5 de outubro de 2018

Capítulo 33

O SULTÃO ERA PERIGOSO O SUFICIENTE com apenas um djinni. Agora tinha um exército inteiro. Apesar de terem criado a humanidade para lutar em suas guerras, havia várias histórias sobre o que acontecia quando imortais entravam nas guerras dos homens.
Conquistadores cruéis prenderam os djinnis com ferro e usaram seus poderes contra nações indefesas. Heróis conquistaram o favor de djinnis por pura virtude, esmagando seus inimigos. Não importavam as circunstâncias, imortais eram sempre invencíveis.
Minha cabeça estava uma bagunça enquanto o sultão me conduzia de volta ao harém, uma mão firme nas minhas costas. Havia muito a fazer, e pouco tempo.
Eu precisava dar a notícia dos outros djinnis para Sam. E tinha que garantir que Fadi, que gritava nos meus braços, ficasse seguro no palácio. Precisava dar um jeito de salvar Shira. E precisava fazer tudo isso antes de Ayet me dedurar. O parto de Shira tinha distraído todo mundo, mas era apenas uma questão de tempo até que Ayet conseguisse que Kadir ou outra pessoa escutasse o que tinha a dizer.
O sultão descobriria que eu era a Bandida de Olhos Azuis. E então estaria tudo perdido. Eu precisava fazer o possível para ajudar antes que tudo acabasse.
— Pai. — Meus pensamentos foram interrompidos por Rahim. Ele andava a passos largos pelo corredor em nossa direção, de colarinho aberto e cabelo desarrumado, seguido por duas serviçais. A alvorada estava apenas começando e parecia que ele tinha passado a noite inteira em claro. Rahim estaria tão em apuros quanto eu quando Ayet me entregasse. O que ainda estaria fazendo ali? — Preciso falar com você.
Ele puxou o sultão de lado, fora do alcance dos meus ouvidos, inclinando-se para dizer algo rápido em voz baixa. Fiquei nervosa. Não havia possibilidade de Rahim deixar a vida de Leyla em risco. Ele a escolheria no meu lugar sem pensar duas vezes.
Eu não tinha dúvidas disso. Faria o mesmo por qualquer um na rebelião se fosse o contrário. Eu não o odiava por isso. Mas não tinha passado pela minha cabeça até agora que ele pudesse salvar a própria pele me entregando em vez de esperar Ayet fazer isso.
— Com licença. — As duas serviçais com Rahim pararam na minha frente, bloqueando a visão do meu suposto aliado. Uma delas estendia as mãos para pegar Fadi dos meus braços, com a cabeça abaixada.
— Não. — Puxei o bebê para mais perto de peito, que batia acelerado. Não ia entregá-lo. Talvez não pudesse fazer nada antes de ser descoberta, mas não deixaria outro demdji ser engolido pelo harém e desaparecer.
— Ele precisa ser alimentado — a segunda serviçal falou, com um tom de irritação na voz. — Agora não é o momento de dificultar as coisas. — Foi a atitude mais próxima de insolência que vi uma serviçal do harém tomar. Isso me fez olhar para ela com mais atenção, mas apesar de sua voz, sua cabeça estava inclinada em sinal de respeito. Ela tinha dito aquilo alto o suficiente para o sultão dar uma olhada na nossa direção.
— Entregue o bebê, Amani — o sultão disse, dando uma ordem distraída em meio à conversa com Rahim. Tentei trocar olhares com ele por cima do ombro do pai, mas era como se o príncipe não me conhecesse, a julgar pelo modo como me ignorava.
— Está tudo bem. — A primeira serviçal também soava familiar, embora tivesse certeza de nunca tê-la visto no harém antes. — Vamos cuidar dele.
Naquele momento, com o sultão de costas para nós, a primeira serviçal ousou levantar totalmente a cabeça, e me vi cara a cara com Hala.
Estava ocultando a pele dourada com uma ilusão, mas era definitivamente ela.
