29 de outubro de 2018

Capítulo 35

Ela não confiava nesse mundo, nesse sonho. Na companhia que tinha caminhado com ela, a levado até aqui. O príncipe guerreiro com olhos verde-pinho e que cheirava a Terrasen.
Nele, ela não ousou acreditar mesmo. Não nas palavras que ele falava, no simples fato de que ele estava lá. Ela não confiava que ele tivesse removido a máscara, os ferros. Eles haviam desaparecido em outros sonhos também – sonhos que se provaram falsos. Mas o Povo Pequeno havia dito a ela que era verdade. Tudo isso. Eles disseram que era seguro, e ela deveria descansar, e eles cuidariam dela.
E aquela pressão terrível e implacável contorcendo-se em suas veias – havia diminuído. Apenas o suficiente para pensar, respirar e agir além do puro instinto.
Ela tinha desviado tanto quanto ousou, mas não de tudo. Certamente não de tudo.
Então ela dormiu. Ela fizera isso naqueles outros sonhos também. Tinha vivido dias e semanas de histórias que depois foram varridas como pegadas na areia.
No entanto, quando ela abriu os olhos, a caverna permanecia, mais escura agora. O poder vibrante se aninhara mais profundo, adormecido. A dor em suas costelas tinha desaparecido, a ferida em seu antebraço tinha cicatrizado – mas a cicatriz permaneceu.
A única marca nela.
Aelin cutucou-a com um dedo. Dor incômoda ecoou em resposta.
Liso – não a cicatriz, mas seu dedo. Liso como vidro, enquanto ela esfregava as pontas do polegar e do indicador uma na outra.
Nenhum calo. Nem nos dedos dela, nas palmas das mãos. Totalmente em branco, apagadas as impressões dos anos de treinamento, ou do ano em Endovier.
Mas essa nova cicatriz, essa leve palpitação por baixo, permanecia, pelo menos. Enrolada no chão de pedra, examinou pegou a caverna. O lobo branco estava deitado de costas, roncando baixinho. Sua esfera transparente de chamas ainda queimava ao redor deles, aliviando a tensão brasa por brasa. Mas não totalmente.
Aelin engoliu em seco, saboreando cinzas.
Sua magia abriu um olho em resposta.
Aelin respirou fundo. Não aqui – ainda não.
Ela sussurrou para a chama. Ainda não.
Mas a chama ao redor dela e do lobo se alargou e se espessou, escondendo a caverna. Ela apertou a mandíbula.
Ainda não, ela prometeu para o fogo. Não até que pudesse ser feito com segurança. Longe deles.
Sua magia empurrou contra seus ossos, mas ela a ignorou. Amarrou-a.
A bolha de chamas diminuiu, protestou e tornou-se transparente mais uma vez.
Através dela, ela conseguia distinguir uma bacia esculpida em água, as formas adormecidas de seus outros companheiros.
O príncipe guerreiro dormia a poucos metros da beira do fogo, enfiado em uma alcova na parede da caverna. Exaustão pesava sobre ele, embora ele não tivesse se desarmado.
Uma espada pendia de seu cinto, seu rubi fumegando à luz de seu fogo. Ela conhecia aquela espada. Uma espada antiga, forjada nessas terras por uma guerra mortal.
Tinha sido sua espada também. Aqueles calos apagados haviam se encaixado perfeitamente em seu punho. E o príncipe guerreiro que agora a carregava encontrara a espada para ela. Em uma caverna como esta, cheia de relíquias de heróis há muito enviadas para o além-mundo.
Ela estudou a tatuagem serpenteando pelo lado de seu rosto e pescoço, desaparecendo em suas roupas escuras.
Eu sou seu parceiro. Ela queria acreditar nele, mas esse sonho, essa ilusão em que este imersa...
Não era uma ilusão.
Ele veio por ela.
Rowan.
Rowan Whitethorn.
Agora Rowan Whitethorn Galathynius, seu marido e rei-consorte. Seu parceiro.
Ela murmurou o nome dele.
Ele veio por ela.
Rowan.
Silenciosamente, tão suavemente que nem mesmo o lobo branco acordou, ela se sentou, uma mão segurando o manto que cheirava a pinho e neve. O manto dele, o cheiro dele tecido pelas fibras.
Ela se levantou, as pernas mais rígidas do que antes.
