29 de outubro de 2018

Capítulo 30

O choque do enfrentamento ecoou pela terra, mesmo a quilômetros de distância. Nas profundezas das colinas de uma antiga floresta, Elide esperava fazia horas. Primeiro tremendo no escuro, depois vendo o céu sangrar até ficar cinzento, depois finalmente azul. E com essa transição final, o clamor havia começado.
Ela alternava entre andar pelo vale coberto de musgo, que tecia por entre as rochas cinzentas espalhadas entre as árvores, e sentar-se no silêncio vibrante apoiada numa das imponentes árvores de troncos largos, tornando-se tão pequena e silenciosa quanto possível. Gavriel havia jurado que nenhum dos animais estranhos ou feras nestas terras rondaria tão perto de Doranelle, mas ela não queria arriscar. Então permaneceu no vale, onde lhe disseram para esperar.
Esperar por eles. Ou esperar que as coisas corressem tão errado que ela tivesse que encontrar seu próprio caminho. Talvez ela procurasse Essar se chegasse a isso...
Não chegaria. Ela jurou repetidamente. Não poderia chegar a esse ponto.
O sol da manhã começava a esquentar a sombra gelada quando ela os viu.
Os viu antes de ouvi-los, porque seus pés andavam em silêncio no chão da floresta, graças a sua graça imortal e treinamento. O ar saiu para fora dela quando Lorcan emergiu entre duas árvores cobertas de musgo, os olhos já fixos nela. E um passo atrás, cambaleando...
Elide não sabia o que fazer. Com o corpo dela, as mãos dela. Não sabia o que dizer quando Aelin tropeçou na raiz e na rocha, a máscara e as correntes se chocando, o sangue encharcando-a. Não apenas o sangue de suas próprias feridas, mas dos outros.
Ela estava magra, seu cabelo dourado muito mais longo. Tempo demais, mesmo com o tempo distante dali. Descia quase até o umbigo, a maior parte escura com sangue endurecido. Como se ela tivesse passado por uma chuva dele.
Nenhum sinal de Rowan ou Gavriel. Mas não havia pesar no rosto de Lorcan, nada além da urgência, dado como ele monitorava o céu, as árvores. Procurando por qualquer patrulha.
Aelin parou na beira da clareira. Seus pés estavam descalços e a túnica fina e curta que usava não revelava ferimentos graves.
Mas havia pouco reconhecimento nos olhos de Aelin, sombreado pela máscara.
— Vamos esperar por eles aqui — Lorcan disse à rainha.
Aelin, como se o corpo não pertencesse a ela, levantou as mãos algemadas com metal. A corrente que as ligava havia sido cortada e pendia em pedaços das algemas. O mesmo com aquelas em seus tornozelos.
Ela puxou uma das manoplas de metal. Não se moveu. Ela puxou novamente. A contenção não se mexeu.
— Tire isso.
A voz dela era baixa, grave.
Elide não sabia qual delas pedira, mas antes que pudesse atravessar a clareira, Lorcan pegou o pulso da rainha para examinar as fechaduras.
Um canto de sua boca se apertou. Não havia maneira fácil de libertá-los, então.
Elide se aproximou, mancando novamente dado que a magia de Gavriel estava ocupada.
As manoplas haviam sido fechadas nos pulsos dela, sobrepondo-se ligeiramente às correntes. Ambas tinham pequenos buracos de fechadura. Ambas eram feitas de ferro.
Elide se mexeu levemente, apoiando seu peso na perna não machucada, para ter uma visão de onde a máscara estava presa na parte de trás da cabeça de Aelin.
Aquela fechadura era mais complicada do que as outras, as correntes grossas e antigas.
Lorcan encaixou a ponta de uma adaga fina na fechadura da manopla e agora estava inclinando-a, tentando pegar o mecanismo.
— Tire isso. — As palavras guturais da rainha foram engolidas pelas árvores cobertas de musgo.
— Estou tentando — disse Lorcan – não gentilmente, embora sem a frieza habitual.
A adaga raspou na fechadura, mas sem sucesso.
— Tire isso. — A rainha começou a tremer.
— Eu estou...
Aelin arrancou a adaga dele, metal arranhando metal enquanto ela encaixava a ponta da lâmina na fechadura. Ela forçou a adaga em sua mão coberta por ferro.
