29 de outubro de 2018

Capítulo 42

Lorcan recebeu o último turno da noite, o que lhe permitiu testemunhar o nascer do sol sobre o horizonte agora distante.
Será que ele voltaria a ver Wendlyn, Doranelle, alguma dessas terras do leste?
Talvez não, considerando na direção do quê eles navegavam para o oeste, e o exército imortal que Maeve sem dúvida colocara em seus calcanhares. Talvez todos estivessem condenados a número limitado de nasceres do sol.
Os outros despertaram, aventurando-se no convés para ver o que a manhã trouxe. Nada, ele quase disse a eles de onde estava na proa. Água e sol e um monte de nada.
Fenrys o viu e mostrou os dentes. Lorcan deu-lhe um sorriso zombeteiro. Sim, essa luta viria depois. Ele aceitaria, a chance de aliviar o aperto de seus ossos, para deixar Fenrys rasgar um pouco dele.
Ele não mataria o lobo, no entanto. Fenrys poderia tentar matá-lo, mas Lorcan não faria isso. Não depois do que Fenrys suportou – o que ele conseguiu fazer.
Elide emergiu dos deques inferiores, com os cabelos trançados e arrumados. Como se tivesse acordado antes do amanhecer. Ela mal olhou em sua direção, embora ele soubesse que ela estava bem ciente de sua localização. Lorcan bloqueou a dor profunda em seu peito.
Mas Aelin o viu, e havia mais clareza em seu rosto do que naqueles últimos dias, enquanto ela andava na direção. Mais daquela arrogância em sua marcha também.
As mangas da camisa branca haviam sido enroladas até o cotovelo, o cabelo trançado para trás. Goldryn e uma faca comprida pendiam do cinto. Pronta para treinar. Ansiosa para isto, a julgar pela energia eriçada que zumbiu ao redor ela.
Lorcan a encontrou no meio do caminho, descendo as pequenas escadas.
Whitethorn permaneceu por perto, também vestido para treinar, a cautela em seus olhos dizendo a Lorcan o suficiente: o príncipe não tinha ideia do que se tratava isto.
Mas a jovem rainha cruzou os braços.
— Você planeja navegar conosco para Terrasen?
Uma pergunta desnecessária para o amanhecer, no meio do mar.
— Sim.
— E planeja se juntar a nós nesta guerra?
— Eu certamente não estou indo lá para aproveitar o clima.
Diversão brilhou nos olhos dela, embora seu rosto permanecesse sombrio.
— Então é assim que vai funcionar.
Lorcan aguardou a lista de ordens e exigências, mas a rainha apenas observou-o, a diversão se transformando em algo endurecido pelo aço.
— Você era o comandante de Maeve — ela falou, e Elide se virou para eles. — E agora que não é mais, isso o deixa como um poderoso feérico cujas alianças eu não conheço ou realmente confio. Não quando o exército de Maeve provavelmente se dirige ao continente neste exato momento. Então eu não posso tê-lo em meu reino, ou viajando conosco, quando você pode muito bem vender informações para voltar às boas graças de Maeve, posso?
Ele abriu a boca, eriçando ao tom arrogante, mas Aelin continuou.
— Então, eu farei uma oferta, Lorcan Salvaterre. — Ela esticou seu antebraço nu. — Faça o juramento de sangue para mim e deixarei que você vague para onde quiser.
Fenrys xingou atrás deles, mas Lorcan mal ouviu sobre o rugido em sua cabeça.
— E o que, exatamente — ele conseguiu dizer — eu consigo com isso?
Os olhos de Aelin deslizaram por cima do ombro dela. Para onde Elide assistia, a boca aberta.
Quando a rainha encontrou o olhar de Lorcan novamente, um toque de simpatia suavizou a arrogância de aço.
— Você terá permissão para entrar em Terrasen. Isso é o que conseguirá. Onde escolher viver dentro das fronteiras de Terrasen, não será decisão minha.
Não será decisão dela, nem dele. Mas da mulher de cabelos escuros que os assistia.
— E se eu recusar? — Lorcan ousou perguntar.
— Então você nunca terá permissão para pisar em meu reino, ou viajar mais conosco – não com as chaves na balança, e o exército de Maeve em nossas costas. — Aquela simpatia permanecia. — Eu não posso confiar em você o bastante para confiar que se junta a nós de outra maneira.
— Mas me deixará fazer o juramento de sangue?
— Eu não quero nada de você, e você não quer nada de mim. A única ordem que lhe darei é aquela que eu pediria a qualquer cidadão de Terrasen: proteger e defender nosso reino e seu povo. Você pode morar em uma cabana na Galhada do Cervo até onde eu me importo.
Ela também falava sério. Faça o juramento de sangue, jure nunca prejudicar o reino dela, e ela lhe daria liberdade. E se ele se recusasse... nunca mais veria Elide.