Um pensamento fez a bolha de chamas se abrir quando ela cruzou os poucos metros em direção ao príncipe adormecido.
Ela olhou para o rosto dele, belo e ainda inflexível.
Seus olhos se abriram, encontrando os dela como se soubesse onde procurá-la, mesmo dormindo.
Uma pergunta não formulada surgiu naqueles olhos verdes. Aelin?
Ela ignorou a pergunta silenciosa, incapaz de suportar a abertura daquele canal silencioso entre eles novamente, e examinou as poderosas linhas de seu corpo, o tamanho dele.
Um vento suave beijado por gelo e relâmpago roçou sua parede de chamas, um eco de sua pergunta silenciosa.
Sua magia flamejou em resposta, uma onda de poder dançando através dela.
Como se tivesse encontrado um espelho de si mesmo no mundo, como se tivesse encontrado a contra-melodia em sua própria música.
Nem uma vez nessas ilusões ou sonhos isso aconteceu. Sua própria chama saltando de alegria por sua proximidade, seu poder.
Ele estava aqui. Era ele e ele viera por ela.
A chama se derreteu em nada além de ar frio da caverna. Não derreteu, mas foi sugada para dentro dela, enrolada, uma grande fera esticando a coleira.
Rowan.
Príncipe Rowan.
Ele se sentou lentamente, uma quietude se instalando sobre ele.
Ele sabia. Ele falou para ela antes, antes que ela deixasse o esquecimento reivindicá-la. Eu sou seu parceiro.
Eles devem contado a ele, então. Seus amigos. Elide e Lorcan e Gavriel. Todos estavam naquela praia onde tudo foi para o inferno.
Sua magia se elevou, e ela rolou os ombros, desejando que ela dormisse, esperasse um pouco mais.
Ela estava aqui. Ambos estavam aqui.
O que ela poderia dizer a ele, para explicar, para acertar tudo? Que ele tinha sido tão maltratado, sofrera tanto por causa dela?
Havia sangue nele. Tanto sangue, absorvendo suas roupas escuras. Pelas manchas no pescoço, nos arcos sob as unhas, parecia que ele tentara lavar um pouco. Mas o cheiro permanecia.
Ela conhecia aquele cheiro – a quem pertencia.
Sua espinha se contraiu, seus membros enrijeceram. Trabalhando além de sua mandíbula apertada, ela inalou bruscamente. Forçou um longo expirar através dos dentes. Forçou-se a trabalhar além do cheiro do sangue de Cairn. O que ele fez com ela. Sua magia se debateu, uivando.
E ela se obrigou a dizer a ele, a seu príncipe que cheirava a lar:
— Ele está vivo?
Raiva gelada cintilou nos olhos de Rowan.
— Não.
Morto. Cairn estava morto.
A tensão em seu corpo diminuiu – apenas ligeiramente. Sua chama também se inclinou.
— Como?
Nenhum remorso escureceu seu rosto.
— Uma vez você me disse em Defesa Nebulosa que, se eu a açoitasse, você me esfolaria vivo. — Seus olhos não se desviaram dos dela quando ele disse com uma voz letal: — Assumi a tarefa de dar esse mesmo destino a Cairn em seu nome. E quando terminei, tomei a liberdade de arrancar a cabeça dele do corpo e depois queimar o que restou. — Uma pausa, uma onda de dúvida. — Sinto muito por não ter lhe dado a chance de fazer isso por si mesma.
Ela não tinha nada dentro dela para sentir uma faísca de surpresa, para se maravilhar com a brutalidade da vingança que ele exigira. Não enquanto as palavras afundavam. Não enquanto seus pulmões se abriam mais uma vez.
— Eu não poderia arriscar trazê-lo aqui para você matar — Rowan continuou, examinando seu rosto. — Ou arriscar deixá-lo vivo, também.
Ela levantou as palmas das mãos, estudando a pele vazia e sem marcas.
Cairn tinha feito isso. A despedaçara tanto que precisavam juntar seus pedaços novamente. Tinha apagado todos os vestígios de quem e o que ela tinha sido, o que ela tinha visto e suportado.
Ela baixou as mãos para os lados.
— Fico feliz — disse ela, e as palavras eram verdadeiras.
Um arrepio percorreu Rowan e sua cabeça mergulhou ligeiramente.
— Você está... — ele pareceu se agarrar à palavra certa. — Posso te abraçar?
