5 de outubro de 2018

Capítulo 4

HAVERIA TEMPO PARA ME PREOCUPAR com minha nova aliada demdji depois. Naquele momento precisava usar o presente que ela nos oferecia. Os guardas já estavam erguendo suas armas na minha direção, mas uma explosão de areia as derrubou. Um homem cambaleou para trás. Imin o agarrou e, com um movimento rápido e violento, quebrou seu pescoço.
Outro guarda sacou uma faca e veio para cima de mim. Dividi a areia, usando metade para afastar sua mão antes que pudesse se aproximar e solidificando a outra metade na mão, na forma de uma lâmina curva. O corte em sua garganta foi certeiro e arrancou sangue. Imin pegou a arma dele do chão. Ela podia não ser tão boa atiradora quanto eu, mas num espaço tão apertado seria difícil errar. Abaixei enquanto Imin disparava a arma. Ouvi mais gritos de dentro das celas, abafados pelos tiros ricocheteando nas paredes de pedra.
E então veio o silêncio. Me endireitei. Tinha acabado. Imin e eu havíamos sobrevivido. Os guardas não.
Mahdi saiu da cela com uma expressão de leve reprovação diante dos cadáveres. Esse é o problema dos intelectuais. Eles querem transformar o mundo, mas acham que dá para fazer isso sem derramar uma gota de sangue. Eu o ignorei e virei para a cela da garotinha demdji de khalat verde. Ela ainda segurava o pequeno sol, olhando fixamente para mim com olhos vermelhos sérios com um brilho inquietante.
Despedacei a fechadura com um golpe de areia.
— Você é… — comecei a falar enquanto abria a porta, mas ela já estava de pé, correndo para fora e atravessando o corredor.
— Samira! — a menina chamou. Ela se aproximou das barras sem tocá-las. Sabia que devia ficar longe do ferro. Era mais informada do que eu na idade dela. Me apoiei na parede de pedra. Começava a sentir a exaustão agora que a luta havia terminado.
— Ranaa! — Outra menina abriu caminho até a frente da cela, ajoelhando para ficar da altura da jovem demdji. Talvez tivesse sido bonita antes da prisão. Agora só parecia cansada. Olhos escuros e fundos em um rosto exaurido. Procurei alguma marca demdji, mas ela parecia tão humana quanto possível. Devia ter mais ou menos a minha idade. Não era velha o bastante para ser mãe da menina. Talvez irmã? Ela enfiou os braços entre as barras, pousando a mão no rosto de Ranaa. — Você está bem?
A jovem demdji virou para mim, fazendo bico.
— Solta ela. — Foi uma ordem, não um pedido. E vinda de alguém que estava acostumada a dá-las, pelo visto.
— Ninguém te ensinou a dizer “por favor”? — A frase escapou, embora aquele não fosse o lugar mais adequado para ensinar bons modos. Não que eu fosse a pessoa mais adequada para isso também.
Ranaa me encarou. Isso devia funcionar com a maioria das pessoas. Até eu, que estava acostumada com demdjis, achava aqueles olhos vermelhos perturbadores.
Lembrei de algumas histórias que diziam que Adil, o Conquistador, era tão cruel que seus olhos vermelhos flamejavam. Ela normalmente conseguia o que queria só com aquele olhar. Mas eu normalmente não fazia as coisas só porque alguém tinha mandado.
Esperei, brincando com a areia entre os dedos.
— Solte Samira, por favor — ela disse antes de bater um dos pés descalços. — Agora.
Me afastei da parede com um suspiro. Pelo menos eu havia tentado.
— Afaste-se. — Eu também podia dar ordens.
No segundo em que a fechadura quebrou, Ranaa se jogou para a frente, passando os pequenos braços em torno do pescoço de Samira, ainda segurando com cuidado a bola de luz em uma mão enquanto a outra agarrava o tecido sujo do khalat de Samira.
