29 de outubro de 2018

Capítulo 32

Dorian teve olhos castanhos por três dias antes de descobrir como mudá-los de volta para o azul. Asterin e Vesta o provocaram impiedosamente enquanto viajavam pela espinha dos Caninos, lamentando dramaticamente a ausência de seus belos olhos azuis, e suspiraram para os céus quando o tom de safira retornou.
Sua magia poderia saltar entre um elemento e outro, mas a habilidade de se transformar estava no núcleo de algo completamente diferente. Repousando dentro de uma parte dele que sempre ansiava por uma coisa acima de todas as outras: deixar ir. Ser livre. Como Temis, Deusa das Coisas Selvagens, era livre – sem idade. Como ele uma vez desejou ser, quando fora pouco mais que um príncipe imprudente e idealista.
Era o único comando da magia: deixar ir. Deixar de lado quem e o que ele se tornou desde aquele colar e emergir em algo novo, algo diferente.
Foi mais fácil perceber do que agir. Desde que seus olhos tinham voltado ao azul, como o desenrolar de um fio dentro dele, ele foi incapaz de fazer qualquer outra coisa. Até mesmo mudá-los para marrom novamente.
As Crochans e as Treze tinham parado para o intervalo do meio-dia sob a cobertura pesada de Carvalhal, as árvores estéreis, mas sem uma sugestão de neve na terra. Mais um dia, e eles alcançariam o ponto de encontro. Uma semana depois de terem prometido aos líderes da guerra de Eyllwe, mas eles chegariam.
Ele estava sentado em um tronco coberto de musgo, roendo a tira de carne seca de coelho. O seu jantar.
— Minha cabeça lateja por você só de observá-lo se esforçar tanto — disse Glennis do outro lado da clareira. Ao redor deles, as Treze comiam em silêncio, Manon monitorando tudo. As Crochans sentavam-se entre eles, pelo menos. Silenciosamente, mas estavam lá.
O que significava que todos olhavam para ele agora.
Dorian baixou a tira de carne dura e inclinou a cabeça para a velha.
— Minha cabeça está latejando o suficiente por nós dois, acredito.
— Em que você está tentando se transformar, exatamente? Ou em quem?
O oposto do que ele era. O oposto do homem que ignorou a presença da Sorscha durante anos. E ofereceu-lhe apenas a morte no final. Ele ficaria feliz em deixar ir, se a magia permitisse.
— Nada — disse ele. Muitas das Treze e das Crochans voltaram para suas refeições magras à sua resposta maçante. — Eu só quero ver se é possível, para alguém com a magia que eu tenho. Até mesmo mudar características pequenas. — Não uma mentira, não completamente.
Manon franziu a testa, como se tentasse resolver algum quebra-cabeça que ela não conseguia entender.
— Mas se você tivesse sucesso — pressionou Glennis — quem gostaria de ser?
Ele não sabia. Não era possível conjurar uma imagem além da escuridão vazia.
Damaris, ao seu lado, também não teria resposta.
Dorian olhou para dentro, sentindo o mar de magia que se agitava dentro dele. Ele traçou sua forma com mãos cuidadosas e invisíveis. Seguiu um fio dentro de si mesmo, não para seu intestino, mas para seu coração ainda rachado.
Quem você quer ser?
Lá, como a semente de poder que Cyrene havia roubado, estava ali – o pequeno centro de sua magia. Não um centro, mas um nó – um nó em uma tapeçaria. Um que ele poderia tecer.
Um que ele poderia moldar em algo se ousasse.
Quem você quer ser?, ele perguntou à tapeçaria mal tecida dentro de si. Deixou os fios e nós tomarem forma, criando a imagem em sua mente. Começando pequeno.
Glennis riu.
— Seus olhos estão verdes agora, rei.
Dorian continuou, coração trovejando. As outras novamente pararam sua refeição, boquiabertas, algumas se inclinando para olhá-lo mais de perto. Mas ele alimentou sua magia no tear dentro de si, aumentando a imagem emergente.
— Ui, cabelo dourado não combina com você — Asterin fez uma careta. — Você parece doente.
Quem ele queria ser? Qualquer um além de si mesmo. Além do que ele se tornou.
Sua resposta silenciosa fez aquele tear mágico sair de seu aperto invisível, e ele sabia que, se olhasse, seus cabelos escuros e olhos de safira teriam retornado. Asterin suspirou de alívio.
Mas Manon sorriu sombriamente, como se tivesse ouvido sua resposta não dita. E entendido.


A noite estava formada no alto, as fogueiras das Crochans estalando sob a treliça de árvores sem folhas, quando Glennis perguntou:
— Alguma de vocês viu as Terras Planas?
As Treze piscaram para a velha. Ela não costumava abordar todas de uma só vez, ou fazer perguntas pessoais.
Mas pelo menos Glennis falava com eles. Era o terceiro dia de viagem, e Manon não estava mais perto de conquistar as Crochans do que quando saíram dos Caninos. Embora falassem com ela e ocasionalmente se juntassem à fogueira de Glennis para as refeições, era com o mínimo de palavras necessário.
Asterin respondeu pelo coven.
— Não. Nenhuma de nós, embora eu tenha passado algum tempo em uma floresta do outro lado das montanhas. Mas nunca tão longe. — Sofrimento tremeluziu nos olhos negros salpicados de ouro da bruxa, como se houvesse mais na história do que isso. De fato, Sorrel e Vesta, até mesmo Manon, olharam com um pouco daquela tristeza para a bruxa.
Manon perguntou a Glennis, a única Crochan nessa fogueira sob o dossel:
— Por que você pergunta?
— Curiosidade — disse a anciã. — Nenhuma de nós também esteve. Nós não ousamos.
— Por medo de nós? — O cabelo dourado de Asterin se moveu quando ela se aproximou do fogo. Ela procurou uma tira de couro no acampamento para amarrar em sua testa – não o preto que usara no último século, mas uma visão familiar, pelo menos. Algo, ao que parecia, não havia mudado totalmente.
— Por medo do fará conosco ver o que resta da nossa grande cidade, nossas terras.
— Nada além de escombros, dizem — Manon murmurou.
— E vocês reconstruiriam, se pudessem? — Glennis perguntou. — Reconstruiriam a cidade por si mesmas?
— Nós nunca discutimos o que faríamos — disse Asterin. — Se algum dia pudéssemos ir para casa.
— Um plano, talvez — ponderou Glennis — seria sensato. Algo poderoso a se ter. — Seus olhos azuis se fixaram em Manon. — Não apenas para as Crochans, mas para o seu próprio povo.
Dorian assentiu, embora não fosse parte desta conversa.
Quem as Treze, as Dentes de Ferro e as Crochans gostariam de ser, de construir, como povo?
Manon abriu a boca, mas as Sombras irromperam no círculo da lareira, os rostos tensionados. As Treze ficaram instantaneamente de pé.
— Nós buscamos à frente, pelo local de encontro — Edda ofegou.
Manon se preparou. Um sussurro de poder percorreu o acampamento, a única indicação de que a magia de Dorian havia se enrolado ao redor deles em um escudo quase impenetrável.
— Cheira a morte — terminou Briar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!