29 de outubro de 2018

Capítulo 3

As montanhas Galhada do Cervo queimavam, e Carvalhal junto.
As árvores antigas e poderosas eram pouco mais que cascas chamuscadas, cinzas espessas quando a neve caía.
Brasas flutuavam ao vento, um escárnio de como elas uma vez dançavam em seu rastro como vaga-lumes enquanto ela corria pelas fogueiras de Beltane.
Tantas chamas, o calor sufocando, o próprio ar chamuscando seus pulmões.
Você fez isso, você fez isso, você fez isso.
O som das árvores agonizantes quebrando eram como palavras gemidas, gritadas.
O mundo estava banhado em fogo.
Fogo, não escuridão.
O movimento entre as árvores atraiu sua atenção. O Senhor do Norte estava frenético, inconsciente de agonia, enquanto galopava em sua direção. Enquanto a fumaça escorria de sua pele branca, o fogo devorava seus poderosos chifres – não a chama imortal mantida entre eles como sua própria marca, a chama imortal do veado sagrado de Terrasen e da Mala Portadora do Fogo antes disso. Mas chamas verdadeiras e cruéis.
O Senhor do Norte trovejou, queimando, ardendo. Ela estendeu a mão em direção a ele, invisível e inconsequente, mas o veado orgulhoso caiu, urros subindo de sua boca. Urros horríveis e implacáveis. Como se o coração do mundo estivesse sendo destruído.
Ela não podia fazer nada quando o cervo se jogou em uma parede de chamas espalhada como uma rede entre dois carvalhos em chamas.
Ele não voltou.


