29 de outubro de 2018

Capítulo 31

Eles tinham tomado suas cicatrizes.
Maeve as varrera. Isso disse a Rowan o suficiente sobre o que havia sido feito. Quando viu as costas dela, a pele macia onde as cicatrizes de Endovier e as cicatrizes do chicote de Cairn deveriam estar, ele suspeitou.
Mas ajoelhada, queimando em nada além de sua pele... Não havia cicatrizes onde deveria haver. O colar de marcas da Baba Pernas Amarelas: se fora. As marcas dos grilhões de Endovier: se foram. A cicatriz onde ela foi forçada por Arobynn Hamel a quebrar o próprio braço: se foi. E nas palmas das mãos...
Era para suas palmas expostas que Aelin agora olhava. Como se percebesse o que estava faltando.
As cicatrizes nas palmas das mãos, uma desde o momento em que haviam se tornado carranam, a outra desde seu juramento para Nehemia, haviam desaparecido por completo.
Como se nunca tivessem estado ali.
Suas chamas queimaram mais brilhante.
Os curandeiros podiam remover cicatrizes, sim, mas a razão mais provável para a falta delas em Aelin, em todos os lugares onde ele uma vez as traçara com as mãos, a boca...
Era uma pele nova. Tudo isso. Exceto por seu rosto, já que ele duvidava que eles seriam estúpidos o suficiente para tirar a máscara.
Quase cada centímetro dela estava coberta por uma pele nova, fresca. O sangue que a cobria tinha sido queimado para revelá-la.
Pele nova, porque eles precisavam substituir a que havia sido destruída. Curá-la para que pudessem começar de novo e de novo.
Gavriel e Elide haviam se movido para onde Fenrys estava, a cura que ele fizera no guerreiro no campo de batalha provavelmente não seria suficiente para manter a morte afastada.
— Ele não tem muito mais tempo. — Gavriel disse para ninguém em particular.
Ele quebrou o juramento de sangue. Por pura força de vontade, Fenrys o quebrara. E logo pagaria o preço quando sua força de vida sangrasse completamente.
O olhar de Aelin mudou então. Foi de suas mãos, sua pele terrivelmente intocada, para o lobo do outro lado da clareira.
Ela piscou duas vezes. E então lentamente se levantou.
Inconsciente ou indiferente à sua nudez, ela deu um passo instável. Rowan estava instantaneamente ali, ou o mais perto que as chamas permitiam.
Ele poderia empurrar, protegendo-se no gelo ou simplesmente cortando o ar que alimentava suas chamas. Mas cruzar essa linha, enfiar-se em suas chamas quando tanto, muito, tinha sido roubado dela... Ele não se permitiu pensar no reconhecimento distante e cauteloso em seu rosto quando o viu – viu todos eles. Como se ela não estivesse inteiramente certa de confiar neles. Confiar nisso.
Aelin deu outro passo, oscilando. Ele vislumbrou o pescoço dela quando ela passou. Até mesmo as marcas de gêmeas mordidas, sua marca de reivindicação, havia desaparecido.
Envolta em chamas, Aelin caminhou até Fenrys. O lobo branco não se mexeu.
A tristeza suavizou seu rosto, mesmo com aquela distância tranquila. Tristeza e gratidão.
Gavriel e Elide permaneceram do outro lado de Fenrys quando ela se aproximou. Afastaram um passo. Não por medo, mas para dar-lhe espaço neste momento de despedida.
Eles tinham que ir. Permanecer aqui, apesar dos quilômetros entre eles e o acampamento, era loucura. Eles poderiam levar Fenrys até estar terminado, mas...
Rowan não conseguia dizer. Dizer a Aelin que talvez não fosse sensato dar esse adeus da maneira que ela precisava. Eles tinham minutos, na melhor das hipóteses, para poupar antes que tivessem que se mover.
Mas se batedores ou sentinelas os encontrassem, ele se certificaria de que não chegassem perto o bastante para perturbá-la.
Gavriel e Lorcan pareciam ter o mesmo pensamento, seus olhos se encontrando do outro lado da clareira. Rowan apontou o queixo em direção à linha das árvores ocidentais em ordem silenciosa. Eles tomariam aquele lado.
Aelin se ajoelhou ao lado de Fenrys e sua chama envolveu os dois. O fogo deu lugar a uma aura de ouro avermelhado, um escudo que ele sabia que derreteria a carne de qualquer um que tentasse atravessar. As chamas fluíram e ondularam ao redor deles, uma bolha de ar acobreado, e através dele, Rowan observou enquanto ela passava a mão pelo lado machucado do lobo.
Gavriel havia curado a maior parte das feridas, mas o sangue permanecia. Aelin fez longas e gentis carícias sobre o pelo, a cabeça abaixada enquanto falava baixinho demais para Rowan ouvir.
