5 de outubro de 2018

Capítulo 31

— ACHO QUE ESTÃO COMEÇANDO A DESAPARECER. — Leyla inspecionou as marcas na minha garganta. No dia seguinte, elas haviam se transformado em um glorioso colar roxo em forma de dedos. — Devem sumir até o Auranzeb. — Aquela parecia ser a maior preocupação no harém. Que minha quase morte não combinasse com meu khalat. Do outro lado do jardim, notei duas mulheres sussurrando e me espiando de canto de olho. Como eu odiava aquele lugar. Leyla afastou as mãos gentis. — Mas realmente acho que deveria falar com Tamid. Talvez ele possa dar algo para ajudar.
— Vou sobreviver.
Seus olhos grandes estavam arregalados. Ela queria dizer alguma coisa importante.
— O que foi? — perguntei.
— Rahim me contou sobre o Auranzeb. Sobre fugir. E… não quero deixar Tamid para trás.
Fiquei surpresa. O que meu antigo amigo teria contado a ela a meu respeito? Que eu havia feito exatamente isso? Seria um golpe para reabrir a ferida? Mas não parecia haver qualquer tipo de malícia em suas palavras.
Leyla abaixou a cabeça, ajeitando nervosamente o cabelo atrás da orelha e evitando meu olhar. Ela estava apaixonada. Ou pelo menos achava que estava. E não tinha nem dezesseis anos. Tinha passado a vida toda trancada em um palácio. Tamid certamente era um dos poucos homens da nossa idade que ela conhecera que não fosse seu irmão.
Não era à toa que pensava estar apaixonada por ele.
E Tamid era inteligente e gentil. Não seria de se espantar se ela se apaixonasse de verdade.
Leyla estava certa. Eu não podia abandoná-lo outra vez.
Quando Sam atravessou a parede naquela noite, tinha um lábio cortado e caminhava como se tivesse machucado as costelas. Foi o único sinal de que as coisas estavam perto de explodir lá fora. Ele só me trazia boas notícias da rebelião. Dizia que Saramotai estava segura. Que uma emboscada tinha sido bem-sucedida. Que a delegação enviada para inspecionar as ruínas da fábrica na Vila da Poeira nunca chegara lá.
— Agora você quer que eu ajude quatro pessoas a escapar do palácio, mas tenho apenas duas mãos. — Sam coçou a casquinha em seu lábio. Tirei sua mão de lá. Ia acabar deixando uma cicatriz.
— Três pessoas.
— Quatro — Sam disse. — Estou contando com você. Há quanto tempo me conhece? Ainda subestima as habilidades do Bandido de Olhos Azuis? — Ele jogou o sheema por cima do ombro, que acabou enganchado em um dos galhos da árvore do Muro das Lágrimas.
— É impressão minha ou você fica cada vez mais ridículo? — Era bem a cara de Sam tentar evitar qualquer assunto um pouco mais sério. Como a possibilidade real de que eu não pudesse escapar no Auranzeb com eles.
— Ridiculamente caído por você. — Ele tinha conseguido recuperar o sheema com alguma dignidade. Percebi que estava tentando me fazer rir. E conseguira.
— Você não está caído por mim, você… — Está apaixonado por outra pessoa, quase deixei escapar, mas parei a tempo. Sam passava muito tempo se vangloriando de suas conquistas. Tinha certeza de que metade delas eram inventadas. Mas eu nunca o ouvira falar de alguém que realmente amasse. Estudei seu rosto, procurando um sinal de alguma coisa verdadeira escondida ali. Mas eram os meus olhos que traíam, não os dele.
— Você parece muito segura de si. — Ele apoiou as mãos contra a árvore, uma de cada lado do meu corpo. — Quer apostar?
Ele estava prestes a me beijar. Ou queria que eu achasse que estava, para provar algum argumento idiota. E eu não tinha certeza se ia impedi-lo ou não. Em dezessete anos, beijara apenas Jin.
