29 de outubro de 2018

Capítulo 2

Elide Lochan uma vez esperara viajar para longe, para um lugar onde ninguém jamais ouvira falar de Adarlan ou Terrasen, tão distante que Vernon não tivesse chance de encontrá-la.
Ela não tinha previsto que isso pudesse realmente acontecer.
De pé no velho beco empoeirado de uma cidade igualmente poeirenta e antiga em um reino ao sul de Doranelle, Elide se maravilhou com os sinos do meio-dia ecoando pelo céu claro, o sol aquecendo as pedras pálidas dos edifícios, o vento seco varrendo a estreita ruas entre eles. Ela ouvira o nome desta cidade três vezes agora, e ainda não conseguia pronunciá-lo.
Ela supunha que isso não importava. Eles não ficariam aqui por muito tempo. Assim como não se demoraram em nenhuma das cidades por onde passaram, ou nas florestas, montanhas ou planícies. Reino após reino, o ritmo implacável estabelecido por um príncipe que mal parecia se lembrar de como falar, muito menos se alimentar.
Elide fez uma careta para os couros de bruxa que ainda vestia, a capa cinzenta e as botas desgastadas, depois olhou para os dois companheiros no beco. De fato, todos eles tinham visto dias melhores.
— A qualquer momento agora — Gavriel murmurou, um olho castanho na entrada do beco.
Uma figura imponente e escura se misturava às sombras escassas do arco meio desmoronado, monitorando a movimentada rua além.
Elide não olhou muito para essa figura. Ela quase não suportara essas semanas intermináveis. Incapaz de engoli-lo, ou a dor insuportável em seu peito.
Elide franziu a testa para Gavriel.
— Nós devíamos ter parado para almoçar.
Ele apontou com o queixo para o saco gasto caído contra a parede.
— Há uma maçã na minha mochila.
Olhando para o edifício que se elevava acima deles, Elide suspirou e pegou a mochila, vasculhando as roupas sobressalentes, cordas, armas e vários suprimentos até que puxou a suculenta maçã vermelha-e-verde. A última das muitas que eles colheram de um pomar em um reino vizinho. Elide, sem palavras, estendeu-a para o lorde feérico.
Gavriel arqueou uma sobrancelha dourada. Elide refletiu o gesto.
— Eu posso ouvir seu estômago roncando.
Gavriel bufou uma risada e pegou a maçã com uma inclinação de cabeça antes de limpá-la na manga de sua jaqueta clara.
— De fato, está.
No beco, Elide poderia jurar que a figura escura se enrijeceu. Ela não lhe deu atenção.
Gavriel mordeu a maçã, seus caninos reluzindo. O pai de Aedion Ashryver – a semelhança era estranha, embora elas terminassem na aparência. Nos breves dias que passara com Aedion, ele provou ser o oposto do macho pensativo de fala mansa.
Ela se preocupou, depois que Asterin e Vesta os deixaram a bordo do navio na qual navegaram até aqui, que ela poderia ter cometido um erro ao escolher viajar com três machos imortais. Que ela seria atropelada.
Mas Gavriel tinha sido gentil desde o início, certificando-se de que Elide comesse o suficiente e tivesse cobertores nas noites frias, ensinando-a a montar os cavalos em que gastaram preciosas moedas porque Elide não teria chance de acompanhá-los a pé, com tornozelo ferido ou não. E nos momentos em que eles tinham que conduzir seus cavalos por terrenos acidentados, Gavriel até escorara a perna com sua magia, seu poder uma brisa quente de verão contra sua pele.
Ela certamente não permitiria que Lorcan fizesse isso por ela. Ela nunca esqueceria a visão dele rastejando atrás de Maeve quando a rainha rompeu o juramento de sangue. Rastejando atrás de Maeve como um amante descartado, como um cão quebrado desesperado por sua dona. Aelin fora brutalizada, a sua localização traída por Lorcan, e ele ainda tentou segui-la. Através da areia ainda molhada com o sangue de Aelin.
Gavriel comeu metade da maçã e ofereceu o resto a Elide.
— Você deve comer também.
Ela franziu a testa para as sombras roxas sob os olhos de Gavriel. Que deviam estar sob os dela também, sem dúvida. Seu ciclo, pelo menos, chegara no mês anterior, apesar da viagem difícil que queimava qualquer reserva de comida em seu estômago.
Aquilo foi particularmente mortificante. Explicar a três guerreiros que já podiam sentir o cheiro do sangue que ela precisava de suprimentos. Paradas mais frequentes.
Ela não mencionou as cãibras que torciam seu abdômen, suas costas e atingiam suas coxas. Ela continuou montando, mantendo a cabeça baixa.
Sabia que eles teriam parado. Até mesmo Rowan teria parado para deixá-la descansar. Mas todas as vezes que paravam, Elide via a caixa de ferro. Via o chicote, brilhando de sangue, enquanto estalava no ar. Ouvia Aelin gritando.
Ela foi, então Elide não seria levada. Não hesitou em se oferecer no lugar de Elide.
