22 de outubro de 2018

Capítulo 27

VOCÊ RECEBEU UMA MENSAGEM DE: RUBY.
Ruby: Ué, você está aqui ainda?
Rosie: Ah, suas palavras de apoio soam como um sopro de ar fresco. Sim, continuo aqui.
Ruby: Então encontrou a sua filha?
Rosie: Sim, nós a treinamos para que voltasse correndo ao ouvir três assovios e uma batida de palmas.
Ruby: Incrível...
Rosie: Isso me fez lembrar que o Alex e eu fugimos juntos algumas vezes quando éramos crianças. Na primeira vez fugimos no fim de semana porque os pais do Alex não o deixaram ir a um parque temático ver o Capitão Tornado. Agora entendo a postura dos pais dele porque, bem... O parque temático ficava na Austrália... Em um desenho animado... Enfim, tínhamos uns 5 ou 6 anos. Arrumamos as mochilas e fugimos. Fugimos, literalmente. Pensamos que era o que devíamos fazer, cair na estrada, o que seria bem discreto, é claro. Passamos o dia inteiro perambulando por ruas onde nunca tínhamos passado antes, olhando para as casas e nos perguntando se aquele dinheiro que tínhamos guardado durante aquela semana e que estava no bolso seria suficiente para comprar uma casa. Até olhamos para casas que nem estavam à venda. Não entendíamos muito do assunto... Logo que escureceu, começamos a ficar entediados com a nossa liberdade e um pouco assustados também. Por fim, decidimos voltar pra casa e verificar se o nosso ato de rebeldia tinha causado algum efeito. Nossos pais não tinham nem sequer notado que tínhamos sumido. Os pais do Alex acharam que ele estava na minha casa e os meus pais acharam que eu estava na casa do Alex. Não sei se a Katie teria levado o plano adiante se tivesse tido oportunidade. Eu adoraria saber que o meu trabalho como mãe foi bem feito, a ponto de ela saber que fugir não é a maneira de resolver nada. Você pode correr e correr, o mais rápido e o mais longe que quiser, mas a verdade é que, sempre que fugir, lá está você. Na verdade, hoje ela tentou dizer que me amava com todo o coração e que nunca poderia ir embora sem mim. Achei que tinha visto sinceridade em seus olhos e em sua voz quando ela disse isso, mas, assim que estiquei os braços para abraçá-la, seu rosto se iluminou e ela me perguntou se aquilo significava que ela não estava mais de castigo. Tenho medo de que seja uma oportunista feito o pai dela. Você alguma vez fugiu de casa quando era criança?
Ruby: Não, mas o meu ex-marido fugiu de casa com uma criança que tinha metade da idade dele, se isso te serve de consolo.
Rosie: Entendo... Bem, não serve não, mas obrigada por compartilhar isso comigo...
Ruby: Sem problemas.
Rosie: E aí, o que vai fazer pra comemorar seu aniversário de 40 anos, Ruby? Está chegando...
Ruby: Vou terminar com o Teddy.
Rosie: Não! Não pode fazer isso! Você e o Teddy são uma instituição!
Ruby: Ha! Essa é a questão. Tá, tudo bem, talvez eu não deva fazer isso mesmo. Só estava pensando em alguma coisa nova para pôr um pouco de ânimo na minha vida. E, curiosamente, essa foi a primeira coisa que me veio à cabeça.
Rosie: Você não precisa mudar nada na sua vida, Ruby. Ela está bem do jeito que está.
Ruby: Vou fazer quarenta, Rosie. QUARENTA. Sou mais jovem que a Madonna, acredite, mas pareço a mãe dela. Todo dia acordo no meio de um quarto que é uma zona, e ao lado de um homem que fede e ronca. Tropeço num monte de roupa tentando encontrar o caminho até a porta, cambaleio até a cozinha, faço café e como uma fatia de bolo que sobrou do dia anterior. No caminho de volta para o quarto, passo pelo meu filho no corredor. Às vezes ele me reconhece; na maior parte das vezes, não. Brigo com ele pra usar o chuveiro, mas isso não quer dizer que o motivo da briga seja quem vai tomar banho primeiro. É que preciso mesmo forçá-lo a se lavar. Brigo com o chuveiro pra não ser escaldada feito um frango nem congelada feito um defunto. Visto as roupas que tenho usado há tantos anos, e que têm um tamanho que me deixam doente, mas isso me fez perder a vontade de fazer alguma coisa em relação a... Qualquer coisa... Ou qualquer coisa em relação a alguma coisa. Teddy grunhe um tchau pra mim, eu me espremo pra caber no meu Mini velho estropiado e enferrujado que emperra quase todas as manhãs na via expressa (que se parece mais com um estacionamento do que com uma pista). Estaciono o carro, chego atrasada de novo e tenho de ficar ouvindo as broncas de alguém que fui forçada a apelidar de Randy Andy. Eu me sento à mesa e ali invento histórias que me ajudam a fugir do trabalho e escapar para o mundo lá fora pra fumar um cigarro. Faço isso várias vezes ao dia. Passo o dia inteiro sem falar com ninguém, ninguém fala comigo e aí eu volto pra casa, às 7 da noite, exausta e morrendo de fome. Volto para essa casa que nunca vai estar limpa e para um jantar que nunca vai se preparar sozinho. Faço isso todo dia. Nas noites de sábado encontro você, saímos e aí eu passo o domingo inteiro de ressaca, o que significa que me transformo num zumbi e que fico esparramada no sofá parecendo um talo de brócolis. A casa continua suja, e, embora eu brigue com ela, se recusa a se limpar sozinha. Acordo na segunda de manhã com aquela musiquinha horrível do meu despertador, para começar a semana de novo, tudo outra vez. Rosie, como é que você pode dizer que eu não preciso mudar? Estou desesperada por mudança.
Rosie: Ruby, nós duas precisamos mudar.

