5 de outubro de 2018

Capítulo 30

ESTAVA ENCOSTADA EM UM PILAR no pátio ao pé da escada. De volta à terra firme, pressionando com força as mãos contra o mármore. Sequei as lágrimas. Me obriguei a lembrar que eu era uma garota do deserto. Não podia desperdiçar água. E aquele não era o tipo de lugar onde se podia demonstrar vulnerabilidade. O palácio era tão perigoso quanto o deserto à noite.
Rahim tinha dito que eu deveria esperar por ele. Não podia ficar sem escolta.
Não sabia quanto tempo sua conversa com Leyla demoraria. Por mais tentador que fosse sair por ali para espionar, eu não podia arriscar ser pega desacompanhada. Acabaria expondo Rahim também. E duvidava que o sultão me perdoasse uma segunda vez depois de ter ido visitar Bahadur. Assim que esse pensamento passou pela minha cabeça, me perguntei de onde tinha vindo. Aquilo não deveria importar. Nunca havia me importado em entrar em apuros antes. Era porque eu poderia acabar degolada, disse a mim mesma. Era porque perder sua confiança significaria perder o acesso a informações das quais precisávamos.
Então esperei, tentando ignorar a coceira para me mexer, escutando os sons da fonte e dos pássaros que preenchiam aquela parte do palácio, presa ali sem poder voar, como os patos no lago. O barulho súbito de uma porta abrindo foi tão perturbador quanto um tiro.
Reagi por instinto, me escondendo atrás da pilastra nas sombras. Independente de quem estivesse chegando, eu não poderia ser encontrada sozinha. Uma fração de segundo depois, uma porta do outro lado do pátio foi aberta com violência. O impacto da maçaneta contra a pedra foi tão alto que quase abafou o grito da mulher. Não pude mais ignorar a coceira e dei uma espiada.
Duas pessoas em uniformes mirajins estavam arrastando uma garota pela porta. Ela se debatia violentamente em seus braços, gritando tão alto que eu tinha certeza de que alguém viria correndo. Os pássaros, pensei, lembrando o que Ayet tinha dito naquele dia no zoológico. Ninguém poderia ouvi-la gritar por causa dos pássaros.
Meus dedos ansiavam por uma arma. Por uma pistola. Por alguma coisa para ajudar. Mas minhas mãos estavam vazias e presas pelas ordens do sultão de não machucar ninguém. E eu sabia que não poderia enfrentar dois soldados desarmada.
Então eles emergiram na luz do sol e enxerguei o rosto da prisioneira que lutava. Uzma. A esposa de Kadir. Aquela que havia me humilhado na corte e desaparecera misteriosamente depois. Eu já devia saber que as coisas só desapareciam misteriosamente nas histórias. Seus olhos estavam vazios, parecendo vidro polido, como se qualquer faísca que tivesse existido por trás deles já tivesse sido extinguida.
Eu sabia exatamente onde tinha visto uma expressão idêntica. Em Sayyida, depois de Hala resgatá-la do palácio. Só que Sayyida tinha sido uma espiã. O que Uzma poderia ter feito para merecer ser torturada até enlouquecer?
Eles desapareceram virando a esquina, os gritos logo perdendo força.
Por um instante permaneci parada. Pelo menos uma vez na vida me senti dividida entre a vontade de ir atrás deles e a de evitar entrar em apuros. Seguir o rastro de dois guardas e uma mulher gritando era uma fórmula garantida para ser pega. E talvez não fosse a melhor maneira de descobrir o que estava acontecendo. Olhei para a porta de onde tinham vindo. O mais provável era que estivesse trancada. Mas talvez não.
De qualquer forma, seria tolo e imprudente sair correndo em campo aberto e arriscar ser vista.
Bem, parecia que eu era tola e imprudente, então.
Atravessei o pátio em uma corrida curta. A luz do sol poente refletia estranhamente na porta. Quando me aproximei, percebi o motivo. Ela era feita de metal. Só que alguém a havia pintado para parecer de madeira.
E estava vibrando.
