5 de outubro de 2018

Capítulo 35

JÁ CONSEGUIA OUVIR O AURANZEB COMEÇANDO do outro lado da parede. O som de risadas flutuava até o harém, alto e claro como um sino, uma profusão de vozes mirajins e estrangeiras, com a música suave de pano de fundo.
Estávamos à sombra das paredes, do lado de fora do portão. Os grupos de garotas arrumadas com perfeição sussurravam ao meu redor. Elas mantinham distância de mim.
Ninguém no harém parecia ter certeza do meu papel nos eventos relacionados à abençoada sultima, mas isso não havia impedido os rumores de se espalhar. Algumas até diziam que tinham me visto ajudar Kadir a afogar Fadi. Eu sabia que estavam mentindo porque Hala não era tola ou rancorosa o suficiente para plantar aquela imagem na cabeça delas. Olhei em volta procurando Leyla, uma aliada, mas não consegui encontrá-la à luz fraca que vinha do outro jardim. Ali, só ouvíamos o ruído de tecidos em movimento e sussurros animados ocasionais. Parecíamos criaturas presas na jaula, aguardando. Expirei longamente, tentando acalmar meu coração acelerado.
Então era isso. Libertaríamos Leyla e os djinnis. E, de um jeito ou de outro, seria minha última noite no harém.
Passei a mão instintivamente pelo lado esquerdo do corpo, um tique nervoso adquirido nos dias anteriores que vinha tentando perder. A última coisa de que precisava era alguém notando o pequeno corte cicatrizando embaixo do meu braço, de onde Tamid havia tirado o pedaço de bronze que havia sob minha pele. Os de ferro ainda estavam lá. Ele me disse, sem olhar nos meus olhos, que não planejara removê-los quando os colocou sob minha pele, e eu poderia sangrar até a morte durante o processo. Mas eu entendia a verdade por trás de seus motivos. Ele estava disposto a me ajudar a fugir, mas não ia ajudar a rebelião devolvendo meus poderes. Não era um traidor como eu.
Os protestos tinham durado a noite inteira depois da morte de Shira. Estavam sendo chamados de Insurreição da Abençoada Sultima. Mas a história era escrita pelos vencedores. Se perdêssemos a guerra, havia grandes chances de mudarem o nome para Insurreição da Sultima Desgraçada. A tensão que haviam deixado no ar era um balde de água fria nos preparativos para o Auranzeb. Podia sentir isso mesmo dentro da segurança das paredes do palácio.
Quando o dia raiou depois da noite de revolta, a rebelião tinha tomado conta de parte da cidade. Sam me contara que nosso lado havia usado o ocorrido para erguer barricadas por todo o caminho, isolando e reivindicando a maior parte dos bairros pobres e algumas outras áreas da cidade.
Em uma única noite, havíamos conquistado território para a rebelião na própria capital. Se isso não mandava uma mensagem, não sabia o que mais mandaria.
Havia sóis pintados em construções por toda a cidade, inclusive num muro no coração do palácio, com tinta vermelha brilhante, o que era mais perturbador.
Ninguém conseguiria fazer isso exceto Imin, claro. Mas agora ela era uma pequena e ingênua serviçal na cozinha, e ninguém suspeitaria que uma pessoa tão miúda fosse capaz de alcançar uma altura daquelas.
O amanhecer revelou cadáveres espalhados pelas ruas. Muitos deles vestiam uniformes. De acordo com Sam, Shazad tinha conduzido uma estratégia impecável nas ruas da cidade, como fazia no campo de batalha. E mesmo que parte de suas tropas achasse que só estava saqueando a cidade e provocando incêndios, ela havia conseguido conduzir a todos cuidadosamente, liderando-os como soldados mesmo que não soubessem disso.
Ainda assim, embora tivéssemos conquistado mais do que perdido, existia uma tensão entre os rebeldes. Se havia um momento para o sultão voltar seu novo exército djinni contra nós, era aquele.
Mas já haviam se passado três dias e nenhum imortal caminhava pelas ruas. Ainda era uma guerra entre humanos. E demdjis. E à noite eu voltaria para o lado ao qual pertencia.
