5 de outubro de 2018

Capítulo 40

O IMPACTO DA NOITE ANTERIOR NOS ATINGIU UM POR UM.
As notícias sobre os eventos do Auranzeb foram manipuladas pelo palácio antes de se espalharem entre o povo de Izman. O sultão anunciou a independência de Miraji, agora livre do jugo estrangeiro. Qualquer país que ameaçasse nossas fronteiras queimaria por isso.
O pronunciamento também dizia que o príncipe Kadir havia sido assassinado na luta, morrendo bravamente em combate, assassinado pelos próprios irmãos, o príncipe rebelde e o príncipe Rahim, que havia se virado contra a própria família de maneira inesperada junto com lorde Balir, que havia escapado. Rahim havia sido preso tentando fugir como um covarde. Ele e o príncipe rebelde seriam amaldiçoados para sempre por matar alguém do próprio sangue. O sultão estava de luto pelo filho. Não havia informações sobre uma possível execução de Rahim. Depois do que acontecera com Shira, dava para entender por que o sultão não queria arriscar outra decapitação em praça pública.
Haveria novos jogos do sultim, para escolher um novo herdeiro. O sultão me dissera que o momento em que o povo mais amava o trono era quando os príncipes estavam se matando por ele. Ele havia assassinado o próprio filho e agora usava sua morte para reconquistar o povo que passara a apoiar a rebelião.
Mas nós podíamos usar a mesma estratégia. Podíamos lembrar a cidade de que os jogos do sultim já haviam escolhido um herdeiro. O príncipe Ahmed.
À luz dos eventos recentes, o palácio anunciou que haveria um novo toque de recolher. O exército de abdals do sultão patrulharia as ruas. Não era possível argumentar ou discutir com eles. Qualquer um encontrado nas ruas entre o anoitecer e o amanhecer seria executado. O palácio garantia que era para a segurança de todos.
Afinal, as horas sombrias da noite só abrigavam intenções sombrias. Ninguém disse que aquilo era para enfraquecer a rebelião, mas todos sabíamos.
E ficamos enfraquecidos.
Era estranho ouvir isso do lado de fora, depois de passar tanto tempo do lado de dentro. Estávamos agindo às cegas outra vez, justamente quando não podíamos nos dar esse luxo. Foi acordado que Imin voltaria ao palácio para ser nossos olhos.
— Não tem outro jeito? — Esfreguei os olhos, cansada. Estávamos no escritório do pai de Shazad, que havia sido arrumado como uma espécie de sala de guerra. Não que fosse preciso mudar muita coisa para tal. Tinha algo reconfortante naquele escritório, embora fosse completamente diferente do pavilhão de Ahmed no acampamento rebelde. Havia mapas e notas presos às paredes. O mapa de Izman que eu havia roubado da mesa do sultão na noite em que comemos juntos estava bem no meio.
Reconheci muitas das informações que eu havia transmitido de dentro do palácio. Parte delas, passadas por Rahim.
Eu havia escapado, mas o príncipe ainda estava lá. E precisávamos descobrir o que ia acontecer com ele. Senti uma pontada de culpa quando expressei minha objeção.
— Não sei se é muito esperto colocar outro demdji nas mãos do sultão. — Rahim tinha sido um grande aliado, mas ninguém sabia melhor do que eu os riscos de Imin ser desmascarada.
Navid pareceu esperançoso quando me opus. Ele estava sentado em uma poltrona enorme no canto, os braços em volta de Imin. Ela assumia uma forma feminina miúda, pequena o bastante para ficar nos braços do marido como se fosse uma peça desaparecida que sempre pertencera àquele lugar. Se apoiava confortavelmente no peito dele, de olhos fechados. Exausta, mas acordada. A noite anterior cobrava a conta de todos. Hala dormia profundamente num canto. Jin estava sentado à mesa do general, a camisa jogada nas costas, enquanto Shazad examinava a ferida na lateral de seu corpo.
— Precisa cuidar disso direito — ela disse. — Em algum outro lugar, sem manchar todo o escritório do meu pai de sangue. Vá procurar Hadjara. — Havíamos perdido nosso pai sagrado na fuga do vale de Dev. Até acharmos alguém novo, Hadjara quebrava um galho.
— Se não precisa de mim… — disse Jin, levantando.
