29 de outubro de 2018

Capítulo 36

— Quanto tempo levará até a costa? — o sussurro de Elide ecoou nas paredes cavernosas esculpidas pelo rio.
Ela entrou em pânico quando o barco se aventurou além do brilho da praia e se dirigiu para um túnel do outro lado do lago, tão escuro que ela não conseguia ver as próprias mãos diante do rosto. Estar presa em tal escuridão impenetrável por horas, dias, possivelmente mais...
Teria sido assim no caixão de ferro? Aelin não deu indicação de que a escuridão sufocante a incomodava e não mostrara nenhuma inclinação para iluminar seu caminho. Nem sequer convocou uma brasa.
Mas o Povo Pequeno parecia ter vindo preparado. E, nos poucos batimentos cardíacos que demoraram para entrar na passagem do rio negro, luz azul se acendeu em uma lanterna pendurada sobre a proa curvada.
Não era luz, nem mágica. Mas minúsculos vaga-lumes que brilhavam de um azul pálido, como se cada um tivesse engolido o coração de uma estrela.
Eles haviam sido reunidos na lanterna, e sua luz suave ondulava sobre as paredes lisas da água. Uma luz leve e suave. Pelo menos para ela era assim.
Os machos feéricos estavam alertas, os olhos acesos com um brilho animalesco, usando a iluminação para notar as cavernas pelas quais eram puxados por aquelas estranhas bestas serpentinas.
— Não estamos viajando com rapidez — Rowan respondeu de onde estava sentado ao lado de Aelin, perto da parte de trás do barco, Fenrys cochilando aos pés da rainha.
O barco grande o suficiente para cada um deles se deitar entre os bancos, ou se reunir perto da proa para comer o estoque de frutas e queijos.
— E não sabemos quão diretamente essas passagens fluem. Vários dias pode ser um palpite conservador.
— Levaria três semanas a pé se estivéssemos lá em cima — explicou Gavriel, com o cabelo dourado parecendo prateado pela luz da lanterna. — Talvez mais.
Elide brincou com o anel em seu dedo, girando o aro ao redor.
Ela preferiria viajar por um mês a pé do que ficar presa nessas passagens escuras e sem ar.
Mas eles não tinham escolha. Anneith não havia sussurrado em aviso – não havia dito nada antes de ela entrar no barco. Antes de Aelin receber a coroa de uma antiga Rainha das Fadas, seu direito de nascimento e herança.
A rainha havia escondido a coroa de Mab em uma de suas mochilas, como se não fosse mais do que um cinto de espada extra. Ela não tinha falado, e eles também não fizeram nenhuma pergunta.
Em vez disso, ela passara as últimas horas sentada na parte de trás do barco, estudando as mãos sem marcas, espiando ocasionalmente as águas negras abaixo delas. O que ela esperava ver além do próprio reflexo ondulante, Elide não queria saber. As criaturas caídas e antigas dessas terras eram numerosas demais para serem contadas, e a maioria não era amigável com mortais.
Encostando-se à pilha de mochilas, Elide olhou para a esquerda. Lorcan havia se posicionado ali, ao longo da borda do barco. Mais perto dela do que se sentou em semanas.
Sentindo sua atenção, seus olhos escuros deslizaram para ela. Por longos batimentos cardíacos, ela se deixou olhar para ele. Ele rastejou atrás de Maeve na praia para salvar Aelin. E ele a encontrara durante a fuga dela – assegurara que Aelin saísse. Será que isso apagava o que tinha feito ao invocar Maeve em primeiro lugar? Mesmo que Maeve tivesse armado a armadilha, mesmo que ele não soubesse o que Maeve pretendia para Aelin, isso apagaria sua decisão de chamá-la?
A última vez que eles haviam conversado como amigos fora a bordo daquele navio horas antes de a armada de Maeve chegar. Ele disse a ela que eles precisavam conversar, e ela assumira que era sobre o futuro deles, sobre eles.
Mas talvez ele estivesse prestes a contar a ela o que tinha feito, que ele estava errado em agir antes de os planos de Aelin se desenrolarem. Elide parou de girar o anel.
Ele fizera aquilo por ela. Ela sabia disso. Ele convocara a armada de Maeve porque acreditava que estavam prestes a ser destruídos pela frota de Melisande.
Ele fizera aquilo por ela, assim como libertara o escudo em volta deles naquele dia quando Fenrys arrancara um pedaço do braço dela, em troca de Gavriel curá-la.
Mas a rainha sentada silenciosamente atrás deles, sem nenhum traço daquele fogo afiado para ser visto, nem aquele sorriso perverso que ela mostrava a todos que cruzavam seu caminho... Dois meses com um sádico. Com dois sádicos. Esse tinha sido o custo e o fardo que Aelin e todos eles suportariam.
Aquele silêncio, aquele fogo aterrado era culpa dele. Não inteiramente, mas de algumas maneiras.
A boca de Lorcan se apertou, como se ele lesse os pensamentos em seu rosto.
Elide olhou para a frente novamente, para onde o teto da caverna descia tão baixo que ela poderia tocá-lo se estivesse de pé. O espaço se apertava cada vez mais...
— É provável que seja uma passagem para uma caverna maior — murmurou Lorcan, como se também pudesse ver o medo em seu rosto. Ou sentir o cheiro dele.
Elide não se incomodou em responder. Mas ela não pôde evitar o lampejo de gratidão.
Eles continuaram na escuridão antiga e silenciosa, e ninguém falou por um tempo depois disso.


