29 de outubro de 2018

Capítulo 33

Eles tinham chegado tarde demais.
Não apenas por uma hora ou um dia. Não, a julgar pelo estado dos corpos na clareira coberta de folhas, trinta quilômetros ao sul, a semana que adiaram custara tudo à esquadra de guerra Eyllwe.
Morath havia deixado os guerreiros onde caíram, algumas Crochans de capa vermelha – as que convocaram suas irmãs do norte – entre os mortos. O cheiro de morte era o suficiente para fazer os olhos de Manon se encherem de água enquanto examinavam o que restara.
Ela tinha feito isso. Trouxera isso, ao atrasar as Crochans com aquela batalha. Um olhar para Dorian, o rei se demorando na beira da clareira com um braço sobre o nariz para evitar o mau cheiro, e ela sabia o que ele também pensava. A dureza em seus olhos falava o suficiente.
— Alguns escaparam — anunciou Edda, o rosto da Sombra escuro. — Mas a maioria não.
— Eles queriam sobreviventes — disse Bronwen, alto o suficiente para que todos pudessem ouvir. — Para semear o medo.
Manon estudou as árvores despedaçadas, os antigos carvalhos tão quebrados quanto os corpos no chão da floresta. Prova de quem, exatamente, foi responsável pelo massacre.
Ela também fizera isso.
— Que esquadra de mortais poderia esperar sobreviver a um ataque de uma das legiões de Dentes de Ferro? — Bronwen perguntou   , com a voz fria e baixa. — Especialmente quando aquela legião aérea foi treinada por uma Líder Alada tão habilidosa.
— Escolha suas palavras com cuidado — alertou Asterin.
Mas Una, a bonita Crochan de cabelos castanhos e outra das primas de Manon, apertava a vassoura com enfeite de prata e falou:
— Você as treinou. Todas vocês – treinaram as bruxas que fizeram isso. — Una apontou para os corpos em decomposição, as gargantas rasgadas, a matança que não tinha parado em mortes rápidas. De modo nenhum. — E esperam que a gente esqueça isso?
O silêncio caiu. Mesmo de Asterin.
Glennis não disse nada.
As mãos de Manon pareceram frágeis. Estranhas. O ferro dentro deles era frágil. Ela tinha feito isso.
Os soldados na grande clareira não eram nada e ninguém para ela, a maioria de meros mortais, e ainda assim... Uma mulher jazia perto das botas de Manon, seu torso aberto do umbigo ao esterno. Seus olhos castanhos olhavam sem ver o dossel quebrado acima, a boca ainda aberta de dor.
— Eu posso queimá-los — Dorian ofereceu a ninguém em particular.
Quem ela tinha sido, a guerreira diante dela? Por quem ela lutou? Não por reinos ou governantes, mas quem em sua vida tinha valido a pena defender?
— Devemos alertar o rei e a rainha de Eyllwe — falava Bronwen. — Avisar seus príncipes também. Dizer-lhes para abrandar. Erawan está além de fazer prisioneiros.
Manon olhou e olhou a guerreira abatida. Algo com que ela uma vez se deliciara. O que uma vez ostentara diante do mundo, e feito sem nenhum resquício de arrependimento. Apenas com o desejo de que sua avó aprovaria. Que as Dentes de Ferro aprovariam.
Era por isso que elas seriam lembradas.
Pelo o que ela seria lembrada.
Cavaleira coroada de Erawan. Sua Líder Alada.
— Não os queime — disse Manon.
O silêncio caiu na clareira.
Mas Manon ajoelhou-se na terra dura, libertou suas unhas de ferro e começou a cavar.
Tirando as luvas, Asterin se abaixou até o chão. Então Sorrel e Vesta. Então o resto das Treze.
A terra fria e firme não cedeu facilmente. Rasgou os dedos de Manon, raízes e pedras queimando enquanto raspavam sua pele.
Do outro lado da clareira, Karsyn, a bruxa cuja vassoura Manon havia devolvido, também se ajoelhou. Mas Manon levantou uma mão suja e já sangrando.
A bruxa parou.
— Somente as Treze — disse Manon. — Nós vamos enterrá-los.
As Crochans olharam para ela, e Manon arrancou o solo velho.
— Vamos enterrar todos eles.


Por horas, Manon e as Treze ajoelharam-se na terra encharcada de sangue e cavaram sepulturas.