A necessidade gritante em sua voz rasgou-a, mas ela recuou.
— Eu... — ela examinou a caverna, bloqueando a maneira como os olhos dele caíram em sua retirada. Do outro lado da câmara, o grande lago era suave e plano como um espelho preto. — Eu preciso me lavar — disse ela, sua voz baixa e crua. Mesmo se não houvesse uma marca nela além dos pés sujos. — Eu preciso lavar isso — ela tentou novamente.
Compreensão suavizou seus olhos. Ele apontou com uma mão tatuada para o nicho próximo.
— Há alguns panos extras para você se lavar. — Passando a mão pelo cabelo prateado, mais longo do que a última vez que o vira – neste mundo, nesta realidade, pelo menos – ele acrescentou: — Eu não sei como, mas eles também encontraram algumas de suas antigas roupas de Defesa Nebulosa e as trouxeram aqui.
Mas as palavras estavam se tornando distantes novamente, dissolvendo-se em sua língua.
Sua magia retumbou, pressionando contra o sangue dela, apertando seus ossos. Sair, ela uivou. Sair.
Em breve, ela prometeu.
Agora. A magia se debateu.
Suas mãos tremiam, fechadas, como se ela pudesse mantê-la dentro. Então ela se virou, indo não para o nicho, mas para o lago além.
O ar se moveu atrás dela, e ela o sentiu seguindo-a.
Quando Rowan percebeu onde ela pretendia se banhar, advertiu:
— Aquela água está pouco acima de zero, Aelin.
Ela simplesmente deixou cair o manto sobre as pedras negras e entrou na água.
Vapor assobiou, subindo ao redor dela em nuvens ondulantes. Ela continuou, abraçando a mordida da água a cada passo, mesmo que não conseguisse penetrar no calor dela.
A água era límpida, embora a penumbra velasse o fundo que se afastava enquanto ela mergulhava sob a superfície gelada.
A água estava parada. Fria, bem-vindo e calma. Então Aelin soltou a amarra – apenas uma fração. Uma chama pulou para fora, devorada pela água gelada. Consumida por ela.
Afastou essa pressão, aquela névoa sem fim de calor. Acalmou e esfriou até que os pensamentos tomaram forma.
A cada braçada sob a superfície, na escuridão, ela pôde sentir de novo. Ela mesma. Ou o que sobrou dela.
Aelin. Ela era Aelin Ashryver Whitethorn Galathynius, e era a Rainha de Terrasen.
Mais magia ondulou, mas ela segurou firme. Nem tudo – ainda não.
Ela havia sido capturada por Maeve, torturada por ela. Torturada por Cairn, sua sentinela.
Mas ela escapou e seu parceiro veio por ela. Encontrara-a, assim como haviam se encontrado apesar de séculos de derramamento de sangue, perda e guerra.
Aelin. Ela era Aelin, e isso não era uma ilusão, mas o mundo real.
Aelin.
Ela nadou até a superfície lago, e Rowan seguiu a borda saliente de pedra ao longo da margem.
Ela deixou-se cair sob a superfície, deixando-se afundar e afundar e afundar, os dedos dos pés tocando apenas água fria e aberta, tentando alcançar um fundo que não chegava.
No escuro, no frio.
A água antiga e gelada afastou a chama, o calor e a tensão. Puxou e sugou e os mandou embora.
Arrefeceu o núcleo ardente dela até que ela tomou forma, uma lâmina incandescente do fogo mergulhado na água.
Aelin. Esta era quem ela era.


Aquela água do lago nunca tinha visto a luz do sol, fluindo do coração escuro e frio das próprias montanhas. Mataria até os guerreiros feéricos mais endurecidos em questão de minutos.
No entanto, ali estava Aelin, nadando como se fosse uma piscina na floresta aquecida pelo sol. Ela pisou na água, mergulhando a cabeça para trás de vez em quando para esfregar o cabelo.
Ele não tinha percebido que ela estava queimando tão ardentemente até que ela entrou no lago gelado e o vapor subiu.
Silenciosamente, ela mergulhou, nadando sob a superfície, a água tão límpida que ele podia ver cada movimento de seu corpo levemente brilhante. Como se a água tivesse arrancado a pele da mulher e revelado a alma ardente por baixo.
