5 de outubro de 2018

Capítulo 36

HAVIA UM JARDIM INTEIRO ENTRE NÓS, e estávamos em solo inimigo.
Um erro, um movimento em falso, poderia nos custar toda a rebelião. E, ainda assim, precisei de toda a minha força de vontade para manter os pés grudados no chão. Para resistir àquela atração.
Foi mais doloroso do que qualquer ordem que o sultão tivesse me dado.
Jin se inclinou e sussurrou alguma coisa para o xichan perto dele enquanto desciam para o jardim. O homem assentiu, virando-se para responder. A multidão se moveu e Jin desapareceu. Lutei contra o instinto de ir atrás dele. De abrir caminho entre as pessoas sem dar a mínima para o sultão me vigiando.
Comecei a avançar lentamente em direção ao lugar onde desaparecera. Ou tão lentamente quanto conseguia com meu coração no ritmo de um tiroteio. Driblei estrangeiros com roupas estranhas, mirajins bem-vestidos, homens perigosos de uniforme. Mas não conseguia ver onde ele estava. Eu o havia perdido. Outra vez.
— Amani. — Sua voz no meu ouvido soava exatamente como da última vez que o tinha visto. No deserto. Em fuga. Sem ar depois de me beijar na tenda.
Quando virei, ele estava tão próximo que eu poderia tocá-lo. Só que, se havia um jeito garantido de termos uma morte tão horrenda quanto a dos homens de bronze ao nosso redor, era esse.
Seus olhos percorreram meu corpo, do cabelo penteado com perfeição até meus pés descalços. De repente, fiquei mais consciente da minha aparência do que havia estado toda a noite. Eu era uma garota de brilho dourado, com uma roupa que não me cobria por inteiro. Tinha sido arrumada como as outras garotas do harém, com o objetivo expresso de ser admirada por outros homens, mas nunca tocada. O xichan que estava junto com Jin fazia exatamente isso, observando cada parte da minha pele exposta. Mas Jin não pareceu notar que eu estava pintada de ouro e em exposição com o intuito de provocar os homens.
— Você cortou o cabelo — ele finalmente disse. Com tudo o que havia de diferente, era a cara dele notar justamente isso. A ferida mais evidente que eu ostentava de tudo o que havia passado entre as paredes do harém.
— Não por vontade própria. — Não havia tempo de explicar, mas Jin conseguiu ler uma parte da explicação no meu rosto. Naquela breve resposta.
— Amani, eles… — Jin se interrompeu. Aquele “eles machucaram você?” ficou engasgado ali. Eu sabia o motivo. Se alguém tivesse me machucado e Jin não tivesse impedido, dificilmente ia se perdoar. — Você está bem?
Era uma pergunta e tanto.
— Vou sobreviver.
A expressão em seu rosto mudou enquanto cerrava o punho. Quando falou novamente, sua voz era grave e urgente.
— Juro por Deus, se ele tiver te machucado, vou fazer com que pague por isso. — Eu sabia muito bem a quem ele se referia. Ao sultão.
— Você não acredita em Deus. — Foi tudo o que consegui pensar em dizer.
Jin estendeu a mão como se quisesse me puxar para ele, longe de tudo o que acontecia ao nosso redor.
— Então eu juro por você.
Tive que entrelaçar os dedos para resistir ao ímpeto de tocá-lo. Lembrei de quando era pequena, os braços tremendo do esforço de segurar um rifle pesado demais para uma menina de dez anos. Tudo o que eu mais queria no mundo era soltar a arma. Abrir as mãos e deixá-la cair. O esforço de erguê-la era demais para mim. Estava forçando meus músculos até a exaustão.
Mas, para permanecer viva, eu precisava aprender a segurar aquele rifle. A atirar.
Mantive os braços onde eles estavam. Tremendo com o esforço.
— Jin — falei tão baixo quanto possível. — Não é seguro conversar aqui.
— Não estou nem aí. — Sua voz saiu firme e baixa. Por um momento pensei que ele realmente ia pegar minha mão e simplesmente sair correndo comigo dali. Então Jin voltou à realidade; o gesto foi transformado numa mesura enquanto saía do caminho do homem atrás dele. Era um dos xichans, e o acompanhava como uma sombra. — Sou o intérprete do príncipe Bao esta noite. Se conversarmos através dele, vai ficar tudo bem. — O homem inclinou a cabeça, sem saber o que estava acontecendo, dizendo algo em xichan.
