29 de outubro de 2018

Capítulo 40

Manon e as Treze haviam enterrado todos e cada um dos soldados massacrados pelas Dentes de Ferro. Suas mãos dilaceradas e ensanguentadas latejavam, suas costas doíam, mas elas conseguiram.
Quando a última parte da terra dura fora aplainada, ela encontrou Bronwen demorando-se na clareira, o resto das Crochans se afastando para montar o acampamento.
As Treze tinham passado por Manon. Ghislaine, de acordo com Vesta, fora convidado a se sentar na lareira de uma bruxa com igual interesse naquelas buscas mortais e acadêmicas.
Apenas Asterin permanecia nas sombras próximas para protegê-la quando Manon perguntou a Bronwen:
— O que foi?
Ela deveria ter tentado ser gentil, buscar diplomacia, mas não o fez. Não conseguiu reunir o suficiente.
A garganta de Bronwen ondulou, como se estivesse se engasgando com as palavras.
— Você e seu coven agiram honrosamente.
— Você duvidava disso, vindo da Demônio Branco?
— Eu não pensei que Dentes de Ferro se importassem em cuidar de vidas humanas.
Ela não sabia a metade.
Manon apenas disse:
— Minha avó me informou que eu não sou mais uma bruxa Dentes de Ferro, então parece que com quem elas se importam ou não, já não tem qualquer relação comigo. — Ela continuou caminhando em direção às árvores onde as Treze tinham desaparecido, e Bronwen andou ao lado dela. — Era o mínimo que eu podia fazer — admitiu Manon.
Bronwen olhou para ela de lado.
— De fato.
Manon olhou para a Crochan.
— Você lidera bem as suas bruxas.
— As Dentes de Ferro há muito nos deram uma desculpa para sermos altamente treinadas.
Algo como vergonha passou por ela novamente. Ela se perguntou se algum dia encontraria uma maneira de aliviar essa vergonha, de suportar.
— Suponho que demos.
Bronwen não respondeu antes de seguir em direção às pequenas fogueiras. Mas quando Manon foi em busca da lareira de Glennis, as Crochans olharam em sua direção.
Algumas inclinaram a cabeça para ela. Algumas ofereceram acenos sombrios. Ela cuidou para que as Treze tratassem suas mãos, e se viu incapaz de se sentar.
De deixar o peso do dia alcançá-la.
Ao redor deles, em torno de cada fogueira, Crochans discutiam em voz baixa se voltavam para casa ou se dirigiam para o sul em direção a Eyllwe. No entanto, se fossem para Eyllwe, o que fariam? Manon mal ouviu quando o debate se desenrolou, Glennis deixando cada uma das sete lareiras dominantes chegarem a sua própria decisão.
Manon não se demorou para ouvir o que elas escolheram. Não se incomodou em pedir que voassem para o norte.
Asterin seguiu para o lado de Manon, oferecendo-lhe uma tira de carne seca de coelho enquanto as Treze comiam, as Crochans continuando seus debates em voz baixa.
O vento cantava entre as árvores, oco e lúgubre.
— Onde vamos ao amanhecer? — Asterin perguntou. — Nós as seguimos ou vamos para o norte?
Eles se apegariam a essa busca cada vez mais fútil para conquistá-las ou a abandonariam?
Manon estudou as mãos doloridas que sangravam, as unhas de ferro incrustadas de terra.
— Eu sou uma Crochan — disse ela. — E sou uma bruxa Dentes de Ferro. — Ela flexionou os dedos, querendo sentir a dor deles. — As Dentes de Ferro são o meu povo também. Independentemente do que minha avó possa decretar. Elas são meu povo, Sangue Azul, Pernas Amarelas e Bico Negro.
E ela suportaria o peso do que criou, do que treinou, para sempre.
Asterin não disse nada, embora Manon soubesse que ela ouvia cada palavra. Sabia que as Treze tinham parado de comer para ouvir também.
— Eu quero levá-las para casa — Manon disse para eles, para o vento que fluía todo o caminho para as Terras Planas. — Eu quero levar todos para casa. Antes que seja tarde demais – antes que se tornem algo indigno de uma pátria.
— Então o que você vai fazer? — Asterin perguntou suavemente, mas não fracamente.
Manon terminou a tira de carne seca e bebeu de seu odre de água.
A resposta não estava em escolher um sobre o outro, Crochan sobre Dentes de Ferro. Isso nunca aconteceria.
— Se as Crochans não reunirem um exército, então eu encontrarei outro. Um já treinado.
