5 de outubro de 2018

Capítulo 34


NÃO SOUBE AO CERTO DE ONDE VEIO a primeira pedra. Ela foi arremessada de algum lugar no meio da multidão e bateu na parede perto da sacada.
— Uma nova alvorada! — alguém gritou em meio à multidão. — Um novo deserto! — O grito se espalhou pela praça. O público se transformou numa turba revoltosa numa velocidade assustadora. Outra pedra voou, batendo na treliça de madeira. O guarda mais próximo recuou instintivamente. Aqueles que estavam comigo na área descoberta, mais expostos, começaram a se retirar.
Vi quando se preparavam para jogar uma bomba lá de baixo. O brilho de fogo na multidão. Uma garrafa com tecido queimando sendo arremessada em direção à sacada.
Entrei rapidamente para buscar proteção. Enquanto me preparava para me jogar no chão, vi Tamid olhando fixamente pela treliça, o rosto pressionado nas aberturas, os dedos enfiados na madeira esculpida. Agarrei-o e o puxei para o chão no exato instante em que a garrafa acertou a madeira, explodindo em chamas e vidro.
Quando olhei para cima, tossindo, parte da treliça havia sido destruída, e o restante pegava fogo. Um soldado que não havia conseguido se afastar caiu no chão, gritando de agonia enquanto sangue brotava de um lado de seu rosto, arruinado. Tamid olhou assustado para o homem. Não estava tão acostumado quanto eu a escapar da morte.
— Bombas incendiárias, como as que costumávamos fazer em casa — expliquei, me afastando dele.
Dei uma rápida olhada em volta, garantindo que ninguém havia nos notado. O caos era uma distração. O sultão já havia desaparecido. Devia ter ido procurar um lugar seguro ou dar ordens para proteger o palácio. Para reprimir as pessoas. Eu só podia esperar que a rebelião estivesse pronta para protegê-las.
— Precisamos encontrar abrigo — falei, estendendo a mão para meu antigo amigo. — Vamos.
Tamid nos levou de volta a seus aposentos através de corredores repletos de soldados, que seguiam para as ruas para tentar controlar a multidão. Centenas de homens passaram, pisando forte no piso de mármore com suas botas. Tamid bateu a porta atrás de nós e passou o ferrolho. Ele ficou apoiado nela por um momento, sem ar.
Desabei numa cadeira perto da mesa, enquanto Tamid pegava outra perto da varanda.
Ficamos em um silêncio desconfortável. O barulho da revolta do lado de fora cobria nossa respiração irregular. Gritos de rebelião, tiros. Algo que soou como uma explosão. Pensei ter visto sua luz refletida no rosto de Tamid enquanto ele observava a cidade. Enquanto isso, continuava presa ali, indefesa.
Minha respiração desacelerou aos poucos enquanto a noite caía do lado de fora. A revolta recuou para o fundo da minha mente. No lugar dela ficou o rugido do pesar. Eu havia sido incapaz de salvar Shira. Ficara lá, assistindo sua execução. Podia não gostar dela, mas não a queria morta. E agora Shira havia partido.
Outra baixa da nossa causa.
Eu devia ter voltado para o harém, mas minha vontade de ficar lá era ainda menor do que a de ficar com Tamid. Então esperei.
Quando ficou escuro demais para ver, ele começou a andar para lá e para cá no quarto, a perna de metal estalando a cada passo que dava para acender as lamparinas no caminho.
Havia um livro aberto na mesa. Notei-o quando uma lamparina o iluminou. Uma imagem mais vívida do que os desenhos apagados que eu já tinha visto nos livros que chegavam à Vila da Poeira se destacava nas páginas. Era de um djinni feito de fogo azul, de pé ao lado de uma garota de olhos azuis com o sol em suas mãos.
A princesa Hawa.
— Você tem alguma coisa pra beber? — perguntei finalmente, quando a última lamparina foi acesa e não consegui mais aguentar. — Lembra na Vila da Poeira? Quando alguém morria todo mundo se reunia para beber em homenagem. Ou agora você é sagrado demais para beber?
— Você bebeu por mim depois que me largou para morrer? — Tamid perguntou, balançando o fósforo para apagá-lo.
Eu lembrava de ter bebido com Jin em um bar em Sazi depois de ter fugido da Vila da Poeira. Na época, eu nem sabia por que estava bebendo. Queria dizer de novo que sentia muito. Mas meu silêncio falou por mim.
Tamid ficou com pena e abriu um armário. Havia nele jarras e garrafas enfileiradas com substâncias que mais pareciam veneno. Mas meu antigo amigo esticou a mão e puxou uma garrafa pela metade com a etiqueta arrancada. O líquido âmbar dentro dela era inconfundível.