— O que aconteceu com o outro intérprete? — perguntei com o que eu esperava ser um sorriso educado.
— Teve um surto repentino de costelas quebradas esta tarde. — Jin piscou para mim por cima da cabeça do príncipe, que ainda fazia sua mesura. — O príncipe tem uma fraqueza por mulheres bonitas, então não foi muito difícil vir até você. Diga algo em resposta, como se eu tivesse traduzido o que ele disse.
Eu não via Jin havia dois meses. Da última vez, tínhamos brigado. Sua mão estivera dentro da minha camisa; sua boca, junto à minha. Havia meses de palavras não ditas entre nós. E eu provavelmente deveria informá-lo de que assim que a luz que projetava nossas sombras desaparecesse teríamos que libertar um monte de djinnis. Havia tanto a ser dito em tão pouco tempo, e era muito difícil dizer tudo aquilo mantendo um sorriso educado no rosto.
— Onde você se enfiou? — perguntei através do meu sorriso forçado para o príncipe Bao, como se estivesse conversando com ele, e não exigindo uma explicação.
Não vi sua expressão quando Jin se virou e disse algo rápido em xichan. Provavelmente algum tipo de clichê educado. O homem respondeu, assentindo e sorrindo, e esperou que Jin traduzisse. Então finalmente Jin pôde se virar outra vez para mim.
— Estava te procurando. — Sua mão direita ainda estava cerrada em punho, batendo tensa contra a perna.
— Então perdeu seu tempo — eu disse, e Jin abafou uma risada enquanto eu apertava os lábios e tentava irradiar polidez para o homem estrangeiro que parecia achar que eu não sabia que ele estava olhando os meus peitos. — Eu estava bem aqui.
— Sim, Shazad já fez uma crítica minuciosa das minhas escolhas.
— Ela sabe que você está aqui?
Começava a escurecer. Não demoraria muito para termos de nos separar novamente.
— Em Izman, sim. Aqui no palácio, nem tanto. — E lá estava ele. Aquele sorriso que me fazia seguir Jin para o meio do perigo. Lutei contra o instinto de retribuí-lo. — É melhor dizer algo em resposta para seu príncipe.
Jin disse algo rápido em xichan, e só entendi uma parte, mas parecia explicar ao príncipe que o mirajin não era um idioma tão econômico em palavras. Ele mal esperou pela resposta do príncipe Bao antes de voltar a olhar para mim. — Vim garantir que você vai deixar este lugar esta noite. Mesmo que a gente não consiga tirar mais ninguém daqui, você vem junto. Entendeu?
Um sorriso nasceu em meus lábios, apesar dos meus esforços contrários. Ignorei quando o príncipe Bao sorriu para mim, claramente pensando que aquilo se destinava a ele.
— Está dizendo que veio aqui para me resgatar?
Jin ergueu um ombro.
— Bem, se quiser ver as coisas dessa maneira…
Eu queria tocá-lo. Mais do que qualquer coisa. Queria ser abraçada por ele. Queria lembrar a Jin que estávamos em guerra. Que poderíamos lutar, fugir ou ficar juntos o quanto quiséssemos, mas não seríamos sempre capazes de manter um ao outro seguro.
— Jin…
— Uma demdji e um diplomata em ascensão, pelo que vejo. — A voz fez minhas costas estremecerem antes que eu pudesse responder. Estávamos tão envolvidos na conversa que nem notei o sultão se aproximar. Ele pousou a mão nas minhas costas.
Senti um arrepio de nervoso percorrer minha coluna. Notei a tensão de Jin, que rapidamente se curvou numa mesura. O príncipe Bao seguiu o exemplo.
Observei Jin ficar frente a frente com o pai pela primeira vez desde que era uma criança no harém.
Eu sabia exatamente o que ele via, porque tinha visto o mesmo: Ahmed duas décadas mais velho. Seu irmão, nosso príncipe e nosso inimigo unidos em uma só pessoa.
