5 de outubro de 2018

Capítulo 3

A PRISÃO TINHA UM CHEIRO QUASE TÃO RUIM quanto o dos cadáveres.
Hossam me empurrou pelos degraus que levavam para o subsolo. Tive tempo de notar duas longas fileiras de celas com barras de ferro dando para o corredor estreito antes de ser enfiada em uma delas. Meu ombro bateu com força no chão. Isso ia deixar marca.
Nem tentei levantar. Apoiei a cabeça no piso frio de pedra enquanto Hossam trancava a cela. O estalido de ferro contra ferro me fez cerrar os dentes. Continuei imóvel enquanto o som dos passos desaparecia escada acima. Esperei três respirações completas antes de levantar com ajuda das mãos atadas e dos cotovelos.
Havia uma janelinha no topo da cela por onde entrava um pouco de luz, apenas o suficiente para eu não ficar tateando na escuridão. Através das barras de ferro, vi a cela em frente. Uma garota de no máximo dez anos estava encolhida no canto, tremendo em um khalat verde-claro imundo, me observando com olhos arregalados.
Encostei o rosto nas grades. O ferro frio machucava minha parte demdji.
— Imin? — chamei na prisão. — Mahdi? — Prendi a respiração enquanto esperava, mas recebi apenas silêncio em resposta. Então, no outro extremo do corredor, vi um rosto aparecer, pressionado contras as grades, os dedos agarrando o ferro em desespero.
— Amani? — A voz soou áspera de sede, mas o tom irritantemente nasalado e imperioso permanecia, o tom que eu conhecera meses antes, quando Mahdi e outros do círculo intelectual de Izman se juntaram ao nosso acampamento. — É você? O que está fazendo aqui?
— Sou eu. — Meus ombros relaxaram. Eles ainda estavam vivos. Não era tarde demais. — Vim salvar vocês.
— Hum. Que pena que acabou capturada também.
Mordi a língua. É claro que Mahdi continuava sendo rude comigo mesmo preso. Eu não tinha muita consideração por ele ou por qualquer outro garoto magricela da cidade que havia chegado atrasado ao núcleo da rebelião. Depois de termos derramado tanto sangue para conquistar metade do deserto. Mas eram eles que haviam apoiado Ahmed quando fora a Izman pela primeira vez. Foram os primeiros a se encantar com sua filosofia e a espalhar a centelha da rebelião. Além disso, se deixasse todo mundo que eu achava irritante morrer, acabaria com pouquíssimos aliados.
— Bem — eu disse com minha voz mais gentil —, e de que outro jeito eu conseguiria atravessar os portões depois de você ferrar tanto sua missão a ponto de deixarem a cidade inteira em estado de alerta?
Na outra ponta do corredor, fez-se um silêncio profundo e gratificante. Seria difícil até mesmo para Mahdi argumentar que não havia falhado, considerando sua atual situação. Mas o contentamento com a desgraça alheia ia ter que ficar para depois. A luz do dia estava acabando, e eu precisava ser rápida. Me afastei das barras de ferro e esfreguei os dedos, tentando recuperar a circulação nas mãos.
A areia que havia grudado nelas quando fingi tropeçar ao passar pelos portões vibrou em expectativa. Havia um pouco nas dobras das minhas roupas, no meu cabelo e na minha pele, colada ao suor. Aquela era a beleza do deserto. Ele estava impregnado em tudo, até na alma.
Conversara com Jin sobre isso uma vez.
Afastei a memória enquanto fechava os olhos. Respirei fundo e empurrei a areia para longe da pele — cada grão, cada partícula respondendo ao meu comando e se afastando de mim até flutuar cuidadosamente no ar.
Quando abri os olhos, estava cercada por uma neblina de grãos dourados brilhando nos vestígios de sol que inundavam a prisão.
Na cela à minha frente, a garotinha de khalat verde se inclinou para olhar mais de perto.
Respirei fundo e a areia se juntou, formando algo parecido com um chicote.
Afastei as mãos atadas do corpo o máximo possível, mudando a areia com o movimento.
