5 de outubro de 2018

Capítulo 38

OS GRITOS RECOMEÇARAM, alguns deles extinguidos antes que pudessem ganhar força, enquanto os abdals voltavam sua fúria contra eles. Os soldados mirajins se espalhavam pelos jardins, atacando qualquer um que tentasse fugir. O cheiro de sangue se misturava ao de carne queimada no ar.
Percebi que estava esperando uma ordem de Shazad que não vinha. Ela estava congelada ao meu lado. Pressionada contra a parede, vendo homens e mulheres queimarem, como tinha acontecido com Bahi. Se ela não ia assumir o controle da situação, alguém precisava fazer isso. Passei os olhos pelo jardim procurando Jin. Não conseguia vê-lo.
— Sam — ordenei. — Você precisa começar a tirar as pessoas do nosso lado. Tantas quanto for possível. Depois vá embora. Shazad… — Ela estremeceu quando agarrei seu braço. Imitei-a da melhor maneira possível. Precisávamos que alguém fosse Shazad, e ela não estava conseguindo desempenhar aquele papel. — Você precisa se recompor. — Shazad estava pálida, mas assentiu. — O que acha de usarmos aquela pólvora para explodir os portões?
Eles ficavam do outro lado do jardim, além do caos e da morte. Vi que Shazad estava pensando a respeito. Os abdals atacavam somente os estrangeiros. Não causariam nenhum problema a ela, já que era mirajin. Contudo, tinha soldados demais.
Não havia como passar por eles.
— Preciso de alguma arma — Shazad disse, finalmente parecendo voltar ao normal.
— Talvez eu possa ajudar com isso. — Rahim apareceu ao meu lado. Já tinha sangue no seu uniforme. Ele estendia uma das espadas de aparência exótica para Shazad. — Você é tão boa quanto Amani diz?
— Não, sou melhor ainda. — Ela tirou a espada das mãos dele. — Juntos?
O sultão estava certo, eles formavam um belo casal. Começaram a se movimentar com tamanha agilidade que pareciam ter treinado juntos a vida inteira. Os corpos dos soldados caíam ao redor deles conforme se moviam, lutando para abrir caminho pelo caos. Ao mesmo tempo, Sam virou, mergulhando na multidão, descartando o casaco do uniforme albish enquanto seguia.
Tamid.
Ele veio à minha mente de súbito. Hala devia ajudá-lo a escapar. Mas o plano havia mudado. Ela estava indo atrás de Leyla agora. Eu precisava encontrá-lo. Não podia deixá-lo para trás mais uma vez.
Comecei a correr, desviando do caos no jardim. Avancei pelos corredores em direção aos aposentos de Tamid, o barulho do Auranzeb se tornando um ruído distante… substituído pelo som de passos em perseguição. Olhei para trás enquanto corria. Minha fuga pelos jardins não tinha passado despercebida. Um grupo de soldados estava atrás de mim. Alguém atirou no mesmo instante em que dobrei uma esquina. A bala acertou o lugar onde minha cabeça estava antes. Gesso espirrou como sangue, salpicando minha pele. Pelo visto, as ordens não eram de me capturar.
Disparei por outro corredor, meus pés descalços derrapando no mármore liso. De repente, como um djinni brotando da areia, Jin estava na outra ponta do corredor, atirando em algo que eu não conseguia ver. Meu coração disparou e acelerei.
Ele virou, a arma apontada na minha direção enquanto eu voava pelo corredor. Os soldados estavam se aproximando, mas Jin não teria o caminho livre para atirar, não comigo na frente. Obriguei minhas pernas a trabalharem mais rápido, tentando chegar nele antes que atirassem em mim de novo.
Quase podia ouvir os pistões nos rifles dos guardas sendo reposicionados.
Colidi com Jin em velocidade total. Ele passou os braços ao meu redor. Me virou com tudo no instante em que os guardas miraram, até que não houvesse nada além de seu corpo entre mim e as balas.
Podia sentir a pistola pressionando minhas costas. Segurei-a com uma das mãos, e Jin me segurou mais firme.
Era como estar em casa.
Mirei no espaço em volta do corpo de Jin, que ainda me protegia. Três tiros rápidos.
E então não houve mais disparos. Nem meus. Nem deles.
Porque eu não havia errado.
Me separei de Jin. Havia três corpos caídos no chão, e nada além de Jin no meu campo de visão.
— Você está sangrando. — Jin passava as mãos freneticamente pelo meu corpo, me inspecionando.