— Tire isso — ela respirou, os lábios se curvando para trás de seus dentes. — Tire.
Lorcan se moveu para pegar o punhal, mas ela o virou longe.
— Essas fechaduras são muito inteligentes. Precisamos de um ferreiro apropriado — ele retrucou.
Arquejando entre os dentes cerrados, Aelin cavou e torceu a adaga na fechadura da manopla. Um estalo rompeu a clareira.
Mas não da fechadura. Aelin retirou a adaga para revelar a ponta quebrada e lascada. Um pedaço de metal caiu da fechadura e entrou no musgo.
Aelin olhou para a lâmina quebrada, para o fragmento na folhagem que amortecia os pés nus e ensanguentados, a respiração ficando cada vez mais rápida.
Então ela largou a adaga no musgo. Começou a puxar as algemas nos braços, as manoplas nas mãos, a máscara no rosto.
— Tire isso — ela implorou enquanto arranhava e puxava e fazia força. — Tire isso!
Elide estendeu a mão para ela, para impedi-la antes que ela arrancasse a pele dos ossos, mas Aelin se afastou, cambaleando mais para dentro da clareira.
A rainha caiu de joelhos, curvando-se para frente e arranhando a máscara.
Esta não se mexeu muito.
Elide olhou para Lorcan. Ele estava congelado, os olhos arregalados quando Aelin se ajoelhou no musgo, enquanto sua respiração era cortada por soluços.
Ele fizera isso. Levou-os a isso.
Elide deu um passo em direção a Aelin. As manoplas da rainha tiraram sangue onde arranhavam seu pescoço, sua mandíbula, enquanto ela lutava contra a máscara.
— Tire! — O pedido se transformou em um grito. — Tire!
Mais e mais, a rainha gritou.
—Tire, tire, tire!
Ela chorava em meio aos gritos, os sons quebrando através da floresta antiga. Ela não disse outras palavras. Não suplicou a nenhum deus, a nenhum ancestral. Apenas essa palavra, de novo e de novo e de novo. Tire, tire, tire.
Movimento balançou as árvores atrás deles, e o fato de Lorcan não ter procurado suas armas disse a Elide quem era. Mas qualquer alívio teve vida curta quando Rowan e Gavriel emergiram, um enorme lobo branco carregado entre eles. O lobo cujas mandíbulas haviam mordido o braço de Elide, rasgando carne até o osso. Fenrys.
Ele estava inconsciente, a língua caída de sua boca ensanguentada. Rowan mal havia entrado na clareira antes de pousar o lobo e ir até Aelin.
O príncipe estava coberto de sangue. Por seus passos desimpedidos, Elide sabia que não era dele.
Do sangue que revestia seu queixo, pescoço... Ela não queria saber.
Aelin continuava puxando a máscara que não se mexia, inconsciente ou despreocupada do príncipe diante dela. Seu consorte, marido e parceiro.
— Aelin.
Tire, tire, tire. Seus gritos eram insuportáveis. Pior que aqueles na praia em Eyllwe.
Gavriel se aproximu ao lado de Elide, sua pele dourada pálida enquanto observava a rainha frenética.
Lentamente, Rowan se ajoelhou diante dela.
— Aelin.
Ela só inclinou a cabeça para o dossel da floresta e soluçou. Sangue escorria pelo pescoço dos arranhões que ela havia feito em sua pele, misturando-se com o que já a cobria.
Rowan estendeu a mão trêmula, o único sinal da agonia que Elide sabia que sem dúvidas o atravessava. Suavemente, ele colocou as mãos nos pulsos dela; gentilmente, fechou os dedos ao redor deles. Parando o arranhar brutal.
Aelin soluçou, seu corpo estremecendo com a força disso.
— Tire.
Os olhos de Rowan piscaram, pânico e coração quebrado e saudade brilhando lá.
— Eu vou tirar. Mas você tem que ficar quieto, Coração de Fogo. Só por alguns momentos.
— Tire.
Os soluços diminuíram, tornando-se algo quebrado e cru.
Rowan passou os polegares pelos pulsos dela, por cima das algemas de ferro. Como se não fosse nada além de pele. Lentamente, o tremor dela diminuiu.
Não, não diminuiu, Elide percebeu quando Rowan se levantou e foi para trás da rainha. Mas fora contido, virado para dentro. Tremores percorreram o corpo tenso de Aelin, mas ela continuou imóvel enquanto Rowan examinava a fechadura.
