22 de outubro de 2018

Capítulo 38

Rosie e Katie,
Magandang tanghali po! Estamos nas Filipinas!
Saímos da parte de cima da Austrália há alguns dias.
Estivemos em Brisbane e Sydney — lugares muito bonitos.
Ficaremos aqui por alguns dias e depois iremos à China.
Com amor e saudades de vocês duas,
Mãe & Pai

De: Rosie
Para: Alex
Assunto: Bethany Piranha
E aí, Alex? Já deu um pé na bunda dela?

De: Alex
Para: Rosie
Assunto: Vá cuidar da sua vida
Pare com isso, Rosie! Eu aviso quando terminarmos.

Ni hao! Estamos na China!
Desculpe não estarmos com vocês para ajudar na mudança.
Desejamos muita felicidade no novo apartamento.
Temos certeza de que vocês serão muito felizes.
Com amor,
Mãe & Pai

Rosie: Este lugar é nojento, Ruby. Absolutamente nojento.
Ruby: Ah, pare com isso. Não pode ser pior do que o lugar onde eu moro.
Rosie: Pior do que o seu, multiplicado por cem.
Ruby: Existe um lugar assim? Deus a abençoe. O que há de tão ruim por aí?
Rosie: Bem, vejamos... Por onde eu começo? Hmmmm... Será que eu devia lhe dizer que é um apartamento de segundo andar que fica em cima de um grupo de lojas, incluindo um estúdio de tatuagem e um restaurante de comida indiana para viagem que já conseguiu deixar todas as minhas roupas fedendo a tikka masala? Talvez eu devesse lhe falar sobre o maravilhoso papel de parede com motivos florais em verde e cinza que foi comprado na década de 1970, e que está descolando das paredes. Ah, e não posso esquecer as cortinas com os mesmos desenhos e cores. Hmmmm... Quem sabe eu devesse começar pelo carpete marrom, que tem manchas de aparência estranha por toda a sua extensão e também buracos feitos por pontas de cigarro e alguns odores misteriosos. Acho que o carpete está aqui há uns trinta anos e nunca ninguém passou um aspirador de pó nele. A cozinha é tão pequena que, quando duas pessoas estão lá, uma delas precisa se espremer contra a parede para que a outra possa passar. Mas, pelo menos, a água corrente funciona e a descarga do vaso sanitário também. Não me surpreende o fato de o aluguel ser tão ridiculamente barato. Ninguém que tenha a cabeça no lugar iria querer morar aqui.
Ruby: Mas você quis.
Rosie: Sim, mas não pretendo ficar aqui por muito tempo. Vou economizar um monte de dinheiro num passe de mágica e nos tirar daqui.
Ruby: E abrir um hotel.
Rosie: Sim.
Ruby: E morar na suíte presidencial.
Rosie: Sim.
Ruby: E Kevin vai ser o chefe de cozinha.
Rosie: Sim.
Ruby: E Alex vai ser o médico residente, para salvar as vidas das pessoas que você intoxicar com a comida.
Rosie: Sim.
Ruby: E você será a proprietária e a gerente-geral.
Rosie: Sim.
Ruby: E o que eu vou ser?
Rosie: Você e Gary poderão ser os responsáveis pelo entretenimento noturno. Vocês podem dançar salsa até cair.
Ruby: Parece o paraíso. Bem, Rosie, é melhor você começar a mexer essa bunda gorda e abrir esse hotel antes que todos estejamos velhos e cheios de cabelos brancos.
Rosie: Estou trabalhando duro para isso. E então, como Teddy ficou depois de se recuperar do choque quando soube que vocês venceram o campeonato de salsa?