Estiquei os dedos lentamente em sua direção. Podia sentir a vibração aumentando conforme me aproximava aos poucos, como uma atração por baixo da pele. A ponta dos meus dedos roçou na porta. Era como tocar fogo sem ser queimada: toda a energia, mas nenhum calor. Era como se minúsculas agulhas começassem a pinicar na ponta dos dedos e seguissem para cima, fazendo minha respiração parar e o coração acelerar, embora eu estivesse imóvel.
De repente, um par de mãos me segurou e me arremessou com força contra o metal, fazendo a dor irradiar pelo meu corpo, em uma explosão de sensações por toda a minha pele.
E então eu estava encarando o rosto cruel do embaixador gallan. Atrás dele estava Kadir. Antes que pudesse dizer uma palavra, o homem me golpeou na barriga, me imobilizando e tirando o ar dos meus pulmões.
— No meu país — o embaixador gallan disse com seu sotaque carregado — penduramos os filhos de demônios pelo pescoço. — Ele apertou com força minha garganta, me obrigando a me endireitar. — Mas não tenho corda aqui comigo.
A porta de metal nas minhas costas estava começando a doer de verdade. Podia sentir meus pensamentos vacilando e minha visão escurecendo enquanto suas mãos pressionavam meu pescoço. Tentei inutilmente investir contra o dorso da mão que segurava minha garganta. Havia uma dúzia de coisas que deveria poder fazer para lutar contra ele. Poderia ter arranhado seus pulsos, atacado seus olhos, chutado sua virilha.
Só que a ordem do sultão me impedia de ferir alguém. Eu ia morrer. O pânico me dominou. Eu realmente ia morrer.
E então, de repente, consegui respirar outra vez. O ar voltou em uma arfada súbita quando a mão soltou meu pescoço. Me contorci para longe da parede, caindo de quatro. Fiquei ali ajoelhada e dei três respirações profundas, esperando meu corpo lembrar como se respirava. Ouvi um estalo parecido com osso quebrando, e um grito de dor. Olhei para cima a tempo de ver Kadir cambaleando para trás, segurando o nariz.
Em cima dele, fulgurante com o crepúsculo às suas costas, estava Rahim, com o sangue do irmão manchando o punho. A luz borrava suas feições, de modo que quase não o reconheci. Ele parecia os heróis das histórias antigas: o primeiro mortal enfrentando a morte em vez de fugir dela; Attallah cercado do lado de fora das muralhas de Saramotai; o príncipe cinzento contra o Conquistador. Não parecia real.
Então ele se ajoelhou na minha frente e voltou a ser humano.
— Amani. — Rahim inclinou minha cabeça para trás, me analisando com as mãos firmes de alguém que conhecia um ferimento de batalha. — Você está bem? — Podia ver agora que havia dois soldados atrás dele segurando o embaixador gallan. — Amani — Rahim insistiu. — Fale comigo ou terei que te levar a um pai sagrado.
— Estou bem. — Minha voz saiu um pouco arranhada, mas ainda era minha. — Com certeza tenho algo adequado para vestir que combine com os machucados. — Ele me ajudou a levantar. Toquei o pescoço, sensível onde os dedos do embaixador tinham tentado esmagar minha garganta.
— Soldados. — Kadir havia se recuperado o suficiente do nariz quebrado para falar. Ele tirou as mãos da frente do rosto, apesar do sangue ainda escorrer para sua boca. — Soltem o embaixador. Levem meu irmão.
Os soldados não se mexeram. Em vez disso, olharam para Rahim, aguardando instruções. Foi então que notei melhor seus uniformes. Eram mirajins, mas em vez do branco e dourado padrão do palácio carregavam no peito a mesma listra azul de Rahim. Eles eram do regimento que ele comandava em Iliaz. O emir devia ter chegado. Por isso ele havia demorado para me buscar. Tinha encontrado seus homens.
— Fiquem onde estão. — Rahim deu a ordem com uma autoridade natural que nunca tinha visto nele antes. Percebi que aquele era seu habitat natural, entre soldados, não entre políticos em um palácio. Ele era um soldado na sua essência.