O colar não era real.
Mas o exército que Maeve convocara era. E Dorian, Manon com ele, estava em busca da última chave de Wyrd. Se ele a conseguisse do próprio Erawan, onde quer que o rei valg a guardasse, ele conseguiria a posse de todas as três...
O barulho do rio contra o barco era o único som, fora o único som por um tempo.
Gavriel manteve a vigia na proa, Lorcan monitorando a estibordo, com a mandíbula apertada. Fenrys e Elide cochilavam, a cabeça da dama encostada em seu flanco, o cabelo preto como tinta caindo sobre uma camada de neve branca.
Aelin olhou para Rowan, sentado ao lado dela, mas sem tocar. Seus dedos se enrolaram em seu colo. Um piscar de olhos na penumbra foi a única indicação de que ele estava ciente de todos os seus movimentos.
Aelin respirou seu perfume, deixou sua força se acomodar nela um pouco mais fundo. Dorian e Manon poderiam estar em qualquer lugar. Procurar a bruxa e o rei seria uma ideia tola. Seus caminhos se encontrariam novamente, ou não. E se ele encontrasse a última chave e depois a trouxesse para ela, ela pagaria o que os deuses exigiam. O que ela devia a Terrasen, ao mundo.
No entanto, se Dorian decidisse terminar ele mesmo, forjar o cadeado... seu estômago revirou. Ele tinha o poder. Tanto quanto ela, se não mais.
Era para ser o sacrifício dela. Seu sangue a ser derramado para salvá-los. Deixá-lo reivindicar essa tarefa...
Ela podia. Ela deveria. Com Erawan sem dúvida atacando Terrasen, com o exército de Maeve provavelmente causando uma perda incalculável, ela podia deixar Dorian fazer isso. Ela confiava nele.
Mesmo que ela nunca se perdoasse por isso. Sua dívida, deveria ter sido sua dívida para pagar. Talvez a punição por não fazê-lo fosse ter que viver consigo mesma. Ter que viver com tudo o que tinha sido feito com ela nesses meses também.
A escuridão do rio subterrâneo pressionou, envolveu seus braços ao redor dela e apertou.
Diferente da escuridão da caixa de ferro. A escuridão que ela encontrou dentro de si mesma.
Um lugar que ela nunca poderia escapar, não realmente. Seu poder se agitou, despertando. Aelin engoliu em seco, recusando-se a reconhecê-lo. Prestar atenção a ele.
Ela não iria. Não podia. Ainda não.
Até que ela estivesse pronta.
Ela tinha visto o rosto de Rowan quando ela falou sobre o que o engodo com o colar a havia levado a fazer. Tinha notado a maneira como seus companheiros olhavam para ela, pena e medo em seus olhos. O que havia sido feito com ela, o que ela havia se tornado.
Um novo corpo. Um corpo estranho e diferente, como se tivesse sido arrancada de um e empurrada para outro. Uma forma de se mover diferente do dela, de algum jeito. Ela ainda não tentara se transformar para o corpo humano. Não via motivo.
Sentada em silêncio enquanto o barco era puxado pela escuridão, ela sentiu o peso daqueles olhares. Seu pavor. Sentiu-os perguntando-se quão quebrada ela estava.
Você não cede.
Ela sabia que era verdade – que fora a voz de sua mãe que falara e nenhuma outra.
Então ela não cederia a isso. O que havia sido feito. O que restava.
Pelos companheiros ao seu redor, para impedir seu desespero, seu medo, ela não cederia.
Ela lutaria por isto, abriria seu caminho de volta, para quem tinha sido antes. Se lembraria de como agir, sorrir e piscar. Ela lutaria contra aquela mancha persistente em sua alma, lutaria para ignorá-la. Usaria essa jornada no escuro para se recompor – o suficiente para tornar convincente.
Mesmo que essa escuridão fragmentada agora morasse dentro dela, mesmo que falar fosse difícil, ela mostraria a eles o que eles queriam ver.
Uma Portadora do Fogo inteira. Aelin do Fogo Selvagem.
Ela mostraria ao mundo que aquela mentira também.
Os faria acreditar.
Talvez ela um dia acreditasse, também.

2 comentários:

  1. Meu coração tá partido
    Acho que não vai sobrar nada dele

    ResponderExcluir
  2. Vê-la livre me traz alívio.
    Vê-la quase quebrando me traz tristeza.
    Esse livro só tem trazido esse tipo de emoção, eu nunca consigo ficar inteiramente feliz, ao menos não por muito tempo, se quer por pouco, é apenas por segundos e olhe lá.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!