Dorian ajudou Bronwen e Glennis a redigirem mensagens para o rei e a rainha de Eyllwe e seus dois filhos. Advertindo-os do perigo – e nada mais. Nenhum pedido de ajuda, exércitos.
Pouco antes do amanhecer, as mensageiros das Crochan retornaram. Seus parentes do sul que as convocaram para cá haviam chegado logo após o massacre, tarde demais para salvar a esquadra de guerreiros humanos ou as poucas bruxas que tinha enviado à frente. Elas voaram direto para Banjali, onde seus quatro covens agora ajudavam o rei e a rainha de Eyllwe.
Não que a realeza de Eyllwe parecesse precisar disso. Não, outro mensageiro Crochan havia retornado com uma mensagem do próprio rei: a perda da esquadra de guerra era realmente grave, mas Eyllwe não fora quebrado por ela. Seus rebeldes e forças reunidas, embora pequenos, continuavam resistindo a Morath, ainda ininterruptos. Eles continuariam a manter a linha no sul e fariam isso até o último suspiro.
Dorian entendeu as palavras não escritas, porém: eles não tinham um único soldado sobrando para Terrasen. Depois do que ele viu, Dorian estava agora inclinado a concordar.
Eyllwe deu muito, por muito tempo. Era hora de o resto deles arcar com o fardo.
Dorian se perguntou se Manon notou as Crochans que a observavam. Não com ódio, mas com um pequeno grau de respeito. Juntas, as treze cavaram uma enorme sepultura, sem nem mesmo pedir a suas serpente aladas que ajudassem.
O sol nasceu e começou a descer. Lentamente, o túmulo tomou forma. Grande o suficiente para cada guerreiro caído.
Ele teria que ir para Morath. Em breve. Antes de algo assim ocorrer novamente. Antes que mais uma vala comum fosse cavada. Ele não podia suportar o pensamento, pior do que o pensamento de outro colar ao redor de seu pescoço.


A noite estava no auge quando Dorian conseguiu escapar. No momento em que encontrou uma clareira vazia, desenhou as marcas e mergulhou Damaris na terra brilhando com seu próprio sangue.
Sua convocação foi respondida rapidamente desta vez. No entanto, não foi Gavin que emergiu, brilhando no ar da noite.
A magia de Dorian explodiu, reunindo-se para atacar, enquanto a figura tomava forma. Enquanto Kaltain Rompier, com vestido de seda cor de ônix e cabelos escuros soltos, sorria tristemente para ele.
Cada palavra desapareceu da língua de Dorian.
Mas sua magia permaneceu rodando sobre ele, mãos invisíveis ansiosas para quebrar ossos.
Não que houvesse vida para roubar de Kaltain Rompier. No entanto, ela ainda erguia a mão esbelta, o vestido transparente e o cabelo sedoso flutuando em um vento fantasma.
— Não tenciono fazer mal.
— Eu não convoquei você. — Foi a única coisa que ele pensou em dizer.
Os olhos escuros de Kaltain deslizaram em direção a Damaris, indo então para o círculo de marcas de Wyrd.
— Não?
Ele não queria contemplar por que ou como a espada de alguma forma a chamou, e não a Gavin. Se a espada tinha vontade própria ou se o deus que a abençoara havia orquestrado essa reunião. Por qualquer verdade que julgasse necessária mostrá-la.
— Pensei que você tivesse sido destruída em Morath — ele murmurou.
— Eu fui — seu rosto era mais suave do que ele já tinha visto na vida. — De muitas maneiras, eu fui.
Manon e Elide haviam lhe contado o que ela suportara. O que ela fez por eles.
Ele abaixou a cabeça.
— Sinto muito.
— Por quê?
Então as palavras saíram, derramando-se de onde ele as manteve desde os pântanos de pedra de Eyllwe.
— Por não ter enxergado quando eu deveria ter visto. Por não saber para onde eles a levaram. Por não tê-la ajudado quando tive a chance.
— Você teve? — A pergunta era calma, mas ele poderia ter jurado que havia uma ponta afiada em sua voz.
Ele abriu a boca para negar. Mas se obrigou a olhar para trás – para quem ele foi muito antes do colar, antes de Sorscha.