Não, não um soldado. Um comandante.
O olhar de Kadir se alternava freneticamente entre os soldados e Rahim.
— Eu disse para soltarem o embaixador. É a ordem do seu sultim! — Sua voz, rouca com o sangue saindo do nariz quebrado, saiu alta de raiva.
Era como se eles fossem surdos. Rahim retirou calmamente a jaqueta de seu uniforme e colocou-a em torno dos meus ombros antes de se dirigir ao irmão.
— Estes são meus homens, irmão. Eles seguem meus comandos, não os seus. — E então se virou para os soldados, que ainda seguravam o embaixador gallan: — Escoltem-no de volta aos seus aposentos. Antes que a gente cause um incidente internacional. Vamos, Amani.
Rahim já tinha se virado quando Kadir puxou a pistola do cinto. Gritei em aviso, mas era tarde demais. A arma disparou, atingindo um dos soldados. Foi um tiro desleixado, que acertou o ombro e não o peito, mas foi suficiente para sua pegada afrouxar.
O embaixador gallan aproveitou a oportunidade, se contorceu e se libertou. O estrangeiro sacou a lâmina no cinto, mergulhando em direção ao soldado ferido. Rahim se moveu rapidamente, a arma já em riste, aparando a lâmina do embaixador no ar em um gesto simples antes que ela pudesse atravessar seu soldado.
Kadir ainda estava furioso. Levantou a arma novamente, apontando-a para as costas do irmão. Agi rápido, como Shazad tinha me ensinado.
Ele segurava a arma de um jeito frouxo, eu não sabia dizer se por raiva ou por falta de treinamento. Eu podia não ser capaz de machucá-lo, mas não precisava deixá-lo matar Rahim. Bati com a palma da mão na parte do cano da arma que ficara para fora de seu punho. A arma disparou e a bala acertou a parede. Seus dedos se abriram rapidamente. A arma pulou de sua mão. Eu a peguei facilmente antes que caísse, girando-a em torno dos dedos com familiaridade.
Apontei a pistola para Kadir. Ele congelou, me encarando por cima do cano da arma como se não conseguisse entender o que havia acontecido.
— Você não vai atirar em mim.
Era verdade. Eu não tinha como. Havia recebido ordens contrárias. Mas ele não sabia disso. Puxei o cão na pistola.
— Está disposto a apostar sua vida nisso? — Meus dedos tremiam tentando puxar o gatilho. De repente eu era aquela menina de dez anos novamente, segurando um rifle grande demais para seu tamanho como se sua vida dependesse disso.
Sabendo que, se eu deixasse cair, estaria indefesa.
— Largue a arma, Amani.
Mesmo se não conhecesse aquela voz, o puxão dentro de mim diante da ordem seria suficiente para identificá-la.
Não. Lutei contra o comando.
Mas meus braços já estavam se movendo sozinhos. Resisti até que doessem. A arma quicou no chão.
Quando virei, os dois soldados estavam em posição de sentido, e o que havia sido ferido segurava o próprio ombro. Aos pés deles o corpo do embaixador estava caído na grama. Suas mãos, que alguns instantes antes haviam apertado minha garganta, estavam inertes. Rahim segurava a espada manchada de sangue.
Observando a cena toda, da arma que joguei no chão à poça de sangue se acumulando embaixo do corpo do embaixador, estava o sultão, com uma expressão indecifrável no rosto.


Os dedos do sultão tamborilavam o revestimento xadrez de marfim e madeira de sua mesa, seus olhos passando pela marca no meu pescoço. Em algumas horas uma mancha roxa no formato da mão do embaixador gallan ia se formar, mas por enquanto ainda era um machucado recente e vermelho. Estávamos no escritório do sultão. O mesmo de onde tinha roubado aqueles papéis umas semanas antes. Havia uma tensão no ar, que eu só sentia quando o sultão estava presente. Como se todos os mapas nas paredes e espalhados pela mesa fossem extensões dele. Jin uma vez tinha me dito que eu era o deserto. Me perguntei se ele mudaria de opinião ao ver aquilo.