Lentamente, dolorosamente, Fenrys abriu um olho. A agonia o enchia – agonia e ainda algo como alívio e alegria, ao ver seu rosto nu. E exaustão. Tal exaustão que Rowan sabia que a morte seria um abraço bem-vindo, um beijo da própria Silba, deusa dos finais gentis.
Aelin falou novamente, o som contido ou engolido pelo escudo dela. Sem lágrimas. Apenas aquela tristeza – e clareza.
O rosto de uma rainha, ele percebeu quando Lorcan e Gavriel pegaram pontos de observação ao longo da borda do vale. Era o rosto de uma rainha que olhava para Fenrys. Uma rainha que pegou sua enorme pata nas mãos, empurrando para trás as dobras de pele para desembainhar uma garra curva.
Ela a deslizou sobre seu antebraço nu, cortando a pele. Deixando sangue em seu rastro.
A respiração de Rowan ficou presa.
Gavriel e Lorcan se viraram para eles.
Aelin falou novamente e Fenrys piscou uma vez em resposta.
Ela considerou resposta o suficiente.
— Deuses sagrados — Lorcan respirou quando Aelin estendeu o antebraço sangrando para a boca de Fenrys. — Malditos deuses sagrados.
Para a lealdade de Fenrys, por seu sacrifício, não havia recompensa maior que ela pudesse oferecer. Para mantê-lo longe da morte, não havia outro jeito de salvá-lo.
Apenas isso. Apenas o juramento de sangue.
E enquanto Fenrys se esforçava para tirar o sangue da ferida dela, enquanto fazia um voto silencioso à rainha, piscando mais algumas vezes, o peito de Rowan ficou insuportavelmente apertado.
Quebrar o juramento de sangue para uma rainha rompera a sua força vital, sua alma. Fazer o juramento de sangue para outra poderia muito bem consertar essa rachadura, a magia antiga ligando a vida de Fenrys à de Aelin.
Três goles. Foi tudo o que Fenrys conseguiu antes de baixar a cabeça no musgo e fechar os olhos.
Aelin se deitou de lado próxima dele, chamas envolvendo os dois.
Rowan não conseguia se mexer. Nenhum deles se moveu.
Aelin falou uma breve e curta palavra.
Fenrys não respondeu.
Ela falou de novo, aquele rosto de rainha inabalável.
Viva.
Ela usaria o juramento de sangue para forçá-lo a permanecer deste lado da vida.
Ainda assim, Fenrys não se mexeu.
Através da bolha de chamas e calor, Elide colocou a mão sobre a boca, os olhos brilhando. Ela leu a palavra nos lábios de Aelin também.
Aelin falou pela terceira vez, com os dentes piscando enquanto dava a Fenrys sua primeira ordem. Viva.
Rowan não respirou enquanto esperavam. Longos minutos se passaram.
Então os olhos de Fenrys se abriram.
Aelin segurou o olhar do lobo, nada em seu rosto exceto aquela ordem grave e inflexível.
Lentamente, Fenrys se mexeu. Suas patas se moveram debaixo dele, as pernas esticaram. E ele se levantou.
— Eu não acredito — sussurrou Lorcan. — Eu não...
Mas lá estava Fenrys, de pé diante de sua rainha agora ajoelhada. E lá estava Fenrys, inclinando a cabeça, os ombros mergulhando com ele, uma pata baixando depois da outra. Curvando-se.
Um fantasma de um sorriso apareceu na boca dela, e sumiu antes que tomasse forma.
Aelin permaneceu ajoelhada, no entanto. Mesmo quando Fenrys observou todos eles, surpresa e alívio iluminando seus olhos escuros. Seu olhar encontrou o de Rowan e Rowan sorriu, baixando a cabeça.
— Bem-vindo à corte, filhote — disse ele, com a voz rouca.
Uma emoção crua ondulou através daquele rosto lupino, e então Fenrys se voltou para Aelin.
Ela olhava para o nada. Fenrys cutucou o ombro dela com a cabeça peluda.
Ela passou uma mão ociosa pela pelagem branca do lobo. O coração de Rowan se apertou.
Maeve abrira caminho na mente de Rowan para enganar seus próprios instintos. O que fizera com ela? O que fez por todos esses meses?
— Precisamos ir — disse Gavriel, sua própria voz rouca quando viu Fenrys, orgulhoso e vigilante ao lado de Aelin. — Precisamos colocar distância entre nós e o acampamento, e encontrar algum lugar para passar a noite. — Onde eles reavaliariam como e onde deixar esse reino.
Rumo à floresta, em direção às montanhas, seria sua melhor aposta. Essas árvores ofereciam bastante cobertura e muitas cavernas para se esconder.