O lobo branco a observava novamente.
Aelin Ashryver Whitethorn Galathynius passou um dedo recoberto de ferro sobre a borda do altar de pedra em que estava.
Tanto movimento quanto ela conseguiu.
Cairn a deixara ali desta vez. Não se incomodou em movê-la para a caixa de ferro contra a parede adjacente. Um indício raro. Acordar não na escuridão, mas na luz bruxuleante da fogueira.
Os braseiros estavam morrendo, esmorecendo com o frio úmido que pressionava sua pele. A parte que não estava coberta pelo ferro.
Ela já havia puxado as correntes o mais silenciosamente que podia. Mas elas se mantiveram firmes.
Eles adicionaram mais ferro. Nela. Começando com as manoplas de metal. Ela não se lembrava de quando foi isso. Onde foi. Havia apenas a caixa então.
O caixão de ferro sufocante.
Ela havia testado fraquezas repetidas vezes. Antes que eles tivessem enviado aquela fumaça de cheiro doce para deixá-la inconsciente. Ela não sabia por quanto tempo dormiu depois disso.
Quando ela acordou aqui, não havia mais fumaça. Ela testou novamente, então. Tanto quanto os ferros permitiram. Empurrando com os pés, os cotovelos, as mãos contra o implacável metal. Ela não tinha espaço suficiente para virar. Para aliviar a dor das correntes cravando-se nela. Arranhando por atrito.
As feridas do chicote gravadas profundamente em suas costas haviam desaparecido. As que tinham cortado a pele até o osso. Ou isso tinha sido um sonho também?
Ela mergulhara em lembranças, nos anos de treinamento na fortaleza de um assassino. Em lições aonde ela era deixada acorrentada, em sua própria sujeira, até que descobrisse como removê-las.
Mas ela estava ligada a esse treinamento em mente. Nada do que experimentou na escuridão apertada havia funcionado.
O metal da manopla raspou contra a pedra escura, quase inaudível sobre os braseiros sibilantes, o rio rugindo além deles. Aonde quer que eles estivessem.
Ela e o lobo.
Fenrys.
Nenhuma corrente o prendia. Nenhuma era necessária.
Maeve ordenou que ele ficasse, ficasse de pé, e assim ele faria.
Por longos minutos, eles se encararam. Aelin não refletiu sobre a dor que a levara à inconsciência. Mesmo quando a lembrança de ossos quebrados fez seu pé se contorcer. As correntes retiniram.
Mas nada cintilava onde a agonia deveria ter sido excessiva. Nem um sussurro de desconforto em seus pés. Ela apagou a imagem de como aquele macho – Cairn – os separara. Como ela gritou até que sua voz falhou.
Pode ter sido um sonho. Uma das infinitas hordas que a perseguiam na escuridão. Um cervo em chamas, fugindo através das árvores. Horas neste altar, seus pés quebrados sob ferramentas antigas. Um príncipe de cabelos prateados cujo cheiro era o de casa.
Eles se obscureceram e sangraram, até que mesmo este momento, olhando para o lobo branco encostado na parede em frente ao altar, poderia ser um fragmento de uma ilusão.
O dedo de Aelin arranhou a borda curva do altar novamente. O lobo piscou para ela – três vezes. Nos primeiros dias, meses, anos disso, eles criaram um código silencioso entre eles. Usando os poucos momentos em que conseguiu desenterrar a fala, sussurrando através dos buracos quase invisíveis no caixão de ferro.
Uma piscada para sim. Dois para não. Três para Você está bem? Quatro para Eu estou aqui, estou com você. Cinco para Isto é real, você está acordada.
Fenrys piscou novamente três vezes. Você está bem?
Aelin engoliu o bolo em sua garganta, a língua descolando do céu da boca. Ela piscou uma vez. Sim.
Ela contou suas piscadas.
Seis.
Ele inventara aquela. Mentirosa ou algo como isso. Ela se recusou a reconhecer esse código em particular.
Ela piscou mais uma vez. Sim.
Olhos escuros a examinaram. Ele assistiu tudo. Cada momento daquilo. Se lhe fosse permitido se transformar, ele poderia dizer a ela o que foi fabricado e o que era real. Se algo daquilo tivesse sido real.
Nenhum ferimento permanecia quando ela acordava. Nenhuma dor. Apenas a lembrança dela, do rosto sorridente de Cairn enquanto ele a trinchava repetidamente.
Ele devia tê-la deixado no altar porque pretendia voltar em breve. Aelin se moveu o suficiente para puxar as correntes, a trava da máscara cravando-se na parte de trás de sua cabeça. O vento não roçava suas bochechas, ou a maior parte de sua pele, fazia... ela não sabia.
O que não estava coberto por ferro era revestido por uma ctúnica branca sem mangas que caía até o meio das coxas. Deixando as pernas e os braços nus para as ministrações de Cairn.
Havia dias, lembranças, de que até isso se fora, de facas raspando seu abdômen. Mas sempre que ela acordava, a túnica permanecia intacta.
Intocada. Sem cor.
As orelhas de Fenrys se ergueram, tremendo. Todo o alerta que Aelin precisava. Odiava o tremor que começava a subir ao redor de seus ossos enquanto passos arrastavam-se para além da sala quadrada e porta de ferro adentro. A única maneira de entrar. Sem janelas. O salão de pedra que ela às vezes vislumbrava era igualmente selado. Apenas o som da água entrava nesse lugar.
Ele aumentou quando a porta de ferro foi aberta com um rangido. Ela se obrigou a não tremer quando o homem de cabelos castanhos se aproximou.
— Acordada tão cedo? Eu não devo ter trabalhado duro o suficiente.
Aquela voz. Ela odiava aquela voz acima de todas as outras. Cantada e fria.
Ele vestia trajes de guerreiro, mas não eram armas de guerreiro que pendiam do cinto em sua cintura fina.
Cairn notou onde seus olhos caíram e deu um tapinha no pesado martelo pendurado em seu quadril.
— Tão ansiosa por mais.
Não havia nenhuma chama para se reunir com ela. Nem uma brasa.
Ele andou até a pequena pilha de troncos ao lado de um braseiro e alimentou o fogo agonizante com alguns pedaços. A madeira rolou e estalou, o fogo saltando sobre os troncos com dedos famintos.