— Seu lábio está sangrando. — Estendi a mão para a ferida, mas Sam a pegou de forma travessa enquanto se inclinava mais para perto. Não senti nada. Quando Jin me olhava como Sam estava me olhando naquele momento, ou fingia olhar, era diferente. Nenhuma onda de calor tinha invadido meu corpo. O mundo em volta parecia tão nítido quanto antes. Sam não era Jin. Mas ele estava ali e Jin não estava.
Ouvimos um riso inconfundível. Viramos a cabeça na mesma hora, nos afastando antes que sua boca pudesse encontrar a minha.
Ayet estava na porta que dava para o jardim do Muro das Lágrimas, gargalhando com a cabeça para o alto, como se estivesse agradecendo aos céus pelo presente enviado para ela. Dezessete anos de instintos do deserto despertaram em meu peito. Só que eu não estava no deserto. E aquela ameaça era diferente.
— Perdi todo esse tempo procurando um jeito de manter você longe da cama do meu marido sem jamais imaginar que seria tão fácil. — Ayet disse. — Você é apenas uma de centenas de mulheres no harém burras o suficiente para procurar um amante.
— Ayet. — Dei um passo à frente e ela recuou. Parei, sabendo que a garota poderia correr como um animal assustado a qualquer instante para me dedurar. — Não faça isso. Não é…
— Ah, é tarde demais para negociar, Amani. — Ela virou e correu para o harém.
— Bem — Sam disse. — Pelo visto temos um problema.
Era uma questão de horas até o sultão e Kadir voltarem do encontro com o rei gallan. Onde mentiriam para ele, dizendo que a rebelião tinha matado seu embaixador.
Só tinha um punhado de horas para impedir Ayet antes que tivesse a chance de contar a notícia para o sultim. Impedi-la ou tirar todo mundo de lá.
Sam estava correndo até o acampamento rebelde para buscar ajuda. Eu ainda não sabia onde era e estava grata por isso. Se o sultão ordenasse que eu contasse o que sabia, minha ignorância pelo menos lhes daria algum tempo. Mas eles ainda tinham que se preparar para fugir.
Nesse meio-tempo, eu tentaria impedir Ayet.
Se havia uma pessoa que era uma ameaça ainda maior para ela do que eu, era Shira.
E ela continuava firme no harém. Eu precisava saber como. Shira negociava informações. Ela sabia de algo que mantinha Ayet sob controle. E eu tinha que descobrir o que era.
Voltei correndo para o centro do harém, a respiração ofegante. Alguma coisa estava diferente. Senti de imediato. Avistei Leyla, com os cabelos negros presos no alto e o olhar perdido no jardim, cutucando a própria unha.
— Leyla! — Corri até ela. — Preste atenção. Ayet acaba de descobrir… É complicado. Se ela falar com seu pai ou Kadir, não vamos conseguir tirar você do palácio no Auranzeb conforme planejado. Então você precisa estar preparada para partir hoje à noite se for o caso. E preciso achar Shira — eu disse, resumindo tudo bem rápido. — Sabe onde ela está?
Leyla parecia assustada enquanto eu despejava informações em cima dela. Mas se prendeu à última pergunta.
— A sultima? O bebê está nascendo. Alguém mandou avisar Kadir.
Era isso, então. O motivo do rebuliço nervoso que preenchia o harém. Não era uma boa hora.
— Onde ela está? — pressionei, já me odiando um pouco por isso. Antes mesmo de Leyla apontar.
Quanto mais eu avançava corredor adentro, mais os gritos ficavam ensurdecedores.
Havia um punhado de mulheres do harém rezando do lado de fora da porta. Uma serviçal saiu dali correndo, carregando um pano encharcado de sangue. Os gritos de Shira a acompanharam até a porta ser fechada com força outra vez, abafando-os.
E então, de repente, o silêncio caiu como uma pedra lá dentro.
Prendi a respiração, tentando contar as batidas do meu coração enquanto o silêncio se prolongava. Esperando. Até que a quietude fosse interrompida por alguma coisa. Um grito. Uma acusação. Uma parteira saindo para nos informar que Shira não tinha sobrevivido.