Ruby: Ah, ele está vivendo um dia após o outro. Mas, falando sério, Rosie, estou achando muito difícil aceitar o comportamento dele. Quando ele descobriu que havíamos ganhado o campeonato e que iríamos nos apresentar no George, ele rodou a baiana. Mas acho que ele deve ter batido a cabeça em algum lugar, porque há algumas noites ele se ofereceu para nos levar até a escola de dança, o que quase me fez cair dura. E ele vai à boate gay na sexta (não sei se ele está realmente orgulhoso de mim e de Gary, ou cansado de me ouvir dizer que não vou passar as camisas dele). Mesmo assim, disse que vai levar um amigo enorme junto para ninguém tentar passar a mão nele. Como se qualquer homem ou mulher tivesse vontade de fazer qualquer coisa com Teddy! De qualquer maneira, já está ótimo para mim. E você? O que está planejando para a semana?
Rosie: Bom, vou começar a trabalhar em meio período com os estagiários, o que não é muito mais do que imprimir cartas escolares demonstrando as datas da volta às aulas para os alunos no mês que vem. Colocamos as cartas nos envelopes, colamos os selos, lambemos as abas para fechá-los e os colocamos no correio. Não sei você, mas estou encantada com essa ideia. Mas vai ser só por algumas semanas; quando as crianças voltarem para a escola, vou trabalhar em período integral. Além disso, estou tentando transformar esse pulgueiro num lugar decente para se morar. Brian Chorão me ajudou bastante, acredite se quiser. Ele alugou uma lixadeira elétrica por um dia e amanhã nós vamos arrancar esses carpetes fedidos e lixar e envernizar os pisos em todos os quartos. Estou com medo de pensar no que vamos encontrar debaixo deles. Acho que alguns cadáveres. Katie e Toby estão se divertindo bastante enquanto arrancam o papel de parede — bem, o que sobrou dele, pelo menos. Vamos pintar as paredes de branco, porque mesmo com uma lâmpada de um milhão de watts este lugar parece uma caverna. É preciso iluminar um pouco o lugar e eu estou querendo um look mais minimalista. Não porque eu seja elegante ou ligada em moda, mas porque não tenho tanta mobília assim. Vou arrancar também as cortinas e queimá-las em um ritual. Meu queridíssimo irmão Kevin ficou muito feliz por poder vir até Dublin e revirar a casa de Qual-é-mesmo-o-nome-dele em busca de todos os meus pertences que ainda estão lá. E Qual-é-mesmo-o-nome-dele entregou tudo sem reclamar, provavelmente porque estava morrendo de medo de que alguém lhe quebrasse o nariz mais uma vez. Consegui até mesmo o sofá preto de couro que estava na casa antes de me casar com ele, mas acho que eu mereço.
Ruby: Parece que o lugar vai ficar lindo, Rosie. E vai ficar com cara de casa mesmo.
Rosie: Pois é. Agora tudo que preciso fazer é me livrar do cheiro de curry que empesteou esse lugar e que atravessa as paredes do prédio inteiro. Nunca mais vou querer comer comida indiana.
Ruby: Ah, essa sim é a melhor dieta de todas! More em cima de um restaurante e o cheiro vai acabar com a sua vontade de comer.
Rosie: Acho que você tem razão.