Aquilo foi um pouco perturbador: ver uma pessoa completamente familiar e estranha ao mesmo tempo. Suas maçãs do rosto, altas e arrogantes, e seu nariz comprido eram inconfundíveis, mas ela parecia mais jovem e vulnerável sem sua cobertura dourada.
Olhei com mais cuidado para a outra serviçal. Seus olhos eram diferentes. Não escuros como a noite no deserto, mas da cor do ouro.
Imin.
Meu coração acelerou. Alguma coisa estava acontecendo. Só não sabia ao certo o quê.
Imin piscou pra mim. Foi tão rápido que, mesmo se o sultão visse, teria achado que era por causa do sol. Afrouxei os braços em torno do bebê e o entreguei a Hala. Estava obedecendo uma ordem, claro, mas não havia muitas pessoas no mundo em quem confiaria mais para cuidar de Fadi do que Hala. Talvez ela não demonstrasse muitos instintos maternais, mas demdjis cuidavam uns dos outros.
Imin agarrou meu braço.
— Ande rápido. E não olhe para trás.
— O que está acontecendo? — perguntei num sussurro enquanto acelerávamos pelo corredor. Estávamos andando depressa demais. Se o sultão tirasse os olhos de Rahim por um mísero instante, se daria conta de que eu estava praticamente correndo.
— A coisa mais próxima de um plano que deu para pensar em tão pouco tempo, é isso que está acontecendo. Vire à direita. — Dobramos o corredor, e então ficamos fora do campo de visão do sultão. Entendi que Rahim não estava nos traindo; ele era uma distração. De repente, fiquei envergonhada por acreditar que ele nos entregaria tão fácil. Quando terminasse a conversa, o sultão acharia que eu estava de volta no harém.
Isso se notasse minha ausência.
— E Fadi? — perguntei. — O sultão vai procurar o bebê, você precisa… — Imin revirou os olhos, me interrompendo.
— Acredite se quiser, somos capazes de executar um plano sem você. — Imin diminuiu o ritmo enquanto passávamos do frio das paredes de mármore do palácio para um dos grandes jardins. Era o início da manhã, então o calor implacável ainda não havia se estabelecido. Mesmo assim, tive que apertar os olhos diante da luz do sol, depois da escuridão das catacumbas.
Paramos, abaixadas atrás de uma árvore, fora da vista de qualquer um que pudesse passar ali. Imin arrancou as roupas de serviçal com um gesto rápido. Por baixo, usava um uniforme da guarda do palácio, feito para alguém bem mais alto e de ombros mais largos. Ela começou a desenrolar as mangas e soltar o cinto, abrindo espaço para um novo corpo.
— Não podemos simplesmente sair andando do harém com um bebê — ela disse. — Alguém notaria que ele sumiu. A menos que o sultão achasse que está morto, claro. Se, digamos, metade do harém visse Kadir afogar o bebê em um surto de fúria, por exemplo.
Hala poderia criar essa ilusão. Por isso tinham arriscado infiltrá-la. Tudo o que precisaria fazer era levar Fadi de volta ao harém e criar a cena na cabeça de quem estivesse por perto. Ela poderia até colocar a memória na cabeça de Kadir se quisesse. Poderia fazê-lo acreditar que realmente tinha matado a criança. E, mesmo se não conseguisse chegar ao sultim, em quem o sultão acreditaria: uma dúzia de esposas e filhas que tinham testemunhado o ocorrido ou um príncipe de temperamento violento?
Especialmente considerando o desaparecimento da criança.
— Então minha irmã querida pode simplesmente sair com ele do palácio em segurança, sob a cobertura de uma ilusão. — Imin balançou as mangas longas para que caíssem sobre as mãos delicadas de sua forma feminina. — É quase fácil.
Imin estava certa. Talvez funcionasse. Podíamos salvar Fadi.
— E a mãe dele? — perguntei, a esperança surgindo em meu peito. — Minha prima Shira. Como a tiramos daqui?
