5 de outubro de 2018

Capítulo 32

O djinni traidor

NOS DIAS DOS QUAIS APENAS OS IMORTAIS SE LEMBRAM, o mundo era imutável. O sol não se punha ou nascia. Não havia marés. Os djinnis não sentiam medo, alegria, pesar ou dor. Nada vivia ou morria. Tudo simplesmente era.
E então veio a Primeira Guerra.
Ela trouxe consigo a alvorada e o crepúsculo. O alto-mar e novas montanhas e vales.
E, acima de tudo, a mortalidade.
Os humanos tinham sido criados com uma faísca do fogo djinni, mas não eram eternos. Aquilo parecia fazer toda a diferença do mundo. Mudava tudo. Eles não apenas existiam: nasciam e morriam. E no meio disso sentiam tantas coisas que atraíram os imortais, embora fossem apenas fagulhas em comparação ao grande fogo dos djinnis.
Quando a guerra terminou, os djinnis do grande deserto se reuniram e observaram um mundo mudado. A terra que tinha sido deles. Os mortais que haviam servido seu propósito. Eles tinham lutado. Tinham morrido.
E haviam se multiplicado.
Os djinnis observaram incrédulos os humanos construírem muralhas e cidades e encontrarem uma vida fora da guerra. Acharam novas guerras para lutar. Os seres imortais se perguntaram se deveriam deixar os humanos continuarem. Tinham criado os mortais, mas agora que a guerra havia terminado podiam se desfazer deles se quisessem.
Alguns djinnis argumentaram que a humanidade já tinha cumprido seu propósito. Humanos só iam causar problemas. Era melhor queimar todos de uma vez. Devolvê-los à terra a partir da qual tinham sido criados antes que se espalhassem.
O djinni Fereshteh concordou. O mundo era mais simples antes dos mortais. Ele tinha observado seu próprio filho, nascido de uma humana, sobreviver a uma dúzia de batalhas contra as criaturas da Destruidora de Mundos para acabar morrendo em uma briga de bar. E embora os djinnis tivessem esquecido de temer a morte assim que a Destruidora de Mundos foi vencida, demoraram muito mais para esquecer a novidade que os humanos chamavam de pesar. Parecia um sentimento grande demais para ser experimentado por seres eternos.
Mas o djinni Daray avahush argumentou contra a destruição da humanidade. Disse que os humanos deviam ter permissão de viver. Haviam conquistado o direito de compartilhar a terra ao vencer a Destruidora de Mundos. Tinham sido notáveis; caíram às centenas no campo de batalha, mas de alguma forma continuaram a enfrentar os exércitos da Destruidora de Mundos. A tenacidade em sobreviver não devia ser ignorada.
Os djinnis discutiram ao longo dos anos, enquanto uma geração de humanos dava lugar a outra. Enquanto cidades surgiam e novos governantes substituíam os outros.
Aos poucos, os mortais esqueceram da época da Destruidora de Mundos. Finalmente, quando o último dos mortais que tinha vivido para ver a Primeira Guerra morreu, os djinnis se reuniram na casa de um deles, que havia reivindicado um antigo campo de batalha como seu domínio, um lugar onde a terra fora rasgada, formando um grande vale onde nenhum outro imortal queria viver. Eles decidiram que fariam uma votação. Jogariam uma pedra negra na água se acreditassem que era melhor extinguir a mortalidade, e uma pedra branca para deixar os mortais vivos.
As pedras foram sendo empilhadas, pretas e brancas, uma depois da outra, até que os dois lados estavam exatamente iguais e restava apenas o voto de Bahadur, que decidiria o destino de toda a humanidade.
Fereshteh tinha certeza de que Bahadur escolheria seu lado. Ele também tinha visto uma filha morrer. Uma filha de olhos azuis e sol nas mãos que os humanos chamavam de princesa, uma palavra tola usada para fingir que um deles era mais poderoso que os outros. Bahadur certamente havia sentido a dor de Fereshteh. Ele desejaria extingui-la com o mesmo fervor.
Mas quando o djinni finalmente votou, sua pedra era branca como osso. O lado de Fereshteh perdeu. E assim todos fizeram uma promessa — de que nenhum deles aniquilaria a mortalidade. E como eram djinnis, aquela promessa era verdadeira.
Séculos se passaram.
Fereshteh não sabia dizer quantos, porque só aqueles cujos dias eram contados mantinham controle disso. Tentou permanecer afastado dos humanos no início. Mas eles mudavam constantemente. Era difícil não observá-los. Toda vez que Fereshteh estava ficando entediado, eles faziam algo novo. Criavam algo a partir do zero. Palácios subiam cada vez mais alto. Ferrovias os levavam pelo deserto. Música parecia saltar espontaneamente de suas mentes para seus dedos. E de vez em quando, Fereshteh não conseguia resistir à tentação. O tempo lhe ensinou maneiras de evitar o pesar. Ele nunca acompanhava os filhos que dava a mortais. Não tinha interesse em observar pequenas partes de si serem destruídas naquele mundo que seus companheiros djinnis haviam permitido que continuasse.
E então chegou o dia em que Fereshteh ouviu seu nome ser chamado com uma ordem que não podia desobedecer. E foi assim que se tornou prisioneiro, vendo-se frente a frente com um sultão e uma demdji. Uma demdji segurando uma criança que Fereshteh tinha marcado como sua, embora já tivesse se esquecido da mãe. Era mais fácil assim.
Mas ele lembrava de todos os filhos. E lembrava da dor que tinha sentido quando cada um morrera. Então, quando o sultão apontou uma faca para a criança e pediu o nome dos outros djinnis, ele os entregou. Não podia assistir àquela faísca de si ser extinta.
Ele deu o nome de Daray avahush primeiro. Ofereceu ao sultão apenas os nomes dos djinnis que tinham sido tolos o suficiente para acreditar que a humanidade era inofensiva e merecia ser salva. Aqueles que haviam votado para deixá-la viver.
Metade dos djinnis do deserto.
E ele riu quando, um por um, eles foram aprisionados pelas criaturas que tinham decidido deixar viver.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!