5 de outubro de 2018

Capítulo 43

SENTIA TANTA FALTA DAS NOITES NO DESERTO que chegava a doer. Shira estava certa: não dava para ver as estrelas em Izman. A cidade era cheia demais de luzes e barulho, muito brilhante para se enxergar as constelações dos mortos.
Mas eu sabia que não era das estrelas que tinha saudades. Tudo havia mudado. Não éramos mais uma rebelião presunçosa no deserto. Sentia falta da simplicidade da certeza de saber que estava fazendo a coisa certa. De que aquilo valia a pena. Estávamos começando uma guerra, o que exigia sacrifícios. Podia sentir a inquietação no acampamento.
— Existe um jeito fácil de sair dessa, sabia? — Quando Jin falou, com minha cabeça apoiada em seu peito, senti as palavras em meus ossos antes de ouvi-las de fato.
Havia escurecido fazia muito tempo e nós dois estávamos quase dormindo.
Tinha sido um longo e silencioso retorno depois da proposta de Balir. Até Shazad ficara calada. Ahmed e Jin haviam seguido juntos à frente, envoltos numa discussão raivosa. Eles estavam lidando com o problema, tentando processá-lo.
Hala e Imin já estavam casadas. Então sobrávamos Delila e eu. Éramos as únicas que poderíamos nos sacrificar casando com Balir se quiséssemos obter aquele exército. Se quiséssemos uma batalha de verdade, e não um longo massacre.
Eu sabia o que Jin estava pensando. Se nos casássemos, eu também deixaria de ser uma opção.
— Sim. — Eu não disse mais nada. Não disse que sabia que Jin jamais se perdoaria se me salvasse sacrificando Delila. Que se Ahmed tentasse me forçar àquilo, ele não seria o tipo de governante que eu ia querer liderando um exército. Que havia cruzado o deserto inteiro justamente porque não queria um casamento arranjado, mesmo se fosse com Jin.
Mas o silêncio passou o recado.
Ele me abraçou e me puxou contra seu peito. Jin estava quente e firme.
Acomodei a cabeça, minha boca perto do seu coração batendo, sobre sua tatuagem de sol.
No fim das contas, ele acabou adormecendo. Eu não.
Após algumas horas acordada, saí de seus braços. A maioria de nós estava dormindo fora das tendas no ar quente do verão. Achei meu rumo através dos corpos espalhados pela grama. Como cadáveres em um campo de batalha. A casa estava quieta enquanto eu voltava para a cozinha onde havíamos nos reunido.
O lugar parecia bem maior sem metade da rebelião enfiada ali. Comecei a vasculhar as latas na prateleira. Procurando café.
A porta foi aberta de repente, me assustando tanto que derrubei uma garrafa de vidro e ela se estilhaçou no chão com um estrondo. Um desconhecido entrou cambaleando na cozinha. Estava prestes a partir para o ataque quando ele chegou perto o bastante do fogo para que eu pudesse ver seus olhos amarelos.
— Imin? — eu disse, relaxando, enquanto ela desabava numa cadeira perto do fogo, com a respiração pesada. — Você está bem?
— Tive que correr todo o caminho até aqui — ela explicou, arfando. Assumira o rosto de um jovem e suas bochechas imberbes estavam coradas. — A cidade está repleta daqueles abdals. Um quase me viu algumas ruas atrás. Mas não consegui sair do palácio o dia inteiro e precisava contar a alguém que Rahim…
Aquele nome chamou minha atenção.
— Ele está bem?
— Não — Imin disse, séria. — Ele é um prisioneiro. É óbvio que não está bem. Mas está vivo. E, a julgar pela conversa nas cozinhas, vai continuar assim. Rahim é respeitado no Exército do sultão. Estão dizendo que executar o antigo comandante seria ruim para o moral. E prejudicaria a imagem do sultão. Por isso Rahim vai ser mandado embora para algum campo de trabalho onde possa morrer discretamente.
Aquilo soou como uma boa notícia, a primeira em muito tempo, mas não me permiti ter esperanças ainda.
— Quando ele vai ser levado?
Imin revirou os olhos novamente.
— Acha que corri por essas ruas infestadas de abdals só pelo exercício? Amanhã à noite.


