5 de outubro de 2018

Capítulo 39

IZMAN AINDA ARDIA COM AS COMEMORAÇÕES do Auranzeb, mesmo nas ruínas da revolta da abençoada sultima. As notícias do que estava acontecendo no palácio ainda não haviam chegado à cidade. Ninguém sabia que estávamos livres do jugo estrangeiro.
Que o sultim havia morrido.
Confiei em Jin para nos guiar pelas ruas desconhecidas. A jornada era dolorosamente lenta enquanto nos esgueirávamos sob as sombras das janelas que transbordavam luz e barulho, através das sinuosas ruas laterais da cidade. Evitando as ruas maiores tomadas por bêbados e comemorações.
— Aqui. — Jin finalmente parou, diante de uma pequena porta numa parede de estuque branco em um beco tão estreito que a parede na nossa frente quase tocava a parede de trás. Uma sarjeta saía da porta e seguia para as ruas estreitas pavimentadas.
Eu não sabia exatamente o que esperava encontrar do outro lado. Talvez outro mundo, como nossa antiga porta. Ou uma passagem secreta até onde o restante da rebelião estava estabelecido desde que perdêramos o vale de Dev.
Em vez disso, entramos em uma cozinha grande e aquecida pelas brasas de uma fogueira quase apagando. Era uma cozinha perfeitamente normal. Como a da minha tia na Vila da Poeira. Exceto que não parecia faltar comida ali. Havia potes e panelas reluzentes pendurados no teto entre as ervas e especiarias secando. Conservas enfileiradas nas prateleiras.
Bati a porta atrás de nós, nos isolando da noite lá fora. Sem tempo para considerar onde estávamos. Só sabia que estávamos seguros. Jin e eu desabamos juntos perto da fogueira, as costas dele apoiadas na parede. Eu estava de joelhos à sua frente.
— Você está coberto de sangue. — Eu o tirei com cuidado de cima do meu ombro. — Preciso dar uma olhada nisso.
— Estou bem. — Mas Jin me deixou tirar sua camisa mesmo assim, fazendo uma careta quando os braços passaram da altura da cabeça. A camisa ensanguentada caiu no chão, enquanto ele repousava os braços no alto da cabeça, esticando o peito e me dando acesso irrestrito. Jin não estava mentindo para mim, pelo menos. A maior parte do sangue não parecia ser dele. Havia um pouco de sangue seco em sua pele, mas fora a ferida na lateral do corpo que o impedira de pular para o muro e um roxo enorme brotando como uma nuvem sob a tatuagem de pássaro em suas costelas, não parecia muito machucado.
Foi quando notei. Um pano vermelho brilhante enrolado no braço esquerdo como uma braçadeira. Podia ser um curativo, mas reconheceria meu sheema em qualquer lugar.
Estendi a mão sem pensar, os dedos roçando na beirada onde o tecido tocava sua pele. Jin arregalou os olhos com o toque, olhou para baixo, como se houvesse esquecido que o usava.
— Isso é seu. — Seus dedos se atrapalharam com o nó na parte de dentro do braço.
Sentei sobre os calcanhares.
— Pensei que eu tivesse perdido. — Aquilo era uma tolice. Não passava de um pedaço de pano. Não era a rebelião, não era Jin. Era só uma coisa. Que achava que jamais recuperaria.
— Pensei que o tivesse deixado para trás. — Ele não me olhou. Ainda estava mexendo no nó, amarrado com muita força. Como se Jin estivesse desesperado para não perdê-lo.
— Deixado? — Finalmente o nó se soltou em seus dedos.
— Quando desapareceu. — Seus ombros se tensionaram enquanto desenrolava o sheema vermelho do braço. — Você foi embora, e isso estava do lado de fora da minha tenda. — Eu devia ter perdido na luta com Safiyah. Quando estava de pé do lado de fora da tenda dele. Decidindo se devia entrar ou não. — Me pareceu uma mensagem.
A pele estava mais pálida no lugar onde Jin o havia enrolado. Como se não visse o sol havia algum tempo.
Ele me passou o sheema. Peguei uma das pontas. Nossa história pendeu entre nós, uma dúzia de pequenos lembretes dos dias em que nos conhecemos. Quando as coisas pareciam mais simples. Ele era a Cobra do Oriente; eu, a Bandida de Olhos Azuis.
