5 de outubro de 2018

Capítulo 41


— NÃO VOU MENTIR PRA VOCÊS. — Ahmed olhou para os rebeldes que lotavam a cozinha. — Vai ser um desafio e tanto. — Ahmed não ser um demdji era bom para levantar o moral. Se ele não pudesse mentir, tenho certeza de que teria dificuldade de pronunciar a palavra “desafio” no lugar de “desastre”.
Éramos pouco mais de vinte pessoas amontoadas ao redor da cozinha de Shazad, as cabeças batendo em panelas penduradas do telhado e as costas apoiadas nos azulejos coloridos da parede, como o vapor de um prato elaborado. Shazad estava ao lado de Ahmed, como seu eterno braço direito. Jin estava recostado na lareira. Quem não soubesse que estava machucado talvez nem imaginasse que precisava dela como apoio.
Sam tinha se afastado, e passeava para lá e para cá com a mão atravessando distraidamente a parede.
Eu segurava uma xícara de café forte nas mãos. Havia dormido mais algumas horas inquietas, mas não o suficiente. Alguns rostos que deveriam estar ali não estavam, pessoas que haviam morrido na fuga do vale. Havia alguns novos que eu não conhecia.
Ainda assim, mesmo naquele ambiente estranho, a sensação era a mesma de estar no pavilhão de Ahmed no acampamento. Havíamos perdido aquele lar, mas ainda lutávamos para conquistar um novo.
As cortinas vermelhas da cozinha estavam fechadas para bloquear os olhares curiosos da rua. Elas deixavam o aposento sangrento como a alvorada.
Uma nova alvorada. Um novo deserto.
— Estamos em menor número — disse Ahmed. — Temos menos armas e estamos em desvantagem tática.
Em lados opostos da sala, Jin e eu nos entreolhamos, sua sobrancelha erguida indicando que aquele discurso não era nada inspirador. Eu sorri.
— E temos um número menor de demdjis, a julgar por aquelas coisas no Auranzeb — alguém disse nos fundos. Uma onda de concordância percorreu a cozinha. Os rumores sobre os abdals e seus poderes estranhos haviam se espalhado assustadoramente rápido. Shazad dissera que já havia sinais de que o boato estava apagando as centelhas de dissidência que havíamos conseguido criar nas ruas.
— Sim, obrigado, Yasir. E é aí que entramos. — Shazad assumiu o controle facilmente, dando um passo à frente. Ahmed cedeu o espaço a ela. Imaginei-a perto de Ahmed no trono. Como sua sultana e general, a cabeça inclinada sobre algum problema, a coroa de ouro escorregando da cabeça. Ficaria bem nela. — Temos três problemas muito urgentes no momento, e graças à nossa verdadeira Bandida de Olhos Azuis, agora de volta, sem querer ofender — ela falou na direção de Sam —, é possível que tenhamos soluções para eles.
— Mesmo que tenha sido ela a criar um desses problemas — Hala murmurou.
Eu a ignorei. Olhares me acompanharam quando avancei. Apesar de ter voltado havia pouco tempo, já notava a mudança. Eu não era mais a Bandida de Olhos Azuis somente, era a garota que havia escapado viva do palácio, que encarara o sultão e sobrevivera.
— O primeiro problema é que precisamos de um exército, um que dê conta de enfrentar o do sultão. Se pudermos firmar uma aliança com lorde Balir, então teremos uma força combativa. Marcamos uma reunião com ele para daqui a algumas horas.
Antes de escurecer. Quando tiver terminado, com sorte teremos um exército.
— Assumindo que ele já não tenha deixado a cidade — Hala adicionou.
— Você ficou mais pessimista desde que parti ou só esqueci o quanto era irritante? — perguntei.
— É como dizem: a ausência faz a gente se afeiçoar mais às pessoas. — Hala deu um sorriso falso para mim. — Não foi o otimismo que te fez ser capturada pra começo de conversa?
— Não esqueçam que posso matar vocês duas de várias maneiras se não calarem a boca. — Shazad interrompeu antes que a discussão continuasse. Risadas percorreram o aposento, aliviando a tensão do ambiente.
— Nosso segundo problema — Ahmed disse, tentando botar a reunião de volta nos eixos — é que, mesmo se conseguirmos um exército, só podemos lutar contra outro exército de carne e osso. Não um feito de partes mecânicas e magia. E é por isso que precisamos levar Amani até aquela máquina.
— Só que ela estará muito bem defendida. Não temos como chegar perto dela — disse Shazad. — A menos que arrastemos o sultão e todo o exército para longe dali, de modo que fique desprotegida. E guerras funcionam muito bem nesse sentido.
Todo mundo olhou para Shazad.
— Estão sugerindo que comecemos uma guerra só para colocar Amani dentro do palácio? — alguém perguntou no fundo da cozinha.
— Não — disse Shazad. — Precisamos começar uma guerra de qualquer modo. Estou sugerindo usar isso para aumentar nossas chances de vencer, dando a Amani a oportunidade de se esgueirar para dentro do palácio.
— O que nos leva ao último problema — Ahmed falou. — Que é o fato de Amani estar… incapacitada. — Aquilo silenciou a cozinha rapidamente. Esfreguei o ponto do braço onde podia sentir um dos pedaços de ferro sob a pele. Como se estivesse mexendo num dente solto. Sentia um instinto, uma pinicada, uma pequena pontada de dor quando o pressionava, lembrando que aquilo não fazia realmente parte de mim.
Lembrando que eu era inútil com o corpo crivado de cicatrizes.
— Onde vamos encontrar um pai sagrado em quem possamos confiar? — Shazad perguntou, apoiando as juntas dos dedos na mesa. — Alguém que consiga tirar o ferro de Amani? — Eu sabia o peso daquelas palavras para ela. Nos meses depois da morte de Bahi, não a ouvira falar tão abertamente sobre pais sagrados. Nem quando eu tinha tomado um tiro na barriga. Mas, por outro lado, eu havia ficado inconsciente a maior parte do tempo.
— A resposta é mais ou menos a mesma das últimas três vezes que perguntou isso — disse Sam. Ele estava a ponto de estourar. — Os pais sagrados foram todos comprados pelo sultão. É mais provável que delatem a gente em um piscar de olhos em vez de ajudar.
— Não podemos nos arriscar? — Esfreguei o dedo no antebraço, cutucando o pedaço de metal abaixo dele. Queria arrancá-lo com as próprias unhas.
— Não — Jin falou sem hesitar, pronunciando-se pela primeira vez. Todos viraram a cabeça na direção dele. Jin costumava ficar quieto em conselhos de guerra, a menos que tivesse algo que realmente precisava ser dito. O que significava que as pessoas tendiam a ouvi-lo. Só que agora havia uma inquietação entre os rebeldes. Ele não tinha abandonado só a mim. Tinha abandonado a rebelião inteira. — Não vamos arriscar você.
— Então ou encontramos alguém — concluí —, ou terei que entrar no palácio mais ou menos indefesa.
— Bem-vinda de volta à vida humana — disse Shazad. — Vou arrumar algumas armas para você.