Foi o choro de um bebê que quebrou a calmaria.
Deixei escapar um suspiro de alívio. Não tinha nem terminado quando outro grito ecoou.
Não era de Shira.
Corri como uma flecha até a porta, abrindo-a com violência. Minha prima tinha desabado, numa mistura de cabelos suados e panos manchados de sangue, segurando um pequeno pacote enrolado junto ao peito, os joelhos puxados para cima perto do bebê, como se pudesse protegê-lo. As três mulheres ao redor dela tinham os olhos arregalados e fixos, como se houvessem sido transformadas em pedra. Uma quarta estava apoiada contra a parede, as mãos cobrindo a boca, tremendo.
Dei outro passo, até que pude ver com clareza o pequeno pacote que Shira segurava.
Os olhos do bebê não eram azuis, mas seu cabelo era. Como o de Maz. De um azul violentamente brilhante. Como a parte mais quente de uma chama.
Aquela criança não era filha de Sam. Era filha de um djinni. Shira tinha dado à luz um demdji.
De repente, Leyla e Rahim não eram os que mais precisavam ser resgatados.
— Shira. — Agachei perto dela. — Você consegue andar?
Ela finalmente tirou os olhos do bebê.
— Posso correr se precisar. — Qualquer refinamento que a cidade tivesse dado ao seu sotaque tinha desaparecido. Seu tom era típico da Vila da Poeira. Ela se impulsionou devagar para levantar da cama, mas não tremeu. Shira nunca me impressionara tanto. Havia um ar em torno dela quando incorporava o papel de sultima, em suas roupas finas e arrogância artificial. Mas era diferente da ferocidade que exibia agora, enrolada em um khalat arruinado e nos lençóis, segurando seu filho.
— Vamos, então.
A falta de guardas no harém a deixara com medo de ser assassinada desde que tinha engravidado, mas agora poderia ser exatamente isso a salvar sua vida. Não havia ninguém para nos deter enquanto abríamos caminho a empurrões para fora dos aposentos. Mães, irmãs, esposas, filhos, serviçais, todos olhavam boquiabertos e mudos, sem saber o que fazer. Embora eu tivesse certeza de que alguém tivera o bom senso de ir correndo buscar ajuda.
Não tínhamos muito tempo. Mas tínhamos algum. Meu coração batia acelerado.
— Shira. — Espiei uma esquina. Dava em um jardim calmo cheio de flores, vazio agora. Estávamos perto do Muro das Lágrimas. Rezei para que Sam estivesse lá para nos ajudar quando chegássemos. — Eu preciso saber. Que segredo usou contra Ayet todos esses meses? O que a manteve afastada de você?
Shira tropeçou, e eu a ajudei a se manter de pé.
— Posso contar se conseguir me tirar daqui viva — ela disse, em tom de brincadeira. Mesmo agora, com a morte nos calcanhares, Shira ainda era a negociadora do harém.
— Shira, por favor.
— Um marido — ela disse, finalmente. — Outro marido, do lado de fora. Ayet colocou veneno em sua comida depois que ele quebrou duas costelas dela. Então subornou alguém para ser aprovada na… inspeção — Shira tentou explicar de forma delicada. — Algumas palavras sobre a verdade no ouvido do sultim e eu poderia ter feito com que desaparecesse. Corda de seda em volta do pescoço enquanto dormia, corpo descartado no mar. É assim que elas somem silenciosamente quando o sultim deseja. — Me prendi às palavras. Tinha que conseguir chegar a Ayet antes que ela chegasse a Kadir. Precisava dizer que poderia arruiná-la se tentasse me expor.
Estávamos quase no Muro das Lágrimas. Tão perto da liberdade.
Ouvi o som familiar de coldres raspando no cinto. O barulho de botas pisando com força.
Em poucos instantes, estávamos cercadas por homens de uniforme, acompanhados pelo sultão e pelo sultim.
Kadir abriu caminho à força pelas fileiras. Ele avançou em direção a Shira. Tentei me colocar entre o sultim e minha prima, mas dois soldados o seguraram antes.
Kadir começou a lutar com eles.