As serviçais do harém haviam me vestido com as cores de Miraji. Branco e dourado. Como o Exército. Só que eu parecia um tipo diferente de soldado. O branco brilhava pálido e opulento perto da minha pele escura do deserto. O tecido se agarrava à minha pele como os dedos de um amante, terminando em uma bainha pesada com bordados dourados que subiam pela roupa, repletos de pérolas. Imaginei como seria caminhar entre as esposas de Kadir, com elas tentando agarrar meu khalat como haviam feito com as pedras preciosas nas piscinas. Meus braços estavam descobertos dos cotovelos para baixo, exceto meus punhos, onde pesados braceletes dourados tilintavam. Sob a luz radiante, o pó de ouro polvilhado sobre todo o meu corpo fazia parecer que o sol morava sob minha pele.
Elas haviam discutido sobre meu cabelo curto antes de finalmente se resignarem a passar óleos adocicados nele, para que ficasse liso. Trançaram fios de ouro puro por toda a minha cabeça, formando faixas que se misturavam aos fios negros e brilhavam na luz. Eu não conseguia mais me importar com o comprimento do meu cabelo. A raiva que havia sentido de Ayet desaparecera quando eu a vira encolhida no chão da prisão, os olhos vidrados. Ela havia lutado e perdido, e eu sentia pena dela. Ao terminarem, as serviçais me coroaram com uma pequena argola feita de folhas de ouro em miniatura com pérolas penduradas. Minha boca foi pintada de um tom mais escuro de dourado.
Todas as mulheres do harém com permissão de entrar na festa estavam vestidas nas mesmas cores que eu, o branco e o dourado mirajins. Mas eu estava deslumbrante. Como uma escultura intocável de ouro que devia ser exposta em um palácio e admirada. Não havia sobrado nada da garota do deserto. Estava mais bonita do que nunca, mas me sentia artificial, como se fosse outra pessoa.
Mas eu sabia quem era. Eu ainda era uma rebelde.
E naquela noite daríamos um golpe certeiro.
— E anunciamos agora — o chamado veio do outro lado da porta — as flores do harém. — Um burburinho de expectativa veio da multidão. As portas foram abertas. As garotas ao meu redor correram como crianças em direção a um novo brinquedo.
Fui empurrada enquanto seguia num ritmo mais lento. Imaginei que, para os convidados, aquilo devia ser como observar pássaros serem libertados das gaiolas, uma revoada de branco e ouro enquanto avançávamos por entre as pessoas.
Os jardins pareciam sedutores à luz do fim do dia. As fontes borbulhavam alegremente entre os convidados, que vestiam suas roupas mais finas; a música e o cheiro dos jardins e de boa comida se misturavam magicamente. Bem acima de nós, havia cordas esticadas de um lado a outro cortando o céu, com pequenas decorações penduradas, refletindo a luz. Quando inclinei a cabeça para trás, vi que eram pássaros de vidro presos por fios dourados. Uma serviçal passou por mim com uma bandeja de bolos macios polvilhados com pó branco. Peguei um e enfiei na boca, sentindo o gosto do açúcar explodir na minha língua enquanto derretia. Tentei saboreá-lo, mas ele se dissolveu rapidamente, até que houvesse restado apenas sua lembrança entre a ponta da língua e o céu da boca.
Ouvi sussurros brotarem da multidão enquanto passávamos. A rainha albish reparou em uma garota que trajava um vestido de pura musselina e revelava muito mais do que se esperaria, então desviou os olhos com aversão, passando as mãos sobre a própria saia longa e pesada.
Eu a ignorei, preferindo procurar rostos conhecidos, como Shazad ou Rahim. Cruzei o olhar com o sultão, do outro lado da multidão. Alguns convidados pareciam estar se divertindo como se aquela fosse sua última noite. Mas não ele. O governante estava atento como nunca. Ergueu uma taça ainda cheia para mim num brinde antes de desviar sua atenção. Deixei escapar um longo suspiro. Eu não podia levantar suspeitas.
Resolvi pegar uma rota lenta que contornava os jardins. Como se não estivesse procurando ninguém.
Rahim me encontrou antes que eu pudesse avançar muito.
— Meu aclamado pai me designou para ficar de olho em você esta noite. — Ele estava usando um uniforme de gala branco impecável e, na lateral, uma espada que não parecia nada decorativa. — Há um número considerável de estrangeiros por aqui e, aparentemente, mesmo depois de quase deixar que você fosse estrangulada, ainda sou confiável.
