29 de outubro de 2018

Capítulo 34

— Precisamos nos retirar — Galan Ashryver ofegou para Aedion enquanto eles estavam parados perto da tenda de água nas fileiras do exército, o príncipe herdeiro sujo de sangue vermelho e preto.
Três dias de batalha no vento gelado e na neve, três dias sendo empurrados para o norte quilômetro após quilômetro. Aedion trocava os soldados nas linhas de frente, e aqueles que conseguiam pegar alguns minutos de sono voltavam para a luta com os pés mais pesados e cansados.
Ele próprio havia deixado a linha de frente minutos atrás, só depois que Kyllian ordenou que ele o fizesse, indo tão longe a ponto de jogar Aedion para trás dele, a Devastação empurrando-o rudemente para trás até que ele estivesse aqui, junto ao príncipe herdeiro de Wendlyn que bebia água, no lado mais distante de suas forças. A pele cor-de-oliva do príncipe estava pálida, os olhos de Ashryver escurecidos enquanto eles monitoravam os soldados correndo ou passando.
— Nós nos retiramos para cá, e devemos ser perseguidos por todo o caminho até Orynth. — A garganta inflamada de Aedion doía com cada palavra.
Ele nunca tinha visto um exército tão grande. Mesmo em Theralis, todos esses anos atrás.
Galan entregou a Aedion seu odre de água, e Aedion bebeu profundamente.
— Vou segui-lo, primo, para que isso termine, mas não podemos continuar assim. Não por outra noite inteira.
Aedion sabia disso. Tinha percebido depois que os combates continuaram sob a cobertura da escuridão.
Quando os homens começaram a perguntar por que Aelin do Fogo Selvagem não queimava seus inimigos. Pelo menos não lhes deu luz para lutar.
Por que ela havia desaparecido novamente.
Lysandra vestira sua forma de serpente alada para lutar contra os ilken, mas tinha sido forçada a ceder, a ficar para trás das linhas deles. Boa para matar ilken, sim, mas também um grande alvo para os arqueiros e atiradores de lança de Morath.
À frente, perto demais para o conforto, gritos e armas se erguiam em direção ao céu. Até mesmo a magia da realeza dos feéricos começava a vacilar, seus soldados com eles. Onde ele falhavam, os Assassinos Silenciosos esperavam, destruindo valg e ilken com eficiência. Mas simplesmente havia apenas muitos inimigos. E ainda não havia sinal do exército de Ansel de Penhasco dos Arbustos.
Logo, a rainha ruiva prometera com gravidade atípica apenas algumas horas antes, a legião com ela já diminuindo rapidamente. O resto do meu exército estará aqui em breve.
Rosnados elevaram-se por perto, cortando o som da batalha. O leopardo fantasma não havia vacilado, mal havia parado para descansar.
Ele inha que sair de novo. Tinha que comer alguma coisa e sair de novo. Kyllian poderia manter a ordem por um bom tempo, mas Aedion era seu príncipe. E sem Aelin à vista... era tarefa dele manter os soldados na linha.
Embora essas linhas estivessem afundando, como vazamentos em uma represa.
— O Rio Lanis, de Perranth — murmurou Aedion enquanto Ilias e os Assassinos Silenciosos derrubavam ilkens do céu, suas flechas encontrando seus alvos facilmente. Asas primeiro, eles aprenderam da maneira mais difícil. Para derrubá-los do ar. Então lâminas na cabeça, para decapitar completamente.
Ou então eles se levantariam novamente. E lembrariam de quem tentou matá-los.
— Se recuarmos para o norte — prosseguiu Aedion — chegar a Perranth e atravessarmos o rio, poderíamos forçá-los a fazer a travessia também. Estreitar suas fileiras.
— Há uma ponte lá? — O rosto de Galan se apertou quando um dos dois príncipes valg restantes enviou uma onda de poder sombrio para um grupo de soldados. Homens murcharam como flores em uma geada.
Uma rajada de vento e gelo respondeu – Sellene ou Endymion. Talvez um dos seus muitos primos.
— Não uma ponte grande o suficiente. Mas uma parte congelada do rio – podemos atravessá-lo e depois derreter.
— Com Aelin. — Uma pergunta duvidosa e cuidadosa.
Aedion gesticulou em direção à fonte daquela resposta de magia, agora em guerra com o poder dos príncipes valg.
— Se os príncipes feéricos podem fazer gelo, podem descongelá-lo. Bem debaixo dos pés de Morath.
Os olhos azul-turquesa de Galan cintilaram, fosse pelo plano ou pelo fato de que Aelin não agiria nele.
— Morath pode ver através de nós.
— Há poucas opções. — De Perranth, eles teriam acesso a mais suprimentos, talvez novas tropas se reunindo a eles da própria cidade. Para recuar, entretanto...
Aedion examinou as linhas sendo diminuídas uma a uma, os soldados em suas últimas forças.