— Nós não vamos… — Imin começou a dizer, e então se conteve antes de predizer o futuro. Mas eu sabia o que ela quase tinha dito. Nós não vamos salvar Shira. Não importava se ela dissesse aquilo em voz alta ou não; o destino da minha prima já tinha sido decidido.
— Por quê? — perguntei. — Se conseguimos tirar Fadi, por que não Shira? Sam atravessou as paredes com você e Hala, ele poderia…
— A prisão é cheia de barras de ferro, ele não vai conseguir tirar sua prima de lá. — Imin não me encarou. — Mas posso levar você até ela, para vê-la antes da execução. — Então era esse o motivo do uniforme de guarda. — Ela pediu para falar com você.
— Isso não é motivo suficiente para não salvar Shira. — Imin estava escondendo alguma coisa. Eu só não sabia por quê. — Se Hala quisesse, poderia fazer um soldado destrancar a cela e tirar minha prima de lá bem debaixo do nariz do sultão. O que significa que existe outro motivo para o plano não incluir o resgate dela. Qual é?
Imin se endireitou. Ela estava sumindo sob o uniforme do guarda. Parecia uma criança brincando com as roupas dos adultos. Mas seu rosto expressava sabedoria para além dos seus dezoito anos.
— Porque não desistimos de te salvar ainda. — De repente, entendi tudo. Levar Shira seria o mesmo que me entregar. Era possível dar um sumiço no bebê, mas a morte dela não seria tão fácil de forjar. Se desaparecesse, assumiriam que havia fugido. E mais cedo ou mais tarde os olhos do sultão se voltariam para mim, a garota que já tinha tentado ajudá-la uma vez. Ele faria perguntas, e eu entregaria toda a rebelião.
Era Shira ou todos os outros.
— Mas Ayet… — comecei a contar que era tarde demais para mim. Que eu tinha sido tola e descuidada, e acabara pega. Que já estava tudo acabado para mim de qualquer forma.
— Você não precisa se preocupar com Ayet. — Imin começou a mudar de forma para preencher o uniforme. Em alguns instantes, estava mais alta que eu.
— O que quer dizer com isso?
Ela não respondeu, coçando o queixo com raiva enquanto uma barba o cobria.
— Odeio essas coisas. — O corpo de soldado que ela tinha roubado possuía uma voz boa para dar ordens, profunda e pesada. — Navid está deixando a barba crescer desde que fugimos do acampamento, então agora beijar meu marido é como esfregar a cara na areia. Você tem sorte de Jin manter o rosto barbeado, sabia?
— Pelo menos Navid não vive desaparecendo — retruquei. Pressionei as mãos contra os olhos, tentando empurrar a exaustão para longe. — Então vamos simplesmente deixar Shira morrer?
— Ao que parece, uma de vocês duas precisa morrer — Imin disse. — Se realmente quiser, posso salvar sua prima. Mas teria que te matar aqui e agora para que você não pudesse nos entregar. — Ela tamborilou os dedos na espada que carregava na cintura. Eu sabia que Imin estava falando sério. Ela faria qualquer coisa pela rebelião, como qualquer um de nós. E isso incluía me matar. — Mas acho que pode fazer muito mais pela rebelião viva do que morta. E Shira… — Imin hesitou, como se não quisesse dizer algo em voz alta. Mas ela era uma demdji. Precisava ser sincera. — Shira pode fazer muito mais morrendo.


Mesmo no verão a prisão do palácio não era quente. Senti o frio irradiando pelos ossos conforme Imin e eu descíamos os degraus de pedra gastos. O guarda na porta nem tentou nos impedir depois de dar uma olhada no uniforme de Imin.
Seríamos deixadas em paz lá embaixo.
Shira estava estremecendo em um canto, vestindo as mesmas roupas de quando dera à luz, de costas para a porta. Dei um passo na direção dela, mas Imin me interrompeu, com a mão no meu ombro. Ela apontou para a cela ao lado de Shira.