— Uma vez, por minha causa, alguém perdeu a mão numa emboscada. — Eu havia acabado de chegar à rebelião quando aquilo acontecera. Tinha sido após Fahali, antes de levar um tiro na barriga. — Mais tarde, quando Ahmed me enviou numa incursão similar, perguntei se ele realmente confiava em mim. Ele disse que eu tinha menos chance de cometer o erro pela segunda vez do que outra pessoa teria de cometer pela primeira.
— Bem, vamos torcer para que seja a única coisa que meu irmão e meu pai tenham em comum. Dito isso, vamos encontrar sua rebelião. — Ele me estendeu o braço branco do uniforme. Ergui as mãos douradas, como se me desculpasse. — Ah, claro. — Ele baixou o braço. — Olhe, mas não toque.
Caminhamos lado a lado pelo jardim iluminado. Em uma noite como aquela, seria fácil esquecer que celebrávamos o golpe do sultão. Duas décadas antes, no mesmo dia, ele havia se aliado aos gallans e tomado o país à força. Quando o sol se pôs, seu pai estava no trono. Quando amanheceu, ele foi encontrado morto em seu leito, e o palácio tinha sido tomado pelos estrangeiros. O sultim foi encontrado caído no jardim, como se tivesse tentado correr. Muitos de seus irmãos tiveram o mesmo destino. Oman não ia tolerar nenhuma disputa pelo trono. Deixara viver apenas as mulheres e os irmãos mais novos. Vinte anos antes, o palácio havia sido palco de morte e sangue, e agora música e luzes agradáveis preenchiam o ar, e o burburinho da conversa parecia tentar afastar as memórias daquela noite.
Só que tinha as estátuas. Entre os convidados, músicos e serviçais circulando com vinho e comida, havia esculturas feitas do que parecia ser barro e bronze espalhadas pelo jardim. Elas tinham sido entalhadas em formas agonizantemente retorcidas, de joelhos, os braços para cima como se estivessem se protegendo.
— Conheci o príncipe Hakim quando ele era garoto, sabia? — Um lorde ou algum outro nobre mirajin falava com uma bela jovem, gesticulando em direção a uma estátua.
Elas eram réplicas dos príncipes. Esculturas de bronze dos doze irmãos que o sultão havia assassinado para tomar o trono.
Alguém havia pousado a bebida na palma virada para cima de uma das estátuas, fazendo com que o rosto agonizante do príncipe morto olhasse para uma taça de vinho pela metade com marcas de dedo oleosas.
— Bem, é isso que chamo de mau gosto — uma voz disse no meu ouvido, me fazendo pular. Um serviçal baixinho estava ao meu lado com uma bandeja cheia de basbousa. Tive a estranha sensação de conhecê-lo, embora não parecesse familiar. Até que ele revirou os olhos.
— Imin. — Olhei em volta com cuidado para verificar se alguém nos escutava.
— Essas cores não ficam nem um pouco bem em você. — Ela me avaliou de cima a baixo. Se eu ainda tivesse alguma dúvida de quem se tratava, evaporaria com o desdém naqueles olhos amarelos brilhantes que entregavam a demdji.
— Ele é um dos nossos? — Rahim adivinhou. — Como conseguiu entrar? — O príncipe não sabia nem metade da história, mas aquele não era o momento de explicar.
— Tenho meus truques. — Imin pegou um bolo da própria bandeja e enfiou na boca. — Shazad está procurando vocês dois. — Ela lambeu os dedos e apontou. Shazad estava um pouco afastada, o cabelo preso em tranças apertadas em volta da cabeça, como uma coroa. — Ela acha que é hora de cumprir sua parte do acordo e nos apresentar a quem quer que seja que tenha esse suposto exército.
— Ela faz parte da rebelião? — Incrédulo, Rahim inspecionou Shazad do outro lado do jardim. — A filha do general Hamad? Sempre pensei que fosse só um rostinho bonito.
— Você e todo mundo — eu disse. — Foi por isso que imaginamos que ela não seria revistada com muita atenção quando entrasse. Shazad deve ter trazido explosivos suficientes para libertar cada djinni preso nas catacumbas.
— Explosivos — Rahim repetiu, nervoso.
— Você não contou para ele essa parte do plano? — Imin perguntou, enfiando mais comida na boca.