No entanto, algo como choque, depois horror e tristeza, brilharam no rosto dele quando ele a examinou suas costas. Foi embora assim que apareceu.
Um olhar, e Gavriel e Lorcan foram para o lado dele, os passos lentos. Não ameaçadores.
Do outro lado da pequena clareira, Fenrys permanecia deitado, o pelo branco ensopado de sangue.
Elide apenas caminhou até Aelin e assumiu o lugar onde Rowan estivera. Os olhos da rainha estavam fechados, como se exigisse toda a sua concentração ficar imóvel por mais um instante, permitir que olhassem, não agarrar os ferros.
Então Elide não falou nada, não exigiu nada dela, apenas fez companhia se fosse o que ela precisava.
Atrás de Aelin, o rosto salpicado de sangue de Rowan era sombrio enquanto estudava a fechadura que prendia as correntes da máscara à parte de trás de sua cabeça. Suas narinas se alargaram ligeiramente. Raiva – frustração.
— Nunca vi uma fechadura como esta — Gavriel murmurou.
Aelin começou a tremer novamente. Elide pôs a mão no joelho dela. Aelin o machucara, lama e grama presos em sua pele com crostas de sangue.
Ela esperou que a rainha afastasse sua mão, mas Aelin não se moveu. Manteve os olhos fechados, sua respiração irregular mantendo-se firme.
Rowan segurou uma das correntes que prendiam a máscara e acenou para Lorcan.
— A outra.
Em silêncio, Lorcan agarrou a extremidade oposta. Eles cortariam o ferro se tivessem que fazê-lo.
Elide prendeu a respiração quando os dois machos se esforçaram, os braços tremendo.
Nada.
Eles tentaram novamente. A respiração de Aelin quebrou. Elide apertou a mão no joelho da rainha.
— Ela conseguiu quebrar as correntes nos tornozelos e mãos — observou Gavriel. — Não são indestrutíveis.
Mas com as correntes na máscara tão perto de sua cabeça, um golpe de espada era impossível. Ou talvez a máscara fosse forjada de ferro muito mais forte.
Rowan e Lorcan grunhiram enquanto faziam força contra as correntes. Pouco adiantou.
Arquejando baixinho, eles pararam. Suas mãos brilhavam vermelhas.
Eles tentaram usar sua magia para quebrar o ferro.
O silêncio caiu através da clareira.
Eles não podiam ficar aqui – não por muito mais tempo. Mas levar Aelin nas correntes, quando ela estava tão nervosa para se livrar delas...
Os olhos de Aelin se abriram. Eles estavam vazios. Totalmente drenados. Uma guerreira aceitando a derrota.
Elide deixou escapar, lutando por qualquer coisa para banir o vazio:
— Alguma vez houve alguma chave? Você os viu usando uma chave?
Duas piscadas. Como se isso significasse alguma coisa.
Rowan e Lorcan puxaram as correntes de novo, esforçando-se.
Mas o olhar de Aelin caiu sobre o musgo, as pedras. Estreitou ligeiramente, como se a pergunta tivesse se resolvido. Através do pequeno buraco em sua máscara, Elide mal pôde ver sua boca formar as palavras. Uma chave.
— Eu não tenho – nós não as temos — disse Elide, sentindo a direção dos pensamentos de Aelin. — Estão Manon e Dorian.
— Calada — Lorcan assobiou. Não para o nível de sua voz, mas para a informação mortal que Elide revelou.
Aelin novamente piscou duas vezes com aquela estranha intenção.
Rowan rosnou para as correntes, levantando-se novamente.
Mas Aelin estendeu a mão para o musgo e traçou uma forma.
— O que é isso? — Elide se inclinou para frente quando a rainha fez a forma novamente, seu rosto oco ilegível.
Os machos feéricos pararam com a pergunta dela e observaram o dedo de Aelin se mover pelo verde.
— Uma marca de Wyrd — Rowan falou baixinho. — Para abrir.
Aelin traçou novamente, muda e parada. Como se nenhum deles estivesse ali.
— Elas funcionam em ferro? — Gavriel perguntou, rastreando o dedo de Aelin.
— Ela destrancou as portas de ferro da biblioteca real de Adarlan com aquele símbolo — Rowan murmurou. — Mas ela precisou... — ele deixou suas palavras morrerem enquanto pegava a faca quebrada que Aelin atirara ali perto e cortou a palma da mão.