— Eu sabia que você estava na masmorra do castelo. Fiquei feliz em deixá-la apodrecer lá. E então Perrington – Erawan, quero dizer, levou você para Morath, e eu não me preocupei em pensar sobre isso. — A vergonha passou por ele. — Sinto muito — ele repetiu.
Um príncipe herdeiro que não tinha servido seu reino ou seu povo, não realmente. Gavin estava certo.
As bordas de Kaltain brilharam.
— Eu não era totalmente inocente, você sabe.
— O que aconteceu com você em Morath não foi culpa sua.
— Não, não foi — ela concordou, uma sombra passando por seu rosto. — Mas fiz minhas próprias escolhas ao ir para Forte da Fenda no outono passado, perseguindo minha ambição por você – por sua coroa. Eu me arrependo de algumas delas.
Seu olhar deslizou para o antebraço nu dela, para a cicatriz que permanecia mesmo na morte.
— Você salvou minhas amigas — disse ele, e se ajoelhou diante dela. — Você desistiu de tudo para salvá-las e tirar a chave de Wyrd de Erawan. — Ele faria o mesmo, se pudesse sobreviver aos horrores de Morath. — Eu estou em dívida com você.
Kaltain olhou para onde ele se ajoelhava.
— Eu nunca tive amigos. Não como você tem. Eu sempre o invejei por isso. Você e Aelin.
Ele levantou a cabeça.
— Você sabe quem ela é?
Uma sugestão de um sorriso.
— A morte tem suas vantagens.
Ele não pôde impedir sua próxima pergunta.
— É... é melhor lá? Você está em paz?
— Eu não tenho permissão para falar — Kaltain respondeu suavemente, seus olhos brilhando com compreensão. — E não tenho permissão para dizer quem está aqui comigo.
Ele balançou a cabeça, lutando contra a tensão em seu peito, a decepção.
Mas ele inclinou a cabeça para o lado.
— Quem a proíbe disso? — Se os doze deuses desta terra estavam presos em Erilea, eles certamente não dominavam outros reinos.
Os lábios de Kaltain se curvaram para cima.
— Eu não tenho permissão para falar, tampouco. — Quando ele abriu a boca para perguntar mais, ela o interrompeu. — Existem outras forças agindo. Além do que é tangível e do que é conhecido.
Ele olhou para Damaris.
— Outros deuses?
O silêncio de Kaltain foi resposta suficiente. Mas outra hora. Ele pensaria nisso depois.
— Eu nunca pensei em chamá-la — ele admitiu. — Você, que conheceu os verdadeiros horrores de Morath. Eu não percebi... — ele deixou as palavras sumirem enquanto se levantava.
— Que haveria alguma coisa de mim para convocar? — ela terminou. Ele estremeceu. — A chave tomou muito, mas não tudo.
— A terceira chave está mesmo em Morath, então?
Ela assentiu gravemente. Seu corpo brilhou, desaparecendo rapidamente.
— Embora eu não saiba onde ele guardou. Eu não estava... pronta para receber a segunda antes de tomar as coisas em minhas próprias mãos.
Ela passou os dedos delgados sobre a cicatriz negra que serpenteava por seu braço.
Ele nunca havia conversado com ela – não de verdade. Mal lhe dera mais do que um olhar passageiro, ou uma careta através de uma conversa educada com ela.
E, no entanto, ali estava ela, a mulher que havia matado um terço de Morath, que devorara um príncipe valg apenas por vontade própria.
— Como você fez isso? — ele sussurrou. — Como se libertou do controle?
Ele tinha que saber. Se estivesse caminhando para o inferno, se era mais do que provável que ele acabasse com um novo colar ao redor da garganta, ele tinha que saber.
Kaltain estudou seu pescoço antes de encontrar o seu olhar.
— Eu me enfureci contra ele. Porque eu não sentia que merecia o colar.
A verdade de suas palavras o acertou com tanta força quanto se ela tivesse empurrado seu peito.
Kaltain apenas perguntou:
— Você fez as marcas de convocação por um motivo. O que deseja saber?
Dorian afastou a verdade que ela atirou nele, o espelho que ela era sobre tudo o que ele foi um dia e se tornou. Ele não tinha sido um verdadeiro príncipe – não em espírito, não em ações. Tentara ser, mas tarde demais. Agira tarde demais. Ele duvidava que sairia muito melhor como rei.
Certamente não quando dispensou Adarlan de sua própria culpa e raiva, questionou se deveria ser salvo.