Mas não conseguia imaginar o que Jin sentia ao encarar o homem que havia comprado sua mãe e a escravizado. Que havia matado a mãe do seu irmão com as próprias mãos. Que havia me capturado. E ainda ter que sorrir educadamente.
Não perca a cabeça, desejei. Não agora. Não acabe nos matando.
E então Jin abaixou a cabeça e, mantendo o sorriso fixo no rosto, apresentou o príncipe xichan ao sultão com uma longa série de títulos, enquanto o príncipe Bao apenas assentia.
— Você fala muito bem mirajin — elogiou o sultão quando Jin terminou, mal prestando atenção no príncipe estrangeiro. Prendi a respiração. As histórias falavam de Ahmed e Delila desaparecendo na noite como num passe de mágica.
Mas elas eram somente um fragmento da verdade, deturpadas depois de passar por tantos ouvidos e bocas.
O sultão era um homem inteligente. Pelo menos isso eu havia aprendido ali. Devia saber como os dois haviam escapado. Devia ter entendido que a xichan que havia desaparecido na mesma noite fora a responsável. Certamente lembrava que, embora as histórias houvessem esquecido, outro filho também havia desaparecido naquela noite.
Mas, se tinha pensado nisso, não deixou transparecer.
Tampouco Jin.
— Obrigado — ele disse em seu mirajin perfeito. — Sua majestade me honra com o elogio.
Mas o sultão ainda não havia terminado.
— Sua mãe era mirajin?
Não minta. Estou bem aqui. Não minta. Se ele me perguntar, não poderei mentir por você.
— Meu pai, aclamado sultão.
Oman assentiu.
— Se me der licença, preciso roubar Amani — ele disse, estendendo o braço para mim. — Se o seu príncipe não se importar, claro.
Eu conhecia Jin bem o suficiente para saber o que a ideia de me deixar partir fazia com ele. Preferiria enfrentar seu pai bem ali no meio do jardim a me deixar partir com o inimigo. Com o homem que já havia me tirado dele uma vez.
Mas Jin fez uma mesura sutil.
— É claro, aclamado sultão. Transmitirei seu pedido de desculpas ao príncipe Bao. — O príncipe xichan balançava a cabeça de um lado para o outro alegremente, alheio à tensão à sua volta.
E então o sultão pegou meu braço, ignorando o pó dourado manchando sua camisa, e eu não tive escolha a não ser segui-lo para longe de Jin sem olhar para trás.
— Você não deveria ficar sozinha — ele disse enquanto me levava. — Há muitos inimigos poderosos aqui esta noite. Pedi a Rahim que ficasse de olho em você.
— Ele encontrou um velho amigo de Iliaz. — Foi a melhor explicação que consegui dar.
— Rahim encontrou mais do que isso, pelo visto. — O sultão olhou para onde o filho, lorde Balir e Shazad continuavam envolvidos na conversa. Ele ter notado me deixava mais nervosa do que tudo. — Ele encontrou um rosto bonito. — Meu aperto no peito aliviou um pouco. Contanto que não suspeitasse que Shazad e Rahim estavam fazendo algo além de flertar, não precisaríamos nos preocupar. — Embora eu suspeite que ela poderia competir com ele em perspicácia.
Já tinha visto Shazad ser subestimada várias e várias vezes. Até Rahim havia duvidado do valor dela aquela noite, apesar da minha palavra. O fato de o sultão enxergá-la tão bem me deixou assustada.
— Por que estou aqui? — perguntei, tentando desviar a atenção do meu guardião desobediente e da minha amiga. — Se é tão perigoso?
O sultão parou de andar. Havíamos chegado a uma alcova em um muro do jardim, protegida da multidão.
— Você me perguntou por que precisamos renovar nossas alianças com as forças estrangeiras que colocam seus próprios países acima de Miraji. Quero que veja a resposta, Amani. — Ele soltou meu braço. — Fique aqui. — A ordem não teve a mesma força de antes. Mas o sultão não sabia disso. Para ele, eu ficaria presa ali.
Oman subiu na plataforma erguida no jardim. Meu peito estava quase explodindo com a tensão que vinha crescendo desde o amanhecer. A noite caía ao nosso redor e ninguém havia acendido as lâmpadas espalhadas pelo jardim. A única luz vinha daquelas penduradas sobre a plataforma, mergulhando as pessoas na escuridão.