Ajoelhando-se diante dela, ele estendeu a mão ensanguentada.
— Mostre-me, Coração de Fogo. Mostre-me de novo. — Ele tocou no tornozelo dela – no grilhão ali.
Silenciosamente, seus movimentos duros, Aelin se inclinou para frente. Ela cheirou o sangue que jorrava na mão dele, as narinas dilatadas. Seus olhos se ergueram para os dele, como se o cheiro de seu sangue fizesse alguma pergunta.
— Eu sou seu parceiro — Rowan sussurrou, como se fosse a resposta que ela procurava. E o amor em seus olhos, o modo como sua voz se quebrou, sua mão sangrenta tremendo...
A garganta de Elide se apertou.
Aelin apenas olhou para o sangue acumulado na mão em concha dele. Seus dedos se curvaram, a manopla estalou. Como se fosse outra resposta também.
— Ela não pode fazer isso com o ferro — falou Elide. — Se estiver nas mãos dela. Isso interfere com a magia no sangue.
Um piscar de olhos, naquela linguagem silenciosa.
— É por isso que ela os colocou em você, não foi? — disse Elide, com o peito apertado. — Para ter certeza de que você não usaria seu próprio sangue com as marcas de Wyrd para se libertar. — Como se todos os outros grilhões já não fossem suficientes.
Outra piscadela, o rosto ainda oco e frio. Cansado.
A mandíbula de Rowan se apertou. Mas ele apenas mergulhou o dedo no sangue na palma da mão e ofereceu a mão a ela.
— Mostre-me, Coração de Fogo — disse ele novamente.
Elide podia jurar que ele estremeceu, e não de medo, quando a mão encrustada de metal de Aelin se fechou ao redor da dele.
Em movimentos pausados, pequenos, ela guiou o dedo dele para traçar o símbolo no grilhão ao redor do tornozelo.
Um clarão suave de luz esverdeada, então... O silvo e o suspiro da fechadura encheram a clareira. O grilhão caiu no musgo.
Lorcan praguejou. Rowan ofereceu sua mão, seu sangue novamente. O grilhão ao redor do outro tornozelo dela rendeu-se à marca de Wyrd.
Então as algemas ao redor dos pulsos dela. Então as lindas e horríveis caíran no musgo.
Aelin ergueu as mãos nuas para o rosto, alcançando a fechadura por trás da máscara, mas parou.
— Eu farei isso — Rowan falou, sua voz ainda suave, ainda cheia de amor.
Ele se moveu para trás dela e Elide olhou para a máscara horrível, os sóis e as chamas esculpidos e gravados ao longo de sua antiga superfície.
Um clarão de luz, um estalido de metal e depois ela caiu.
O rosto estava pálido – tão pálido que todos os vestígios da coloração ensolarada desapareceram.
E vazio. Consciente, e ainda inconsciente.
Cauteloso.
Elide ficou imóvel, deixando a rainha examiná-la. Os machos se moveram para encará-la e Aelin olhou para eles por sua vez. Gavriel, que baixou a cabeça. Lorcan, que olhou de volta para ela, seu olhar sombrio ilegível.
E Rowan. Rowan, cuja respiração ficou irregular, seu engolir audível.
— Aelin?
O nome pareceu um destrancar também. Não da rainha que ela conheceu tão brevemente, mas do poder dentro dela. Elide se encolheu quando chamas, douradas e resplandecentes, surgiram em volta da rainha. A túnica foi queimada em cinzas.
Lorcan puxou Elide para trás e ela permitiu, mesmo quando o calor desapareceu. Mesmo quando as chamas de energia se contraíram em uma aura ao redor da rainha, uma segunda pele cintilante.
Aelin se ajoelhou ali, queimando, e não falou. As chamas cintilavam ao redor dela, embora o musgo, as raízes, não queimassem. Não fizeram mais que soltar vapor.
E através do fogo, o cabelo agora longo de Aelin escondendo sua nudez, Elide deu uma boa olhada no que havia sido feito com ela.
Além de uma contusão ao longo das costelas, não havia nada. Nem uma marca. Nem um calo. Nem uma única cicatriz. Aquelas que Elide percebera naqueles dias antes de Aelin ter sido levada se foram.
Como se alguém as tivesse eliminado.

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