Mas aquele brilho desaparecia a cada vez que ela emergia para respirar, diminuindo ainda mais a cada vez que ela mergulhava abaixo da superfície.
Teria ela desejado que ele não a tocasse por causa daquele inferno interno, ou simplesmente porque ela queria lavar a mancha de Cairn? Talvez ambos. Pelo menos ela começou a falar, os olhos clareando um pouco.
Eles permaneceram claros enquanto ela nadava na água, o brilho mal permanecendo, e olhou para onde ele estava em uma rocha negra projetando-se sobre o lago.
— Você poderia se juntar a mim — ela falou finalmente. Sem calor em suas palavras, mas ele sentiu o convite. Não para provar seu corpo do jeito que ele ansiava, precisava para saber que ela estava aqui com ele, mas apenas para estar com ela.
— Ao contrário de você — ele respondeu, tentando firmar sua voz quando o reconhecimento no rosto dela ameaçou desmoronar seus joelhos — não acho que minha magia me aqueceria tão bem se eu entrasse.
Ele queria, no entanto. Deuses, ele queria entrar. Mas se forçou acrescentar:
— Este lago é antigo. Você deveria sair. — Antes que algo se aproxime.
Ela não saiu, seus braços continuaram seus círculos na água. Aelin apenas olhou para ele de novo daquele jeito grave e cauteloso.
— Eu não quebrei — ela falou baixinho. Seu coração se partiu com as palavras. — Eu não contei nada a eles.
Ela não falou com louvor, para se gabar. Mas para contar a ele, seu consorte, onde eles estavam naquela guerra. O que seus inimigos poderiam saber.
— Eu sabia que você não contaria — ele conseguiu dizer.
— Ela... ela tentou me convencer de que esse era o sonho ruim. Quando Cairn terminava comigo, ou durante, eu não sei, ela tentava entrar em minha mente. — Ela olhou ao redor da caverna, como se pudesse ver o mundo além. — Ela criou fantasias que pareciam tão reais... — Ela afundou sob a superfície. Talvez ela precisasse da água refrescante do lago para poder ouvir sua própria voz novamente; talvez precisasse da distância entre eles para poder falar essas palavras. Ela emergiu, alisando o cabelo para trás com uma mão. — Eles pareciam assim.
Metade dele não queria saber, mas perguntou:
— Que tipo de ilusões?
Uma longa pausa.
— Não importa agora.
Era cedo demais para forçar – se algum dia deixasse de ser.
Então ela perguntou baixinho:
— Quanto tempo?
Levou a totalidade de seus três séculos de treinamento para manter a devastação, a agonia por ela, afastada de seu rosto.
— Dois meses, três dias e sete horas.
Sua boca se apertou, fosse pela duração do tempo, ou pelo fato de que ele contou cada uma dessas horas separadas.
Ela passou os dedos pelos cabelos, os fios flutuando ao redor dela na água. Ainda longo demais para a passagem de dois meses.
— Eles me curaram depois de cada sessão. De modo que parei de saber o que tinha sido feito e o que estava em minha cabeça, e o que era verdade. — Apagando suas cicatrizes, Maeve teve uma chance melhor de convencê-la de que nada daquilo era real. — Mas os curandeiros não conseguiam se lembrar do comprimento do meu cabelo, ou Maeve quis me confundir ainda mais, então eles cresceram. — Seus olhos se escureceram à lembrança do porquê, talvez, eles precisaram recuperar o seu cabelo em primeiro lugar.
— Quer que eu corte novamente para o comprimento que estava quando a vi pela última vez? — Suas palavras eram quase guturais.
— Não. — Ondulações estremeceram ao redor dela. — Quero que fique para que eu possa lembrar. — O que tinha sido feito com ela, ao que sobrevivera e o que tinha protegido.
Mesmo com tudo o que fez com Cairn, a maneira como ele se certificou de que o macho fosse mantido vivo e gritando por toda parte, Rowan desejou que o macho ainda estivesse respirando, se ao menos pudesse levar mais tempo matando-o.
E quando ele encontrasse Maeve...
Não seria para ele matar.
Ele acabou com Cairn e não se arrependia. Mas Aelin... Maeve era dela.
Mesmo que a mulher que tomava a água diante dele não parecesse ter vingança em sua mente. Nem uma sugestão da raiva ardente que a alimentou.