Eu tinha sido autorizada a sentar. Ordenada, na verdade. Mas os príncipes estavam em posição de sentido atrás de mim. O sultão ordenou que eu contasse o que havia acontecido. Ele queria a verdade, dissera. E foi o que lhe dei. Deixei Leyla de fora, mas não pude evitar a parte de Tamid. O sultão questionaria por que eu estava sozinha no palácio quando não deveria estar. Contornei essa parte da história com o máximo de cuidado possível e o coração na boca. Uma palavra errada e estaria tudo perdido. Pedi a Rahim que me levasse para ver o pai sagrado. Ele saiu para nos dar privacidade.
Tentei não deixar o alívio transparecer nas minhas palavras quando passei para a próxima parte da história sem perguntas do sultão.
Quando terminei de falar, ninguém disse nada por alguns instantes. Fiquei com uma sensação estranha, como se estivesse na escola de novo, em apuros com Tamid por alguma burrice que fizera, enfrentando a fúria de um professor. Os três alinhados na frente do sultão como crianças briguentas, não soldados ou espiões lutando por um país. O sultão permanecia em silêncio enquanto o sol terminava de se pôr lá fora.
Através da enorme janela, podia enxergar as luzes de Izman começarem a acender.
Minha mente continuava voltando para o mesmo ponto: a arma. O sultão tinha me visto apontando uma arma para a cabeça de seu herdeiro. Segurando-a com a confiança de quem sabia o que estava fazendo. Como a Bandida de Olhos Azuis seguraria.
Ele devia saber que eu era mais do que apenas uma garota do deserto agora.
Mas não tentei explicar nada. Os culpados sempre falavam primeiro. Rahim e eu éramos inteligentes o suficiente para não quebrar o silêncio.
— Pai… — Não dava para dizer o mesmo de Kadir.
— Não te dei permissão para falar. — O sultão soava calmo. Perturbadoramente calmo. Enganosamente calmo. — Você é um ladrão, Kadir. — O sultim começou a protestar, mas seu pai o interrompeu novamente. — Não discuta comigo. Você tentou pegar algo meu. — Ele apontou na minha direção. Eu odiava ser tratada como um pertence do sultão. Mas não conseguia resistir à satisfação de valer mais para ele do que Kadir naquele momento. — E trocá-la pelo apoio dos gallans.
— Ela não é humana, pai! — Kadir disse, elevando a voz. Parecia que estava prestes a bater os pés no chão de raiva, que nem uma criança.
— Todo mundo sabe disso, irmão — Rahim interveio. Sua calma só deixou Kadir mais furioso. — Se só descobriu agora, fico um pouco preocupado com a inteligência do nosso futuro governante.
O sultão levantou a mão.
— Se acha que este é um bom momento para picuinhas, com um diplomata estrangeiro morto no meu palácio, então eu é que me preocupo com sua inteligência, Rahim. — O sultão assentiu com a cabeça para Kadir prosseguir.
— As negociações estavam demorando uma eternidade. E os gallans nunca forjariam uma nova aliança conosco enquanto você esfregasse na cara deles uma criatura semi-humana que viola suas crenças. Eles vieram me procurar — o sultim estufou o peito com orgulho — e exigiram a morte dela antes de prosseguirem com as negociações.
O sultão não levantou a voz, mas até eu me encolhi diante do olhar que dirigiu a Kadir.
— Eles exigiram a morte dela porque está muito difícil mentir para mim sobre seus recursos e intenções, revelando que o império gallan está em mais dificuldades do que querem nos fazer acreditar. — Ele falou de forma lenta e cuidadosa, como se estivesse explicando algo para uma criança. — E eles foram até você porque todo mundo pode ver que está morrendo de vontade de botar as mãos nela há semanas.
Kadir fez uma cara de desdém, desabando petulante em uma cadeira enquanto seu pai falava.
O silêncio que se seguiu foi ainda pior do que o olhar.
— Eu não te dei permissão para sentar.
Kadir começou a rir, como se o pai estivesse brincando.
