22 de outubro de 2018

Capítulo 32

QUERIDA ROSIE,
Antes que você rasgue esta carta, por favor, me dê uma oportunidade de explicar. Em primeiro lugar, eu gostaria de me desculpar com toda a sinceridade, do fundo do coração, pelos anos que passaram. Por não estar ao seu lado, por não apoiá-la e prestar a ajuda que você merecia. Estou bastante arrependido e decepcionado comigo mesmo pela maneira como me comportei e por como escolhi viver a minha vida. Sei que não há nada que eu possa fazer para mudar ou melhorar os anos em que agi de maneira tão idiota e por ter maltratado vocês como fiz.
Mas, por favor, me dê ao menos uma chance de construir um futuro melhor, para consertar o que está errado. Posso entender o quanto você deve estar enfurecida, traída e magoada, além de provavelmente me odiar demais, mas você não é a única pessoa em quem estou pensando.
Estou olhando para trás e começo a me perguntar o que foi que fiz durante todos esses anos. Não fiz muitas coisas das quais me orgulho na minha vida. Não tenho histórias de sucesso para contar, não consegui ganhar um milhão. Só há uma coisa na vida da qual me orgulho. E essa coisa é a minha filha.
O fato de eu ter uma filha, que nem é mais uma criança. Não me orgulho da maneira como a tratei. Acordei há algumas semanas, na manhã do meu aniversário de 32 anos, e, de repente, foi como se todo o bom senso que estava faltando em todos esses anos chegasse até mim de uma só vez. Percebi que eu tinha uma filha, uma filha adolescente sobre a qual eu não sei nada e que não sabe nada sobre mim. Eu adoraria ter a oportunidade de conhecê-la. Fiquei sabendo que ela se chama Katie. É um belo nome. Fico imaginando como ela é. Será que ela se parece comigo?
Sei que não mostrei nenhum sinal de que mereço isso, mas, se você e Katie estiverem dispostas a me deixar participar de suas vidas, eu posso provar a vocês que isso não será perda de tempo. Katie conhecerá o seu pai e eu verei a minha filha. Como isso poderia ser considerado perda de tempo? Por favor, ajude-me a realizar o meu sonho.
Entre em contato, por favor, Rosie. Dê uma chance pra eu desfazer todos os erros do meu passado e ajudar a criar um novo futuro para Katie e para mim.
Atenciosamente,
Brian