— Você não pode ir para Morath — Asterin respirou. — Não vai conseguir se aproximar cem quilômetros. O exército de Dentes de Ferro pode já ter ido longe demais para sequer considerar em se aliar a você.
— Não vou a Morath. — Manon enfiou a mão gelada no bolso. — Vou para o Desfiladeiro Ferian. Para qualquer que seja o exército permaneça lá sob o comando de Petrah Sangue Azul. Pedir que se juntem a nós.
Asterin e os Treze ficaram aturdidas em silêncio. Deixando que elas refletissem sobre isso, Manon seguiu pelas árvores. Capturou o cheiro de Dorian e o seguiu.
E o viu conversando com o espírito de Kaltain Rompier, a mulher curada e lúcida na morte. Libertada de seu terrível tormento.
Choque enraizara Manon no local.
Então ela ouviu Dorian falar dos planos para se infiltrar em Morath.
Morath, onde a terceira e última chave de Wyrd estava. Ele sabia e não contara a ela.
Kaltain tinha desaparecido no ar da noite e então Dorian havia se transformado. Em um corvo bonito e orgulhoso.
Ele não estava treinando para se divertir. De modo nenhum. Manon grunhiu.
— Quando, exatamente, você me informaria que estava prestes a recuperar a terceira chave de Wyrd?
Dorian piscou para ela, seu rosto o retrato da calma segurança.
— Quando eu partisse.
— Quando você voasse como um corvo ou uma serpente alada, direto para a teia de Erawan?
A temperatura na clareira despencou.
— Que diferença faz se eu te contasse semanas atrás ou agora?
Ela sabia que não havia nada gentil, nada quente em seu rosto. O rosto de uma bruxa. O rosto de uma Bico Negro.
— Morath é suicídio. Erawan vai encontrá-lo em qualquer forma que você usar, e você vai acabar com um colar em torno de sua garganta.
— Eu não tenho outra escolha.
— Nós concordamos — Manon falou, dando um passo para frente. — Nós concordamos que buscar as chaves não era mais prioridade...
— Eu sabia melhor do que discutir com você sobre isso. — Seus olhos brilhavam como fogo azul. — Meu caminho não afeta o seu. Reúna as Crochans e voe para o norte até Terrasen. Meu caminho leva a Morath. Sempre levou.
— Como você pode ter olhado para Kaltain e não ter visto o que o espera? — Ela levantou o braço e apontou para onde a cicatriz de Kaltain havia estado. — Erawan vai pegá-lo. Você não pode ir.
— Nós perderemos esta guerra se eu não for — ele retrucou. — Como você não se importa com isso?
— Eu me importo — ela sussurrou. — Eu me importo se nós perdermos esta guerra. Eu me importo se não conseguir reunir as Crochans. Eu me importo se você entrar em Morath e não voltar, e não como algo que vale a pena viver. — Ele apenas piscou. Manon cuspiu no chão coberto de musgo. — Agora você quer me dizer que se importar não é uma coisa tão ruim? Bem, veja é o que vem disso.
— Foi por isso que eu não falei nada — ele respondeu.
Seu coração ficou furioso, sua pulsação ecoando através de seu corpo, embora suas palavras fossem frias como gelo.
— Você quer ir a Morath? — Ela se aproximou dele e ele não recuou nem um centímetro. — Então prove. Prove que você está pronto.
— Eu não preciso provar nada para você, bruxinha.
Ela deu a ele um sorriso cruel e perverso.
— Então, talvez prove para si mesmo. Um teste.
Ele a enganara, mentira para ela. Este homem que ela acreditava não guardar segredos dela. Ela não sabia por que isso a fazia querer destruir tudo a vista.
— Nós voaremos para o Desfiladeiro Ferian ao amanhecer. — Ele começou, a falar, mas ela continuou: —Junte-se a nós. precisaremos de um espião do lado de dentro. Alguém que consiga passar pelos guardas para nos dizer o que e quem está lá dentro. — Ela mal se ouviu sobre o rugido em sua cabeça. — Vamos ver quão bem você pode mudar de forma, então, principezinho.
Manon se forçou a segurar seu olhar. Para deixar suas palavras penderem entre eles.
Então ele se virou, seguindo para o acampamento.
— Ótimo. Mas encontre outra tenda para dormir esta noite.

Um comentário:

  1. Tá vendo Manon o que vc foi arrumar ! Vai dormi no relento hoje kkkk
    Dorian não suporta ser tratado como criança. Ele sabe dos seus limites , sabe o que e capaz ou nan...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!