— Eu não tenho outra escolha — disse Aelin em voz baixa, para que os outros não pudessem ouvir. — Eu não posso arriscar Terrasen. — Ela ainda mantinha o braço esticado para ele. — Mas eu não o afastaria de algo tão precioso para você.
— O que você não percebe é que aquela não é mais uma possibilidade.
Mais uma vez, aquele indício de um sorriso e um olhar por cima do ombro em direção a Elide.
— É. — Seus olhos turquesa estavam brilhantes quando ela olhou para ele, e havia uma sabedoria no rosto de Aelin que ele talvez nunca tivesse notado antes. O rosto de uma rainha. — Acredite em mim, Lorcan, é.
Ele afastou a esperança que encheu seu peito, estranha e indesejada.
— Mas Terrasen não sobreviverá a esta guerra, ela não sobreviverá a esta guerra sem você.
E mesmo que a rainha diante dele desse sua vida imortal para forjar o cadeado, para impedir Erawan, o juramento de sangue de Lorcan para proteger seu reino continuaria válido.
— A escolha é sua — ela falou simplesmente.
Lorcan se permitiu olhar para Elide, por mais tolo que fosse. Ela estava com uma mão na garganta, seus olhos escuros arregalados. Não importava se ela ainda lhe oferecesse uma casa em Perranth, se a rainha falava a verdade.
Mas o que importava era que Aelin Galathynius falava a verdade em sua promessa: ele era muito poderoso, suas alianças eram muito obscuras, para ela permitir que ele viajasse com ela, entrasse em seu reino sem restrições. Ela o deixaria ir, o manteria fora de Terrasen mesmo que as hordas de Erawan atacassem, apenas para evitar a outra ameaça às suas costas: Maeve.
E Elide não sobreviveria a esta guerra se todos eles estivessem mortos.
Ele não podia aceitar isso, essa possibilidade. Tolo e inútil como era, ele não podia permitir que isso acontecesse. Ter as bestas de Erawan ou seu tio Vernon vindo para reivindicá-la novamente.
Idiota. Ele era um idiota velho e estúpido.
No entanto, o deus ao seu lado não lhe disse para correr ou lutar.
Escolha dele, então. Ele se perguntou o que a deusa que sussurrava para Elide faria com isso.
Perguntou-se o que a mulher faria, quando ele disse a Aelin:
— Tudo bem.
— Os deuses nos poupem — murmurou Fenrys.
Os lábios de Aelin se curvaram com uma pitada de sorriso, divertidos e ainda com um toque de crueldade, enquanto ela olhava para o lobo.
— Você vai ter que deixá-lo viver, perceba — disse ela para Fenrys, levantando uma sobrancelha. — Nenhum duelo até a morte. Nenhuma luta por vingança. Tem estômago para isso?
Lorcan se arrepiou quando Fenrys o olhou. Lorcan deixou-o ver cada pedacinho de dominância em seu olhar.
Fenrys enviou toda a sua raiva para ele. Não tanto quanto a que Lorcan possuía, mas o suficiente para lembrá-lo de que o Lobo Branco de Doranelle podia morder se quisesse. Letalmente.
Fenrys se virou para a rainha.
— Se eu lhe disser que ele é um idiota, um miserável bastardo para se ter por perto, vai mudar de ideia?
Lorcan rosnou, mas Aelin bufou.
— Não é por isso que amamos Lorcan? — Ela lançou-lhe um sorriso que disse a Lorcan que ela se lembrava de todos os detalhes de seus primeiros encontros em Forte da Fenda – quando ele enfiou a cara dela em uma parede de tijolos. Aelin disse a Fenrys: — Só vamos convidá-lo para Orynth nos feriados.
— Para ele arruinar as festividades? — Fenrys franziu o cenho. — Eu, pelo menos, prezo minhas férias. Não preciso de um misantropo estragando tudo.
Deuses acima.
Lorcan olhou para Rowan, mas o príncipe guerreiro observava a rainha com cuidado. Como se soubesse precisamente que tipo de tempestade se formava sob sua pele.
Aelin acenou com a mão.
— Bem, bem. Você não tentará matar Lorcan pelo o que aconteceu em Eyllwe e, em troca, não vamos convidá-lo para nada.
Seu sorriso era nada menos que perverso.
Este era o tipo de corte a que ele se juntaria – este turbilhão de... Lorcan não sabia qual era a palavra para isso. Ele duvidava que qualquer um de seus cinco séculos o tivesse preparado para isso, no entanto.
Aelin estendeu a mão.
— Você sabe como isso funciona, então. Ou está velho demais para lembrar?
Lorcan a encarou e se ajoelhou, oferecendo a adaga ao seu lado.
Um idiota. Ele era um idiota.
E ainda assim suas mãos tremiam um pouco quando ele entregou a adaga à rainha.
Aelin pesou a lâmina, um anel de ouro com uma esmeralda obscenamente grande adornando seu dedo. Uma aliança de casamento. Provavelmente do tesouro que ela roubara das criaturas tumulares. Ele olhou para onde Whitethorn estava parado ao lado. Com certeza, um anel de ouro brilhava no próprio dedo do guerreiro, um rubi embutido no aro. E espiando acima do colarinho da jaqueta de Rowan, duas cicatrizes novas apareciam.