— Só bebo por causa da sua má influência. — Ele tirou a rolha. — Tenho um único copo. — Tamid serviu uma dose nele e outra numa jarra, que me passou. — Não recebo muitas visitas.
A não ser por Leyla, pensei, mas talvez eles tivessem coisas melhores para fazer do que beber juntos.
— A jarra está limpa, prometo — ele disse. — Se quisesse matar você, realmente poderia ter feito isso antes.
— Aos mortos — eu disse. Dei um gole que queimou a resposta espertinha na ponta da minha língua da qual me arrependeria. — Que não tiveram tanta sorte quanto eu.
Tamid girou o copo entre as palmas das mãos.
— Não achei que se importasse com Shira.
Bem que eu queria ficar brava com esse comentário. Mas ele tinha razão. A garota que eu era quando o abandonara sangrando na areia não teria se importado. Mas o mundo tinha se revelado maior do que a Vila da Poeira.
— Bem, pelo visto você se enganou.
Ficamos em silêncio novamente enquanto eu bebericava a bebida, deixando-a queimar garganta abaixo. Tamid apenas fitava o próprio copo. Por fim, pareceu decidir alguma coisa.
— Leyla disse que você está planejando me sequestrar.
Sequestrar é uma palavra muito forte. — Eu havia acusado Jin de me sequestrar uma vez. Mas nós dois sabíamos que era mentira. Eu queria ir. Mesmo que significasse abandonar Tamid. — Mas, sim, mais ou menos isso.
— Por quê? Só para eu não ajudar mais o sultão? — Ele não olhou para mim. — Ou Leyla pediu e você não pôde recusar? Ou é porque… Como foi que você disse? Que sua missão agora é salvar vidas? — Havia desdém em sua voz, mas ele estava me dando uma chance de ser honesta. Eu não podia desperdiçá-la.
— Porque eu não te deixaria para trás de novo. — Apenas uma verdade sairia com tanta facilidade. Minha atenção se voltou para sua perna falsa. — Você nunca quis fugir comigo.
— E por isso me deixou para trás à beira da morte? — Eu tinha dito a coisa errada, aparentemente. Tamid se afastou de mim, recriando a distância que eu havia encurtado ao salvá-lo na sacada. Ao pedir uma bebida.
— Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso. — Eu não queria brigar com ele. Não queria brigar com mais ninguém naquele dia. Só queria meu amigo de volta num dia em que já havia perdido uma pessoa para o carrasco. — Só estou dizendo que você não quis fugir de um lugar que odiava com sua amiga mais antiga. Então fica difícil imaginá-lo como o tipo de pessoa que foge com uma princesa. Está realmente pensando em partir com Leyla? Não vai nos dedurar para o pai dela? — Tentei soar desinteressada, mas muitos companheiros morreriam se Tamid fosse leal ao sultão. — Não pode me culpar por ter minhas dúvidas. Só um de nós tem o hábito de fugir com a realeza.
Tamid olhou para mim tão rápido por cima do copo que eu sabia que estava só fingindo desinteresse quando perguntou:
— Aquele estrangeiro que roubou o buraqi era da realeza?
Eu tinha falado aquilo sem querer. E respondi de forma natural, como se ainda pudesse confiar em Tamid.
— O nome dele é Jin. E sim.
— Onde ele está agora?
Desde que Ayet me flagrara com Sam no jardim, eu vinha evitando me fazer essa pergunta. Mas naquele momento, quando tinha certeza de que Ayet nos entregaria e de que estava tudo acabado, um pensamento tolo tinha passado pela minha cabeça.
Eu jamais veria Jin novamente.
Provavelmente morreria, e ele estava longe, fazendo sabe-se lá o quê, sabe-se lá onde, e sabe-se lá com quem.
O pensamento que se sucedeu foi egoísta: se estivesse ali, Jin não me deixaria morrer. Ele largaria o djinni capturado nas mãos do sultão e arriscaria tudo por mim.
— Sei tanto quanto você — eu disse, e continuei bebendo.
— Não é lá muito legal ser deixado para trás por alguém que você ama, não acha? — Tamid ergueu o copo num brinde antes de dar um gole.
Você só achava que estava apaixonado por mim, pensei, mas não consegui dizer em voz alta. Isso me pegou desprevenida.
— Não — admiti, com a boca no copo. — Nem um pouco. — Ficamos em silêncio. — E quanto a você e Leyla? — acabei perguntando. — Para onde vão se conseguirmos escapar?
— Talvez para casa. — Tamid deu de ombros — Para a Vila da Poeira.
Soltei um som de escárnio sem querer. Tamid me olhou com cara de ofendido.
— Ah, fala sério — me defendi. — Uma coisa é não querer fugir, mas não me diga que depois de ver tudo o que existe além daquele lugar você realmente deseje voltar para aquele fim de mundo. Ou tem memórias mais agradáveis do que as minhas de todos os nomes que aquela cidade te chamava?
