5 de outubro de 2018

Capítulo 42

ACABOU QUE A CASA OCULTA não era tão oculta assim. Era uma casa de banho no cruzamento de duas ruas sinuosas forradas com toldos coloridos no meio de Izman.
Para mim, tinham exatamente a mesma aparência de todas as outras ruas pelas quais havíamos passado. A cidade era um imenso labirinto, e se não fosse Ahmed me conduzindo gentilmente pelos caminhos tortuosos, teria me perdido mais rápido do que no deserto.
Conforme nos aproximávamos, vapores pesados com o aroma de flores e temperos espirravam das janelas de treliça, impregnando meu cabelo e suscitando memórias do harém. Ahmed me deu uma cutucada para que eu olhasse para cima. Assim que olhei, o nome finalmente fez sentido. Todas as construções nessa área de Izman pareciam ter a mesma altura de três andares. A Casa Oculta se alongava dois andares além das outras.
E o telhado era protegido por copas de videiras e flores do deserto que desciam pelas paredes, protegendo-a dos olhares curiosos.
Shazad havia escolhido aquele lugar para a reunião com lorde Balir, mas dissera a ele para encontrá-la em outro lugar. Sem guardas e armas. Caberia a ela encontrá-lo e levá-lo até nós. Precisávamos tomar as precauções necessárias.
Estávamos pedindo a ele para botar um bocado de fé na gente.
Jin tinha ido na frente, sem cobertura, para ver se atraía algum ataque e se havia armadilhas no local. Ahmed e eu fomos logo atrás, parecendo um casal comum caminhando pelas ruas de Izman em vez de um príncipe e uma guarda-costas com uma arma escondida nas dobras do khalat. Conseguimos chegar sem incidentes.
Ahmed abriu a porta e entrou. Uma garota à mesa levantou a cabeça e nos olhou.
— Veja só se não é nosso príncipe rebelde. — Ela fechou um livro e me encarou. — Pode tirar o dedo do gatilho, vocês estão seguros aqui. — Eu não havia nem percebido que segurava a arma. Relaxei o dedo. Mas não a guardei no coldre. — Seu irmão está no telhado — disse a garota.
— Que lugar é este? — perguntei enquanto subíamos a escada.
— Um abrigo. — Ahmed deu um passo para o lado, me deixando ir na frente. Não sei se ele estava sendo educado ou se eu deveria agir assim por ser sua guarda-costas. — É da Sara, não nosso. — Ele inclinou a cabeça na direção da garota à mesa. — Ela se casou aos dezesseis anos. Ficou viúva aos dezessete. Ninguém além dela sabe que o marido morreu envenenado. Ele a deixou com alguns ossos quebrados e uma grande fortuna. — De forma não intencional, pensei em Ayet. Se tivesse ido parar ali em vez de no palácio, talvez não se tornasse minha inimiga. Poderia ter sido uma de nós. Ainda poderia estar bem. Ou talvez tivesse levado um tiro pela rebelião e morrido. — Ela pegou o dinheiro e fez isto. Um lugar para mulheres que não querem ficar com o marido. Seja qual for a razão. Um lugar que as mantém protegidas deles. Sayyida veio daqui. E Hala.
— Hala foi casada? — Quase tropecei no degrau.
— Quem você acha que cortou os dedos dela? — Ahmed me equilibrou. — Você está bem?
— Sim. — Eu o tranquilizei com um aceno. — Então por que esse lugar parece mais espalhafatoso que um bordel durante a Shihabian? — perguntei.
Ahmed riu, me pegando desprevenida. Ele tinha uma risada gostosa, quase havia me esquecido. Fazia muito tempo que não a escutava.
— A teoria de Sara é que, se as pessoas acham que sabem o que você está fazendo, não investigam muito e não se arriscam a descobrir a verdade. E todo mundo acha que sabe o que acontece numa casa cheia de mulheres, com homens entrando e saindo todo dia e uma criança ocasional aparecendo. — Sara. Agora eu lembrava por que aquele nome era familiar. De pé numa montanha no deserto, um dia antes da morte de Bahi, Shazad implicava com ele por causa de uma criança com uma mulher chamada Sara. — Ela gosta de dizer que só acrescentou alguns travesseiros. Mandamos Fadi para cá. Ele ficará seguro.
Subimos quatro lances de escada até chegarmos ao telhado. Jin estava lá, esperando, à sombra de um dossel de plantas. Seus ombros relaxaram visivelmente ao nos ver.
— Algum problema no caminho?
— Estamos bem — eu disse. — E aqui? — Ele sacudiu a cabeça.
Caímos num silêncio tenso enquanto esperávamos Shazad. A previsão era de que chegasse em meia hora. Havia passado quase uma, e o pânico revirava meu estômago enquanto eu me perguntava o que havia acontecido com ela. Então Shazad apareceu no telhado, saindo da escada com Balir, encapuzado e vendado.
Disséramos a ele para encontrá-la sozinho e desarmado. Havíamos definido quase todos os termos do encontro. Tínhamos sido exigentes, esperando que houvesse negociação. Mas Shazad disse que ele sequer hesitara. Concordara em nos encontrar, desprotegido. Era o tipo de coisa que levantava suspeitas de uma armadilha. Ela continuava olhando com cautela ao nosso redor enquanto retirava o capuz da cabeça dele e o desvendava.
— Não se preocupe — disse Balir, lentamente. — Não tenho cartas escondidas na manga. Pode perguntar à demdji se não acredita em mim.
Todos olharam para mim. Então Balir sabia o que eu era.
— Ele está dizendo a verdade — confirmei. Eu sabia o que Shazad estava pensando. Havia algo de errado com um homem que não se preocupava muito com a própria vida.