Só o pensamento manteve Elide montada em sua égua. Aqueles poucos dias haviam sido facilitados pelas tiras limpas de linho que Gavriel e Rowan providenciavam, sem dúvida de suas próprias camisas. Quando eles as cortaram, ela não tinha ideia.
Elide mordeu a maçã, saboreando o doce e tenro frescor. Rowan havia deixado alguns cobres de um suprimento cada vez menor em um toco para pagar pelas frutas que haviam pegado.
Logo eles teriam que roubar suas refeições. Ou vender seus cavalos.
Um baque soou atrás das janelas seladas um andar acima, pontuado por gritos abafados de homens.
— Você acha que teremos melhor sorte desta vez? — Elide perguntou calmamente.
Gavriel estudou as persianas pintadas de azul, esculpidas em uma treliça intricada.
— Tenho que esperar que sim.
A sorte tinha de fato se esgotado até o momento. Eles tiveram pouco desde aquela maldita praia em Eyllwe, quando Rowan sentiu um puxão no laço entre ele e Aelin – o elo da parceria – e seguido seu chamado através do oceano.
No entanto, quando chegaram a estas costas depois de várias semanas terríveis em águas turbulentas, não havia mais nada para rastrear. Nenhum sinal do restante da armada de Maeve. Nenhum sussurro do navio da rainha, o Rouxinol, ancorando em qualquer porto. Nenhuma notícia dela voltando ao seu lar em Doranelle.
Rumores eram tudo o que tinham para seguir, arrastando-os por entre montanhas cheias de neve, através de florestas densas e planícies secas. Até o reino anterior, a cidade anterior, as ruas lotadas cheias de foliões celebrando o Samhuinn, para honrar os deuses quando o véu entre os mundos era mais fino.
Eles não tinham ideia de que aqueles deuses não eram nada além de seres de outro mundo. Que qualquer ajuda que os deuses oferecessem, qualquer ajuda que Elide tivesse recebido daquela pequena voz em seu ombro, tinha um objetivo em mente: voltar para casa. Peões – era tudo o que Elide e Aelin e os outros eram para eles.
Isso foi confirmado pelo fato de que Elide não ouvira um sussurro de orientação de Anneith desde aquele dia horrível em Eyllwe. Apenas cutucões durante os longos dias, como se fossem lembretes de sua presença. De que alguém estava assistindo. Que, se eles tivessem sucesso em sua busca por Aelin, a jovem rainha ainda deveria pagar o preço final a esses deuses. Se Dorian Havilliard e Manon Bico Negro conseguissem recuperar a terceira e última chave de Wyrd. Se o jovem rei não se oferecesse em sacrifício no lugar de Aelin.
Então Elide suportou aquelas cutucadas ocasionais, recusando-se a contemplar que tipo de criatura tomara tanto interesse por ela. Por todos eles.
Elide descartou esses pensamentos enquanto vasculhavam as ruas, ouvindo qualquer sussurro da localização de Maeve. O sol se pôs, Rowan rosnando a cada hora que passava e que não dava nada. Como todas as outras cidades não renderam nada.
Elide os fizera continuar caminhando pelas ruas alegres, sem serem notados e identificados. Ela lembrava Rowan toda vez que ele mostrava os dentes que havia olhos em todos os reinos, todas as terras. E se a notícia se espalhasse de que um grupo de guerreiros feéricos estava aterrorizando cidades em sua busca por Maeve, isso certamente chegaria à rainha feérica num instante.
A noite caíra e, nas colinas douradas que se estendiam além das muralhas da cidade, fogueiras foram acesas.
Rowan finalmente parou de rosnar ao vê-las. Como se tivessem puxado algum fio de memória, de dor.
Mas então passaram por um grupo de soldados feéricos bebendo e Rowan ficou imóvel. Medira os guerreiros daquela forma fria e calculista que dizia a Elide que ele elaborara algum plano.
Quando eles se reuniram em um beco, o príncipe feérico o expôs em termos cruéis e brutais.
Uma semana se passou, e aqui estavam eles. A gritaria aumentou no prédio acima.
Elide fez uma careta quando o som de madeira quebrada sobrepôs os sinos da cidade.
— Devemos ajudar?
Gavriel passou a mão tatuada pelos cabelos dourados. Os nomes dos guerreiros que haviam caído sob o seu comando, ele explicou quando ela finalmente ousou perguntar na semana anterior.
— Ele está quase terminando.
De fato, até mesmo Lorcan franziu o cenho com impaciência para a janela acima de Elide e Gavriel.
Quando os sinos do meio-dia pararam, as persianas se abriram. Quebraram era uma palavra melhor quando dois machos feéricos as atravessaram.
Um deles, de cabelos castanhos e ensanguentados, gritou enquanto caía. O príncipe Rowan Whitethorn não disse nada enquanto caía com ele. Enquanto segurava o homem, os dentes à mostra.