— Você consegue andar? — Lorcan perguntou a Fenrys.
Fenrys deslizou os olhos escuros e sombrios para Lorcan.
Ah, essa luta viria. Essa vingança.
O lobo deu-lhe um breve aceno de cabeça.
Elide pegou uma das mochilas escondidas perto da base de uma árvore.
— Por qual caminho?
Mas Rowan não conseguiu responder.
Silenciosos como fantasmas, eles apareceram do outro lado do vale. Como se simplesmente tivessem surgido à sombra da folhagem.
Pequenos corpos, alguns pálidos, alguns negros como a noite, alguns com escamas. Principalmente ocultos, salvo por dedos finos e olhos largos que não piscavam.
— O Povo Pequeno — Elide ofegou.


Elide não via traço do Povo Pequeno desde os dias antes de Terrasen cair.
Então, houveram lampejos e sussurros dentro da antiga sombra de Carvalhal. Nunca tantos, nunca tão abertamente.
Ou tão aberto quanto eles jamais se permitiriam ser.
A meia dúzia ou mais que havia se reunido na clareira estava praticamente escondida atrás de raízes, pedras e ramos de folhas. Nenhum dos machos se moveu, embora as orelhas de Fenrys se inclinassem para eles.
Um milagre – foi o que aconteceu com a rainha e o lobo. Embora Fenrys parecesse exaurido, seus olhos estavam claros enquanto as fadas se reuniam.
Aelin mal olhou para eles.
Uma mão pálida e macia se ergueu sobre uma pedra salpicada de musgo e se fechou lentamente. Venham.
Rowan perguntou, voz como granito:
— Vocês desejam que os sigamos?
Novamente, a mão fez o movimento. Venham.
— Eles conhecem essa floresta melhor do que nós — Gavriel murmurou.
— E você confia neles? — perguntou Lorcan.
Os olhos de Rowan se fixaram em Aelin.
— Eles salvaram a vida dela uma vez. — Naquela noite, quando o assassino de Erawan retornou para Aelin. — Eles farão isso de novo agora.


Silenciosos e invisíveis, eles passaram pelas árvores, rochas e riachos da antiga floresta.
Rowan um passo atrás de Aelin e Fenrys, Gavriel e Elide à frente de sua comitiva, Lorcan na retaguarda, enquanto seguiam o Povo Pequeno.
Aelin não disse nada, não fez nada além de se levantar quando lhe disseram que era hora de partir. Rowan lhe ofereceu o manto, e ela permitiu que ele passasse por sua bolha de chama dourada e clara para envolver seu corpo nu.
Segurava-o fechado peito enquanto andavam, quilômetro após quilômetro, os pés descalços. Se as pedras e raízes da floresta a machucavam, ela não vacilou. Ela apenas caminhou, com Fenrys ao seu lado dentro daquela esfera de fogo, como se fossem dois fantasmas de memória.
Uma visão antiga, caminhando entre as árvores, a rainha e o lobo.
Os outros falavam raramente enquanto as horas e os quilômetros passavam. Enquanto as colinas cobertas por florestas deram lugar a declives mais íngremes, as pedras maiores, rochas e árvores quebradas em alguns pontos.
— Das antigas guerras entre os espíritos da floresta — Gavriel sussurrou para Elide quando a notou franzindo a testa para uma encosta cheia de troncos derrubados e pedras lascadas. — Algumas ainda são travadas por eles, totalmente inconscientes e despreocupados com os assuntos de qualquer reino, exceto isso.
Rowan nunca tinha visto a raça de seres etéreos muito mais antiga e secreta do que até mesmo o Povo Pequeno. Mas em sua casa na montanha, no alto da área em que caminhavam, ele às vezes ouvia rochas e árvores rachando em noites escuras e sem lua. Quando não havia um sussurro de vento no ar, nem qualquer tempestade para causá-las.
Tão perto – apenas vinte ou mais quilômetros até casa da montanha que ele construíra. Ele planejara levar Aelin para lá um dia, embora não fosse nada além de cinzas desaparecidas. Só para mostrar a ela onde a casa estava, onde enterrara Lyria.
Ela ainda estava lá em cima, aquela-que-nunca-fora-sua-parceira.
E sua verdadeira parceira... Ela caminhava inabalável através das árvores. Não mais que um fantasma.
Ainda seguiam o Povo Pequeno, que acenava de uma árvore, uma pedra ou um arbusto à frente e depois desaparecia. Atrás de Lorcan, alguns outros escondiam sua trilha com mãos inteligentes e pequenas magias.
Ele rezou para que eles tivessem um lugar para passar a noite. Um lugar onde Aelin poderia dormir, e poderia permanecer protegida dos olhos de Maeve quando percebesse que tinha sido enganada.