— Sam. — Fui até ele quando a cozinha esvaziou. Ele descascava uma laranja roubada de uma das cestas. — Preciso da sua ajuda. — Parei de falar quando Shazad passou por mim, conversando com alguém sobre o estoque de armas. Aquilo fez Sam erguer a sobrancelha.
— Alguma coisa com a qual sua general não possa ajudar?
Baixei a voz enquanto o levava para um canto fora do caminho.
— Acho que conheço alguém que poderia ajudar a tirar o ferro da minha pele. Não um pai sagrado. Uma mulher. Minha tia.
Sam parou, com a fatia de laranja enfiada na boca.
— A mulher que te drogou e te sequestrou e depois te vendeu para o harém? Ela parece bem confiável.
— Por favor, Sam, preciso de ajuda. Você entrou e saiu do harém à vontade por meses. Não faz ideia de como é estar lá e se sentir incapaz de escapar ou se defender. — Ergui a camisa, mostrando a cicatriz, a mesma que havia mostrado a ele quando nos conhecemos. — Isso aconteceu mesmo quando eu tinha meu poder. Se for o único jeito, entrarei naquele palácio outra vez sem ele. Mas terei o dobro de chances de ser morta, e você sabe disso. Correria praticamente qualquer risco para tentar recuperar meu poder. Vai me ajudar?
Sam refletiu por alguns instantes, cortando outra fatia da laranja.
— Quanto?
— Quanto o quê?
— Quanto vai me pagar para encontrar sua tia superconfiável?
Meus ombros desabaram.
— Sério mesmo? Depois de tudo o que passamos, quer continuar fingindo que Está fazendo isso por dinheiro?
— E por qual outro motivo seria? — ele perguntou. — Sou um bandido, lembra?
— Você quer ser mais que isso — eu disse, por fim. Era um chute. Mas, considerando que a frase escapou tão fácil da minha boca, só podia ser verdade. Tinha visto Sam atravessar paredes ferido pela rebelião. Entrar no Auranzeb como um traidor do próprio povo. Ele não estava mais fazendo aquilo por dinheiro. — É esse o motivo de ainda estar aqui.
— Esse é um motivo idiota. — Sam coçou a sobrancelha. Permaneci em silêncio. — Vou ver o que posso fazer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!