Nenhum dos outros demdjis parecia entender por que eu precisava me mexer quando usava meu poder. Hala dizia que isso me fazia parecer uma charlatã de quinta categoria de mercado izmani. Mas ela havia nascido com o poder na ponta dos dedos. De onde eu viera, as armas precisavam da mão para serem usadas.
A areia passou entre meus pulsos como uma lâmina, rompendo a corda. Meus braços estavam livres.
Agora eu podia causar dano real.
Tomei o controle da areia e lancei o braço para baixo num arco, como o golpe de uma espada. A areia acompanhou o movimento, atingindo a fechadura da cela com a força de uma tempestade do deserto reunida em um único impacto.
A fechadura se estilhaçou com um ruído satisfatório. E de repente eu estava livre.
A garotinha de verde me encarou enquanto eu chutava a porta, tomando cuidado para não tocar no ferro enquanto trazia a areia de volta ao punho.
— Então. — Percorri calmamente o corredor, soltando o que havia restado da corda que prendia meus punhos. Ela saiu com facilidade da mão direita, deixando apenas um vergão vermelho. Estava trabalhando no nó da mão esquerda quando parei do lado de fora da cela de Mahdi. — Como está se saindo nas negociações diplomáticas? — O último pedaço de corda deslizou para o chão.
Mahdi pareceu amargo.
— Está aqui para me resgatar ou rir da minha cara?
— Posso muito bem fazer os dois. — Enfiei os cotovelos entre as barras e apoiei o queixo nos punhos. — O que foi mesmo que você disse a Shazad? Que não precisava que viéssemos junto, porque mulheres não serviam pra nada em negociações?
— Na verdade — disse uma voz nos fundos da cela —, acho que ele disse que você e Shazad seriam distrações desnecessárias.
Imin veio até a frente para que pudesse vê-la claramente. Eu nunca tinha visto aquele rosto, mas reconheceria seus olhos amarelos sardônicos em qualquer lugar. Nossa demdji metamorfa. Da última vez que a vira, deixando o acampamento, havia assumido a forma de uma garotinha em roupas masculinas enormes para aliviar o peso sobre o cavalo. Era um corpo familiar que eu a vira usar mais de uma vez. Mas era apenas uma possibilidade entre a infinidade de formas humanas que podia assumir: garoto, garota, homem, mulher. Estava acostumada a encontrar Imin sempre com um rosto diferente.
Aquilo significava que alguns dias ela era uma garotinha de olhos grandes que parecia ainda menor nas costas do grande cavalo que cavalgava, mas em outros era um guerreiro com força suficiente para erguer alguém do chão com uma só mão. Outros dias era um sábio magricela, que parecia chateado porém inofensivo no fundo de uma cela em Saramotai. Mas, fosse garoto ou garota, homem ou mulher, aqueles olhos dourados marcantes nunca mudavam.
— Tem razão. — Virei para Mahdi. — Talvez eu tenha esquecido, de tão espantada que fiquei por ela não ter quebrado todos os seus dentes naquele exato momento.
— Já terminou? — Parecia que Mahdi tinha chupado um limão. — Ou vai continuar desperdiçando tempo que poderíamos usar fugindo?
— Está bem, está bem. — Recuei, estendendo uma das mãos. A areia respondeu, reunindo-se no meu punho. Puxei a mão para trás, sentindo o poder se acumular no meu peito, segurando-o por um momento antes de lançar a areia com tudo. A fechadura explodiu.
— Finalmente. — Mahdi soou irritado, como se eu fosse uma serviçal que tivesse demorado para lhe levar a comida. Ele tentou passar por mim, mas estendi o braço, impedindo-o.
— O que…? — ele começou, a indignação crescendo. Tapei sua boca com a mão, tentando prestar atenção. Vi a mudança em seu rosto quando ele ouviu também.
Passos na escada. Os guardas tinham nos escutado.
— Precisava ser tão barulhenta? — Mahdi sussurrou quando tirei a mão de sua boca.