Como se houvesse alguma possibilidade de que não merecesse.
Por fim, perguntou:
— Estou pronto para ir a Morath?
Só ela saberia. Tinha testemunhado coisas muito piores do que qualquer coisa que Manon ou Elide tivessem visto.
Kaltain olhou novamente para Damaris.
— Você sabe a resposta.
— Não vai tentar me convencer a não ir?
Mas a boca de Kaltain apertou quando seu vestido de ônix começou a se misturar com a noite.
— Você sabe o que vai enfrentar lá. Não é meu dever dizer se está pronto.
Sua boca ficou seca.
— Tudo o que você ouviu sobre Morath é verdade. É verdade, e ainda há coisas piores do que imagina — Kaltain falou. — Foque na fortaleza. É a fortaleza de Erawan, e provavelmente o único lugar em que ele confiaria para guardar a chave.
Dorian assentiu com a cabeça, seu coração começando a martelar.
— Farei isso.
Ela deu um passo em direção a ele, mas parou quando suas bordas ondularam ainda mais.
— Não demore muito, e não atraia a atenção dele. Ele é arrogante e totalmente egocêntrico, e não se preocupará em olhar com muita atenção para o que pode rastejar por seus corredores. Seja rápido, Dorian.
Um tremor passou por suas mãos, mas ele as fechou em punhos.
— Se eu puder matá-lo, devo aproveitar a chance?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Você não se safaria disso. Ele tem uma câmara no meio da fortaleza – é onde guarda os colares. Ele vai levá-lo lá se te pegar.
Ele se endireitou.
— Eu...
— Vá para Morath, como planejou. Recupere a chave e nada mais. Ou você se encontrará com uma colar no pescoço novamente.
Ele engoliu em seco.
— Eu mal consigo me transformar.
Kaltain deu-lhe um meio sorriso quando se dissolveu no luar.
— Não consegue?
E então ela se foi.
Dorian olhou para o lugar onde ela estava, as marcas de Wyrd já desaparecidas. Apenas Damaris permanecia de pé ali, testemunhando a verdade que, de alguma forma, sentira que ele precisava ouvir.
Então, Dorian sentiu o nó de sua magia, o lugar onde o poder bruto se voltava e emergia como ele desejava.
Deixar ir – o comando da magia de se transformar. Deixar tudo de lado. Deixar o muro que ele construíra em torno de si no momento em que o príncipe valg o invadiu, e olhar para dentro de si mesmo. Talvez o que a espada lhe pedia para fazer ao invocar Kaltain.
Quem você quer ser?
— Alguém digno dos meus amigos — ele falou para a noite tranquila. — Um rei digno de seu reino.
Por um instante, cabelos brancos como a neve e olhos dourados brilharam em sua mente.
— Alguém feliz — ele sussurrou, e passou a mão ao redor do punho de Damaris. Deixe de lado aquele pedaço de terror remanescente.
A antiga espada aqueceu em sua mão, um calor amigável e rápido. Ele fluiu através de seus dedos, seu pulso. Para aquele lugar dentro dele onde todas aquelas verdades tinham residido, onde se tornou calor afiado com dor mais aguda.
E então o mundo cresceu e se expandiu, as árvores cresceram, o chão se aproximou...
Ele tocou o rosto, mas descobriu que não tinha mãos. Apenas asas negras cor de fuligem. Apenas um bico de ébano que não permitia palavras.
Um corvo. Um...
Uma inalação suave de ar fez com que ele virasse o pescoço – muito mais facilmente nessa forma – para as árvores. Na direção de Manon, de pé nas sombras de um carvalho, sua mão ensanguentada e suja apoiada no tronco enquanto ela olhava para ele. Via sua transformação.
Dorian procurou o fio de poder que o mantinha nessa forma estranha e leve. Instantaneamente, o mundo balançou, ele cresceu e cresceu, de volta ao seu corpo humano, Damaris fria e ainda a seus pés. Suas roupas de alguma forma intactas. Talvez através de quaisquer diferenças existentes entre sua magia crua e o dom de um verdadeiro metamorfo.
Mas o lábio de Manon se curvou para trás de seus dentes. Seus olhos dourados brilhavam como brasas.
— Quando, exatamente, você me informaria que estava prestes a recuperar a terceira chave de Wyrd?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!