Eu tremia muito. A sensação de voltar para os braços dele. De estarmos juntos de novo. De puro alívio.
— O sangue não é meu. — Sacudi a cabeça. Não tinha ideia de quem era. — Temos que continuar. Precisamos tirar as pessoas…
— Já estamos fazendo isso. — Jin agarrou minha mão. — Os outros estão tirando tantas pessoas daqui quanto possível. Shazad está cuidando dos portões e Imin escapou com seu amigo Tamid na confusão. Precisamos… — Viramos correndo em mais um corredor. Kadir estava parado no nosso caminho, acompanhado de dois abdals, os rostos de bronze retorcidos nos encarando sem expressão. Como Noorsham. Mas sem olhos. Sem qualquer carne ou sangue dentro deles. Sem qualquer dúvida.
Era isso que o sultão queria. Soldados que não pudessem traí-lo. Demdjis que não tivessem consciência. Que não lutassem contra seu controle.
Atirei por instinto. Minha última bala. Ela entrou direto pelo barro onde devia haver um coração. Pareceu não surtir qualquer efeito.
— Dessa vez não há nenhum príncipe traidor para te salvar, sua vadia demdji — disse Kadir, apontando a arma para nós.
— Quer apostar? — Jin entrou na minha frente, me protegendo de Kadir, pronto para enfrentá-lo. Mas o sultim não estava interessado numa luta justa. Seu dedo já estava pressionando o gatilho.
Foi então que os portões explodiram.
Kadir cambaleou, disparando a esmo. Isso bastou. Agarrei a mão de Jin. Corremos até uma escada em espiral que parecia subir eternamente. Nossos pés batiam contra a pedra enquanto subíamos, com o sultim logo atrás. Disparamos por um corredor.
E então percebi que sabia onde estávamos.
Virei na direção do quarto no fim do corredor. Os aposentos de Tamid. De onde eu tinha visto os telhados de Miraji. Quando pensei em pular.
Bati a porta atrás de nós, encaixando o ferrolho no lugar um segundo antes de Kadir nos alcançar, fazendo a madeira sacudir. No canto da sala, uma das garrafas de vidro caiu da prateleira e se estilhaçou no chão.
Avistei um rolo de corda entre as garrafas e ataduras.
Agarrei-o e corri para a varanda, com Jin logo atrás. Exatamente como eu me lembrava. Era um salto curto entre a beirada e o muro. E dali seria uma descida fácil.
— Acho que vamos conseguir. — Minha respiração pesava. Precisava ter certeza.
Pelos meus cálculos, aquela era a mesma distância que havia entre o telhado de Tamid e o seguinte, em sua casa lá na Vila da Poeira. Achava que já havia pulado aquela distância. Mas muito tempo antes, então ficava difícil ter certeza. A queda ali seria muito maior.
— Queria ter a mesma confiança, Bandida. — A respiração de Jin pareceu fraca de repente. Olhei para trás e o vi segurando as costelas.
Afastei sua mão. Havia um corte longo. Uma bala perdida, talvez.
— Droga. — Olhei em volta, desesperada. Kadir esmurrava a porta atrás de nós. Estávamos presos. Não havia como voltar atrás. Só podíamos ir em frente.
— Se eu for primeiro — prendi a corda no balaústre da varanda —, você consegue atravessar pela corda?
Aquele velho sorriso apareceu nos lábios de Jin.
— Já disse que você é incrível?
— Não. — Passei a corda em volta da borda da varanda novamente. — Você só desapareceu alguns meses sem explicação e me deixou sozinha.
Jin me girou até estar cara a cara com ele.
— Você — ele me beijou rapidamente no canto esquerdo da boca, me deixando arrepiada — é — depois no canto direito — incrível.
Não esperei. Puxei-o para mim, beijando-o com vontade antes de afastá-lo.
— Não temos tempo para isso agora.
— Eu sei. Estou só te distraindo. — Ele puxou o pedaço de corda e o nó se soltou. — Embora seja incrível, dá nós horríveis. — Jin começou a fazer algo complicado, seus dedos trabalhando com habilidade. Em seguida, virou para mim. Com alguns movimentos rápidos, passou a outra ponta da corda em torno da minha cintura. — Se vai arriscar sua vida, é melhor fazer isso de maneira segura.
— Tem certeza que vai aguentar? — Olhei na dúvida para o emaranhado em torno da balaustrada.