Precisei me aproximar para perceber que o que pensara que fosse uma pilha de roupas velhas jogadas no chão estava se mexendo. Muito pouco. Apenas um leve subir e descer com a respiração. Era uma mulher, caída de lado, o cabelo escuro esparramado pelo rosto. Mas eu conhecia o khalat que estava vestindo, cor-de-rosa, com bordados da cor de cereja estragada. Era o mesmo khalat que vestira aquele dia no zoológico.
— Ayet?
— Não adianta. — Shira ainda estava de costas para nós. — Ela não fala mais. Está praticamente morta, tirando o fato de ainda respirar. — Como Sayyida e Uzma. Levadas à loucura.
Minha prima virou devagar, sentando aos poucos com a ajuda da parede.
— Você queria saber para onde as garotas iam quando desapareciam. — Ela gesticulou de forma grandiosa, como se estivesse mostrando um palácio com domos de ouro. — Para cá. Falei que não tinha nada a ver com isso. — Shira baixou o braço, e ele pendeu inerte. — A boa notícia é que só uma de nós precisa morrer hoje.
— Shira.
— Não tente me reconfortar. — Seu tom era o mesmo que ela usava quando compartilhávamos o quarto na Vila da Poeira. Cheio de desdém. Mas minha prima já não me enganava tão fácil. Ela estava desesperada. — E você — Shira disse abruptamente para Imin, que aguardava atrás de mim nas escadas —, não precisa ficar de olho. Já fui condenada à morte. O que mais eu poderia aprontar até o pôr do sol?
A condenação certamente não a tornara mais gentil. Pensei em contar que Imin estava do nosso lado. Mas não era isso que realmente importava para Shira. Assenti discretamente com a cabeça para Imin, e ela subiu alguns degraus, onde não ouviria a conversa.
— Então. — Fui escorregando apoiada na parede próxima à cela, até que ficássemos sentadas lado a lado. Dezessete anos, e eu não conseguia lembrar de uma única vez em que havíamos sentado juntas. Nem na Vila da Poeira. Nem no harém. Tinha sido uma contra a outra desde sempre. Agora estávamos lado a lado, com uma fileira de barras sólidas de ferro entre nós. — Você pediu para falar comigo.
— Engraçado, né? A última pessoa que eu queria ver é a última pessoa que de fato vou ver na vida.
— Você não tem que se explicar, Shira. — Eu tinha levado seis meses para perceber que cada conversa que tinha com alguém na rebelião poderia ser a última. Às vezes, de fato era. Mas ficava mais difícil tirar isso da cabeça com a certeza de que Shira morreria. — Ninguém quer morrer sozinho.
— Ah, por Deus, não seja tão patética, é deprimente. — Shira revirou os olhos com tanta força que achei que se perderiam dentro de sua cabeça. — Só quero uma coisa de você. Seus amigos rebeldes estiveram aqui. Eles disseram… — Ela engoliu em seco com força, como se estivesse tentando esconder que tivera esperança, mesmo que por apenas um instante, de que aquele talvez não fosse o fim. — Eles disseram que não podem me tirar daqui. — Uma pontada de culpa me atravessou. Eles podiam. Mas haviam escolhido me salvar no lugar dela. Eu mesma estava escolhendo minha nova família em vez da antiga. — Mas eles garantiram que podem ajudar Fadi. — Ela abriu os olhos, os dedos enrolando a barra da roupa. — Eu não me tornei sultima confiando em qualquer um. Quero ouvir isso de você. Pode não ser muita coisa, mas é minha única família aqui. E você só fala a verdade. Diga para mim que meu filho está em segurança.
— Hala já o tirou do palácio. — Quando as palavras saíram da minha boca, soube que eram verdadeiras. — Podemos proteger Fadi.