Era uma situação quase perfeita demais para escapar.
— Estimados convidados! Bem-vindos. É uma honra tê-los aqui — o sultão gritou, atraindo a atenção de todos. Conversas se apagaram como fósforos molhados em volta de nós enquanto grupos de pessoas se amontoavam em volta da plataforma.
Comecei a forçar caminho na direção oposta aos corpos que se aproximavam dela. Estava seguindo para a ponta do jardim. Para me juntar novamente à rebelião e dar o fora dali. Torcendo para não acabar queimada viva como a esposa de Akim por ter libertado os djinnis.
No palco, o sultão continuou a falar. Ele estava discursando sobre paz e poder. Chavões sem sentido. Ouvi trechos de traduções no lugar onde estava. Shazad apareceu perto de mim enquanto eu desviava de uma mirajin que sacudia seus rubis. Nenhuma de nós falou ou perdeu o ritmo quando nos juntamos, como duas correntes no rio que se unem.
Conforme avançávamos, Sam ocupou seu lugar entre nós, separando-se dos outros soldados com o mesmo uniforme que ele, mas com lealdades bem diferentes.
Finalmente conseguimos nos afastar da multidão. Sam tomou a dianteira quando nos aproximamos da parede e agarrou nossas mãos, o pó dourado da minha manchando a dele enquanto passávamos entre duas esculturas de barro e bronze.
— Prendam a respiração — ele instruiu enquanto eu lutava contra meu instinto de desviar para não dar de cara com o muro.
Deveríamos ter batido com tudo na pedra. Em vez disso, foi como entrar na areia. Como se a parede tivesse mudado de forma por nossa causa, indo do estado sólido para algo macio. Com um único porém: foi uma mudança relutante.
Mesmo enquanto avançávamos, eu a sentia tentando nos prender ali. A pedra pressionava minha pele, lutando para voltar à sua forma natural de milhares de anos. Apertei os olhos. Depois de sobreviver ao harém e ao sultão, não podia acabar morrendo ali, de qualquer jeito.
Sepultada nas paredes do palácio para sempre.
De repente o ar voltou aos meus pulmões. A travessia tinha acabado, e eu emergia trôpega do outro lado. Distante das comemorações do Auranzeb. Em meio à quietude dos corredores sofisticados do palácio.
— Por que demoraram tanto? — Hala nos esperava do outro lado. Com sua pele dourada, vestida em roupas simples do deserto. Sam a havia levado ali algumas horas antes. Ficar aguardando parecia tê-la deixado com um humor ainda melhor do que o habitual. Ela me estudou, analítica. — Essa cor não combina com você.
— Sim, eu e Imin já tivemos essa conversa. Obrigada pela opinião. — Decidi ignorá-la e virei para Shazad. — Você sabia que Jin tinha voltado e nem se deu ao trabalho de comentar comigo?
Ela parou, desatando a faixa em volta da cintura e revelando fileiras e mais fileiras de pólvora. Shazad trocou olhares conspiratórios com Sam. Do tipo que costumava trocar comigo. Era um lembrete doloroso de quanto tempo eu tinha ficado fora.
— Não minta para mim, Shazad. Não você, entre todas as pessoas.
— Ele voltou ontem — ela admitiu. — Izz o encontrou. Quando fomos para a Vila da Poeira investigar sua dica sobre a fábrica. Jin estava te procurando lá. Achava que você podia ter mudado de ideia e voltado para casa para morar com sua tia. Idiota.
— Se é que vale alguma coisa — Sam se intrometeu —, eu votei por contar a você.
— Se é que vale alguma coisa — Shazad falou —, você é um ladrão, não um rebelde, então não tem direito a voto.
— Eu realmente não acho que você pode bancar a moralmente superior aqui — Sam retrucou, apoiado na parede e todo satisfeito consigo mesmo. Ele curtia a atenção de Shazad, independente do motivo. — E tem mais uma coisa…
Hala resmungou, interrompendo-o:
— Embora isso possa ser fascinante para alguém, não é nem um pouco fascinante para quem está tentando fazer vocês atravessarem o palácio sem serem vistos. Você se importa?
Abri o caminho.