— Pode confiar no nó de um marinheiro — ele disse. — E pode confiar em mim quando se trata de você.
Jin me apoiou firme com uma das mãos enquanto eu subia. Independente do quão ruim a queda parecesse, ficava ainda pior de pé na balaustrada da varanda. O salto podia não ser tão longo, mas a queda era vertiginosa e o muro era estreito.
Eu provavelmente conseguiria.
A porta chacoalhou atrás de nós. Era Kadir.
Eu tinha quase certeza de que conseguiria.
Respirei fundo.
Estava prestes a descobrir.
Pulei.
Apenas ar embaixo de mim. Por um momento, me perguntei se era assim que Izz e Maz se sentiam quando se transformavam em animais.
Quando voavam.
Meus pés descalços alcançaram o muro, vacilantes. Agarrei uma das ameias para me equilibrar. Cambaleei um momento, mas consegui me firmar. Puxei o nó em volta da cintura e passei-o em volta da ameia. O resto da corda ficou pendurado do outro lado do muro, indo quase até o chão. Pelo menos ainda ao alcance.
Parecia firme o suficiente e, por Deus, tinha que estar.
Do outro lado da varanda, Jin se jogou, fechando as mãos e pernas em volta da corda. O nó perto de mim foi puxado com força com seu peso.
Mas a corda aguentou.
E continuou a aguentar enquanto Jin rastejava. Um centímetro por vez, deixando um rastro de sangue atrás dele.
Tudo o que eu podia fazer de cima do muro era acompanhar com o coração disparado, enquanto cada puxão o trazia para mais perto de mim. Jin estava na metade do caminho quando o trinco da porta quebrou.
Kadir irrompeu numa tempestade furiosa.
Apontei a arma antes que ele tivesse a chance de chegar à varanda. Estava descarregada. Era só um blefe.
— Toque na corda e vou fazer você se arrepender de ter nascido, Kadir.
— Você está mentindo. — Mas ele não se aproximou nem mais um centímetro. Ficou parado, o peito arfando de raiva.
— Sou uma demdji. — Puxei o cão da arma vazia. — Não posso mentir.
Nenhum de nós se moveu. Estávamos num impasse. Eu de pé no muro, a arma erguida, apontada diretamente para Kadir, enquanto Jin se arrastava pela corda, cruzando o restante do caminho. Um pouco de cada vez. Devagar. Lentamente. Ele não precisava ser rápido, só precisava ser mais rápido do que o raciocínio de Kadir. Mais rápido do que o tempo que o sultim levaria para perceber que minha arma estava vazia.
— Kadir. — A voz na porta me assustou tanto que quase perdi o equilíbrio.
O sultão estava sozinho. Não havia guardas com ele. Nenhum abdal.
— Pai. — Kadir estendeu o braço. — Cuidado, ela está armada.
Ele olhou de mim para o filho, depois para a arma, e de novo para ele. Seu raciocínio não seria tão lento quanto o do sultim. Pedi silenciosamente a Jin que se apressasse. Ele estava mais perto agora.
O sultão apoiou a mão no ombro de Kadir.
— Meu filho, meu filho. Você é um tolo.
Então puxou uma faca.
Comecei a gritar, tentei fazer uma ameaça mas não consegui, pois não poderia concretizar sem balas. Prometi ficar no palácio se ele deixasse Jin ir embora. Tudo que pudesse dar a Jin o pouco de tempo de que precisava para chegar antes que o sultão cortasse a corda e o matasse.
Mas o sultão não cortou a corda. A lâmina em sua mão foi direto para a garganta de Kadir.
Ele deu um golpe certeiro, como quem corta a cabeça de um prêmio de caça.
Quando Kadir caiu no chão, a expressão de protesto irritado ainda estava em seu rosto.
Foi tão rápido que não tive tempo de gritar.
O choque me percorreu, congelando minha língua e meu corpo inteiro.
O sultão olhou para mim calmamente, limpando o sangue na camisa do príncipe morto. E de repente eu estava sentada com ele à mesa novamente. Ouvindo-o dizer que seus filhos levariam o país à ruína sob o jugo estrangeiro. Que Kadir era tão inadequado para comandar quanto Ahmed.
Não há nada que eu não faria por este país, Amani. O sultão virou para mim. Ele não era idiota. Logo perceberia que eu estava sem balas. Precisava mantê-lo ocupado só mais alguns instantes. Até Jin terminar de atravessar.