— Nem tínhamos um plano até alguns dias atrás — eu disse, na defensiva. — Estive ocupada desde então. — Minha mão desceu para o pequeno corte na lateral do corpo.
Imin virou para Rahim.
— De acordo com Shazad, em cada Auranzeb, quando o sol se põe, o sultão faz um discurso, o que significa que todos estarão prestando atenção nele. Sam vai aproveitar esse momento para atravessar as paredes com Amani e Shazad. — Imin apontou com a cabeça nosso aliado. Eu mesma tive dificuldade de identificá-lo, porque vestia um uniforme do Exército albish. Então era assim que estava circulando sem levantar suspeitas.
— Não é crime fingir ser um soldado? — Meu coração começou a acelerar.
Havia tanta coisa que podia dar errado naquela noite. Não ter certeza se poderíamos contar com Sam era só uma delas.
— Ouvi dizer que também é crime desertar do Exército albish. — Imin passou a língua nos dentes, tentando soltar uma semente que havia ficado presa. Ela daria uma péssima serviçal. Era impressionante que tivesse chegado tão longe sem ser pega. Mas tinha razão: o uniforme ficava bem demais em Sam para ter sido roubado. Bem demais para ser qualquer coisa que não um uniforme feito sob medida para ele. Passei os olhos pelo aglomerado de soldados albish acompanhando sua rainha. Sam estava correndo um grande risco por ser um desertor no meio deles. E estava correndo esse risco por nós.
Enquanto eu observava, ele olhou para o outro lado do jardim, não desgrudando os olhos de Shazad, que agora vinha em nossa direção. Então eu percebi que ele não estava correndo aquele risco por nós, exatamente. Já tinha visto homens se apaixonarem por Shazad antes, mas ela nunca retribuíra. Isso não podia acabar bem.
— Hala vai estar do outro lado da parede — Imin prosseguiu. — E vai fazer vocês desaparecerem por tempo suficiente para chegar aos djinnis e armar os explosivos.
— E minha irmã? — perguntou Rahim. Ele a procurava com os olhos pelo jardim.
Percebi então que ainda não a tinha visto.
— Você não é muito paciente. — Imin fez uma pausa para mastigar. — Se tudo correr de acordo com o plano, Sam vai tirar Shazad e Amani do palácio depois de explodirem as catacumbas, e então vai voltar por aquele muro para levar você e sua irmã. — Ela apontou novamente, olhando para o outro lado.
— Você pega Leyla e espera Sam no canto sul do jardim, longe do caos que vai se instaurar depois da explosão — eu disse, mudando de posição com cuidado quando alguém passou por nós, perigosamente perto para ouvir a conversa.
— Então Hala vai levar Tamid, protegido por uma de suas ilusões, e, em meio ao caos, eu vou parecer só mais um serviçal correndo de uma explosão. O que pode dar errado?
— Um monte de coisas — Rahim apontou.
— Ainda está longe de ser o pior plano que já elaboramos — tentei confortá-lo.
— Nosso pior plano terminou com você inundando uma casa de oração — Imin comentou, o que era verdade, embora inútil no momento. — Então isso não quer dizer muito.
— Todo mundo sobreviveu — argumentei, na defensiva. Rahim olhou para mim parecendo desconfortável.
— Bem-vindo à rebelião. — Shazad havia nos alcançado. Ela cumprimentou Rahim com um sorriso devastador. — A gente se vira como pode. E então, vai nos conseguir um exército ou não?


Encontramos lorde Balir, emir de Iliaz, recostado em uma das esculturas grotescas.
Ele era jovem, mas parecia exausto pela vida, ou talvez por sua própria arrogância.
Não seria inteligente dizer aquilo quando estávamos tentando formar uma aliança, no entanto. Era melhor deixar Shazad falar.
— Então. — Lorde Balir me olhou de cima a baixo. — Você é a rebelde de olhos azuis de quem todos estão falando. — Ele olhou para Shazad. — E você deve ser o rosto desta operação. É bonita demais para ser qualquer outra coisa. — Observei minha amiga morder o lábio de raiva.
— E você é o emir pensando em virar rebelde. — Ela manteve o sorriso o tempo inteiro e gesticulou delicadamente. Olhando para ela, daria para pensar que era apenas uma garota bonita flertando com um homem. Não uma rebelde planejando uma guerra em grande escala. Notei por que lorde Balir havia optado por nos esperar naquele canto do jardim. A música que atravessava as paredes cobria qualquer conversa ao nosso redor, então provavelmente cobriria nossas palavras. Ainda assim, Shazad falou baixo.