Ficamos perto de Hala, nos deslocando o mais devagar possível. Assim era mais fácil para ela enganar a mente dos esparsos soldados com quem cruzávamos. Havia poucos deles para fazer tudo o que precisava ser feito naquela noite. Mas eles nem piscaram enquanto passávamos; as mentes haviam sido bem manipuladas por Hala, de modo que só enxergavam um corredor vazio. Seguimos em silêncio por passagens agora familiares para mim, dobrando esquina após esquina, até finalmente ficarmos frente a frente com o mosaico da princesa Hawa. Sam não esperou que eu falasse.
Agarrou a minha mão e a de Shazad e nos puxou pela parede.
Meio que tropeçando, saímos no topo da antiga escada de pedra que eu havia descido no meu primeiro dia no palácio, com o sultão segurando uma lamparina à nossa frente, de modo que só conseguia enxergar um degrau de cada vez.
Agora podia ver o fim da escada. Não estávamos sozinhos nas catacumbas.
Estendi o braço, impedindo Shazad de seguir adiante. Ela entendeu o sinal na mesma hora, parando onde estava.
Prosseguimos com cuidado, nos esgueirando como carniçais na noite e andando abaixados até chegarmos à borda das sombras, onde podíamos ver claramente a cripta.
As catacumbas tremeluziam com o movimento do djinnis capturados. Havia dezoito deles aprisionados agora. Dezoito nomes que eu havia chamado um por um. E embora todos houvessem assumido a forma de homens, ainda havia algo de sobrenatural neles.
Permaneciam de pé, espalhados pelas catacumbas como pilares de poder imortal, às vezes refletindo uma luz que não vinha de lugar nenhum. Sentimos a força de sua presença como um golpe físico enquanto descíamos.
Meia dúzia de homens uniformizados carregando tochas estava em volta de Fereshteh. Ele estava exatamente onde eu o havia deixado, preso dentro do círculo de ferro. Com a diferença de que alguém havia colocado o que parecia ser uma jaula sobre ele. Era feita de cobre, ferro, ouro e vidro, entrelaçados em padrões complicados com arcos de metal que se curvavam um para dentro do outro.
Os outros djinnis capturados olharam curiosos de seus próprios círculos de ferro, como pais vendo algo que o filho tinha feito e que não entendiam completamente. Por uma fração de segundo, Bahadur olhou na nossa direção antes de voltar a encarar os outros imortais.
Os soldados se mexeram, e a pessoa que vinha trabalhando na máquina entrou no meu campo de visão. Reconheci Leyla no mesmo instante, mesmo à distância.
Então era aquele o motivo por que eu não a encontrara nos jardins. Ela se movia ansiosa, manipulando peças de maquinaria que pareciam complicadas com tanta facilidade quanto fazia com os pequenos brinquedos que produzia no harém.
Leyla girou algo e recuou de repente. Todo o círculo de soldados deu um passo para trás.
Por um breve instante, nada aconteceu.
E então a máquina ganhou vida.
As barras da jaula começaram a se mover. De início, lentamente. Depois mais rápido.
Dentro da máquina, Fereshteh nos observava curioso enquanto as lâminas se moviam. Ele não parecia com medo, mas o pânico começava a brotar no meu peito. A máquina zuniu cada vez mais rápido, enormes lâminas girando em círculos uniformes, como se cada uma fosse o horizonte de um enorme globo. As lâminas de bronze se erguiam como o amanhecer, as lâminas escuras caíam como o pôr do sol. Cada vez mais rápido. Até que a máquina em volta do djinni não passasse de um borrão.
Uma sensação de pavor preencheu meu peito. Precisávamos libertá-lo.
Tínhamos que fazer isso antes que fosse tarde demais. Comecei a avançar, cega ao perigo. E então outra peça da máquina, uma lâmina de ferro, se encaixou. Ela girou de repente, arqueando-se na direção do céu, e parou por um momento. Entendi o que aconteceria um segundo antes que descesse.
Ela mergulhou direto no peito de Fereshteh.
Então um djinni imortal, um dos seres primordiais de Deus, criado junto com o mundo, que tinha visto o nascimento da humanidade, a queda dos primeiros imortais, o surgimento das primeiras estrelas, e que havia enfrentado a Destruidora de Mundos, morreu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!