Uma tensão que nem sabia estar lá foi dissipada de seu corpo quando terminei de falar, um medo enraizado nela desde a primeira vez que a vira nos banhos. Teria Shira olhado para mim naquele dia, para meus olhos de demdji, e entendido que estaria perdida no dia em que desse à luz? Antes de conhecer o harém, talvez eu tivesse me perguntado por que assumiria o risco de ir para a cama com alguém que não fosse seu marido. Se era tola e arrogante o suficiente de achar que não sofreria o mesmo destino da mãe de Ahmed e Delila. Ou de todas as outras mulheres do harém que já haviam parado nos braços de outro homem. Mas eu já tinha visto o suficiente desde minha chegada para saber que havia outras formas de morrer ali. Ayet era prova disso.
— Por que não me dedurou para o sultão em troca da sua vida? — Não consegui me conter. Antes da rebelião, achava que as pessoas só agiam em benefício próprio. E havia partes de mim das quais eu não conseguia me livrar. As partes que me mantinham viva. — Você sabe quem eu sou. Tinha noção de que sua vida estava acabada. Se a sobrevivência no harém é um grande jogo, por que não dar a última cartada?
Reconheci o olhar que ela me deu em resposta, dos nossos dias juntas na escola da Vila da Poeira. Era o olhar reservado para alguém que dizia algo particularmente idiota na aula. Aquele que garantia que a pessoa soubesse não só que era burra, mas que minha prima era muito mais inteligente.
— O sultão não faz trocas. Todo mundo sabe disso. Não desde que trocou a liberdade de Miraji por um trono. É o tipo de erro que só se comete uma vez na vida. Ele apenas toma. Se eu tivesse mencionado sua traição, estaríamos as duas mortas. E preciso de uma de nós viva. Preferia que fosse eu, claro, mas você vai ter que bastar. — Um sorriso discreto apareceu em seu rosto, diante da própria piada à beira da morte. Ele sumiu rapidamente. — Quando eu não estiver mais aqui, você e sua rebelião idiota precisam destruir o sultão e Kadir. — Quanto mais falava, mais seu sotaque aparecia. O sotaque do Último Condado. — Odeio todos eles, e odeio o que fizeram. Quase consegui tomar o trono.
— Espere. — Eu a interrompi antes que mergulhasse nos próprios pensamentos e se afastasse demais de mim. — O que quer dizer com isso?
— Fereshteh prometeu. — Ela disse isso como uma criança repetindo algo em que realmente acreditava. Como alguém que não entendia que promessas eram apenas palavras. Mas Fereshteh era um djinni. Se já era perigoso para um demdji fazer promessas, quão ruim seria uma vinda de um djinni? Mil histórias de promessas de djinnis concedidas de formas horríveis e tortuosas passaram pela minha cabeça. — Eu entendi que o harém era um jogo sem vencedores logo de cara. O único jeito de ganhar é se tornar mãe não só de um príncipe, mas de um sultim. Só que Kadir não é capaz de procriar. E Fereshteh um dia estava lá, nos jardins do harém. Como se tivesse saído de uma história e entrado na minha vida para me salvar. Ele disse que poderia me dar um filho. E assim, de repente, eu consegui um jeito de ganhar. De sobreviver depois que Kadir perdesse o interesse em mim, de me tornar sultima. — Seus olhos estavam distantes. — Quando encostei no djinni, ele se transformou de fogo em carne. E me perguntou o que eu desejaria para nosso filho.
— Como assim, o que você desejaria? — Minha boca estava seca.
Os olhos vermelhos de Shira se abriram de repente, como se tivesse sido despertada quando estava prestes a dormir.
— Ele disse que me concederia um único desejo para a criança. Todo djinni pode fazer isso.
— Shira. — Escolhi minhas palavras com cuidado. — Você ouviu as histórias tanto quanto eu. Um desejo concedido por um djinni…
— Nas histórias, os homens roubam desejos. Eles trapaceiam, mentem e enganam para mudar a própria sorte. É por isso que os djinnis pervertem seus desejos. Ladrões não prosperam. Mas se o desejo é concedido livremente… — Então não haveria necessidade de distorção. Eles realmente podiam conceder o desejo mais profundo de alguém.