— Levante — o sultão ordenou, calmamente. — Pelo menos uma vez siga o exemplo de seu irmão. Talvez eu devesse ter enviado você para Iliaz no lugar dele.
Pensei no que Rahim havia me contado, que o sultão o enviara para morrer. Entendi a ameaça velada naquelas palavras. Mas Kadir não.
— Todo aquele treinamento militar não o ajudou a ganhar de mim nos jogos do sultim. — Kadir levantou e empurrou a cadeira com força contra a mesa de seu pai, derrubando alguns papéis que estavam na beirada. — O que vai fazer agora? Colocar Rahim no trono no meu lugar?
— Os jogos do sultim são sagrados. — O sultão manteve toda a sua atenção no filho, ignorando os papéis bagunçados no chão. — Desrespeitar o resultado colocaria o povo contra nós ainda mais. Para termos outros jogos, você precisaria morrer, Kadir.
— O que seria um favor para todo mundo… — Rahim resmungou.
Comecei a rir em voz baixa, atraindo o olhar do sultão. Eu me contive tarde demais. Ele já tinha percebido a conexão entre mim e Rahim. Mas desviou o olhar sem comentar nada.
— O rei gallan deve chegar amanhã, antes do Auranzeb. — Os dedos do sultão recomeçaram a tamborilar no mesmo ritmo. — Você virá comigo para encontrá-lo, Kadir. E contará a mesma história que eu. Que o embaixador saiu sem escolta e foi morto por rebeldes na rua. Entendeu?
Kadir movimentou a mandíbula com raiva por um instante. Mas se achou que seu pai daria o braço a torcer, estava profundamente enganado.
— Sim.
— Ótimo. Pode ir agora.
O sultim bateu a porta ao sair, como uma criança pirracenta.
— Essa mentira pode não ser sábia, pai — Rahim disse. — Se os gallans acharem que não consegue controlar seu próprio povo…
— Então vamos parecer fracos. Eu já tinha pensado nisso, não preciso de uma lição de estratégia do meu filho. — O sultão o interrompeu, impaciente. — Se tivermos sorte, isso pode servir como incentivo para que os soldados gallans que vierem junto ajudem a manter a paz em Izman até o Auranzeb. A única alternativa é entregar você para a justiça gallan. Talvez prefira essa opção.
Rahim manteve-se calado.
— Ele salvou minha vida. — Não consegui mais aguentar calada. A atenção do sultão se voltou para mim e me arrependi no mesmo instante de ter aberto a boca. Mas já tinha começado. — Rahim deveria ser recompensado, não ameaçado. — O sultão não disse nada, mas não desisti. Não podia me dar àquele luxo agora. — Achei que estivesse aqui para falar a verdade.
Finalmente ele pareceu controlar seu temperamento.
— Ela tem razão. Seus soldados fizeram um bom trabalho hoje, Rahim. — De alguma forma, aquilo ainda não soava como um elogio. — Sob suas ordens, vale notar. — Era mais como suspeita velada.
— De fato. — O príncipe era tão inteligente quanto o pai. Não tentou se desculpar por seus homens obedecerem suas ordens em vez das do sultim. Ele manteve as respostas curtas. Como um bom soldado. Ou um traidor. Esperando ser dispensado.
— Os rebeldes atacaram uma remessa de armas que chegavam pelo portão sul ontem — disse o sultão. — Como acha que eles sabiam o que eram?
Tinha certeza de que o sultão podia ouvir meu coração batendo mais rápido. Eu sabia exatamente de que remessa estava falando. Rahim tinha me contado e eu repassara para Sam. O sultão suspeitava de nós? Seria uma acusação? Ou estava pedindo a opinião de seu filho como uma oferta de paz? Rezei desesperada para ele não me fazer a mesma pergunta e tudo ir por água abaixo.
— Tem uma guerra acontecendo. — Rahim manteve o olhar fixo à frente, sobre a cabeça do pai, como um soldado em posição de sentido. — Seus soldados estão infelizes. Soldados infelizes bebem e falam demais. — O príncipe escolheu as palavras com cuidado para que fossem verdadeiras. Palavras que eu poderia repetir sem hesitação. Mas não se preocupou em não insultar o governo de seu pai.