Ei Je! Estamos em Cingapura!
Estamos nos divertindo aos baldes.
Não queremos nem voltar para casa!
Boa sorte com o seu emprego novo esta semana, meu bem. Estamos pensando em você aqui, deitados nas espreguiçadeiras ao redor da piscina! (Brincadeira!)
Beijos,
Mãe & Pai

VOCÊ RECEBEU UMA MENSAGEM DE: ALEX.
Alex: Tem um minuto para conversar?
Rosie: Não, desculpe. Estou com a boca ocupada, lambendo selos.
Alex: Ah, tudo bem. Posso ligar para você mais tarde?
Rosie: Estou brincando, Alex. A srta. Casey Narigão Bafo de Onça me pediu para montar o primeiro jornalzinho interno do ano. Por isso, estou no site da escola tentando descobrir o que aconteceu, ou o que está acontecendo, que seja interessante o bastante para escrever a respeito. Estou pensando em colocar o fato de que estou trabalhando aqui como o artigo principal.
Alex: Como está indo o trabalho?
Rosie: Está tudo bem. Já faz algumas semanas que estou aqui e vai tudo bem. Mas não há nada de especial.
Alex: Desculpe por não ter entrado em contato antes. Não percebi que fazia tanto tempo. O tempo está voando mais uma vez.
Rosie: Tudo bem. Imaginei que você estivesse ocupado. Já me mudei para o novo apartamento.
Alex: Ah, é mesmo. E como está indo?
Rosie: Tudo bem. Estava um horror no começo, mas Brian Chorão deu uma boa ajuda. Ele consertou tudo que estava quebrado e limpou o que estava sujo. Assim como um bom escravinho.
Alex: Então vocês dois estão se dando bem?
Rosie: Melhor do que isso. Agora eu só sinto vontade de esganá-lo umas dez vezes por dia.
Alex: Bem, é um começo. E tem algum romance no ar?
Rosie: O quê? Com Brian Chorão? Você precisa examinar essa cabeça. O homem foi criado com o único propósito de raspar bolor e lixar pisos.
Alex: Ah. E tem mais alguém na sua vida?
Rosie: Na verdade, tem, sim. Uma filha de 13 anos, um novo emprego e uma gaveta cheia de contas para pagar. Minhas mãos estão bem cheias no momento. Mas meu vizinho me convidou para sair neste fim de semana.
Alex: E você vai sair com ele?
Rosie: Deixe eu lhe falar um pouco sobre ele primeiro, e talvez você possa me ajudar no dilema que estou enfrentando. Ele se chama Sanjay, tem 60 anos, é casado, mora com a esposa e dois filhos e é o dono do restaurante indiano que faz pratos para viagem no andar de baixo. Ah, e você nunca vai adivinhar o lugar onde ele quer me levar para jantar.
Alex: Qual é o lugar?
Rosie: O próprio restaurante dele. Disse até que pagaria a conta.
Alex: Mas e daí, qual é o seu dilema?
Rosie: Engraçadinho.
Alex: Bem, pelo menos você tem bons vizinhos.
Rosie: Ele não está entre os melhores. Ao meu lado fica o proprietário do estúdio de tatuagem (que também fica logo embaixo do meu apartamento). Ele tem o corpo inteiro coberto por tatuagens, da cabeça ao dedão do pé. Tem cabelo preto, longo e sedoso, que prende em uma trança e um cavanhaque bem aparado emoldurando a boca. Tem mais de um metro e oitenta, usa calça de couro, colete de couro e botas de motoqueiro com biqueira de aço todos os dias. Quando não está enfiando tinta na pele de alguém no andar de baixo, ouve música no volume máximo no apartamento que fica logo ao lado.
Alex: Vou pedir sua opinião quando eu quiser ser vizinho de um fã de heavy metal.
Rosie: É aí que você se engana. Ele se chama Rupert. Tem 35 anos e é formado no Trinity College de Dublin, com diploma em história irlandesa e mestrado em literatura irlandesa. James Joyce é o seu ídolo e ele tem uma citação dele tatuada no peito: “Erros são os portais das descobertas.” É fanático por música clássica e ópera, e às 5 da tarde, todos os dias, quando está fechando a loja e fazendo a contagem do dinheiro em caixa, ele começa a tocar o Concerto para Piano Número 2 de Brahms em Si Sustenido, Op. 83, no volume máximo. Depois ele sobe para o apartamento, onde começa a cozinhar as refeições mais saborosas e com os cheiros mais deliciosos, e se acomoda para ler Ulisses pela bilionésima vez enquanto escuta as faixas de O Melhor de Pavarotti aos berros, com atenção especial a “Nessun Dorma”. Katie e eu já quase decoramos toda a letra da música neste ponto, e Toby enfia um travesseiro por baixo da camisa, fica em pé sobre o sofá e começa a dublar a música. Pelo menos Rupert está educando as crianças. Katie está louca para mixar “Nessun Dorma” em uma música eletrônica que ela criou com seu novo conjunto de pick-ups. Brian Chorão as comprou para ela, o que me deixou muito irritada porque era isso que eu planejava dar de presente para Katie no Natal. Mas obriguei-a a deixar os aparelhos no apartamento que ele alugou para não perturbar os meus vizinhos. Mesmo assim, para ser honesta, eu não sei mesmo por que me importei tanto com isso, já que tem tantos cheiros e ruídos à nossa volta. Ah, sim, e eu cheguei a mencionar que Joana d’Arc está morando do outro lado do corredor?
Alex: Haha, não, você não disse nada.