— Você desejou algo mais que um príncipe. — Mas minha atenção não estava toda em Shira. Corria pelas dunas, de volta para a Vila da Poeira. Até minha própria mãe. Se ela teve a chance de desejar algo para mim, o que teria desejado? Que grande dádiva meu pai havia me concedido? — Você desejou que seu filho virasse sultão.
— O único jeito de vencer o jogo. — Shira recostou a cabeça na parede fria de pedra, um pequeno suspiro escapando dos lábios. Foi então que as lágrimas começaram a cair. — Desejei ser mãe de um governante. Eu não teria mais que lutar pela minha sobrevivência. Poderia ter tudo o que sempre quis. — A palavra de um djinni era a verdade. Se Fereshteh tinha prometido que Fadi seria sultão um dia, o que isso significava para Ahmed? — Mas eu perdi. — Lágrimas escorriam por seu rosto.
Eu nunca a vira chorar antes. Não parecia natural.
— Quer que eu vá embora?
— Não. — Ela não abriu os olhos. — Você está certa. Ninguém quer morrer sozinho.
Eu esperava sentir pesar. Mas tudo o que encontrei dentro de mim foi raiva. E de repente estava furiosa. Só não sabia com quem. Comigo mesma, por não ter tirado Shira de lá rápido o suficiente. Com ela, por ter sido uma idiota. Com o sultão, por fazer aquilo com nós duas.
— Eu deveria ter desejado algo diferente — ela disse finalmente, quando o choro parou. Ao abrir os olhos outra vez, havia um fogo ali que nunca tinha visto. De repente, me dei conta de que ele sempre estivera lá. Na Vila da Poeira, quando achava que era a única que queria desesperadamente escapar. No harém, quando achava que era a única que guardava um segredo. Shira só tinha ocultado aquele fogo bem melhor do que eu.
— Diga que vai vencer, Amani. Que vai matar todos eles. Que vai tirar o país das mãos deles e que meu filho estará seguro em um mundo que não vai querer destruí-lo. Esse é meu verdadeiro desejo. Diga isso.
Abri a boca e então a fechei novamente. Fazer afirmações era um jogo perigoso. Tinham tantas frases que eu queria pronunciar. Nada de ruim vai acontecer com seu filho. Não vou deixar. Ele vai ser livre e se tornar forte e inteligente. Vai acompanhar a ruína desse governo podre. Vai viver para ver tiranos caírem e heróis ascenderem. Vai ter a infância que nunca pudemos ter. Vai correr até que suas pernas se cansem de perseguir o horizonte, se assim quiser, ou vai criar raízes aqui, se preferir. Vai ser um filho do qual qualquer mãe ia se orgulhar, e nada de ruim vai acontecer com ele no mundo que vamos criar depois que você se for.
Era perigoso demais prometer aquelas coisas. Eu não era um djinni todo poderoso; não podia fazer promessas. Tudo o que consegui dizer foi:
— Não sei o que vai acontecer, Shira. Mas sei pelo que estou lutando.
— É bom mesmo. — Ela reclinou a cabeça contra o metal frio. — Porque vou morrer por essa sua causa. Foi a troca que fiz com a rebelião. — As lágrimas tinham secado agora. — Prometi a eles que se conseguissem tirar meu filho daqui, eu mostraria a essa cidade como uma garota do deserto parte.


A multidão na praça do lado de fora do palácio estava inquieta, e dava para ouvir o tumulto antes mesmo de chegar à sacada na frente do palácio. Era quase crepúsculo e eles haviam levado Shira. Ofereceram-lhe roupas limpas, mas ela recusou. Não precisou ser arrastada; não esperneou ou choramingou. Ela se levantou quando foram buscá-la, como uma sultima indo cumprimentar seus súditos em vez de uma garota caminhando para a morte.
Minha prima tinha me feito prometer que ficaria com ela até o fim. Talvez não pudesse estar na plataforma de execução, mas não ia quebrar uma promessa feita a uma condenada. Ninguém tentou me impedir enquanto andava a passos largos pelos corredores do palácio, com Imin me seguindo como uma sombra.