Graças àquele brilho, eu podia ver o restante da cela. O espaço estreito estava abarrotado de prisioneiras. Mal tinham espaço para se deitar, empilhando-se umas sobre as outras. Elas já estavam levantando e saindo da cela aliviadas, ansiando pela liberdade. Imin e Mahdi tentavam organizá-las de alguma forma.
Havia mulheres adultas e meninas. As celas restantes eram parecidas. Vi rostos ansiosos e cautelosos pressionados contra as barras na escuridão, desconfiados mas esperançosos. Mahdi e Imin encontraram um molho de chaves com um dos homens mortos e agora se ocupavam em libertar o restante das prisioneiras.
Imagino que era mais fácil do que explodir fechaduras. Mulheres transbordavam de uma cela após a outra, às vezes correndo para abraçar alguém, às vezes apenas cambaleando, parecendo animais assustados.
— E os homens? — perguntei a Samira, ainda abraçada com Ranaa, já imaginando qual seria a resposta.
— Eles eram mais perigosos — ela disse. — Pelo menos foi isso que Malik disse quando… — Samira se interrompeu, fechando os olhos como se isso pudesse impedi-la de vê-los morrendo pelas mãos do homem que havia tomado o poder na cidade. — E tinham menos valor.
A princípio não entendi por que ela me olhava daquela maneira por cima da cabeça de Ranaa. Então juntei as peças. As mulheres que cambaleavam para fora das celas eram jovens. Havia rumores sobre traficantes de escravos se aproveitando da guerra, sequestrando garotas na nossa metade do deserto para vendê-las a soldados acampados longe das esposas ou para homens ricos de Izman.
— Ranaa. — Repassei o nome mentalmente. Não era a primeira vez que o escutava naquele dia. Lembrei da mulher vestindo o sheema com flores azuis. Aquela que queria saber se eu era uma demdji. Agora entendia por que ela havia me reconhecido. — Sua mãe está preocupada com você.
A garotinha me lançou um olhar profundo de desdém, seu rosto ainda pressionado contra o peito de Samira.
— Então por que ela não veio me tirar daqui?
— Ranaa — Samira sussurrou num tom de censura. Acho que eu não era a única tentando ensinar boas maneiras à pequena demdji. Samira se apoiou na porta da cela.
Estendi a mão para ela, ajudando-a a levantar. Ranaa ainda agarrava a ponta de seu khalat sujo, dificultando ainda mais os movimentos de Samira, fraca como estava.
— Perdão — Samira disse. Ela tinha um sotaque refinado que me lembrava Shazad, embora seu tom fosse muito mais gentil. — Ranaa não está acostumada a falar com estranhos. — Essa última palavra foi acompanhada por um olhar de censura para a garotinha.
— Ela é sua irmã? — perguntei.
— De certo modo. — Samira apoiou a mão na cabeça da outra. — Meu pai é… — ela hesitou. — Ele era o emir de Saramotai. Está morto agora. — Sua voz saiu fria e calculada, escondendo a dor que sentia. Eu sabia como era ver um parente morrer. — A mãe de Ranaa era uma criada na casa do meu pai. Quando ela nasceu com uma aparência… diferente, a mãe implorou ao meu pai que a escondesse dos gallans. — Samira analisou meu rosto. Geralmente eu conseguia me passar por humana, mesmo com os olhos azuis. Mas algumas pessoas mais familiarizadas com demdjis conseguiam me identificar, como Jin havia feito. — Você entende o motivo, imagino.
Eu tivera sorte. Havia sobrevivido aos gallans por dezesseis anos sem ser reconhecida. Ranaa jamais conseguiria. E para os gallans, se você não era humano, então era um monstro. Para eles, um demdji era igual a um andarilho ou pesadelo. Ranaa, com seus olhos vermelhos, seria morta assim que a vissem.
Samira passou os dedos gentilmente pelo cabelo da garotinha, um carinho que parecia familiar, provavelmente de muitas noites persuadindo uma garotinha assustada a dormir.
— Nós a acolhemos e a escondemos depois que ela começou a fazer… isso. — Os dedos de Samira dançaram ao redor da luz na mão de Ranaa. — Meu pai achava que ela podia ser a reencarnação da princesa Hawa.