— Nos saímos muito bem sem você até agora, irmão — Ahmed comentou. Foi um golpe baixo. Shazad e eu nos entreolhamos. A nova tensão existente entre Ahmed e Jin não era boa para ninguém.
Mas Jin não disse nada enquanto passava pertinho de mim no caminho para a porta, os dedos brincando no dorso da minha mão como se quisesse segurá-la.
— Não se voluntarie para nada idiota enquanto eu estiver fora.
— Não temos muitas outras opções, aparentemente — disse Imin quando a porta se fechou atrás de Jin. — A menos que mais alguém queira revelar agora que estava escondendo um dom secreto de metamorfose para eu dar uma descansada. Ninguém? Foi o que pensei.
— Eu me ofereceria, mas não acho que estrangeiros seriam bem-vindos no palácio no momento — Sam disse. Ele olhava para Shazad. — E não sou uma mulher bonita o bastante para conseguir ficar no harém por muito tempo. Amani pode atestar isso.
— É verdade — admiti. — Ele não tem peito suficiente para vestir um khalat.
Shazad deu um riso curto.
— Alguém tem que ir — disse Imin, esticando-se para sair dos braços do marido, passando facilmente de esposa a rebelde. — Se eu for pega, sempre posso tomar veneno antes que ele enfie as garras em mim, como fez com Amani. — Eu não sabia dizer se ela estava brincando.
Conseguimos dormir algumas horas após o amanhecer, quando tivemos certeza de que o palácio havia terminado de espalhar mentiras para o povo e a adrenalina da noite anterior tinha passado. Estávamos na casa de Shazad, o que significava que ela tinha seus próprios aposentos. Foi nesse momento que realmente senti o peso do fim de nosso antigo lar. Nossa tenda não existia mais. O pequeno espaço que havíamos compartilhado por seis meses e que havia se tornado tão familiar para mim quanto minha cama na Vila da Poeira.
Percebi que poderia ter arranjado minha própria tenda. Se quisesse. Começar a me estabelecer naquele novo acampamento. Em vez disso, procurei Jin. Ele cochilava à sombra de uma laranjeira com galhos enormes. Sua camisa estava levantada e pude ver o lugar onde Hadjara havia feito o curativo. Ele acordou de repente quando me estiquei ao seu lado, se acalmando ao notar que era eu. Sabia que ele me observava. Nos escassos meses que tivemos entre Fahali e a bala que me atingiu, passamos muitos momentos juntos no deserto, mas nunca dormimos lado a lado.
Jin mudou ligeiramente de posição para ficar de lado me olhando enquanto eu me acomodava, apoiando minha cabeça no braço. A grama ainda estava fria da noite. Podia estar dormindo no chão outra vez, mas tinha a sensação de que descansaria melhor ali do que em uma centena de almofadas no harém.
— Ainda não tive tempo de armar uma nova tenda como havia planejado. — Seu braço encontrou o fim das minhas costas. — Já que acabei de voltar do resgate de uma garota que conheço.
— Da próxima vez devia tentar cuidar melhor dela — eu disse enquanto fechava os olhos, encostando minha cabeça nele.
— Estou contando com isso. — Jin me ajeitou contra seu corpo e foi a última coisa que ouvi antes de adormecer.


Shazad nos acordou em algum ponto da tarde, com o cabelo molhado torcido em um nó atrás da cabeça. Me perguntei se ela havia descansado de verdade desde o Auranzeb. Ela nos contou que Leyla finalmente havia voltado à consciência.
Shazad tinha cumprido sua promessa de acorrentá-los. Ela e Tamid foram confinados em dois dos muitos aposentos vazios da casa, até que acreditássemos que não fugiriam.
Tentei ir falar com Tamid, mas ele fingiu estar dormindo, o que foi uma mensagem clara o bastante para mim.
Leyla parecia um animal enjaulado, os joelhos puxados contra o queixo, olhos se revezando entre mim, Jin, Ahmed e Shazad, como se tentasse observar todos ao mesmo tempo.
Não. Ela nos olhava como se nós fôssemos os animais. Prestes a despedaçá-la. Lembrei do dia em que a havia conhecido, no zoológico. Quando ela estava construindo um pequeno elefante e as esposas de Kadir mexeram comigo. Mas aquilo era diferente. Pelo menos eu achava que era.