Elide deu um passo para o lado, dando-lhes bastante espaço enquanto se chocavam contra a pilha de caixas no beco, estilhaços e detritos voando. Ela sabia que uma rajada de vento impediria que a queda fosse fatal para o homem de ombros largos, que Rowan arrastou dos destroços pelo colarinho de sua túnica azul.
Ele não tinha utilidade para um morto. Gavriel sacou uma faca, permanecendo ao lado de Elide quando Rowan bateu o estranho contra a parede do beco. Não havia nada de amável no rosto do príncipe. Nada caloroso.
Apenas um predador de sangue frio. Empenhando o inferno para encontrar a rainha que guardava seu coração.
— Por favor — o macho pediu. Na língua comum.
Rowan o encontrara, então. Eles não podiam esperar rastrear Maeve, Rowan percebeu no Samhuinn. No entanto, encontrar os comandantes que serviam a Maeve espalhados por vários reinos emprestados a governantes mortais – isso eles podiam fazer.
E o macho para quem Rowan rosnava, seu próprio lábio sangrando, era um comandante. Um guerreiro, dos ombros largos até as coxas musculosas. Rowan ainda o diminuía. Gavriel e Lorcan também. Como se, mesmo entre os feéricos, os três fossem de uma raça totalmente diferente.
— Aqui está como tudo correrá — Rowan falou ao comandante que choramingava, sua voz mortalmente suave. Um sorriso brutal enfeitou a boca do príncipe, fazendo o sangue de seu lábio partido correr. — Primeiro quebrarei suas pernas, talvez uma porção da sua espinha, para que você não possa engatinhar. — Ele apontou um dedo ensanguentado pelo beco. Para Lorcan. — Você sabe quem ele é, não sabe?
Como se em resposta, Lorcan se virou de onde estava. O comandante começou a tremer.
— As pernas e a espinha, seu corpo acabaria por curar — Rowan continuou enquanto Lorcan continuava sua abordagem de caçador. — Mas o que Lorcan Salvaterre fará com você... — Uma risada baixa e sem alegria. — Você não vai se recuperar disso, amigo.
O comandante lançou olhares frenéticos para Elide, para Gavriel. Da primeira vez que isso aconteceu – dois dias atrás – Elide não pôde assistir. Aquele comandante em particular não possuía nenhuma informação que valesse a pena compartilhar, e dado o tipo indizível de bordel em que o haviam encontrado, Elide não se arrependia de Rowan ter deixado seu corpo em uma extremidade do beco. Sua cabeça na outra.
Mas hoje, desta vez... Assista. Assista, uma pequena voz sussurrou em seu ouvido. Ouça.
Apesar do calor e do sol, Elide estremeceu. Apertou os dentes, tapando todas as palavras que cresciam dentro dela
 Encontre outra pessoa. Encontre uma maneira de usar seus próprios poderes para forjar o cadeado. Encontre uma maneira de aceitar seu destino de ficar presa neste mundo, então não precisaremos pagar uma dívida que não era nossa para começar.
No entanto, para Anneith falar agora, quando ela só a cutucou nesses meses... Elide engoliu aquelas palavras furiosas. Como era esperado de todos os mortais. Por Aelin, ela poderia se submeter. Como Aelin acabaria por se submeter.
O rosto de Gavriel não mostrava misericórdia, apenas um tipo sombrio de praticidade quando viu o comandante trêmulo pendurado no aperto de ferro de Rowan.
— Diga o que ele quer saber. Você só vai piorar a situação para si mesmo.
Lorcan quase chegou até eles, um vento escuro girando em torno de seus longos dedos.
Não havia nada do macho que ela conheceu em seu rosto severo. Pelo menos, o macho que ele fora antes daquela praia. Não, essa era a máscara que ela viu pela primeira vez em Carvalhal. Insensível. Arrogante. Cruel.
O comandante viu o poder se reunindo na mão de Lorcan, mas conseguiu zombar de Rowan, com o sangue cobrindo os dentes.
— Ela vai matar todos vocês. — Um olho roxo já aparecia, inchado e forçando a pálpebra a se fechar. O ar pulsava nos ouvidos de Elide quando Rowan fechou um escudo de vento ao redor deles. Selando todo o som. — Maeve vai matar cada um de vocês traidores.
— Ela pode tentar — foi a resposta leve de Rowan.
Assista, Anneith sussurrou novamente.
Quando o comandante começou a gritar dessa vez, Elide não desviou o olhar. E enquanto Rowan e Lorcan faziam o que tinham sido treinados para fazer, ela não conseguia decidir se a ordem de Anneith tinha sido para ajudar – ou uma lembrança do que os deuses poderiam fazer precisamente caso desobedecessem.

3 comentários:

  1. Esses deuses.. ai ai. Mesmo em outros livros de outras séries eles são um tanto quando =_=

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  2. Respostas
    1. A deusa das coisas sábias? Enfim, aquela que sempre olhou poe Elide

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Boa leitura, E SEM SPOILER!