— Sabe, dá próxima vez talvez não me dê ao trabalho de vir te salvar. — Empurrei-o de volta para a cela, pensando em uma maneira de nos tirar dali vivos. Imin passou por Mahdi e saiu da cela. Não a impedi. Não poderia nem se quisesse. Ela já estava se transformando enquanto saía, moldando o corpo do sábio inofensivo até ficar dois palmos mais alto que eu e com o dobro da minha largura. Eu não ia querer esbarrar com aquela pessoa num beco escuro. Imin ajeitou os ombros de maneira desconfortável dentro da camisa, agora apertada em seu corpo. Uma costura se abriu no ombro.
A noite já havia caído quase por completo. Apenas uma penumbra cobria a prisão.
Dava para ver o balanço da lamparina na escada. Ótimo, isso seria uma vantagem.
Espremi o corpo no ponto cego na base da escada. Imin me seguiu, fazendo o mesmo do outro lado.
Esperamos, ouvindo os passos ficarem mais altos. Contei quatro pares de botas, pelo menos. Talvez cinco. Estavam em maior número e armados, mas precisavam descer um por um, o que significava que não faria diferença. A luz da lamparina dançava nas paredes enquanto desciam. Eu tinha a surpresa a meu favor. E, como Shazad sempre dizia, quando se está lutando contra alguém com o dobro do seu tamanho, o primeiro golpe, que ninguém está esperando, tem que ser para valer. Melhor ainda se puder ser o último golpe também.
A garotinha de verde tinha se movido e estava grudada nas grades, nos observando fascinada. Pressionei o dedo contra os lábios, pedindo silêncio. Ela assentiu para indicar que tinha entendido. Ótimo. Podia ser jovem, mas também era uma garota do deserto. Sabia o que tinha que fazer para sobreviver.
Avancei no momento que a cabeça do primeiro guarda entrou no meu campo de visão.
Uma explosão violenta de areia acertou em cheio sua têmpora, derrubando-o na direção da cela da garotinha. Ela recuou enquanto o crânio dele estalava contra o ferro.
Imin agarrou o soldado que vinha atrás, erguendo-o e atirando-o contra a parede. A cara assustada dele foi a última coisa que vi quando o lampião caiu no chão e se espatifou. Não dava para enxergar nada, era como se eu estivesse cega.
Um tiro foi disparado, causando uma onda de gritos dentro e fora das celas. Ouvi uma voz rezando. Sussurrei um xingamento enquanto me espremia contra a parede. A chance de ser atingida por uma bala perdida seria menor se eu não estivesse exposta.
Precisava pensar.
Eles enxergavam tanto quanto eu. Mas estavam armados, e provavelmente não se importariam em matar um prisioneiro com uma bala perdida. Outro tiro foi disparado, seguido por um grito mais de dor que de medo. Minha mente se esforçava para pensar em meio ao pânico crescente, enquanto eu tentava acompanhar os sons. Fazia muito tempo que não encarava uma luta sozinha. Se Shazad estivesse ali, saberia como escapar. Eu poderia revidar no escuro, mas a chance de acertar Imin, a garotinha de verde ou um inimigo seria a mesma. Eu precisava de luz. Urgentemente.
E então, como se respondendo a uma oração, o sol nasceu na prisão.
Raios luminosos encheram meus olhos. Eu continuava cega, mas por causa do brilho repentino. Pisquei freneticamente, tentando enxergar através das manchas reluzentes.
Minha visão voltava perigosamente devagar e meu coração batia disparado. Eu estava cercada por inimigos armados, não conseguia enxergar nada e não tinha um plano. Meu entorno entrou em foco um pedacinho de cada vez. Havia dois guardas no chão, imóveis. Outros três esfregavam os olhos, com as armas frouxas na mão.
Imin estava apoiada na parede, com o ombro sangrando. Dentro da cela, a garotinha de verde segurava um pequeno sol, do tamanho de um punho. Seu rosto brilhava. Sombras estranhas, projetadas de baixo para cima, a faziam parecer muito mais velha. E eu entendia agora que aqueles olhos enormes com os quais ela me observara eram tão atípicos quanto os meus ou os de Imin. Tinham a cor de uma brasa se apagando.
Ela era uma demdji.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!