— Então — Ahmed disse num tom de conversa, sentado na ponta da cama. Ela recolheu mais as pernas. — Você construiu um exército para meu pai unindo máquina e magia.
— Eu não… — Leyla sempre soou jovem, mas sua voz frágil havia quase desaparecido agora. — Por favor, não me machuque. Não tive escolha.
— Ninguém vai machucar você — Ahmed disse gentilmente, ao mesmo tempo que Shazad soltou um resmungo de descrença.
— Todo mundo tem uma escolha — ela disse quando Leyla a encarou de olhos arregalados. Chutei seu tornozelo. Com força. A última coisa de que precisávamos era assustar Leyla. Precisávamos que falasse. Ela me lançou um olhar cortante.
— Minha escolha era ajudar meu pai ou ver meu irmão morrer. — Num gesto sofrido, Leyla enfiou o rosto nas mãos acorrentadas. — O que você teria feito? — Ela começou a chorar. Os soluços profundos sacudiam seu corpo violentamente.
— Seu pai ameaçou Rahim? — perguntei, antes que Shazad respondesse à pergunta.
— Ele disse que ia machucar seu irmão se você não o ajudasse? — O príncipe estava preocupado com a segurança de Leyla no harém, mas pelo visto era ele quem corria perigo.
— Rahim não faz ideia. Ele não sabe o que aconteceu com nossa mãe. — Leyla limpou o nariz na manga da roupa o melhor que pôde com as mãos presas. — Tantos anos atrás. Ela disse ao meu pai que construiria para ele uma máquina capaz de alimentar a energia de toda Miraji. Que poderia mudar o mundo. — O avô de Leyla era um engenheiro de Gamanix. O país que uniu magia e máquinas. — E assim ela fez. Só que a máquina precisava tirar energia de algum lugar. Então tirou dela. — Leyla limpou com raiva as lágrimas brotando em seus olhos. — Assim como de todas as que vieram depois.
— Como Sayyida — percebi. — E Ayet. — E Mouhna. E Uzma. Garotas que haviam desaparecido do harém sem deixar vestígios. Um lugar onde aquilo acontecia o tempo todo.
— Elas foram usadas nos testes. Dá para pegar… — Leyla fechou os olhos. — Os Livros Sagrados dizem que os mortais são feitos com uma centelha do fogo dos djinnis. As máquinas pegam essa centelha e podem dar vida a outra coisa. Não uma vida real, mas… o que eles têm. Como era capaz de fazer aquilo com a vida de uma mortal, meu pai começou a se perguntar o que poderia fazer com a vida de um imortal. — Leyla parecia deprimida.
— Dá para abastecer um exército que não tomba quando alvejado por balas — Shazad completou, entendendo o que tínhamos visto na noite anterior. Nós quatro percebemos a gravidade do que estávamos enfrentando. — Aquelas coisas não se cansam, não precisam comer. Podem resistir aos inimigos de Miraji.
— Incluindo nós — eu disse. — Como eles funcionam?
Leyla deu de ombros, infeliz.
— Do mesmo jeito que toda magia. Palavras, palavras, palavras.
— Então como os impedimos? — Shazad interrompeu antes que Leyla pudesse se enfiar em algum buraco de autocomiseração.
— É quase impossível. — Ela balançou a cabeça e lágrimas escorreram de seus olhos. — É preciso destruir a fonte de energia e…
— A máquina — disse Jin. Ele deu um passo adiante e Leyla se encolheu. Pus a mão em seu braço, parando-o. Jin podia ser filho do mesmo pai que Leyla, mas para ela era um estranho tatuado.
— Como podemos fazer isso? — perguntou Shazad. — Temos pólvora o bastante para explodir a máquina inteira se pudermos…
— Não — Leyla disse depressa, seus olhos arregalados de pânico. — Vocês destruiriam a cidade inteira!
Como na história de Akim e sua esposa. Fogo djinni fora de controle.
— Todo djinni precisa ser dissipado, não libertado. É preciso dissipar a energia com as palavras certas. As mesmas com que foi capturado. — Então Leyla olhou diretamente para mim. — Foi Amani quem conjurou. Ela é a única que pode dissipar.
E, num passe de mágica, todos olharam para mim. Se eu soubesse que ia receber tanta atenção, teria arrumado o cabelo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!