— Matamos dois rebeldes no ataque — o sultão falou. Meu estômago se revirou. Uma lista dos rebeldes que eu conhecia passou pela minha cabeça. Imaginei todos eles mortos. De repente, precisava correr para o Muro das Lágrimas para encontrar Sam e descobrir quem havia sido. Confirmar se nunca mais veria Shazad. Ou Hala. Ou um dos gêmeos. Mas o sultão não estava me observando. Seu olhar permanecia fixo em Rahim, esperando uma reação. — Da próxima vez, quero um vivo para ser interrogado. Seus soldados de Iliaz parecem bem treinados. Peça que lorde Balir designe metade deles para se juntar à guarda da cidade nas patrulhas. — Meus ombros relaxaram de alívio.
— Assim será feito, pai. — Rahim não esperou para ser dispensado. Só fez uma mesura rápida para o pai antes de virar e ir embora.
Então fiquei sozinha com ele. Um longo momento se passou em silêncio. Cheguei a pensar que o sultão tivesse esquecido de mim. Estava prestes a apontar que não havia sido liberada quando ele falou novamente.
— Você veio dos confins do deserto. — Não era o que eu estava esperando.
— Da ponta mais distante — concordei. Não havia nada depois da Vila da Poeira além de montanhas inabitáveis.
— Dizem que as histórias antigas estão no sangue do seu povo, mais do que em outros lugares. — Até ali era verdade. Por isso Tamid sabia como controlar Noorsham. Como prender um djinni. Todas as coisas que o norte havia esquecido. — Você conhece as histórias sobre os abdals?
Eu conhecia.
Nas eras anteriores aos humanos, os djinnis criaram servos feitos de barro. Criaturas simples, que ganhavam vida apenas quando recebiam ordens de um djinni. Não serviam para nada além disso.
— Os abdals eram suas criações tanto quanto nós, mas os textos sagrados se referem aos humanos como as primeiras crianças dos djinnis. Entendo o motivo agora. — Ele passou as mãos pelo cabelo enquanto se reclinava na cadeira. Era um gesto de exasperação que lembrava tanto Ahmed que me deixou com saudades de casa. — Os abdals não eram tão difíceis quanto as crianças.
— Mas seria bem mais difícil deixar um país para os abdals. — Aquilo saiu antes que eu pudesse segurar. Eu me sentia confortável demais com ele. O sultão podia parecer Ahmed, mas não era. Ele me surpreendeu ao rir.
— É verdade. Mas seria bem mais fácil governar um país repleto de abdals. Eu não teria que tentar convencê-los a todo instante de que estou fazendo o melhor para eles. — Um dos mapas presos na parede mostrava o mundo inteiro. Miraji estava no meio. Amonpour aparecia colado em nossas fronteiras de um lado. Gallandie dominava o norte, engolindo países na direção de Jarpoor e da península ioniana até Xicha, o país que deu abrigo a Ahmed, Jin e Delila por anos. Albis era uma ameaça no mar, e Gamanix em terra. Era um mundo grande. — O povo de Miraji está se levantando em protesto por causa dos gallans, albish, xichans e de todos os nossos amigos e inimigos estrangeiros.
Engoli em seco e senti uma dor no lugar onde quase fui estrangulada até a morte por um daqueles estrangeiros.
— Então não renove a aliança com eles.
Eu sabia que tinha ido longe demais. Tive certeza assim que as palavras saíram da minha boca. Mas o sultão não se irritou comigo como tinha acontecido com seus filhos.
Ele não fez uma cara de desprezo. Não tentou explicar tudo, como tinha feito quando sentamos um diante do outro no jantar na outra sala.
— Você pode ir agora, Amani. — De alguma forma, isso soou pior do que qualquer outra coisa que ele pudesse ter dito.

Um comentário:

  1. Cara, parece que ele tá virando um tipo de figura paterna pra ela 🤔

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Boa leitura, E SEM SPOILER!