5 de outubro de 2018

Capítulo 28

— SABE, DE ONDE EU VENHO, existe um ditado muito antigo, passado de geração em geração. — Sam abriu os braços como se visse a frase seguinte escrita em grandes letras flutuantes à sua frente. — Não faça alianças com pessoas que tentaram te matar.
— Você acabou de inventar isso. — Shazad se reclinou contra a parede que os dois tinham acabado de atravessar. Ela era a única pessoa que eu conhecia capaz de não se incomodar nem um pouco de ser arrastada através de uma parede por um homem em quem mal confiávamos.
— De fato. — Sam piscou para ela. — Mas não pode negar que é uma boa lição.
— Shazad quase cortou sua garganta quando se conheceram — apontei —, mas você ainda está aqui. — Eu mantinha um olho no portão que dava para o jardim, caso alguém aparecesse. Era manhã, e o fato de o resto do harém já estar acordado enquanto a luz do sol iluminava nosso encontro me deixava nervosa. Sam não tinha conseguido voltar ao acampamento rebelde com a oferta de Rahim ainda durante a noite. E Shazad não estava disposta a esperar até o fim do dia.
— Bem, é porque o charme de Shazad supera qualquer sabedoria. — Sam piscou para ela, que o ignorou. — Além disso, sou apenas o mensageiro. É assim que vou evitar levar um tiro.
— O quê? — Ele estava falando bobagens novamente.
— É uma expressão albish, que significa… deixa para lá. — Sam balançou a cabeça, contendo o riso. Era um de seus raros sorrisos que pareciam reais, não calculados ou projetados para me encantar. Do tipo que realmente me fazia gostar dele.
Mas o olhar de Shazad estava distante. Como se estivesse tentando resolver um problema. Eu já sabia a que conclusão chegaria. Ela dizia para Ahmed fazia muito tempo que precisávamos de uma verdadeira força de combate. E agora eu estava lhe oferecendo uma. Shazad havia considerado a proposta séria o bastante para tratar dela pessoalmente. Não tinha feito nem um comentário sobre meu cabelo cortado, embora tivesse notado, claro.
— Podemos confiar nele?
— Rahim está escondendo alguma coisa — eu disse. — Por exemplo, não quer me contar por que teme pela segurança de Leyla. Mas não mentiu. Ele odeia o pai e não tem ambições de assumir o trono. — Independente da suspeita de Shira, aquela era uma verdade fácil de dizer.
— O que você acha? — Shazad virou para Sam, que pareceu um pouco surpreso com a atenção dela totalmente concentrada nele.
— Acho que não cabe a mim tomar decisões sobre em quem devem confiar — Sam disse, recuperando-se. — Quer dizer, você obviamente é ótima nisso. — Ele apontou para si mesmo.
— Ela está falando sobre tirar Leyla do palácio.
— Ah, bem. — Ele pigarreou. — Posso tirar a menina daqui tão fácil quanto foi te trazer. — O sorriso de Sam parecia falso novamente. — Só que, pela minha experiência, as pessoas costumam notar quando princesas desaparecem de palácios.
— Você tem muita experiência nisso? — Shazad perguntou.
— Fique sabendo que as princesas me acham irresistível. — Ele piscou. — Ainda estou trabalhando em convencer bandidas e generais.
— Sam está certo — interrompi, antes que começassem a discutir mais uma vez. — Esposas costumam desaparecer do harém com frequência, mas as filhas são vigiadas um pouco mais de perto. Leyla não pode simplesmente sumir, alguém vai perceber.
— E aí você vai ser questionada. Rahim será descoberto, assim como nós, e perderemos qualquer chance de tirar você e aquele djinni das mãos do sultão. — Shazad estava alguns passos à frente, como sempre. Eu tinha contado a eles sobre o encontro com meu pai. Ou pelo menos a parte relevante dele: que o único modo de a gente libertá-lo seria quebrar o círculo. Precisaríamos de algum tipo de explosivo. E até eu sabia que não dava para explodir algo no palácio sem que as pessoas notassem.
— Precisamos resolver todos os problemas numa tacada só — Shazad disse, pensando em voz alta. — Se for para tirar alguém, melhor tirar todo mundo ao mesmo tempo. — Ela estava certa. Se tirássemos meu pai, perderíamos qualquer chance de ajudar Leyla e Rahim a escapar. Se tirássemos os dois irmãos, meu pai continuaria nas mãos do sultão. Só restava tirar os três ao mesmo tempo. E tínhamos uma única chance de fazer isso. Uma chance de acertar três alvos de uma vez.
— O Auranzeb — eu disse, atraindo a atenção de Shazad e Sam. — Podemos usar como distração. Esse não é o tipo de feito que nós duas podemos realizar por conta própria, contando apenas com a sorte. Vamos precisar de reforços, e pelo que ouvi dizer tem um monte de desconhecidos chegando, o que nos daria a chance de infiltrar mais alguns dos nossos.
Shazad refletiu a respeito. Nem Sam nem eu falamos enquanto ela repassava as comemorações anteriores na cabeça.
— Pode funcionar. Dá para infiltrar Imin no palácio facilmente. Hala também, se ela voltar de Saramotai a tempo. Talvez mais dois ou três, sem abusar muito da sorte. — Shazad podia visualizar a comemoração à sua frente como um campo de batalha, e dava para perceber que procurava aberturas e rotas de fuga. Um sorriso começou a tomar forma em seu rosto, mas desapareceu de súbito quando levantou a cabeça. — E quanto a você?
Ela estava certa. Não eram apenas três pessoas que precisavam ser libertadas do palácio. Eram quatro. Eu não podia ficar ali. Não importava o que conseguíssemos realizar no Auranzeb, talvez tudo estivesse perdido se eu não partisse com eles.
Poderíamos quebrar o círculo de ferro. Mas enquanto o sultão me tivesse sob controle, poderia conjurar meu pai novamente. Eles poderiam conduzir Leyla e Rahim até um lugar seguro e ganhar o apoio de um exército, mas o sultão talvez me obrigasse a entregar o nome de todos os rebeldes antes que pudessem agir.
— A gente pensa nisso depois. — Tentei soar casual. — Por enquanto, vou dizer a Rahim que aceitamos o acordo. Ainda temos certo tempo antes do Auranzeb.
Sam começou a falar, descrevendo o plano. Mas Shazad não era tola. Estávamos ambas pensando a mesma coisa.
Eu não podia ser deixada para trás no Auranzeb. Pelo menos não viva.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!