Um par delas agora marcava a garganta da própria rainha.
— Já pode fechar a boca? — Aelin perguntou a Lorcan friamente.
Ele franziu o cenho. Mesmo com o ritual sagrado em que estavam prestes a participar, a rainha encontrou uma maneira de ser irreverente.
— Fale.
Seus lábios se curvaram novamente.
 Você, Lorcan Salvaterre, jura pelo seu sangue e alma eterna, ser fiel a mim, à minha coroa e a Terrasen pelo resto de sua vida?
Ele piscou. Maeve entoara uma longa lista de perguntas no antigo idioma quando ele fizera o seu juramento. Mas ele disse:
— Sim. Eu juro.
Aelin cortou o antebraço com a adaga, e seu sangue brilhou como o rubi da espada em sua cintura.
— Então beba.
Sua última chance de desistir. Mas ele olhou para Elide novamente. E viu a esperança – apenas um vislumbre dela – iluminar seu rosto.
Então Lorcan segurou o braço da rainha e bebeu. O gosto dela – jasmim, verbena de limão e brasas crepitantes – encheu sua boca. Encheu sua alma, enquanto algo queimava e se assentava dentro dele.
Uma brasa de calor. Como se um pedaço daquela magia furiosa tivesse entrado em sua alma.
Oscilando um pouco, ele soltou o braço dela.
— Bem-vindo à corte — disse Aelin. — Aqui está sua primeira e única ordem: proteja Terrasen e seu povo.
O comando também se instalou nele, outra pequena faísca que brilhava profundamente.
Então a rainha girou nos calcanhares e foi embora – não, aproximou-se de Elide.
Lorcan tentou e não conseguiu ficar de pé. Seu corpo, parecia, ainda precisava de um momento.
Então, ele só pôde assistir quando Aelin disse a Elide:
— Eu não vou oferecer o juramento de sangue a você.
Com ou sem juramento, ele debateu lançar a rainha no oceano pela devastação que apareceu o rosto de Elide. Mas a senhora de Perranth manteve o queixo alto.
— Por quê?
Aelin pegou a mão de Elide com uma gentileza que acalmou o temperamento crescente de Lorcan.
— Porque quando retornarmos a Terrasen, se trono for para ser meu, então você não pode estar presa a mim. — As sobrancelhas de Elide franziram. — Perranth é a segunda Casa mais poderosa em Terrasen — explicou Aelin. — Quatro de seus lordes decidiram que eu não sou digna do trono. Preciso de uma maioria para reconquistá-lo.
— E se eu fizer o juramento a você, isso compromete a integridade do meu voto — concluiu Elide.
Aelin assentiu e soltou a mão para se virar para todos eles. No sol nascente, a rainha era banhada em dourado.
— Terrasen está a mais de duas semanas, se as tempestades de inverno não interferirem. Usaremos esse tempo para treinar e planejar.
— Planejar o quê? — perguntou Fenrys, aproximando-se.
Um membro desta corte. Da própria corte de Lorcan. Os três mais uma vez ligados – e ainda mais livres do que nunca.
Lorcan quase se perguntou por que a rainha não ofereceu o juramento a Gavriel, mas ela falou de novo.
— Minha tarefa não pode ser concluída sem as chaves. Presumo que seus novos portadores acabarão por me procurar, se a terceira for encontrada e eles decidirem não terminar as coisas sozinhos. — Ela olhou para Rowan, que assentiu. Como se eles já tivessem discutido isso. — Então, em vez de desperdiçar tempo vital percorrendo o continente em busca deles, nós iremos de fato a Terrasen. Especialmente se Maeve estiver trazendo seu exército para nossas costas também. E se eu não tiver permissão para liderar do meu trono, então terei que fazê-lo dos campos de batalha.
Ela pretendia lutar. A rainha – a rainha de Lorcan – pretendia lutar contra Morath. E Maeve, se o pior acontecesse. E então ela morreria por todos eles.
— Para Terrasen, então — disse Fenrys.
— Para Terrasen — Elide repetiu.
Aelin olhou para o oeste, na direção do reino que era tudo o que ficava entre Erawan e a conquista. Em direção ao novo lar de Lorcan. Como se pudesse ver as legiões do Senhor do Medo atacando-o. E o exército imortal de Maeve rastejando em suas costas, um exército que Lorcan e seus companheiros lideraram um dia.
Aelin simplesmente caminhou para o centro do convés, os marinheiros dando-lhes um amplo espaço. Ela desembainhou Goldryn e sua adaga, depois ergueu as sobrancelhas para Whitethorn em desafio silencioso.
O príncipe guerreiro obedeceu, desembainhando a espada e o machado antes de posicionar-se defensivamente.
Treinamento – treinar novamente seu corpo. Nenhum sussurro de seu poder se manifestou, mas os olhos dela brilharam intensamente.
Aelin posicionou suas armas.
— Para Terrasen — ela falou finalmente.
E eles começaram.