Retire-se e viva. Lute e morra. Pois essa resistência afundaria, se eles permanecessem. Aqui, nas planícies do sul, eles terminariam.
Não havia garantia de que Rowan e os outros encontrariam Aelin. Que Dorian e Manon conseguiriam recuperar a terceira chave de Wyrd e depois entregá-las a sua rainha, se ela se libertasse, caso os encontrasse nesta confusão de mundo. Não havia garantia de quantas Crochans Manon conseguiria reunir, se ainda havia alguma.
Com o exército espalhado ao longo da costa de Terasen para ser de alguma utilidade, apenas as forças remanescentes de Ansel de Penhasco dos Arbustos poderia oferecer algum alívio. Se não fossem todos os ossos limpos, a essa altura.
Havia pouca escolha a não ser aguentar até que eles chegassem. Seus últimos aliados.
Porque Rolfe e os micênios... não havia garantia de que eles viriam. Nenhuma palavra.
— Ordene a retirada — disse Aedion ao príncipe. — E avise a Endymion e Sellene que precisaremos do poder deles assim que começarmos a correr.
Jogar toda a magia deles em um poderoso escudo para proteger suas costas enquanto tentavam colocar tantos quilômetros entre eles e Morath quanto possível.
Galan assentiu com a cabeça, enfiando o elmo sangrento no cabelo escuro e percorrendo a massa caótica de soldados.
Uma retirada. Breve, rápida. Todo o seu treinamento, dos anos brutais de aprendizado, luta e liderança, para chegar a esse ponto.
Eles alcançariam Perranth?


A ordem com que o exército marchara para o sul desmoronou completamente na corrida de volta para o norte. As tropas dos feéricos ficaram na retaguarda, com escudos mágicos empenando-se, mas ainda segurando. Mantendo as forças de Morath à distância no sopé das montanhas enquanto eles recuavam em direção a Perranth.
Os resmungos entre os soldados exaustos e mancos passavam por Lysandra enquanto ela se arrastava entre eles, usando a forma de um cavalo. Ela permitiu que um jovem montasse nas costas dela quando viu suas entranhas quase saindo de sua armadura emprestada.
Por longos quilômetros, seu sangue que escorria aqueceu seus flancos enquanto ele estava esparramado sobre ela.
O gotejamento quente havia parado há muito tempo. Congelado.
Assim como ele.
Ela não teve coragem de desalojá-lo, de deixar seu corpo morto no campo para ser pisoteado. O sangue congelado o grudara nela de qualquer maneira.
Cada passo foi um esforço de vontade, suas próprias feridas se curando mais rápido que as dos soldados ao seu redor. Muitos caíram durante a marcha em direção a Perranth. Alguns foram apanhados, puxados por seus companheiros ou estranhos.
Alguns não se levantaram novamente.
A resistência não deveria se desfazer tão cedo.
Os resmungos pioraram quanto mais perto de Perranth eles chegavam, apesar de algumas poucas horas de descanso naquela primeira noite. Onde está a rainha? Onde está o fogo dela?
Ela não podia lutar como Aelin – não de forma convincente, e não bem o suficiente para permanecer viva. E quando a Portadora do Fogo lutasse sem chamas... eles poderiam saber então.
Ela fugiu. Novamente.
Dois Assassinos Silenciosos notaram na segunda noite que o soldado morto ainda estava deitado nas costas de Lysandra. Não disseram nada enquanto juntavam água morna para derreter o sangue e o gelo que o prendiam a ela. Então para lavá-la.
Em sua forma de égua, ela não tinha palavras para oferecer-lhes, não tinha como perguntar se eles sabiam o que ela era. Eles a trataram com gentileza, no entanto.
Ninguém fez um movimento para alcançar o cavalo solitário vagando pelo acampamento em ruínas. Alguns soldados ergueram tendas. Muitos só dormiram ao lado do fogo, sob mantos e jaquetas.
Seus ouvidos latejavam. Sons abafados soavam desde o primeiro confronto da batalha.
Ela não sabia como encontrou a tenda dele, mas lá estava ela, aberta para a noite para revelá-lo de pé com Galan, Ansel e Ren.
As sobrancelhas de lorde Allsbrook se ergueram quando ela entrou, a cabeça quase batendo no teto.
Um cavalo. Ela ainda era um cavalo.
Ren cambaleou em direção a ela, apesar da exaustão que certamente pesava em cada centímetro dele.
Lysandra se atrapalhou com o fio dentro dela, o fio que a levaria ao seu corpo humano, a luz cintilante que se encolheria nela.
Os quatro apenas olharam enquanto ela o encontrou, lutou pela transformação. A magia arrancou a última força dela. No momento em que estava novamente em sua própria pele, ela já caía no chão coberto de feno.
Ela não sentiu o frio bater em sua pele nua, não se importou quando desabou de joelhos.
Ansel já estava lá, jogando seu manto ao redor dela.