Ele não a culpava. Sabia que levaria tempo, tempo e distância para curar as feridas internas. Se eles pudessem realmente se curar.
Mas ele trabalharia com ela, ajudaria de qualquer maneira que pudesse. E se ela nunca voltasse a ser quem era antes disso, ele não a amaria menos.
Aelin afundou a cabeça e, quando saiu, disse:
— Maeve estava prestes a colocar um colar de valg em meu pescoço. Ela saiu para buscá-lo. — O cheiro de seu medo persistente deslizou na direção dele, e Rowan deu um passo mais perto da beira da água. — Foi por isso que eu... por isso que eu fugi. Ela me transferiu para o acampamento do exército, e eu... — Sua voz parou, mas ela encontrou seu olhar. Deixou-o ler as palavras que ela não podia dizer, daquele jeito silencioso que sempre foram capazes de se comunicar. Escapar não era minha intenção.
— Não, Coração de Fogo — ele inalou, balançando a cabeça, horror rastejando sobre ele. — Não... não havia colar.
Ela piscou, a cabeça inclinada.
— Isso foi um sonho, também?
Seu coração se partiu enquanto lutava para buscar as palavras. Dar voz a elas.
— Não, foi real. Ou Maeve achou que sim. Mas os colares, a presença valg... Foi uma mentira que nós armamos. Afastar Maeve, esperançosamente, de você e de Doranelle.
Apenas o leve som da água soou.
— Não havia colar?
Rowan se ajoelhou e balançou a cabeça.
— Eu... Aelin, se eu soubesse o que ela faria com o conhecimento, o que você decidiria fazer...
Ele poderia tê-la perdido. Não por causa de Maeve ou dos deuses ou do cadeado, mas por suas próprias escolhas malditas. A mentira que ele havia conjurado.
Aelin afundou sob a superfície novamente. Tão profundo que quando a chama veio, foi pouco mais que uma agitação.
A luz irrompeu dela, ondulando através do lago, iluminando as pedras, o teto liso acima. Uma erupção silenciosa.
Sua respiração se tornou irregular. Mas ela nadou para a superfície novamente, a luz fluindo de seu corpo como gavinhas de nuvens. Quase desaparecera quando ela emergiu.
— Sinto muito — ele conseguiu dizer.
Mais uma vez, aquele inclinar de cabeça.
— Você não tem nada pelo o que se desculpar.
Ele sentia, no entanto. Ele contribuíra para o terror dela, seu desespero. Ele...
— Se você não tivesse plantado essa mentira para Maeve, se ela não tivesse me contado, não acho que estaríamos aqui agora — ela falou.
Ele tentou conter a torção em seu intestino, o desejo de alcançá-la, implorar por seu perdão. Tentou e tentou.
Ela só perguntou:
— E os outros?
Ela não sabia – não tinha como saber como e por que e onde eles se separaram. Então Rowan contou a ela, da maneira mais sucinta e calma possível.
Quando ele terminou, Aelin ficou em silêncio por longos minutos. Ela olhou para a escuridão, a ondulação de sua água o único som. Seu corpo quase perdeu aquele brilho recém-forjado.
Então ela girou de volta para ele.
— Maeve disse que você e os outros estavam no norte. Que você foi visto por seus espiões lá. Você plantou essa mentira para ela também?
Ele balançou a cabeça.
— Lysandra trabalhou bem, parece.
A garganta de Aelin tremeu.
— Eu acreditei nela. — Soou como uma confissão, de alguma forma.
Então, Rowan se viu dizendo:
— Eu te disse uma vez que, mesmo que a morte nos separasse, eu destruiria o mundo todo até encontrá-la. — Ele deu-lhe um sorriso. — Você realmente acreditou que isso me impediria?
Ela franziu a boca e, finalmente, aquelas emoções agonizantes começaram a surgir em seus olhos.
— Você deveria salvar Terrasen.
— Considerando que o sol brilha, eu diria que Erawan ainda não ganhou. Então, vamos salvá-lo juntos.
Ele não se permitiu pensar no custo final de destruir Erawan. E Aelin também não parecia ter pressa em discutir o assunto.
— Você deveria ter ido a Terrasen. Ele precisa de você.
— Eu preciso mais de você. — Ele não se importou com a honestidade que engrossou sua voz. — E Terrasen precisará de você também. Não de Lysandra se disfarçando como você, mas de você.
Um assentimento superficial.