Rosie: Não não não não não não não não não!
Ruby: Querida, eu entendo. Mas, pelo menos, dê uma olhada nas outras opções.
Rosie: Opções? ESSAS MALDITAS OPÇÕES? Não tenho nenhuma. NENHUMA! Tenho que ir. Continuar aqui não é uma opção.
Ruby: Calma, Rosie. Você está irritada.
Rosie: É claro que estou irritada! Como diabos eu vou conseguir dar um jeito na minha vida se todas as pessoas ao meu redor insistem em me prejudicar? Quando vai ser a minha vez de viver a minha vida para mim mesma em vez de ter que fazer isso por todas as outras pessoas? Estou cheia disso, Ruby. Estou de saco cheio. Já chega. Eu vou embora mesmo. Quem é esse homem? Onde diabos ele estava nos últimos treze anos? Onde foi que ele se escondeu durante os anos mais importantes da vida de Katie — ou da minha vida, já que estamos falando disso? Quem foi que passou a noite inteira amamentando, carregando-a no colo pelos corredores e cantando aquelas canções de ninar de merda para fazer aquela gritaria incessante parar? Quem foi que trocou as fraldas cagadas, secou o nariz melequento e limpou o vômito das roupas todos os dias? Quem é que ficou com estrias e cicatrizes, peitos flácidos e cabelos brancos aos 32 anos? Quem foi para as reuniões de pais e professores, quem a levou e buscou na escola, fez o jantar, colocou comida na mesa, pagou o aluguel, foi trabalhar, ajudou com a lição de casa, deu conselhos, enxugou lágrimas, explicou de onde vêm os bebês e explicou por que o papai não morava com ela, diferente da maioria dos pais das outras crianças? Quem passou a noite inteira acordada e preocupada quando ela estava doente, medindo a temperatura e comprando remédios, levando-a para o médico ou ao hospital no meio da noite? Quem foi que deixou de ir à faculdade, tirou dias de folga e ficou em casa no fim de semana para cuidar dela? Porra, fui eu, tudo isso fui eu que fiz. Onde estava o desgraçado durante todo esse tempo? E ele tem a audácia de voltar para as nossas vidas depois de treze anos, quando todo o trabalho duro foi feito, com um simples dar de ombros e uma desculpa esfarrapada, logo depois que o meu marido me traiu com outra, depois que o meu casamento acabou, quando finalmente decido me mudar para Boston, onde eu já devia estar morando de qualquer maneira se não fosse por causa daquele panaca que vive estragando meus planos, virando a minha vida de cabeça para baixo e indo para outro país com o pinto no meio das pernas.
Vai se foder.
Desta vez eu vou pensar em mim, Rosie Dunne, e em mais ninguém.
Ruby: Mas, Rosie, você está errada. Isso diz respeito a Katie também. Ela precisa saber que ele quer vê-la. Não a castigue pelos erros que você cometeu na vida.
Rosie: Mas, se eu contar a ela, Katie vai querer vê-lo. Ela vai ficar toda animada com a possibilidade, e ele é bem capaz de decepcioná-la outra vez, e deixar seu coração em pedaços outra vez. E quem vai ter que dar um jeito em toda essa situação? Eu. Sou eu quem vai ter que tentar consertar o coração despedaçado da minha filha. Vou ter que recolher os cacos e enxugar as lágrimas. Vou ter que colocar uma máscara feliz, dar de ombros e dizer: “Ah, não se preocupe, minha filhinha de 13 anos. Nem todos os homens são uns merdas. Só aqueles que você já conhece”.
Ruby: Mas, Rosie, isso pode acabar tendo um final bem diferente. Talvez ele tenha mudado de verdade. Nunca se sabe.
Rosie: Você tem razão, nunca se sabe. NUNCA. E tem outra coisa: Como ela vai poder conhecer o pai se estivermos a caminho do outro lado do mundo? Não quero ficar aqui, Ruby. Quero ir embora. Quero deixar toda essa bagunça de vida para trás.
Ruby: Não é uma bagunça, Rosie. A vida não é perfeita para ninguém. Você não é a única a achar isso. Não há uma nuvem negra enorme pairando só sobre a sua cabeça, sem afetar outras pessoas. Só parece ser assim. Mas essa é a sensação que muitas outras pessoas têm, também. Basta você fazer o melhor com aquilo que tem, e você tem sorte por ter uma filha bonita, saudável, inteligente e engraçada, e que gosta muito de você. Não perca isso de vista. Se Katie quiser conhecer Brian, você deve apoiá-la. Você ainda pode se mudar para outro país, ele pode ir visitá-la — ou, se você acha que isso é importante o bastante para querer ficar, então fique.
Rosie: Katie vai querer ficar. Até o mês passado, eu achava que estava vivendo no paraíso. A vida mudou em um piscar de olhos.
Ruby: Bem, esse é o problema. Não há nada que atraia uma serpente como o paraíso.