Sua magia não chegou a piscar em resposta. Tudo o que ela comeu e bebeu através da pequena fenda na boca da máscara estava cheio de ferro. Ela recusou no começo. Tinha provado o ferro e cuspido. Estivera à beira da morte pela falta de água quando eles lhe forçaram o líquido garganta abaixo.
Então eles a deixariam para morrer de fome – morrer de fome até que ela quebrasse e devorasse o que quer que colocassem na frente dela, com ferro ou não.
Ela não costumava pensar naquela época. Nessa fraqueza. Quão animado Cairn ficou para vê-la comendo, e o quanto ele se enfureceu quando ainda não rendeu o que ele queria.
Cairn carregou o outro braseiro antes de estalar os dedos para Fenrys.
— Você pode cuidar de suas necessidades no corredor e voltar para cá imediatamente.
Como se um fantasma o erguesse, o enorme lobo saiu. Maeve considerou mesmo isso, conceder poder a Cairn para ordenar quando Fenrys comia e bebia, quando ele urinava. Ela sabia que Cairn deliberadamente esquecia às vezes. Os gemidos caninos de dor chegavam até ela, mesmo na caixa.
Real. Isso era real. O homem diante dela, um guerreiro treinado em tudo, exceto em honra e espírito, examinou seu corpo.
— Como vamos brincar esta noite, Aelin?
Ela odiava o som de seu nome na língua dele. Seu lábio se curvou para trás de seus dentes. Rápido como uma áspide, Cairn agarrou sua garganta com força suficiente para machucar.
— Quanta raiva, mesmo agora.
Ela nunca a libertaria – a raiva. Mesmo quando ela afundava naquele mar ardente dentro dela, mesmo quando ela cantava para a escuridão e a chama, a raiva a guiava.
Os dedos de Cairn afundaram em sua garganta, e ela não pôde impedir o ruído sufocante que saiu dela.
— Isso tudo pode acabar com algumas palavrinhas, princesa — ele ronronou, abaixando o suficiente para que sua respiração roçasse a boca dela. — Algumas palavrinhas, e você e eu nos separaremos para sempre.
Ela nunca as diria. Nunca faria o juramento de sangue para Maeve.
Jurar e entregar tudo o que ela sabia, tudo o que ela era. Tornar-se escrava eternamente. E inaugurar o fim do mundo.
O aperto de Cairn em seu pescoço afrouxou, e ela inalou profundamente.
Mas seus dedos demoraram-se no lado direito de sua garganta.
Ela sabia precisamente em que local, que cicatriz, ele passou os dedos. As pequenas marcas gêmeas no espaço entre o pescoço e o ombro.
— Interessante — Cairn murmurou.
Aelin afastou a cabeça, mostrando os dentes novamente. Cairn a atingiu. Não no rosto dela, revestido de ferro que rasgaria os nós dos dedos. Mas em seu estômago desprotegido.
O ar saiu de dentro dela, e o ferro rangeu enquanto ela tentou, mas não conseguiu, rolar de lado.
Com as patas silenciosas, Fenrys recuou e assumiu seu lugar contra a parede. A preocupação e a fúria queimavam nos olhos escuros do lobo enquanto ela ofegava por ar, enquanto seus membros acorrentados ainda tentavam se encolher em torno de seu abdômen. Mas Fenrys só poderia se abaixar no chão mais uma vez.
Quatro piscadas. Eu estou aqui, estou com você.
Cairn não viu. Não notou na resposta de uma piscada dela quando sorriu para as minúsculas mordidas em seu pescoço, seladas com o sal das águas aquecidas de Baía da Caveira.
A marca de Rowan. Marca de um parceiro.
Ela não se permitiu pensar nele por muito tempo. Não enquanto Cairn acariciava aquele martelo pesado e o pesava em suas mãos largas.
— Se não fosse pela ordem impedindo de Maeve — meditou o macho, examinando seu corpo como um pintor avaliando uma tela vazia — eu fincaria meus dentes em você. Veríamos se a marcação de Whitethorn se sustentaria então.
Horror enrolou-se em seu estômago. Ela tinha visto a evidência em suas longas horas aqui convocadas por ele. Seus dedos se curvaram, raspando a pedra como se fosse o rosto de Cairn.
Cairn moveu o martelo para uma mão.
— Isso terá que bastar, suponho. — Ele passou a outra mão pelo comprimento de seu torso, e ela fez força contra as correntes ao toque possessivo. Ele sorriu. — Tão sensível. — Ele agarrou seu joelho nu, apertando suavemente. — Nós começamos nos pés mais cedo. Vamos subir mais alto desta vez.
Aelin se preparou. Tomou respirações que a levariam para longe daqui. De seu corpo.
Ela nunca deixaria que eles a quebrassem. Nunca faria aquele juramento de sangue.
Por Terrasen, por seu povo, a quem ela deixou para suportar seu próprio tormento por dez longos anos. Ela devia muito a eles.
Para o fundo, bem, bem fundo ela foi, como se pudesse superar o que estava por vir, como se pudesse se esconder dele. O martelo refletiu à luz do fogo enquanto era erguido sobre o joelho, a respiração de Cairn crescendo, a antecipação e o deleite se misturando em seu rosto.
Fenrys piscou, repetidamente. Eu estou aqui, estou com você.
Isso não impediu que o martelo descesse.
Ou o grito que se quebrou de sua garganta.

9 comentários:

  1. É muito sofrimento! Pobrezinha da Selim.😭

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  2. Dá muita agonia :(
    Horrível demais ver minha neném sofrendo assim!
    Tainá

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  3. Ah meu Deus como vou conseguir ler isso sem desatar em lágrimas?
    :( 💔💔💔

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  4. Meu único consolo é saber que Fenrys tá com a Aelin. Você poderia pensar que estão ruim as coisas (e estão), mas... poderia ser pior.

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  5. Meu Deus!
    Impossível não sofrer, Aelin... Nossa Aelin do fogo Selvagem...
    Sarah vc é tão má, (achando seriamente q vc é sádica).

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  6. Eu quero arrancar o pescoço desse infeliz

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Boa leitura, E SEM SPOILER!