A história da princesa Hawa era uma das minhas favoritas quando mais nova. Remetia aos primórdios da humanidade, quando a Destruidora de Mundos ainda caminhava sobre a terra. Hawa era filha do primeiro sultão de Izman. Sua voz era tão bonita que fazia quem a ouvisse cair de joelhos. Seu canto atraiu um andarilho. Disfarçado de serviçal, ele arrancou seus olhos sem dó. A princesa gritou e o herói Attallah a salvou antes que o andarilho arrancasse sua língua. Ele enganou o carniçal e recuperou os olhos de Hawa. Quando sua visão foi restaurada e ela viu Attallah pela primeira vez, seu coração parou dentro do peito. O que Hawa sentiu foi tão novo e estranho que ela pensou que estava morrendo. A princesa enviou seu salvador para longe, porque doía olhar para ele. Mas depois que Attallah se foi, o coração dela começou a doer ainda mais. Hawa e Attallah foram os primeiros mortais a se apaixonar.
Um dia, a princesa recebeu notícias de que uma grande cidade do outro lado do deserto havia sido sitiada por carniçais, e que Attallah estava lá lutando. A cidade tentava construir novas defesas todos os dias, mas a cada noite os carniçais as derrubavam, forçando a cidade a recomeçar ao amanhecer, quando os carniçais se recolhiam. Ao ouvir que Attallah estava fadado a morrer, Hawa caminhou pelo deserto e chorou com tanta agonia que um buraqi, cavalo imortal feito de areia e vento, ficou com pena e foi ajudá-la. Ela cavalgou pelo deserto, cantando tão alegre que o sol apareceu no céu enquanto ela corria para perto de Attallah. Quando chegou à cidade, a princesa manteve o astro no céu por cem dias, afastando os carniçais. Nesse período, os locais puderam trabalhar dia e noite para construir sua grande e impenetrável muralha, que manteria todos seguros. Quando foi concluída, Hawa libertou o sol e casou com seu amado, protegida pelos muros.
Hawa ficava de guarda nas muralhas enquanto Attallah cavalgava para a batalha toda noite e voltava ao amanhecer. Por mais cem noites, ele atravessou os portões para defender a cidade. Seu amado parecia intocável. As garras dos carniçais não conseguiam nem arranhá-lo. A princesa seguiu vigiando até que, na centésima primeira noite, uma flecha perdida alcançou os muros e a atingiu.
Quando Attallah viu-a caindo, seu coração parou. Toda a sua proteção desapareceu, e os carniçais o dominaram, arrancando seu coração. No momento em que os dois morriam, o sol brilhou na noite escura uma última vez. Incapazes de lutar sob a luz, os carniçais queimaram, e a cidade foi salva com o último suspiro de Hawa e Attallah. O povo batizou a cidade em sua homenagem: Saramotai, que significa “a morte da princesa” no idioma primordial.
Fiquei me perguntando se um djinni tinha achado engraçado dar à filha nascida na cidade de Hawa o mesmo dom da princesa.
Mas Hawa era humana. Ou pelo menos era o que a história dizia. Eu nunca havia pensado a respeito. Nas histórias, as pessoas às vezes descobriam que tinham poderes do nada. Ou talvez Hawa fosse uma de nós, mas os séculos tivessem enterrado o fato de que era uma demdji, não uma princesa de verdade. Afinal, quando as pessoas recontavam os jogos do sultim, transformavam a bela e gentil Delila em uma fera medonha com chifres. E algumas histórias falavam em um Bandido de Olhos Azuis, deixando de lado o detalhe de que eu era uma garota.
— Depois de Fahali, achamos que seria mais seguro para ela — disse Samira, puxando Ranaa para perto. — Percebemos que mesmo quem não quer matar Ranaa a quer para outras coisas. — Havia uma superstição idiota de que um pedaço de demdji podia curar todas as enfermidades. Hala, nossa demdji de pele dourada, irmã de Imin, carregava um lembrete disso todos os dias: dois dedos seus haviam sido cortados e vendidos, provavelmente para curar o enjoo de algum homem rico. — Há um rumor de que até o sultão está atrás de um demdji.