QUERIDA STEPHANIE,
Parabéns pela gravidez! Estou muito feliz por você e por Pierre. Tenho certeza de que o bebê número dois vai ser uma alegria, como aconteceu com Jean-Louis. Imagino que minha mãe já tenha lhe dado a notícia. Ela ficou muito feliz agora que não vou mais me mudar para os Estados Unidos. Alex não está tão feliz. Ele gritou e vociferou todos os xingamentos e palavrões que existem no mundo para mim. Acha que estou cedendo outra vez e deixando todo mundo fazer o que quiser comigo. Ficou de mau humor e não está falando comigo. Talvez eu tenha deixado que as pessoas fizessem o que queriam comigo antes, mas desta vez é diferente.
Katie é a pessoa mais importante na minha vida e a minha razão de viver. Por isso, preciso ter certeza de que ela tenha todas as chances de ser feliz.
Ela passou por momentos muito difíceis nos últimos tempos, por causa de Greg, depois por termos que voltar a morar com meus pais, e depois com a preparação para nos mudarmos para a América. Ela está sob um estresse tremendo e não tem culpa disso. Nessa época ela deveria estar se preocupando com manchas na pele, sutiãs e garotos, e não com questões como adultério, mudança de continente e reaparecimento do pai num passe de mágica. Nada disso é culpa dela, e, como fui eu que a trouxe a este mundo, o mínimo que eu posso fazer é continuar com o bom trabalho que venho fazendo. Ela não é viciada em drogas, não é malcriada, está indo bem na escola, tem todos os membros certos nos lugares certos e não fez nada que fosse realmente estúpido na vida. Assim, com todas as histórias horríveis que você ouve por aí, acho que estou fazendo um ótimo trabalho.
Estou esperando que Alex entre de supetão pela porta a qualquer minuto. Tenho certeza de que ele pegou o primeiro avião para vir até aqui e dar uma surra em Brian. Imagino que seja para isso que servem os melhores amigos. Não consigo nem pensar em como seria a vida em Boston sem chorar. Não sei bem para onde devo ir agora. Não tenho emprego nem casa e voltei a morar com os meus pais. Tudo que existe nesta casa me faz lembrar de uma época em que eu não era feliz. Tive uma infância maravilhosa, mas os anos com Katie foram tão difíceis que se transformaram nas memórias mais fortes que tenho desta casa — os cheiros, os ruídos, o papel de parede, os quartos, tudo faz lembrar as noites em que fui dormir muito tarde, das manhãs em que acordei muito cedo e das preocupações.
De qualquer modo, perdoe-me por não ter entrado em contato nesses últimos dias, mas estive tentando refrescar a cabeça em relação a tudo isso. Estou tentando encontrar sentido na frase “tudo tem uma razão para acontecer”, e acho que descobri essa razão: para me irritar.
Quando comecei a ir para a escola, eu achava que as pessoas do sexto ano eram bem mais velhas e cultas, mesmo que não tivessem mais que 12 anos. Quando completei 12 anos, comecei a pensar que as pessoas que haviam terminado a escola, com 18 anos, deviam saber tudo. Quando cheguei aos 18, pensei que quando terminasse a faculdade eu de fato estaria amadurecida. Aos 25 eu ainda não havia conseguido entrar na faculdade, ainda não sabia de nada sobre a vida e tinha uma filha de 7 anos. Estava convencida de que quando chegasse aos 30 eu teria pelo menos alguma ideia do que estava acontecendo.
Não. Isso não aconteceu ainda.
Assim, estou começando a pensar que, quando eu tiver 50, 60, 70, 80, 90 anos, ainda não estarei nem perto de ser sábia e culta. Talvez as pessoas que estejam no leito de morte que tiveram vidas muito, muito longas, que viram de tudo, que viajaram pelo mundo, que tiveram filhos, que sofreram com os próprios traumas pessoais, que derrotaram seus demônios e aprenderam as lições duras da vida pensem: Meu Deus, as pessoas que estão no céu realmente sabem de tudo.
Mas eu aposto que, quando elas afinal morrerem, vão se juntar ao resto da multidão que já está lá em cima, sentar em algum lugar, espiando os entes queridos que ficaram para trás, e ainda estarão pensando que em suas próximas vidas conseguirão decifrar todos os mistérios.
Mas eu acho que já decifrei o mistério, Steph. Passei vários anos pensando a respeito e descobri que ninguém, nem mesmo o chefe que está no andar de cima, faz a menor ideia do que está acontecendo.
Rosie

De: Stephanie
Para: Rosie
Assunto: Re: Vida
Bem, será que você não está mais sábia em relação a esse assunto? A idade lhe ensinou uma coisa: que ninguém sabe o que está acontecendo.

OI,
Minhas sinceras desculpas por aquela mensagem ridícula que eu lhe mandei na semana passada. Escrevi aquilo por causa de um lapso momentâneo de concentração. Eu sou um completo imbecil (como você já sabe) e não faço a menor ideia do que estava pensando. Mas acho que você vai gostar de saber (espero) que já voltei para a terra e que estou disposto e querendo dar mais uma chance para nós. Por isso, não vamos mais perder o nosso tempo precioso, e vamos nos concentrar no que é importante. Podemos nos ver de novo hoje à noite?
Alex

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Boa leitura, E SEM SPOILER!