— Maeve juntou seu exército. Duvido que fosse apenas para me proteger enquanto ela estivesse fora.
Ele colocou o pensamento de lado, para considerar mais tarde.
— Pode ser apenas para reforçar suas defesas, se Erawan vencer o outro lado do mar.
— Você realmente acha que é o que ela pretende fazer?
— Não — ele admitiu. — Eu não sei. — E se Maeve pretendia levar o exército para Terrasen, ou se unir com Erawan ou simplesmente ser outra força atacando o seu reino, atacando quando eles estivessem mais fracos, eles teriam que se apressar.
Tinham que voltar. Imediatamente.
Os olhos de sua parceira brilhavam com o mesmo entendimento e pavor.
A garganta de Aelin balançou quando ela sussurrou:
— Eu estou tão cansada, Rowan.
O coração dele ficou tenso novamente.
— Eu sei, Coração de Fogo.
Ele abriu a boca para dizer mais, para persuadi-la para a terra firme para que pudesse pelo menos abraçá-la se as palavras não pudessem aliviar o seu fardo, mas foi quando ele viu.
Um barco, antigo e cada centímetro dele esculpido, saía da escuridão.
— Volte para a margem.
O barco não estava à deriva – estava sendo puxado.
Ele mal podia distinguir duas formas escuras deslizando abaixo da superfície.
Aelin não hesitou, seus golpes continuaram firmes enquanto ela nadava na direção dele. Ela não recusou a mão que ele estendeu, e ele envolveu seu manto ao redor dela enquanto o barco passava.
Criaturas negras parecidas com enguias do tamanho de um homem mortal o puxavam. Suas barbatanas os atravessavam como véus de ébano e, a cada movimento de suas longas caudas, ele vislumbrou olhos brancos leitosos. Cegos.
Eles trouxeram o barco de fundo chato grande o suficiente para quinze homens feéricos até a beira do lago. Um movimento de criaturas pequenas e magras através da penumbra e o Povo Pequeno tinham-no atracado a uma estalagmite próxima.
Os outros devem ter ouvido sua ordem para Aelin, porque eles emergiram, espadas para fora. De pé atrás deles, Elide permaneceu com Fenrys, o macho ainda em forma de lobo.
— Eles não podem querer nos levar com isso pelas cavernas — Lorcan murmurou.
Mas Aelin se virou para eles, o cabelo pingando na pedra aos pés descalços. Meio pensamento dela poderia tê-la secado, mas ela não fez nenhum movimento para isso.
— Estamos sendo caçados.
— Sabemos disso — retrucou Lorcan, e se não fosse pelo fato de Aelin ter lhe permitido pousar a mão no ombro dela, Rowan teria atirado o macho no lago.
Mas os traços de Aelin não mudaram daquela seriedade, daquela calma serena.
— O único caminho para o mar é através dessas cavernas.
Foi uma reivindicação ultrajante. Estavam a cento e cinquenta quilômetros no interior, e não havia registro de que essas montanhas se conectassem a qualquer sistema de cavernas que fluía para o próprio oceano. Para fazer isso, eles teriam que ir para o norte através dessa área, depois virariam para o oeste nas Montanhas Cambrian e navegariam sob elas até a costa.
— E suponho que eles tenham lhe dito isso? — O rosto de Lorcan era duro como granito.
— Cuidado — rosnou Rowan.
Fenrys de fato mostrou os dentes para o guerreiro de cabelos escuros, o pelo eriçado.
Mas Aelin disse simplesmente:
— Sim — O queixo dela não caiu nem um centímetro. — A terra acima está cheia de soldados e espiões. Ir sob deles é o único caminho.
Elide deu um passo à frente.
— Eu vou. — Ela atirou um olhar frio em direção a Lorcan. — Você pode se arriscar lá em cima, se é tão incrédulo.
A mandíbula de Lorcan se contraiu e uma pequena parte de Rowan adorou ver a delicada Senhora de Perranth cortar o guerreiro endurecido por séculos com algumas palavras.
— Considerar as potenciais armadilhas da situação é sábio.
— Nós não temos tempo para considerar — Rowan cortou antes de Elide poder expressar a resposta em sua língua. — Precisamos continuar em movimento.
Gavriel avançou para estudar o barco ancorado e o que parecia ser pacotes de suprimentos em suas pranchas resistentes.