— Não sou como você, Amani. Só quero uma vida simples como um pai sagrado com uma esposa. Não sei por que acreditei que você mudaria seu jeito de pensar e mais cedo ou mais tarde veria as coisas do meu ponto de vista. — Seus olhos escuros me encararam antes de desviarem outra vez. A lembrança dele me pedindo em casamento pairou pesada entre nós.
Havia uma parte dele que ainda não entendia. Aquilo estava claro para mim agora, mais do que jamais estivera na Vila da Poeira. Eu moveria o mundo inteiro para corrigir o que havia feito com Tamid. Mas jamais desistiria daquela vida por ele. Nem por ele nem por ninguém. A diferença era que Jin nunca havia me pedido para fazer isso. Ele tinha pegado a minha mão e me mostrado o mundo.
— Essa vida de djinnis, princesas, é demais pra mim. Não mudei de ideia sobre o que quero, Amani. Nem você.
Fui tomada por um pensamento e não consegui segurar a gargalhada. Tampei a boca com a mão e quase engasguei com a bebida. Tamid me lançou um olhar interrogativo.
— Não estou rindo de você. — Acenei para ele com a mão, o nariz queimando com a bebida. — É só que… eu estava tentando imaginar a cara do seu pai se você levasse uma princesa para casa como esposa.
Sua expressão também mudou ao pensar no assunto. Ele revirou os olhos.
— Deus me livre. — O pai de Tamid era um sujeito difícil. Havia tentado afogá-lo quando bebê por ter nascido com uma deficiência na perna. Era patriótico até o último fio de cabelo. Mencionava o nome do sultão em todas as ocasiões possíveis. O que o sultão pensaria do meu filho fracote, Tamid? O que o sultão pensaria de um garoto mirajin que não consegue ganhar de uma menina, Tamid?
— O que o sultão pensaria de você tomar a filha dele como esposa, Tamid? — perguntei, imitando seu pai da melhor maneira que pude, como fazia quando morávamos na Vila da Poeira. Tamid apoiou a cabeça nas mãos, mas estava sorrindo.
Dei risada, sentindo o álcool me deixar mais leve.
— E quanto a você? — Tamid girou mais uma vez o copo entre as mãos, o sorriso discreto ainda no rosto. — Não pode ir embora. O que esse grande plano de fuga prevê pra você?
Eu também vinha me perguntando isso. A dúvida me deixou repentinamente sóbria.
Shazad sempre esteve disposta a sacrificar a própria vida pela rebelião. Mas eu não sabia se ela sacrificaria a minha ou se eu mesma teria de fazer isso. Imin já havia se oferecido, caso Shazad não o fizesse.
— Não posso deixar o palácio enquanto o sultão me tiver sob controle. — Tentei dar de ombros casualmente, mas Tamid me conhecia bem demais. Podia me ler melhor do que ninguém.
Do que quase ninguém. Jin conseguira superar até mesmo Tamid. E Shazad tinha visto quem eu podia ser. Tamid sempre enxergara apenas quem ele queria que eu fosse.
Mas ainda sabia quando eu estava escondendo alguma coisa. Olhos que me traíam.
— Eu morreria por essa causa, Tamid. Não quero que isso aconteça. Faria quase qualquer coisa para evitar. — Ouvi o barulho da multidão do lado de fora. — Mas o que está em jogo é muito maior do que a minha vida ou a de qualquer outra pessoa.
Ele apoiou o copo na mesa.
— Quero que saiba que não acredito na sua rebelião.
— Imaginei. — Terminei de beber o conteúdo da jarra.
— E existe uma boa chance de seu príncipe acabar destruindo este país. — Eu já imaginava aquilo também, só que não disse. — Mas tem razão: não te odeio o bastante para querer que morra. Tire a camisa. — Não era bem o que eu esperava que ele dissesse.
— Você diz isso para todas as garotas? — deixei escapar. Era algo idiota de dizer a alguém que não era mais meu amigo. Que havia sido apaixonado por mim um dia. Era tolice fazer graça quando o sangue de Shira ainda esfriava na praça e a revolta nas ruas seguia em fúria. Mas, contra todas as expectativas, Tamid riu.
Exatamente como costumava fazer, com os olhos levemente revirados, como se quisesse que eu pensasse que estava rindo só para me agradar. Mas eu o conhecia bem.
— Não — Tamid pegou uma pequena faca com a lâmina do tamanho de uma unha. — Só para as garotas de quem estou prestes a arrancar um pedaço de bronze.
Ele falava sério. Iria me ajudar. Sabia onde os pedaços de metal haviam sido enfiados na minha pele. Poderia tirar aquele que me controlava. Que me forçava a permanecer ali.
Tamid ia salvar minha vida.

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