Éramos apenas nós dois, sem toda a revolução. Sem um país inteiro em jogo. Quis dizer o quanto era idiota pensar que eu teria simplesmente partido e deixado um sheema como aviso. Mas não éramos exatamente bons em dizer as coisas um ao outro.
— Você foi embora primeiro. — Puxei a ponta do sheema. — Quando eu estava ferida, você partiu.
— Você se jogou no caminho de uma bala, Amani. — Ele ajeitou gentilmente uma mecha de cabelo no meu rosto, os dedos deslizando até o lugar onde a tesoura de Ayet havia me ferido. Jin olhou para mim como se redescobrisse meu rosto. Não precisei memorizá-lo novamente. Ele parecia exatamente o mesmo do dia em que o havia deixado. Estaria eu diferente devido ao tempo que passara no harém? — Você entrou na frente do tiro sem se preocupar com sua vida.
— É o que eu faço — eu disse. — E você também.
— Eu sei. — Jin afastou as mãos do meu cabelo e tocou meu ombro, passando o dedo pela minha nuca. — Mas não quer dizer que eu tinha que concordar.
— Você estava bravo comigo por eu quase ter morrido? — Estava tão perto dele que bastava respirar para nos tocarmos. Sentia como se ele estivesse me mantendo inteira com seu toque, mas o calor de suas mãos dava a sensação de que eu podia sair da minha própria pele.
— Bravo com você, com Ahmed, comigo, com todo mundo. — Jin finalmente me encarava. As brasas se apagando lançaram um brilho morno em seu rosto, enquanto seu polegar corria em círculos pela minha nuca. — Não sou bom em perder pessoas, Amani, e você sabe que não dou a mínima para este país. — Seu corpo estava quieto agora, algo sólido em que me apoiar. Mas seus dedos deslizavam pelo meu cabelo, me dando arrepios. — Não do modo que Ahmed ou Shazad se importam. Vim para cá porque me importo com ele e com Delila, e os dois amam este lugar. Me importo com você, e você é este lugar. Pensei que teria que continuar sozinho, já que você parecia determinada a partir deste mundo. Mas então você foi embora, e eu teria revirado o deserto inteiro do avesso te procurando.
Eu queria dizer alguma coisa para ajudar. Queria explicar que ele não precisava ter medo de que eu morresse. Mas seria mentira. Estávamos numa guerra. Ninguém estava a salvo. Não podia lhe prometer um futuro no qual eu não tomasse outro tiro, tampouco ele podia. A mesma esperança imprudente que nos motivava a lutar podia nos matar.
Então não disse nada enquanto terminava de me aproximar dele.
Jin dissera que teria revirado o deserto me procurando. Quando sua boca encontrou a minha, senti no beijo seu desespero.
Não era suficiente com ele, nunca era. Suas mãos passaram pela confusão das minhas roupas rasgadas, tentando me encontrar sob a costura pesada, sob o peso do khalat espalhafatoso. Uma delas se enredou no meu cabelo, afastando o aro de ouro delicado que ainda estava agarrado lá. Ele o soltou, jogando-o de lado, arrancando de mim os pedaços do palácio, tentando me trazer de volta.
Era como ser pega em um incêndio, desesperada para respirar, como se fôssemos nos extinguir se parássemos. Sem pensar, afastei as mãos do peito dele.
Bastou um movimento rápido para tirar meu khalat rasgado, que se juntou à sua camisa amontoada no chão, até eu não estar vestindo nada além da camisa fina de linho.
Seus dedos encontraram a bainha, levantando-a, e depois tocaram minha barriga, roçando a cicatriz. Percebi de repente que estava tremendo. Abracei-o mais forte, pele contra pele, procurando algum tipo de calor. Suas mãos encontraram minhas costas, me acalmando.
Senti nós dois desacelerarmos. Meus batimentos cardíacos mais calmos. O incêndio se tornando brasa enquanto Jin me segurava corada contra ele. Percebi o quanto estávamos perto de fazer algo mais. Sua pele contra a minha, sua mão escalando meu corpo, me afundando contra ele.