— Onde diabos você esteve?
Até mesmo a rainha das Terras Planas estava pálida, o cabelo vinho avermelhado colado à cabeça por baixo da terra e do sangue.
Lysandra não tinha mais nenhuma palavra dentro de si. Só podia ficar ajoelhada segurando o manto.
— Nós nos sairemos uma hora antes do amanhecer — disse Aedion, a ordem com um claro tom de dispensa.
Ansel e Galan assentiram, saindo da tenda.
Ren apenas murmurou:
— Trarei comida, senhora — antes de sair da tenda.
Botas trituraram feno e depois ele estava de joelhos diante dela. Aedion.
Não havia nada de gentil em seu rosto. Nenhuma pena ou calor.
Por um longo minuto, eles apenas se encararam. Então o príncipe rosnou baixinho:
— O plano de vocês foi idiota. — Ela não disse nada e não conseguiu impedir que seus ombros se curvassem para dentro. — Seu plano foi idiota — ele respirou, com os olhos faiscando. — Como você poderia ser ela, usar sua pele e pensar em se safar? Como poderia pensar que conseguiria contornar o fato de que nossos exércitos estão contando com você para queimar o inimigo em cinzas, e tudo o que pode fazer é fugir e emergir como uma fera em vez disso?
— Você não conseguirá forçar esse arrependimento em mim — ela murmurou. As primeiras palavras que ela falou em dias e dias.
— Você concordou em deixar Aelin ir para a morte e nos deixar aqui para sermos rasgados em fitas ensanguentadas. Vocês duas não falaram a ninguém desse plano, não falaram a nenhum de nós que poderia ter explicado as realidades desta guerra, e que seria necessário uma maldita Portadora do Fogo e não uma metamorfa inútil w destreinado contra Morath.
Golpe depois de golpe, as palavras atingiram seu coração cansado.
— Nós...
— Se estava tão disposta a deixar Aelin morrer, então deveria tê-la deixado fazer isso depois que ela incinerasse as hordas de Erawan!
— Não teria impedido Maeve de capturá-la.
— Se tivessem nos contado, nós poderíamos ter planejado de forma diferente, agido de forma diferente, e não estaríamos aqui, droga!
Ela olhou para o feno lamacento.
— Expulse-me do seu exército, então.
— Vocês estragaram tudo. — Suas palavras eram mais frias do que o vento lá fora. — Você e ela.
Lysandra fechou os olhos.
Feno sussurrou, e ela sabia que ele tinha se levantado, sabia quando suas palavras soaram por cima de sua cabeça abaixada.
— Saia da minha tenda.
Ela não estava certa de que conseguiria se mover o suficiente para obedecer, embora ela desejasse. Precisasse.
Lute de volta. Ela deveria lutar de volta. Mostrar sua raiva enquanto ele a atacava, precisando de uma saída para seu medo e desespero.
Lysandra abriu os olhos, olhando para ele. Para a raiva em seu rosto, o ódio.
Ela conseguiu ficar de pé, seu corpo gritando de dor. Conseguiu olhá-lo nos olhos, mesmo quando Aedion disse novamente com um frio calmo:
— Saia.
Com os pés descalços na neve, nua sob o manto. Aedion olhou para as pernas nuas, como se agora percebesse. E não se importasse.
Então Lysandra assentiu, apertando mais a capa de Ansel, e saiu para a noite gelada.


— Onde ela está? — Ren perguntou, uma tigela do que cheirava a sopa aguada em uma mão, um pedaço de pão na outra. O lorde examinou a tenda como se fosse encontrá-la sob o catre ou o feno.
Aedion olhou para os preciosos troncos queimando no braseiro e não disse nada.
— O que você fez? — Ren sussurrou.
Tudo estava prestes a terminar. Estava condenado desde que Maeve havia roubado Aelin. Desde que sua rainha e a metamorfa haviam concordado.
Então não se importava com o que dissera. Não se importava se não era justo, se não era verdade.
Não se importava que estivesse tão cansado que não conseguia sentir vergonha ao culpá-la pela derrota certa que eles enfrentariam em questão de dias nas muralhas de Perranth.
Ele queria que ela tivesse batido nele, gritado com ele.
Mas ela apenas o deixou se enfurecer. E saiu para a neve, descalça.
Ele prometera salvar Terrasen, manter as linhas. Fizera isso por anos.
E ainda este teste contra Morath, quando contava... ele falhou.
Ele reuniria forças para lutar novamente. Para reunir seus homens. Ele só... ele precisava dormir.
Aedion não percebeu quando Ren saiu, sem dúvida em busca da metamorfa pela qual estava tão malditamente enamorado.
Ele devia convocar seus comandantes da Devastação. Ver como eles pensavam em gerenciar esse desastre.
Mas ele não podia. Não podia fazer nada além de encarar aquele fogo enquanto a longa noite passava.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!