deles. Ao inferno. — O caminho está livre, majestade.


As patrulhas do Desfiladeiro Ferian avistaram-nas a quilômetros de distância.
As Treze ainda foram autorizados a pousar no Ômega.
Manon deixara Dorian na pequena passagem onde eles haviam reunido as Treze. Se elas não retornassem em um dia, ele deveria fazer o que quisesse. Ir para o abraço de Morath e Erawan, se fosse tão imprudente.
Não houve despedidas entre eles.
Manon manteve seu batimento cardíaco firme enquanto permanecia em cima de Abraxos logo na entrada que levava ao Ômega, ciente de cada olho inimigo sobre elas, tanto na frente quanto nas costas.
— Eu gostaria de falar com Petrah Sangue Azul — declarou ela ao salão.
Uma voz jovem respondeu:
— Foi o que supus isso. — A herdeira Sangue Azul apareceu através do arco mais próximo, uma faixa de ferro em sua testa, vestes azuis fluindo.
Manon inclinou a cabeça.
— Reúna seu exército neste salão.


Manon não pensara muito no que diria.
E enquanto as trezentas bruxas Dentes de Ferro entravam no salão, algumas chegando de suas patrulhas, Manon quase se perguntou se deveria falar. Elas a observavam, observavam as Treze, com um desdém cauteloso.
Sua Líder Alada em desgraça; sua herdeira caída.
Quando todas estavam reunidas, Petrah, ainda de pé no arco onde aparecera, simplesmente falou:
— Minha dívida de vida por uma audiência, Bico Negro.
Manon engoliu, sua língua seca como papel. Sentada em cima de Abraxos, ela podia ver cada movimento na multidão, os olhos arregalados ou as mãos sobre as espadas.
— Eu não vou lhe contar os detalhes de quem sou — Manon falou finalmente — porque acho que vocês já ouviram.
— Cadela Crochan — alguém cuspiu.
Manon olhou para as Bico Negros, os rostos como pedra, onde as outras se enchiam de ódio. Foi para elas que ela falou, por elas viera aqui.
— Por toda a minha vida — Manon falou, sua voz vacilando apenas ligeiramente — eu fui alimentada por uma mentira.
— Nós não temos que ouvir esse lixo — outra sentinela cuspiu.
Asterin rosnou ao lado de Manon, e as outras ficaram em silêncio. Mesmo desonradas, as Treze eram mortais.
— Uma mentira, sobre quem somos, o que somos — Manon continuou. — Que nós somos monstros, e orgulhosas disso. — Ela passou um dedo pelo tecido vermelho que prendia sua trança. — Mas nós fomos transformadas neles. Transformadas — ela repetiu. — Quando podemos ser muito mais.
O silêncio caiu. Manon tomou isso como encorajamento suficiente.
— Minha avó não planeja apenas recuperar as Terras Planas quando esta guerra terminar. Ela planeja governar os Desertos como Grande Rainha. Sua única rainha.
Um burburinho. Às suas palavras, à traição que Manon cometeu ao revelar os planos de sua Matriarca.
— Não haverá Sangue Azul ou Pernas Amarelas, não como vocês são agora. Ela planeja pegar as armas que vocês construíram aqui, planeja usar nossas montadoras Bico Negro e transformar vocês em uma de nós. E se vocês não se curvarem para ela, não mais existirão.
Manon respirou fundo uma vez. E outra.
— Nós conhecemos apenas derramamento de sangue e violência por quinhentos anos. Conheceremos por outros quinhentos ainda.
— Mentirosa — alguém gritou. — Nós voamos para a glória.
Mas Asterin se moveu, desabotoando a jaqueta de couro e depois erguendo a camisa branca. Levantando-se nos estribos para mostrar seu abdômen cicatrizado e brutalizado.
— Ela não mente.
IMPURA
Ali, a palavra permanecia estampada. Sempre estaria.
— Quantas de vocês — Asterin falou — possuem a mesma marca? Feita por sua Matriarca, pela líder de seu coven? Quantas de vocês tiveram suas bruxinhas natimortas arrancadas de seus braços antes de poderem segurá-las?
O silêncio que caiu agora era diferente de antes. Trêmulo – estremecendo.
Manon olhou para as Treze para encontrar lágrimas nos olhos de Ghislaine enquanto ela observava a marca no útero de Asterin. Lágrimas nos olhos de todas elas, que não sabiam.
E foi por aquelas lágrimas, que Manon nunca tinha visto, que ela enfrentou o exército novamente.
— Vocês serão mortas nesta guerra ou depois dela. E nunca mais verão nossa pátria novamente.
— O que você quer, Bico Negro? — perguntou Petrah, do arco.
— Cavalguem conosco — Manon respirou. — Voem conosco. Contra Morath. Contra as pessoas que as mantariam afastadas de sua terra natal, de seu futuro.
Murmúrios explodiram novamente.
Manon adiantou:
— Uma aliança Dentes de Ferro-Crochan. Talvez uma para acabar com a nossa maldição.
Mais uma vez, aquele silêncio estremecido. Como uma tempestade prestes a quebrar. Asterin sentou-se na sela, mas manteve a camisa aberta.
— A escolha de como o futuro do nosso povo deve ser moldado é sua — Manon disse a cada uma das bruxas reunidas, todas as Bico Negros que poderiam voar para a guerra e nunca mais voltar. — Mas eu vou dizer isso. — Suas mãos tremiam, e ela as colocou em suas coxas. — Existe um mundo melhor lá fora. E eu o vi.
Até as Treze olhavam para ela agora.
— Eu vi bruxas e humanos e feéricos viverem juntos em paz. E não é uma fraqueza, mas uma força. Eu encontrei reis e rainhas cujo amor por seus reinos, seus povos, é tão grande que o seu próprio ser se torna secundário. Cujo amor por seu povo é tão forte que, mesmo diante de destinos impensáveis, eles fazem o impossível.
Manon ergueu o queixo.
— Vocês são o meu povo. Com o decreto de minha avó ou não, vocês são o meu povo e sempre serão. Mas eu voarei contra vocês, se necessário, para garantir que haja um futuro para aqueles que não podem lutar por si mesmos. Por muito tempo nós atacamos os fracos, adoramos fazê-lo. Já é hora de nos tornarmos melhores do que os nossos antepassados.
As palavras que ela falara para as Treze meses há tantos meses.
— Existe um mundo melhor lá fora — ela repetiu. — E eu vou lutar por ele. — Ela virou Abraxos, em direção ao mergulho atrás deles. — Vocês vão?
Manon acenou para Petrah. Olhos brilhando, a herdeiro apenas acenou de volta. Elas teriam permissão para sair como haviam chegado: ilesas.
Então Manon cutucou Abraxos, e ele saltou para o céu, as Treze seguindo o exemplo.
Não uma filha da guerra.
Mas da paz.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!