— Ótimo. — Balir enfiou as mãos nos bolsos. Vestia um kurta roxo e dourado bem feio, que ficava largo demais nele, estufando em volta dos braços. Combinava com a pompa da Casa Oculta. — Então você é o famoso príncipe rebelde. — Balir olhou Ahmed de cima a baixo. — Pensei que seria mais alto.
— Não devia acreditar em tudo o que ouve por aí — Ahmed disse.
— Ouvi dizer que talvez seja capaz de derrubar seu pai — Balir retrucou. — Com a ajuda do meu exército.
— Nisso — disse Ahmed — você pode acreditar.
— Ótimo — concordou Balir. — Quero o fim desse desfile de invasores. É cansativo. Se meu exército pode derrubar seu pai, então ele é seu. Nunca tive muito interesse em comandá-lo mesmo. Esse sempre foi o forte de Rahim. Ele era como um segundo filho para meu pai. Mas pedirei algo em troca.
— Quando eu for sultão — Ahmed estava preparado — vou declarar Iliaz independente. Pode ser o governante do seu próprio reino, contanto que esteja preparado para jurar fidelidade ao trono de Miraji.
— Ah, não me importo com isso. — Balir balançou a cabeça. — Apenas inventei para sua general bonitinha um pretexto bom o suficiente para conseguir encontrá-lo pessoalmente. Se eu contasse a ela o que realmente queria, tenho a impressão de que teria recusado na hora em seu nome. Mulheres… Elas podem ser tão irracionais.
— E no que está interessado? — Ahmed perguntou. Ele foi cuidadoso com a escolha das palavras. Não disse “Diga o que quer”, embora todos soubéssemos o quanto estávamos desesperados.
— Pode ficar com seu reino, cada parte dele — disse Balir. — Em troca do exército, tudo o que quero é tomar uma de suas demdjis como esposa.
O silêncio que se seguiu à declaração era palpável. Veio com o choque de todos os que estavam no telhado. Significava que Ahmed não recusara a proposta imediatamente.
— As demdjis não são minha propriedade — disse Ahmed finalmente, escolhendo com cuidado as palavras. — Iliaz, por outro lado…
— Não estou interessado em ser rei do meu próprio país. — Balir sacudiu a mão, apático. — Ver Iliaz independente era o sonho do meu pai. Ele era um grande homem, muito ambicioso. Estou morrendo. Os pais sagrados disseram que é algo no meu sangue. Só tenho alguns anos de vida. Se tiver sorte.
Eu percebia agora a palidez de sua pele, a maneira como se portava como se estivesse sempre cansado. Não era arrogância. Era doença.
— Mesmo que vença a guerra e me conceda meu próprio reino, governarei por quanto tempo? Um ano? Dois?
— E onde é que nós entramos nisso? — Não consegui manter a boca fechada. Não quando ele estava negociando uma de nós. — Se só quer uma esposa para ter um filho antes de morrer, tenho certeza de que pode encontrar alguém que não seja uma demdji.
Balir sorriu fracamente.
— Todo mundo acha que os demdjis têm poderes de cura. É por isso que no mercado negro dá para comprar escalpos de cabelo ou pele estranha. Globos oculares azuis. — Seu olhar passou por nós. — Mas essa é uma versão alterada da história. Alguns dirão que o verdadeiro poder de cura vem ao se tirar a vida de um demdji. — Lembrei de Mahdi segurando a faca na garganta de Delila, tentando arrastá-la até Sayyida para salvar a vida dela. Dizendo que, se Delila morresse, ela poderia viver. — Essa é uma tradução equivocada do mirajin antigo, na verdade. — Balir olhou para a gente. — A verdadeira frase não é “quem tirar a vida de um demdji”, e sim “quem tiver a vida de um demdji”. Quem quer que receba a vida de um demdji. É claro que conhecem a história de Hawa e Attallah.
Hawa e Attallah haviam feito juras um ao outro. As histórias diziam que o amor deles era tão grande que protegia Attallah em batalha. Mas se ela fosse uma demdji…
Votos de casamento. Entender aquilo me desnorteou.
Eu me entrego a você. Tudo o que sou, entrego a você. E tudo que tenho é seu. Compartilho minha vida com você.
Até o dia da nossa morte.
Aquelas palavras não passavam de um ritual para a maioria das pessoas. Mas, saídas da boca de um demdji, se tornavam verdade. Foi como a lenda havia nascido: Hawa manteve Attallah vivo com suas palavras. Contanto que ela o observasse de cima da muralha, mantendo suas vidas ligadas, ele viveria. Quando ela caiu, o mesmo aconteceu com ele. Attallah não morreu com a tristeza do luto. Morreu por causa da verdade de uma demdji.
Ficamos em silêncio absoluto enquanto absorvíamos o que aquilo significava.
— Me dê uma de suas demdjis — Balir disse, e seus olhos me analisaram. — Ela será bem tratada. Eu não a machucarei. Embora espere que desempenhe todas as funções de esposa. — Vi Jin cerrar a mandíbula. — Só pedirei um filho. E, em troca, eu a honrarei tendo apenas ela como esposa. Quero viver para ver meu cabelo ficar grisalho e conhecer meus netos. E darei um exército e um país a você. Uma garota em troca de um trono. — Balir deixou o peso de suas palavras cair sobre nós. — Vejo que precisa pensar a respeito. Vou embora pra Iliaz pela manhã. Se quiser um exército, venha me encontrar com uma esposa. Se não aparecer… — Ele deu de ombros. — Verei você e seus rebeldes serem queimados pelas novas armas de seu pai lá da minha fortaleza, e morrerei na minha própria cama muito antes de essa guerra acabar e o sultão vir atrás de mim. Se me odiar por isso, podemos resolver esse assunto após a morte.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!