— Ouvi isso também — eu a interrompi, de forma mais abrupta do que pretendia.
Desde que ouvimos o rumor, minha maior preocupação era o sultão reencontrar Noorsham. Imaginei que eram mínimas as chances de haver outro demdji por ali com os poderes incrivelmente destrutivos do meu irmão. Nem eu podia arrasar uma cidade como ele. Ainda assim, estávamos tomando cuidado nos últimos meses para não deixar se espalhar a notícia de que a Bandida de Olhos Azuis e a demdji que evocava tempestades de areia eram a mesma pessoa. Não que isso importasse. Jamais deixaria o sultão me capturar viva. Mas agora estudava o pequeno sol nas mãos de Ranaa. Parecia inofensivo acomodado em suas palmas, mas poderia não ser tão inofensivo assim multiplicado por cem. As chances do sultão pareciam melhores agora.
— Por enquanto, sua rebelião o manteve longe dessa parte do deserto. Quanto tempo acha que vai conseguir manter o sultão fora daqui?
Quanto fosse necessário. Jamais deixaria o sultão fazer com outro demdji o que fizera com Noorsham. Ranaa podia ser uma pirralha mimada que ouvira a vida inteira que era a reencarnação de uma princesa lendária. Mas era uma demdji. E nós cuidávamos uns dos outros.
— Posso levar Ranaa a um lugar seguro. — Eu não podia deixá-la ali, não quando havia uma chance de a encontrarem e apontarem uma arma em sua direção. — Fora da cidade.
— Não quero ir a lugar nenhum com você — Ranaa argumentou. Eu e Samira a ignoramos.
— O príncipe Ahmed quer tornar o país seguro para demdjis, mas até lá eu sei onde ela pode ficar protegida.
Samira hesitou um momento.
— Posso ir junto?
Meus ombros relaxaram.
— Depende. Você consegue andar?
Imin ajudou Samira, mantendo-a de pé enquanto mancava em direção à escada, com Ranaa ainda pendurada nela. Estava prestes a segui-las quando a luz de Ranaa iluminou o canto da parede. A cela ainda não estava totalmente vazia. Uma mulher com um khalat amarelo-claro permanecia curvada, sem se mexer.
Por um segundo, pensei que estivesse morta, depois de dias na prisão escura e apertada. Então suas costas subiram e desceram de leve. Ela ainda respirava.
Agachei e pousei a mão na pele exposta de seu braço. Parecia mais quente do que o esperado ali embaixo, longe do sol. Ela estava com febre. Meu toque a acordou, e seus olhos se arregalaram. Ela me encarou boquiaberta e em pânico através de uma cortina suja de cabelo. Havia uma crosta de sangue e sujeira em sua bochecha, e seus lábios estavam rachados.
— Consegue ficar de pé? — perguntei. A mulher não respondeu, apenas me fitou com seus enormes olhos escuros. Mas dava para adivinhar a resposta. Ela parecia pior que todas as outras. Mal conseguia permanecer acordada, muito menos tentar fugir.
— Imin! — chamei. — Preciso de ajuda aqui. Você pode…
— Zahia? — O nome foi sussurrado quase como uma oração, escapando áspero de uma garganta que parecia terrivelmente seca, um segundo antes da cabeça cair para trás e a mulher voltar a seu sonho febril.
Cada pedaço de mim congelou. Me perguntei se foi assim que Hawa se sentiu quando seu coração parou de bater.
De repente eu não era mais a Bandida de Olhos Azuis. Não era uma rebelde dando ordens. Não era nem mesmo uma demdji. Havia voltado a ser uma garota da Vila da Poeira. Porque aquele tinha sido o último lugar onde ouvi o nome da minha mãe.

Um comentário:

  1. mds e agora aiiiiii que afliçao tchau vou correr pro proximo capitulo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!