Atravessei as cortinas e dei minha primeira boa olhada em Izman desde o dia em que chegara. A sacada fora coberta por uma treliça de madeira finamente esculpida, para que pudéssemos ver a cidade sem que o povo nos visse. Ela dava para uma enorme praça com o dobro do tamanho do acampamento rebelde no desfiladeiro. E estava lotada. Notícias sobre a execução da sultima tinham se espalhado rápido. Pessoas se amontoavam para assistir a uma mulher do harém morrer por dar à luz um monstro. Era como uma das histórias, mas aquela podia ser testemunhada.
A multidão lutava por um lugar de onde pudesse enxergar a plataforma de pedra posicionada diretamente abaixo da sacada. Olhando daquele ângulo, dava para ver que a pedra não era tão lisa quanto parecia lá de baixo. Havia cenas da escuridão do inferno entalhadas. Homens sendo devorados por andarilhos, pesadelos se alimentando de uma criança, uma mulher cuja cabeça era segurada no alto por um carniçal com chifres. Aquela seria a última coisa que alguém levado à pedra do carrasco veria.
Aquela seria a última coisa que Shira veria.
— Foi um erro organizar essa execução sem me consultar, Kadir. — Peguei um pedaço da conversa do sultão quando passei por eles. Parecia furioso. — A cidade já está inquieta. Você deveria ter cuidado dela em particular. Como fez com a criança. — Hala tinha conseguido convencer o sultão de que Kadir havia assassinado Fadi diante do harém. Era um bom sinal. Ele estava a salvo.
Quase não vi Tamid. Ele estava de pé em um canto, nas sombras, parecendo deprimido. Ele e Shira mal se falavam na nossa cidade, por menor que fosse. Eu tinha a sensação de que, mesmo que tivessem conversado, teriam se odiado. Mas os dois haviam escapado juntos da Vila da Poeira. Haviam sobrevivido.
Sobrevivido ao que fiz com eles. Eu os deixei para trás ao mesmo tempo. Aquilo devia valer alguma coisa.
— Ela é minha esposa. — Kadir soava violento, mesmo enfrentando a raiva mais serena de seu pai. — Posso fazer o que quiser com ela.
Kadir me viu quando virou de costas para o pai. Um sorriso sórdido se espalhou por seu rosto.
— Você — ele ordenou para Imin. — Está dispensado. Ache outro lugar para ficar.
Percebi Imin ficar tensa atrás de mim. Mas ela não podia desobedecer. Esboçou uma mesura rápida antes de recuar.
— Ainda bem que está aqui. — O sultim andou pela sacada na minha direção.
Meus olhos buscaram o sultão por instinto, procurando ajuda. Mas sua atenção estava em outro lugar. Rahim não estava à vista. Tamid nos observava. Mas ele não ia me ajudar. Mesmo que não me odiasse, não era páreo para um príncipe.
As mãos de Kadir pressionaram a base das minhas costas como se achasse que eu era algum tipo de marionete e soubesse como me manipular. Ele me empurrou por entre duas esposas, que estavam observando a praça por trás da treliça, escondidas da multidão, e me conduziu até a parte aberta na beira da sacada, onde fiquei exposta.
Algumas pessoas na multidão olharam para cima quando aparecemos.
— Você tentou ajudar Shira a escapar. — Kadir se inclinou na minha direção, a pressão do seu corpo me forçando contra a balaustrada, prendendo-me entre ele e a visão da minha prima lá embaixo. Eu podia sentir cada centímetro do meu corpo lutando contra a sensação do sultim prensado contra mim. Odiava mais que tudo o fato de não poder me defender. Sentia sua respiração quente na minha nuca enquanto falava.
— Agora quero que a veja morrer.