6 comentários:

  1. Fenrys acabou de se virar para a rainha. - Se eu lhe disser que ele é um idiota
    e um miserável bastardo por perto, vai mudar de ideia?
    Lorcan rosnou, mas Aelin bufou. - Não é por isso que amamos Lorcan?
    ri demais kkkkk

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  2. Graviel não trairia seu filho , ele já fez sua escolha mesmo antes de ser libertado do juramento...

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  3. Quando é que vai aparecer o lorde pirara??
    Anna!!!

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  4. Eu fico lendo esses tipos de livro e fico pensando... seria tão mais fácil se esse povo tivessem o Whatsapp. Imagina:

    Grupo: Fodões de Erileia

    Aelin G.: Eaii galeraaa, tô de volta ✌ Escapei da esquisitona da Maeve e já to voltando pra Erileia, onde vcs estão????
    Aedion A.: Obaaaaa!!!! Finalmente ein, achei que tava curtindo sua lua de mel aí em Doranelle 😅. Estamos sendo massacrados pelo exército de Morath e recuando pro norte, vem logo pra Terrasen muié, botar o Darrow no lugar dele e tostar uns demônios valg
    Dorian H.: Opa...Bem-vinda de volta! 😎 Tô indo pra Morath encontrar a última chave, tô pensando em fazer o sacrifício tbm, no seu lugar, acho que tenho menos a perder, quer dizer...Vc tem o gostosão do Rowan e eu... nem reino tenho mais 😭
    Chaol W.: Nãaaaaaoooooooo!!!!! Dorian por favor não faça isso, eu tbm tô de volta, vc tbm tem muito a perder, não seja precipitado, vamos conversar...Estou em Anielle, minha cidade natal, tenho um exército comigo tbm, vamos juntar nossas forças e lutar contra Erwan juntos!!!
    Manon: ¬¬
    .
    .
    .
    Aelin adicionou Lorcan no Grupo

    Elide: Isso não vai prestar!
    Dorian: O que????!!!
    Aedion: Vc tá de brincadeira comigo né? Ele tbm??????
    Lorcan: Tô na área GALERAAAAAA ✌ ✌ ✌ ✌ ✌ ✌
    Aelin: Chega de mimimi pessoal, vamos marcar um ponto de encontro e resolver essa parada de uma vez!😠

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  5. Esses personagens são tão sinceros que é impossível não rir
    Mesmo quando é coisa séria kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!