Eles estavam indo para o leste – para longe da costa. Rowan não se atreveu a dizer que precisava encontrar um porto. Ele veria aonde eles os levariam esta noite, e então elaboraria seu plano para retornar ao seu próprio continente.
Mas quando o Povo Pequeno surgiu diante de uma pedra gigantesca, quando eles então desapareceram e reapareceram em uma lasca cortada na própria rocha, mãos ossudas acenando de dentro, Rowan se viu parando.
A criatura que morava no lago sob a montanha Careca era uma ameaça amena comparada com as outras coisas que ainda caçavam em lugares escuros e esquecidos.
Mas o Povo Pequeno acenou novamente.
Lorcan apareceu ao seu lado.
— Poderia ser uma armadilha.
Mas Elide e Gavriel caminharam em direção a ela, imperturbável. E atrás deles, Aelin continuou também. Então Rowan a seguiu, enquanto ele a seguiria até o último suspiro e além dela.
A boca da caverna era apertada, mas logo se abriu em uma passagem maior. Aelin iluminou o espaço, banhando as paredes de pedra negra em um brilho dourado claro o suficiente para enxergar.
Mas sua chama foi diminuída quando eles entraram em uma enorme câmara.
O teto se estendia em escuridão, mas não foi a altura da câmara que o fez parar.
Recantos e alcovas tinham sido construídos na rocha, alguns equipados com roupas de cama, alguns com o que pareciam ser pilhas de roupas, e alguns com comida. Uma pequena fogueira ardia perto de um deles e, passando por ele, encostado na parede, uma calha de pedra natural brilhava com água, cortesia de um pequeno riacho.
Mas mais adiante na caverna, do outro lado da câmara, fluindo até a rocha negra, um grande lago se estendia na escuridão.
Havia incontáveis lagos e rios subterrâneos sob essas montanhas – lugares tão profundos na terra que até mesmo os feérico não se incomodaram ou se atreveram a explorar.
Este, parecia, o Povo Pequeno tinha reivindicado para si, indo tão longe a ponto de enfeitar o espaço com ramos de bétula contra as paredes. Eles penduraram pequenas guirlandas e enfeites nos galhos brancos e, entre as folhas, pequenas luzes azuladas cintilavam.
Magia – magia estranha, antiga, essas luzes. Como se tivessem sido arrancadas do céu noturno.
Elide examinava o espaço, temor escrito por suas feições. Gavriel e Lorcan, no entanto, avaliaram-no com um olhar mais agudo e mais cauteloso. Rowan fez o mesmo. A única saída parecia ser aquela por onde entraram, e o lago se esticando longe demais para discernir se havia uma margem além.
Aelin não parou quando andou a passos largos para uma das paredes cintilantes. Não havia nenhuma das suas cautelas usuais, nenhuma aresta em seus olhos enquanto pesava as saídas e armadilhas, armas potenciais para empunhar.
Um transe – era quase como se ela tivesse entrado em transe, mergulhado em algum oceano profundo dentro de si e chegado tão fundo que eles poderiam muito bem ser pássaros sobrevoando sua superfície distante.
Mas ela caminhou em direção àquela parede, os ramos de bétula artisticamente exibidos através dela. Havia mais do Pequeno Povo ali dentro, Rowan percebeu. Empoleirados nos galhos, agarrando-se a eles.
Os passos de Aelin ficaram em silêncio na pedra. Fenrys parou ali perto, como se quisesse dar privacidade a ela.
Rowan tinha a vaga sensação de que Lorcan, Elide e Gavriel se dirigiam para a alcova do outro lado da caverna para inspecionar os itens que descobriram.
Mas ele permaneceu no centro do espaço quando sua parceira parou diante da parede viva e brilhante. Não havia expressão em seu rosto, nenhuma tensão em seu corpo.
No entanto, ela inclinou a cabeça para as fadas meio escondidas nos galhos e ramos diante dela. Seu queixo se moveu – falando. Breves palavras curtas.
Ele nunca tinha ouvido falar do Povo Pequeno falando. Mas ali estava sua rainha, sua esposa, sua parceira, murmurando com eles.
Por fim, ela se virou, o rosto ainda vazio, os olhos de fogo selvagem tão lisos e frios quanto o lago. Fenrys ficou ao lado dela, e Rowan permaneceu no lugar enquanto Aelin apontava para a pequena fogueira.
Seguro. O Povo Pequeno deve ter dito a ela que esta caverna era segura, se ela agora se movia para o fogo, sua própria esfera ainda queimando brilhante.
Os outros interromperam a avaliação dos suprimentos. Mas Aelin não prestou atenção, não prestou atenção ao mundo quando escolheu um ponto entre o fogo e a parede da caverna, deitou-se sobre a pedra nua e fechou os olhos.

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