Encontrei Ahmed no escritório do general Hamad. A luz trêmula de uma lâmpada vazava por baixo da porta. Aquilo me fez pensar na história do djinni invejoso que cintilava uma luz cativante de noite, atraindo as crianças para fora de casa, fazendo-as perseguir o fogo pela noite até estarem longe o suficiente para que pudesse capturá-las e escravizá-las.
Na metade do corredor, já conseguia ouvir as vozes.
— Delila… — Ahmed soava cansado. — Você não pode…
— Sim, eu posso! — Ela elevou o tom de voz. Parei logo antes da soleira. — É você que não consegue fazer isso, Ahmed. Nem haveria uma guerra se não fosse por mim. Isso tudo começou porque nasci. Foi por isso que a mamãe, quer dizer, que Lien teve que fugir. Foi por isso que vocês dois começaram a trabalhar quando eram mais novos do que sou agora para nos sustentar. Sou o motivo de você e Jin terem crescido em Xicha, e foi por isso que toda essa revolução começou lá atrás. É por isso que Bahi está morto, assim como Mahdi, Sayyida e todos os demais. Eu comecei essa guerra e você nem me deixa lutar. Então vou ajudar a acabar com ela de uma vez.
Me afastei enquanto Delila marchava furiosa escritório afora, a porta batendo na parede alto o suficiente para acordar metade da casa. Ela nem pareceu me ver enquanto acelerava pelo corredor. Esperei até sair do meu campo de visão antes de entrar.
Quando minha sombra surgiu no escritório, Ahmed levantou rápido a cabeça e olhou para mim. Ele estivera repousando a cabeça nas mãos, com os cotovelos apoiados na mesa. Ahmed se esforçou para se concentrar em mim. Havia uma garrafa vazia perto dele. Perguntei quão cheia estava quando ele tinha começado.
— Amani. — Ele se endireitou, e a luz da vela iluminou seu rosto, primeiro um lado, depois o outro, fazendo com que parecesse duas pessoas diferentes. Me dei conta de que nunca o tinha visto bêbado antes. — Se está aqui para ser altruísta e se oferecer em troca de um exército, lamento informar que minha irmã foi mais rápida do que você.
— Não sou do tipo altruísta. — Sentei na cadeira em frente a ele sem esperar pelo convite.
— Jin jamais me perdoaria se te deixasse ir. — Ahmed balançou a cabeça. — Tampouco vai me perdoar se eu deixar que Delila vá, mas eu mesmo nunca me perdoarei, então pelo menos estaremos unidos no ódio em relação a mim. — Se te deixasse ir, ele disse. Não se te fizesse ir. Ahmed era meu líder, ele poderia ordenar que me oferecesse. Que me entregasse no lugar de sua irmã. Mas aquilo nem havia passado pela sua cabeça.
Porque o príncipe rebelde não era igual ao pai.
Houve momentos no palácio em que aquilo havia me assustado. A ideia de que Ahmed talvez não fosse forte ou inteligente o bastante, que não passasse de um idealista. Mas era disso que Miraji precisava. De um governante como ele. Eu só estava com medo de que um líder como Ahmed jamais conseguisse tirar o país de um líder como o sultão.
— Seria fácil, não é? Trocar uma pessoa por um país inteiro. Minha irmã por um exército.
— Não — eu disse. Pensei na facilidade com que o sultão havia ordenado uma execução. — Não acho que alguém pense que governar seja fácil. Mas e se houver outro jeito?
— De vencer sem um exército? — Ele deu um sorriso. — Com mais revoltas e vidas perdidas? Mais cidades saindo do meu controle como Saramotai? Com o número de mortes aumentando enquanto meu pai cria máquinas que facilitam os massacres?
— Não. E se eu disser que existe outro jeito de obter o controle do exército de Iliaz?
Ahmed me olhou, com uma ponta de esperança no rosto.
— Rahim — eu disse. — Ele era o comandante do exército de Iliaz antes mesmo de Balir se tornar emir. Os soldados o conhecem. Eles o respeitam. — Pensei em quão rápido seus homens haviam entrado em formação quando o príncipe ordenou que ficassem contra Kadir no dia em que o embaixador gallan quase me estrangulou. — Acho que eles o seguiriam. Com ou sem o consentimento de Balir.
— Está sugerindo que mandemos Imin…
— Não. — Sacudi a cabeça. — Ela até poderia assumir a forma de Rahim, mas não seu lugar.
— Ela já fez isso antes — disse Ahmed. — Imitou alguém para nós.
— Não por tanto tempo. Não acha que se Imin entrasse no acampamento com seu rosto e começasse a dar ordens todo mundo notaria logo que não era você? Precisamos do homem real. Nada de truques, apenas o bom e velho resgate.
Ahmed se recostou na cadeira.
— Essa é a única razão de você querer salvar Rahim?
— Não gosto de deixar pessoas para trás. Especialmente aquelas a quem devo minha vida.
— Amani, com a cidade inteira atenta e os abdals patrulhando as ruas durante a noite… soa como uma missão suicida. — Ahmed esfregou os olhos. — Vamos precisar dos outros aqui se pretendemos planejar uma.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!