Alguém abriu a porta da cozinha com tudo, e nos separamos num movimento brusco.
Sam entrou carregando uma Leyla inconsciente.
— O que aconteceu? — Fiquei de pé em um segundo. Jin se endireitava aos poucos atrás de mim, usando a parede como apoio.
— Ela cometeu o erro crucial de resistir. — Hala passou em seguida pela porta, abandonando a ilusão de aparência humana, a pele voltando a ter o tom dourado natural. — Lutou conosco, disse que não ia abandonar o irmão. Mas abandonou. — Ela deu uma olhada na minha pele ainda brilhante, embora metade do pó de ouro tivesse saído na fuga. — Bem, essa é uma visão deprimente — Hala disse, como um cumprimento. Então olhou para Jin.
Parte do pó da minha pele havia grudado nele, deixando uma mancha de ouro da orelha esquerda à boca. Ele passou a mão distraidamente pelo maxilar. Não foi uma boa ideia. Agora o ouro da minha pele estava espalhado por suas mãos também. Teria sido constrangedor não fosse pela princesa inconsciente e pelos velhos amigos naquela cozinha apertada, atraindo meu pensamento em outra direção.
— E os outros? — Jin perguntou.
Ele ficou sabendo antes que Hala pudesse responder. Imin entrou trôpega, com os trajes de serviçal rasgados. Shazad apareceu logo atrás, segurando Tamid pelo braço.
Ele tentou se livrar dela com um gesto raivoso, enquanto a garota o empurrava à sua frente. Então Shazad o soltou devagar, deixando claro que fazia aquilo apenas porque queria. Ela me viu logo em seguida, e abriu um sorriso sincero enquanto atravessava o aposento para me abraçar. Senti meus próprios braços se lançando ao redor dela, como se finalmente estivessem livres.
— E Rahim? — perguntei.
— Vivo. — Ela me soltou. — Capturado. É um verdadeiro soldado. Precisávamos de alguém para cobrir nossa fuga. E ele não fugiria. — Shazad olhou para mim. — Vamos dar um jeito. — Acreditei nela. Porque eu estava de volta. Não era mais uma prisioneira. Poderíamos fazer qualquer coisa. Ela me segurou com mais força.
Então Imin pediu sua atenção, e Shazad se afastou. Fiquei cara a cara com Tamid, que olhava de propósito para o chão, se apoiando descuidado na perna postiça.
Quando vi, eu o estava abraçando. Senti o alívio percorrer meu corpo.
— Obrigada — eu disse, e o puxei para perto.
Mas Tamid não retribuiu, afastando-se.
— Não sou um traidor, Amani. Não fiz isso — ele olhou para Jin — pela sua rebelião. — Na única vez que Tamid vira Jin, ele estava me puxando para cima de um buraqi enquanto eu deixava meu amigo para trás, sangrando na areia. Eu tinha o palpite de que isso não ajudaria Jin a cair nas graças do meu amigo de infância.
— Sendo assim… — Shazad pôs a mão em seu ombro, enquanto eu engolia em seco. — Acho que teremos que manter você e a princesa trancados por um tempo. Venha comigo.
— Onde estamos? — perguntei finalmente, contente de minha voz soar normal enquanto atravessávamos a porta da cozinha.
— Na minha casa — disse Shazad. Tropecei no último degrau da cozinha. Jin me segurou. — Meu pai está viajando e enviei minha mãe e meu irmão para nossa casa na
costa. Não queria colocar os dois em perigo.
— Estamos acampando na casa do general Hamad? — perguntei.
— Não. — A mão de Jin estava na minha cintura. — Isso seria pedir para sermos pegos. Vamos usar a casa, mas a maior parte do acampamento… — Ele estremeceu quando se esticou para abrir a porta, pondo a mão nas costelas. Eu a abri para ele. Uma bela sala de jantar, escura, esperava do outro lado. — Existe um jardim, não muito longe daqui — Jin explicou enquanto caminhávamos bem devagar. — Ele se conecta a este lugar por um túnel.
Jin me levou por outra porta, a mão mais firme na minha cintura. Percebi que ele mal deixara eu me afastar desde que saímos do palácio. Estávamos apoiando um ao outro, mantendo-nos de pé.