Rosie: Bem, tem uma mulher (chamada Joana, Mary ou Brigid, ou algo assim, sei lá) com 20 e tantos anos. Ela veio dizer oi no dia em que nos mudamos para cá, mas, quando percebeu que Katie e eu iríamos morar aqui sozinhas e que a minha solteirice não se devia à perda trágica do meu marido, ela fechou a cara, virou as costas e não falou mais com a gente.
Alex: Bem, pelo menos essa aí não faz barulho.
Rosie: O simples fato de ignorar a minha existência, a pecadora do prédio, não quer dizer que ela não faça barulho. Toda segunda-feira à noite parece haver uma enorme manada de elefantes subindo as escadas até o nosso andar e entrando no apartamento de Joana d’Arc. Depois de investigar, percebi que as mesmas pessoas vêm visitá-la toda semana, todas trazendo bíblias nas mãos. Além disso, os meus poderes de investigação me levaram a crer que ela está organizando um grupo de estudos bíblicos que se encontra toda semana. Agora ela colocou um cartaz na porta do apartamento que diz: “Seguirás o caminho do teu SENHOR e irá temê-lo, guardar Seus mandamentos e obedecer à Sua voz, e irá servi-Lo e caldear-se nele.” Putz, o que significa “caldear”? Quem já ouviu falar em algo assim?
Alex: Haha, Rosie. Ah, eu realmente não cei.
Rosie: O certo é SEI, e não CEI. Você nunca vai aprender, não é mesmo? Bom, mais adiante, no mesmo corredor, há uma família que veio da Nigéria. Zareb, Malika e seus quatro filhos. E eu pensava que esse lugar já era pequeno demais para mim e para Katie.
Alex: Como estão os seus pais?
Rosie: Ah, os meus pais poliglotas? Bem, eles estão se divertindo como nunca na vida, longe de todos nós. Minha mãe celebrou o sexagésimo aniversário há pouco tempo; ela me enviou um cartão-postal que dizia “Zdravstvuite! Estamos na Rússia!” Estou até imaginando os dois curtindo a vida como se fossem um casal de velhinhos daquele seriado de cruzeiros, O Barco do Amor. Por falar naquela palavrinha tenebrosa que começa com A, por que você fez todas aquelas perguntas pessoais sobre a minha vida amorosa?
Alex: Porque eu quero que você encontre alguém, só isso. Quero que você seja feliz.
Rosie: Alex, eu nunca encontrei a felicidade com outro ser humano e você sabe bem disso. Estou separada do meu marido. Ainda não estou procurando outra vítima. Acho que nunca mais farei isso.
Alex: Nunca?
Rosie: É bem possível. Bem, eu nunca mais vou me casar, isso é certeza. Estou me acostumando com a minha nova vida. Tenho um novo apartamento, um novo emprego, uma filha adolescente, tenho 32 anos e estou entrando numa nova fase da minha vida. Acho que afinal estou crescendo. De qualquer maneira, não há nada de errado em ser solteira. Ser solteira está na moda. Você deveria saber.
Alex: Não estou solteiro.
Rosie: Ainda, não.
Alex: Não, não estou. E provavelmente continuarei não sendo solteiro.
Rosie: Por quê? Você mudou de ideia em relação a terminar com Bethany Piranha?
Alex: Eu nunca cheguei a tomar uma decisão definitiva em primeiro lugar. E, por favor, não a chame de piranha. Eu nunca disse que ia terminar o meu relacionamento com Beth.
Rosie: Bem, essa foi a impressão que tive quando conversamos durante o jantar no mês passado.
Alex: Sim. Bem, esqueça aquele jantar. Minha cabeça estava longe. O que estou dizendo é que eu quero ser feliz com Bethany e também que você seja feliz com alguém, e então nós dois seremos felizes com pessoas.
Rosie: Eu sei o que isso significa. Você só não quer que eu fique solteira porque eu perturbo você. Se eu estiver com um homem, então você vai pensar que talvez consiga manter essas mãos longe de mim. No fundo, eu sei o que está acontecendo. Eu sei de tudo, Alex Stewart. Você me ama. Você quer que eu seja a mãe dos seus filhos. Você não consegue passar um único dia longe de mim.
Alex: Eu... Não cei o que dizer...
Rosie: Relaxa, estou brincando. O que aconteceu para fazer você mudar de ideia em relação a Bethany?
Alex: Ah, não vamos voltar a falar nisso outra vez...
Rosie: Alex, eu sou a sua melhor amiga e conheço você desde quando tínhamos 5 anos. Ninguém conhece você melhor do que eu. Estou perguntando pela última vez, e não minta para mim. O que fez você mudar de ideia em relação a terminar o namoro com Bethany Piranha?
Alex: Ela está grávida.
Rosie: Meu Deus. Às vezes, pelo fato de você ser o meu melhor amigo, eu acho que você é uma pessoa normal como eu. E então, de tempos em tempos, você me lembra de que é um homem.

Phil: Espere um minuto, Alex. Há uns dois anos era você que estava tentando acabar com o casamento de Rosie, e agora você está me dizendo que quer que ela encontre alguém?
Alex: Sim.
Phil: E você quer que isso aconteça para que, enquanto estiver com Bethany, você não caia em tentação?
Alex: Não! Não foi isso que eu disse!
Phil: Bem, é exatamente isso que parece. Pelo andar da carruagem, não acho que vocês dois se mereçam. De jeito nenhum.

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