5 de outubro de 2018

Capítulo 37

OS DJINNIS ERAM FEITOS DE UM FOGO que nunca se extinguia. Um fogo sem fumaça que queimava sem parar e vinha diretamente de Deus. No início do mundo, os seres primordiais viviam em um dia infinito.
Então veio a Destruidora de Mundos, trazendo a escuridão consigo. E a noite. E o medo.
E, por fim, a morte.
Empunhando ferro, ela matou o primeiro djinni. Ele queimou e se transformou numa estrela. Um após o outro, os djinnis pereceram, preenchendo nosso céu.
Ver Fereshteh morrer foi como contemplar uma estrela na terra. O branco queimava meus olhos, era como se eu estivesse cega. Ouvi alguém gritar. Shazad disse algo que não consegui entender.
Bem devagar, a luz desapareceu. Pisquei e voltei a enxergar. O corpo de Fereshteh havia desaparecido. O que restou queimava brilhante, e o metal da máquina em volta ardia incandescente. Senti os pelos da nuca arrepiarem. Eu sabia onde havia sentido aquilo antes. A porta de metal, antes de o gallan tentar me matar.
Enquanto olhávamos, a luz subiu por um fio que eu não tinha visto, incendiando, percorrendo o teto, disparando por cima de nós.
Ouvi um grito quando a luz sobre nossas cabeças nos iluminou de modo brusco e inescapável. Não havia mais tempo. Sam nos agarrou pela mão, puxando-nos para subir os degraus e voltar tão rápido que mal tive tempo de respirar.
Hala cambaleou para trás quando surgimos do outro lado.
— Hala. — Soltei a mão de Sam por um momento. Ele parou de repente, mas Shazad seguiu. Ela estava alguns passos à nossa frente, já correndo de volta para o jardim. — Tire Leyla daqui… Ela ficou lá embaixo.
Hala nem discutiu comigo. Não teve tempo. Eu já estava correndo atrás de Shazad em direção aos jardins. Olhei por cima do ombro antes de virar num corredor, em tempo de ver a porta do mosaico se abrir, os soldados desavisados correndo na direção de Hala, que os aguardava e para dominar suas mentes antes que dessem mais um passo. E então Shazad me puxou. Hala e Leyla estavam por contra própria.
Sam me segurou enquanto nos aproximávamos do muro, me puxando na direção dele.
Passamos correndo pela parede, ofegantes, no exato momento em que o discurso do sultão terminava. Ao nosso redor, aplausos ecoaram, e por um momento me senti desestabilizada, fugindo do que tínhamos acabado de ver, perseguindo a luz das estrelas, de volta para a normalidade do palácio.
De repente, luzes começaram a aparecer por todos os lados do jardim escuro. Não luz a óleo. Não fogo e tochas tremeluzentes. Apenas luz. Fogo sem calor. Vinha da máquina que acabara de matar o djinni, para então ficar aprisionada nos pássaros de vidro que eu tinha visto mais cedo, pendurados nos fios, ganhando vida.
Luz das estrelas engarrafada.
Sons de espanto preencheram os jardins quando as luzes iluminaram os rostos estupefatos dos convidados do Auranzeb.
Em seguida, no canto do jardim, algo se moveu. Me virei a tempo de ver uma das estátuas se mexer. Uma das esculturas dos irmãos mortos do sultão endireitou a cabeça.
E depois aquela ao lado dele. E a seguinte.
Os homens de metal se endireitaram e deram um passo à frente. Depois outro. A multidão começou a notar, esperando outro truque festivo. Mas não se tratava daquilo.
— O que estão fazendo? — perguntou Shazad, e ouvi o medo em sua voz. Era raro vê-la assustada. Mas eu sabia que estava lembrando da mesma coisa que eu. Um trem. Um garoto numa armadura de metal. Mãos queimando. Os gritos de Bahi.
Um homem estrangeiro na multidão foi forçado a recuar quando uma estátua avançou sobre ele.
Eu estava sentada de frente para o sultão em seu escritório quando ele falara sobre os servos de barro que os djinnis tinham criado antes da humanidade. Os abdals. Criaturas que obedeciam a qualquer comando. Ouvira quando ele falara que tinha cometido um erro ao pensar que podia controlar um demdji. Que nosso poder não valia o risco da desobediência.
Aquilo não significava que havia desistido do nosso poder.
Só havia desistido da desobediência.
As criaturas de metal passaram pelos mirajins, avançando na direção dos estrangeiros. Encurralando-os.
Ouvira o sultão me dizer que as forças de Miraji não conseguiriam proteger sozinhas nossas fronteiras das ameaças.
Aquilo era uma armadilha. Auranzeb. O cessar-fogo. Tudo. Para atraí-los até o palácio.
Percebi o que ia acontecer um segundo antes. Um dos soldados albish avançou para o soldado de metal, ficando entre ele e sua rainha.
Observei seu rosto enquanto queimava. Como Bahi havia queimado nas mãos de Noorsham. Como um pavio aceso pelo fogo de um djinni.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!