— Como vamos navegar pelo caminho?
— Seremos puxados — respondeu Aelin.
— E se eles nos abandonarem? — Lorcan desafiou.
Aelin ergueu os olhos inexpressivos para ele.
— Então você terá que encontrar uma saída, suponho.
Uma dica – apenas uma centelha – do temperamento que desmentia aquelas palavras calmas.
Não havia mais nada para debater depois disso. E eles tinham pouco para embalar. Os outros deram a Aelin privacidade para se vestir junto ao fogo enquanto inspecionavam o barco, e quando sua parceira emergiu novamente, vestida com botas, calças e várias camadas sob o manto cinza, a visão dela nas roupas de Defesa Nebulosa foi o suficiente para fazer sua barriga se apertar.
Não mais uma prisioneira nua e fugitiva. No entanto, nada daquela maldade, aquela alegria e selvageria descontrolada iluminavam seu rosto.
O resto deles esperava no barco, sentados nos bancos construídos em suas laterais curvadas para. Fenrys e Elide sentaram-se aparentemente tão longe de Lorcan quanto conseguiram, Gavriel um amortecedor dourado e sofredor entre eles.
Rowan permaneceu na beira da praia, uma mão estendida para Aelin enquanto ela se aproximava. Cada um de seus passos parecia ser considerado – como se ela ainda se maravilhasse de poder se mover livremente. Como se ainda estivesse se ajustando às pernas sem o peso das correntes.
— Por quê? — Lorcan reflatiu em voz alta, mais para si mesmo. — Por que ir até esses limites por nós?
Ele obteve sua resposta – todos eles obtiveram – algumas batidas de coração mais tarde.
Aelin parou a poucos metros do barco e da mão estendida de Rowan. Ela se voltou para a caverna. O Povo Pequeno espiava daqueles galhos de bétula, das rochas, de trás das estalagmites.
Lentamente, profundamente, Aelin se inclinou para eles. Rowan poderia jurar que todas aquelas cabeças minúsculas se abaixaram em resposta. Um par de mãos cinzentas e esbranquiçadas ergueu-se acima de uma rocha próxima, algo reluzente entre elas, e colocou um objeto sobre a pedra.
Rowan ficou parado. Uma coroa de prata e pérola e diamante brilhava ali, formada por asas de cisne.
— A Coroa de Mab — Gavriel respirou.
Mas Fenrys apenas desviou o olhar, olhando para a escuridão iminente, a cauda enrolada ao seu redor.
Aelin cambaleou um passo mais perto da coroa.
— Ela tinha caído no rio.
Rowan não queria saber como ela a tinha encontrado, por que a vira cair em um rio.
Maeve manteve as duas coroas de suas irmãs sob guarda constante, só as trazendo para serem exibidas em sua sala do trono em ocasiões de estado. Em memória a suas irmãs, ela entoava. Rowan às vezes se perguntava se era um lembrete de que ela havia sobrevivido a elas, que mantivera o trono para si no final.
As mãos cinzentas deslizaram sobre a borda da rocha novamente e cutucou a coroa em um gesto silencioso. Pegue.
— Você quer saber por quê? — Gavriel perguntou suavemente a Lorcan enquanto Aelin caminhava em direção à rocha. Nada além de solene reverência em seu rosto. — Porque ela não é apenas a herdeira de Brannon, mas também de Mab.
Voltando à sua tataravó, Maeve a insultara. De quem herdara sua força, sua vida imortal.
Os dedos de Aelin se fecharam ao redor da coroa, erguendo-a gentilmente. Brilhava como o luar vivo entre as mãos dela.
A linhagem da minha irmã Mab corre verdadeira, Elide alegou que Maeve dissera na praia. De todas as formas, parecia.
Mas Aelin não fez nenhum movimento para colocar a coroa enquanto se aproximava dele mais uma vez, sua marcha mais firme desta vez. Tentando não se debruçar sobre a insuportável maciez de sua mão ao envolvê-la, Rowan a ajudou a subir, depois subiu ele antes de soltar as cordas que os prendiam na praia.
Gavriel continuou, maravilhado em cada palavra:
— E isso faz dela a rainha deles, também.
Aelin encontrou o olhar de Gavriel, a coroa quase brilhando em suas mãos.
— Sim — foi tudo o que ela falou enquanto o barco navegava para a escuridão.

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