— Me soltem. Ela é minha esposa. E uma vadia mentirosa. — O sultim tentava se libertar. — É meu direito fazer com ela o que eu quiser. E vai sangrar por sua traição.
Shira apertou a criança contra o peito, encarando Kadir, mais corajosa do nunca.
— Só fiz isso para permanecer viva. Porque você é um homem cruel, estúpido e infértil.
Kadir avançou mais uma vez na direção dela. O sultão fez um gesto rápido e o sultim foi puxado pelos guardas.
— Levem meu filho para algum lugar onde possa se acalmar.
— Minha esposa… — Kadir começou a dizer, mas o sultão o interrompeu.
— Isso é assunto para governantes, não maridos mesquinhos.
Eu podia escutar os protestos de Kadir enquanto era arrastado jardim afora.
— Você sabe qual é a punição por violar seus votos de casamento, Shira. — A voz do sultão saiu calma quando o filho saiu de vista. Pensei em um momento como aquele, quinze anos antes. Delila sendo levada embora enquanto o sultão enforcava a mãe de Ahmed.
— Kadir nunca terá um herdeiro. Ele não consegue. E acho que o aclamado sultão sabe disso. — Shira se endireitou. — Eu fiz o que fiz por este país.
— Acredito que alguma parte de você realmente acredita nisso — o sultão disse. — Sempre gostei de você, Shira, é uma pena. Você era mais esperta do que a maioria. Ouvi dizer que gosta de negociar. Tenho um último acordo para propor. A vida do seu filho em troca do nome do djinni, o verdadeiro pai dele.
— Shira… — tentei alertar. Mas era tarde demais.
— Fereshteh. — Ela levantou o queixo em desafio, alheia ao fato de que tinha dado ao sultão o nome verdadeiro de outro djinni. — Ele me disse que faria de mim a mãe de um governante. Um verdadeiro príncipe. Um grande sultão. Muito maior do que Kadir jamais poderia ser.
Eu nunca tinha visto incerteza no rosto do sultão antes. Mas tive a impressão de enxergar por um instante. E não podia culpá-lo. Uma verdade dita por um djinni era algo poderoso. Se Shira não estivesse mentindo, seu filho de fato governaria.
— Fereshteh — o sultão repetiu. — Ótimo. Leve a criança, Amani. — Era uma ordem, e eu já estava lutando contra o impulso dos meus braços de obedecer.
— O que vai acontecer com Shira? — Meus braços já estavam se mexendo sem que eu quisesse. O sultão nunca parecera tanto com Ahmed quanto naquele momento. Era o mesmo rosto que o príncipe rebelde ostentava quando me dizia algo que sabia que eu não queria ouvir, mas que precisava ser feito mesmo assim. — Por favor… — supliquei.
Shira sussurrava para o filho, fazendo promessas que não poderia cumprir. Tentando aproveitar os únicos momentos que teriam juntos. Minha mente estava acelerada, tentando pensar em alguma coisa. Uma fuga, qualquer coisa. Mas estávamos presas. Certas coisas eram inevitáveis. A criança estava em minhas mãos. — Por favor, não a mate.
Os olhos da minha prima encontraram os meus. Seus lábios se abriram. Lembrei das palavras do sultão. Shira era boa em fazer acordos. E ela tinha uma última coisa com que barganhar. Uma última moeda que poderia tentar usar para comprar sua vida. Eu.
Ela poderia oferecer ao sultão a Bandida de Olhos Azuis e toda a rebelião em troca de sua vida.
Poderia me destruir naquele instante. Eu não tinha nada.
— O nome dele é Fadi. — Era o nome do nosso avô. O nome que nossas mães usavam antes de se casar.
— Levem-na presa — o sultão ordenou, sem emoção na voz, virando para ir embora. Já se esquecia dela, agora que era apenas outra garota inútil no harém. — Será executada amanhã ao pôr do sol. Amani, venha comigo. Traga a criança.
Fadi chorou cada vez mais alto em meus braços enquanto nos afastávamos mais e mais de sua mãe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!