— Sabe, faz um tempo que não vou às casas de oração. — Um peso esmagava meu peito enquanto eu falava. Odiava Kadir. Mas vê-lo daquele jeito, com os olhos vazios encarando a noite, sangue ainda esguichando de sua garganta… — Mas tenho certeza de que Deus condena o ato de matar o próprio filho.
— Ah, sim. — O sultão sorriu, apaziguador. — Amaldiçoado é aquele que mata seu próprio sangue. Mas pense no que estamos comemorando aqui, Amani: minha ascensão ao trono. Acho que já me provei capaz de escapar dessa maldição. Além disso, Kadir não seria um bom governante. É culpa minha, na verdade. Kadir nasceu quando meu reinado ainda estava começando. Eu tinha quase a mesma idade que ele tem… tinha. — O sultão olhou brevemente para o corpo sangrando na varanda. — Eu queria que meu trono fosse direto para meu neto, sem passar pelas mãos do meu filho, mas o destino não quis assim. Eu não havia imaginado que aquela esposa miserável de Kadir sedenta por poder seria tão habilidosa. — Shira. Havia morrido fazia poucos dias e seu nome já tinha sido esquecido. Quando contassem histórias sobre aquela guerra, ela seria apenas a sultima sedenta por poder? O sultão voltou a olhar para mim. — E tenho de admitir, não imaginei que fosse conseguir escapar. — Ele parecia quase impressionado. — Como fez isso?
— Você superestimou a lealdade do seu próprio povo. — Eu não ia entregar Tamid. — Realmente acha que isso vai salvá-los? Que fará com que voltem para o seu lado? Matar qualquer um no seu caminho?
— Os estrangeiros mortos lá embaixo não são importantes, Amani, e sim aqueles deixados vivos do outro lado do oceano. — O sultão me olhou por cima do cano da arma. — Sabe o que acontece em um país quando muda o governante? Desordem. Guerra civil. A cabeça deles ficará ocupada demais com isso, e não vão pensar tão cedo em nos invadir outra vez. Quando esse dia chegar, terei um exército de abdals preparado para defender nossas fronteiras.
Um exército de homens de barro com poderes de demdjis. Bastaria posicioná-los em nossas fronteiras e jamais seríamos invadidos de novo.
— O demdji antes de você… — O sultão se referia a Noorsham. Ele nunca usava o nome dele, como nunca havia usado o meu até o dia em que matara aquele pato. Como se fôssemos coisas para ele. — Ardia tão brilhante. Mas perdi a proteção que ele proporcionaria a este país. — Porque eu o libertei. — Me perguntei se aquele fogo poderia ser recriado. Se eu poderia criar uma bomba de metal com o poder de um djinni. E encontrei o fogo necessário para criar vida. Porque o fogo dos djinnis é isso. É vida. É energia. Ele nos deu a vida. E eu acabei de conseguir controlá-la. Não para destruir. Para energizar este país. Os gallans dizem que o tempo da magia passou e se voltam para as máquinas. Os albish se apegam às suas tradições. Nós seremos um dos países que combinou as duas coisas.
— Tudo isso à custa de nossos imortais.
— Os seres primordiais nos criaram para lutar suas guerras. Mas onde eles estavam quando vieram as nossas? Enquanto nossas fronteiras são atormentadas por estrangeiros com sua superioridade numérica? Enquanto meu povo se volta contra si próprio sob estímulo do meu filho? — O sultão disse isso pacientemente.
Como devia fazer com seus filhos. Como se explicasse uma lição difícil. Só que ele não era meu pai. Meu pai era um djinni. Meu pai era um djinni preso dentro do palácio à mercê dele. E, pela primeira vez desde que a Destruidora de Mundos havia sido derrotada, enfrentava um risco real de morrer. Meu pai não havia se importado comigo quando eu estivera prestes a morrer. Por que deveria me importar com ele? Mas me importava.
— O tempo dos imortais já passou. Nós tiramos o mundo deles. Existe um motivo para demdjis como você serem raros hoje em dia. Este mundo nos pertence. Este país nos pertence. É papel dos filhos substituir os pais. Nós somos os filhos dos djinnis. — O sultão abriu um sorriso lento e preguiçoso. — E acho que você está sem balas.
E então Jin terminou a travessia. Agarrou a borda do muro e se puxou para cima com um grunhido de dor, passando os braços pela minha cintura. Então ele meio que pulou, meio que tropeçou, a mão se enrolando na corda. Caímos. Do outro lado do muro do palácio.
Eu estava livre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!