— Eu puxei ao meu pai. — Lorde Balir deu de ombros lentamente, levantando a borla elaborada nas mangas. Tive a impressão de ver Rahim revirar os olhos incrédulo. Mas quando o encarei, ele estava com uma expressão firme de soldado. Rahim havia servido primeiro sob o comando do pai de lorde Balir. Ele saberia melhor do que ninguém se o filho realmente chegava aos pés do pai. — Ele não era leal ao trono. Nunca perdoou o sultão Oman por entregar Miraji aos estrangeiros. Ele costumava falar o tempo inteiro de como Iliaz é a região mais poderosa do país, de como o resto dependia de nós. Ele falaria até seus ouvidos sangrarem sobre como Iliaz era autossuficiente.
— Está dizendo que quer independência em troca do seu exército? — Certamente aquilo não era pedir muito.
— Está em posição de negociar isso comigo?
Sequestrar Delila sem permissão era uma coisa. Entregar parte do país de Ahmed sem sua permissão era algo que nem mesmo eu e Shazad poderíamos fazer.
— Não — Shazad disse. — Não sou bonita o suficiente para isso. — Deixei escapar uma risada discreta. Ela quase me deu uma cotovelada, esquecendo meu machucado, mas se segurou antes de finalizar o gesto, fazendo parecer que estava arrumando a roupa. — Mas podemos levá-lo a Ahmed. — Ela fez uma pausa dramática. — Desde que nos dê alguns números impressionantes.
Lorde Balir ergueu uma sobrancelha para Rahim. Seu comandante respondeu por ele.
— Há três mil homens estacionados em Iliaz. O dobro disso na província, podendo ser convocados novamente.
— E há armamento suficiente para todos? — Shazad disfarçou a pergunta tática com uma risada calculada, tocando o braço de Rahim como se ele tivesse acabado de dizer algo hilário.
— Amani. — Imin, ainda com a aparência de um serviçal, reapareceu ao nosso lado e fez uma mesura elaborada. — O sultão está vindo nessa direção.
Eu e Shazad nos entreolhamos.
— Vá — ela disse. — Eu cuido disso.
Eu estava nervosa demais para comer ou beber qualquer coisa quando os deixei. Fingi que inspecionava as estátuas horríveis que cercavam o jardim para não chamar atenção e resistir à vontade de olhar por cima do ombro de tempos em tempos para ver as negociações de Shazad, lorde Balir e Rahim. Os rostos das estátuas me lembravam Noorsham. Com a diferença de que sua máscara de bronze tinha sido lisa e inexpressiva. Eram terríveis lembretes do que o sultão poderia fazer conosco se descobrisse nossa traição antes que conseguíssemos escapar.
— Anunciando agora — a voz soou novamente pelo pátio — o príncipe Bao do glorioso império de Xicha.
Senti aquela fisgada que vinha sempre que algo me lembrava de Jin.
Uma pequena multidão de xichans parou no topo da escada. Estavam todos vestidos em roupas brilhantes que pareciam tão estrangeiras quanto tudo que eu já tinha visto os gallans usarem, mas ao mesmo tempo completamente diferentes. Eu via Delila usar um vestido xichan de vez em quando, mas não havia uma única mulher entre eles.
Um manto verde e azul caía sobre o corpo franzino do homem à frente do grupo. Os seis homens em volta dele vestiam trajes similares. Todos me lembravam de Mahdi e do restante do grupo erudito de Ahmed.
Exceto por uma pessoa na parte de trás. Ele não era alto, mas seus ombros eram mais largos do que o daqueles homens que o cercavam, e se portava como se estivesse pronto para a luta.
Minha boca ficou seca.
Senti a fisgada mais forte. Dei um passo à frente sem querer, tentando ver mais de perto. Através da multidão, entre a massa de pessoas, ele virou o rosto diretamente para mim. Como se estivéssemos conectados por algum tipo de elo invisível. Como se fôssemos agulhas de bússolas sincronizadas.
Os olhos de Jin encontraram os meus. Eu havia me enganado. Ele não tinha o mesmo sorriso do pai. Porque aquela curvinha travessa em sua boca era toda nossa.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!