O túnel começava no porão, atrás de duas caixas enormes rotuladas como “farinha”, mas que pareceram cheias de armas quando me espremi para passar e esbarrei em uma delas. Shazad acendeu uma lamparina e seguiu na frente.
Não tinha ideia do quanto andáramos. Mais do que o dobro da extensão da Vila da Poeira, quando desisti de contar os passos. E então uma ponta de luz apareceu adiante.
Outra porta, percebi.
Hesitei. Fui tomada por dezenas de memórias da paz do vale de Dev. Lembrei de ficar do lado de fora da porta, no penhasco, esperando para poder deixar o deserto para trás e voltar para casa. Agora o acampamento é que tinha ficado para trás. Meu lar não estaria esperando por mim do outro lado da nova porta. Ela não se abriria para um oásis erguido por mágica e transformado no refúgio da rebelião. As pessoas que haviam morrido na nossa fuga não estariam do outro lado esperando por mim. Eu não sabia o que aguardar. Mas queria voltar para casa mesmo assim.
Então atravessei.
Era mais silencioso que o velho acampamento — foi a primeira coisa que notei. E percebi o motivo num instante. Os muros enormes que cercavam a propriedade podiam bloquear todo o campo de visão exceto o céu, mas ainda estávamos no meio da cidade.
Havia ouvidos por toda parte.
Mas o lugar continuava a brilhar com luz e movimento.
Não era o deserto, mas sua memória continuava lá. Havia tendas armadas entre as fogueiras e um arsenal improvisado fora erguido junto a um dos muros. Lanternas e roupa lavada se entrecruzavam formando padrões sob o céu. Tinha quase cara de esperança.
— Amani! — Delila foi a primeira a me ver. Ela correu pelo pátio e me abraçou com força, separando-me de Jin. — Você está viva! Eles conseguiram te libertar! O que aconteceu com seu cabelo? O pior é que eu gostei! Você parece mais velha. Eu queria ir também e ajudar, mas ninguém deixou.
— Já conversamos sobre isso — disse Shazad. — Precisamos manter uma de vocês duas aqui o tempo inteiro — ela apontou para Delila e Hala —, caso seja preciso esconder o acampamento.
— E, por algum motivo, sou sempre eu a dispensável.
— Também estou feliz de te ver, irmãzinha — Jin brincou enquanto tirava Delila de mim. Com um sorriso bobo, ela se atirou sobre ele. Eu tinha certeza que minha recepção era uma sombra pálida perto daquela que Jin devia ter recebido quando finalmente retornou.
Navid se juntou a nós, dando um abraço apertado em Imin, ainda com os trajes ensanguentados de serviçal. Todos aqueles dias em que ela perambulava pelo palácio sem poder dar nenhuma notícia não deviam ter sido fáceis. E Imin estava certa, Navid não ficava bem de barba.
Fui passada de mãos em mãos, amigos e rebeldes que eu mal conhecia me dando tapinhas nas costas, me abraçando e parabenizando por estar viva. Por escapar. Me agradecendo pelo sacrifício de permanecer tanto tempo no harém.
Os gêmeos se transformaram em dois gatos e se enroscaram nas minhas pernas, quase me derrubando a cada passo que eu dava. Senti como se um pedaço de mim mesma estivesse sendo devolvido por cada pessoa, me tirando do harém, me afastando da preocupação com Shira, da raiva que sentia de minha tia, de tudo o que havia acontecido nos meses anteriores.
E de repente, como se uma cortina se abrisse, fiquei frente a frente com Ahmed.
Tinha certeza de que meus olhos me traíam, estampando cada momento de dúvida que sentira nos meses anteriores, deixando tudo claro. Cada momento que tinha visto o pai dele decidir mais rápido. Cada vez que temi que o governante tivesse razão ao achar que Ahmed não estava preparado. Cada vez que fora tola o bastante para dar atenção a um tirano assassino.
— Ahmed.
— Amani. — Ele me agarrou com firmeza pelo ombro, me puxando para um abraço. Relaxei, agradecida. Era muito mais fácil acreditar em Ahmed quando ele era alguém de carne e osso na minha frente. — Bem-vinda de volta.

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