Eu não precisava que ele me obrigasse. Não importava o que acontecesse, pelo menos isso eu podia dar a ela. Não o faria por Kadir. Faria por Shira. Independente de tudo, ela era sangue do meu sangue e merecia isso de mim.
Merecia bem mais, na verdade. Mas isso era tudo que eu tinha para oferecer.
A multidão rugiu quando Shira apareceu no palco. Algumas zombarias, mas foram logo dissipadas.
Ela tivera razão em não trocar de roupa, eu percebia agora.
Shira em suas sedas e musselinas, joias e maquiagem refinada parecia pertencer à nobreza. Mas do jeito que estava agora, vestida em um khalat branco simples, era uma garota do deserto. Parecia com parte da multidão que a encarava, e não alguém do palácio. Entendi então que as pessoas estavam se manifestando a seu favor, não pedindo sua cabeça.
Quando subiu na pedra, ela ainda tremia, os pés descalços mal aguentando seu peso.
A multidão inquieta se acalmou o suficiente para escutar o carrasco anunciar seus supostos crimes. Shira permaneceu de pé com a cabeça erguida, as costas retas como uma barra de ferro. Uma brisa leve levantou seu cabelo longo. Ele estava solto sobre os ombros, e se moveu o suficiente para expor seu pescoço. O vento fez com que levantasse o olhar. Ela inclinou a cabeça para trás e me viu com Kadir na sacada.
Ignorando o marido, fixou o olhar em mim. Havia um leve sorriso em sua boca.
Aquele foi o único aviso.
O carrasco ainda estava lendo.
— Por traição contra o sultim…
— Eu sou leal ao verdadeiro sultim! — Shira gritou, surpreendendo tanto o carrasco que ele se calou. — O verdadeiro sultim, o príncipe Ahmed! — As palavras provocaram uma resposta da multidão. — Ele foi escolhido pelo destino nos jogos! Não pelas mãos de seu pai! Um pai que desafiou nossas tradições! Conheço a vontade dos djinnis, e eles estão punindo esses falsos governantes. Kadir nunca poderá oferecer um herdeiro ao nosso país!
Fui tomada por um surto de orgulho. O sultão tinha razão. Tinha sido um erro executá-la em público. Kadir tinha dado para sua lendária sultima o maior palco em Miraji para entregar seus segredos. Ela era apenas uma garota a instantes da morte, e usava seus últimos suspiros para fazer mais do que uma chuva de panfletos poderia fazer. Mesmo se a calassem naquele momento, a história se espalharia por toda Miraji, crescendo cada vez que fosse recontada.
— Se Kadir sentar no trono, será o último sultão de Miraji!
O príncipe me soltou com um empurrão enquanto a sultima gritava, voltando para dentro e vociferando ordens. Mas era tarde demais. O dano já estava feito. Silenciá-la faria parecer que eles estavam tentando esconder a verdade. Não me mexi, mas por um instante meu olhar cruzou com o do sultão. Ele parecia resignado. Como se já soubesse que aquele seria o resultado da tolice do filho.
— Kadir morrerá sem um herdeiro para tomar seu lugar, e nosso país cairá de novo em mãos estrangeiras. — Shira ainda estava falando, sua voz mais alta que o murmúrio da multidão. — As mesmas mãos estrangeiras com quem o falso sultão negocia acordos atrás de portas fechadas. O príncipe Ahmed é a única esperança de Miraji! Ele é o verdadeiro herdeiro…
Ela ainda estava gritando quando os guardas a empurraram, forçando sua cabeça contra a pedra.
— Uma nova alvorada! — Shira gritou enquanto um guarda empurrava sua cabeça para baixo com tanta força que seu queixo bateu na pedra, abrindo uma enorme ferida.
O burburinho da multidão abafava qualquer outra coisa que ela pudesse dizer, mas Shira manteve o olhar em mim quando o carrasco se posicionou. Me inclinei para a frente, diminuindo a distância entre nós o quanto podia, a cintura pressionada contra a balaustrada, o corpo curvado sobre a sacada.
Continuei a encará-la até o machado descer.

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