PARA UMA AMIGA ESPECIAL,
Que este seja o começo de um ano verdadeiramente feliz e bem-sucedido pra você!
Desculpe, Ruby, este foi o único cartão mais ou menos decente que encontrei e que não fica repetindo aquelas coisas que insinuam que a sua vida está mais perto do fim. Obrigada por estar sempre comigo, mesmo que preferisse não estar! Você é uma amiga maravilhosa. Vamos curtir esse aniversário e te desejo boa sorte para esse novo ano que se inicia.
Com carinho, Rosie
PS: Espero que goste do seu presentinho. Nunca mais reclame que sua vida precisa de mudanças!

CARTÃO-PRESENTE
Parabéns! Com este cartão você poderá participar de dez aulas de salsa.
Seu professor se chama Ricardo, e as aulas serão às quartas-feiras, às 8h da noite, no pátio do colégio St. Patrick.

VOCÊ RECEBEU UMA MENSAGEM DE: RUBY.
Ruby: Estou me sentindo toda trabalhada na salsa! A última vez que senti essa dor toda foi quando o Teddy ganhou de Natal dos amigos do trabalho um livro de Kama Sutra. Eu quase tive de ser içada pra voltar pro trabalho depois das festas, lembra? Bom, desta vez eu tive mesmo que pedir a manhã de folga no trabalho. Dá pra acreditar?!
Acordei achando que eu tinha sofrido algum acidente de carro muito grave; então olhei para o Teddy e me convenci de que tinha mesmo. Mas me esqueci de que aquele monte de baba, que o suor e os barulhos inquietantes faziam parte de todo o pacote Teddy. Levei vinte minutos para acordá-lo para que ele me ajudasse a levantar. E depois levei mais vinte minutos para conseguir sair da cama. As minhas juntas decidiram fazer greve. Estavam todas esparramadas de maneira preguiçosa pela cama, segurando cartazes e gritando: “Estamos em greve! Estamos em greve!” Os quadris eram os líderes da conspiração.
Então, liguei para o meu chefe e segurei o telefone nos quadris para que ele pudesse ouvi-los também. Ele concordou comigo e me deu a manhã de folga (bom, agora ele alega que não me deu folga nenhuma, mas estou me atendo ao meu lado da história).
Jamais pensei que a dor pudesse ser algo tão ruim assim. Um parto não é nada comparado ao exercício, e olha que o Gary era um bebê grandão. É isso que deveriam fazer com os prisioneiros da guerra quando tentam interrogá-los. Obrigá-los a fazer aulas de salsa. Sei que estou fora de forma, mas, meu Pai, dirigir o Mini hoje foi terrível. Toda vez que eu trocava de marcha sentia como se alguém estivesse martelando o meu braço. Primeira marcha: dor; segunda marcha: sofrimento; terceira marcha: tortura. Por fim, acabei fazendo o percurso inteiro até o trabalho na segunda marcha porque doía demais. Nem um pouco seguro e nada bom para o carro, mas ele conseguiu engasgar e engrolar durante todo o caminho, bem como a dona dele.
Pelo jeito como eu estava caminhando, você poderia jurar que o Teddy e eu tínhamos concluído o Kama Sutra. Até mesmo digitar foi uma experiência traumática quando de repente descobri que o osso do meu dedo tem uma ligação com o osso do braço que de alguma forma estava repuxando o meu tendão e me deu dor de cabeça. Eu deveria imaginar que ficaria tão mal assim. Quando você me deixou em casa na noite passada, eu estava com o corpo tão duro que praticamente tive de me arrastar até a porta, onde os meus ouvidos foram recebidos por uma sessão conjunta de roncos de Teddy e Gary na sala de estar. Descobri que esse é o estranho método de comunicação que existe entre os dois.
Então deixei a minha família maravilhosa e inteligente, me enfiei na banheira e cheguei a pensar em me afogar, mas aí lembrei que ainda tinha bolo de chocolate que havia sobrado de ontem, por isso voltei, procurando ar. Algumas coisas fazem a vida valer a pena. Mas obrigada pelo presente, Rosie; nos divertimos bastante na aula, não foi? Nem consigo me lembrar quando foi que ri tanto na minha vida, e, pensando bem, deve ser esse o motivo de a minha barriga estar doendo tanto agora. Obrigada por me lembrar de que sou mulher, de que tenho quadris, de que posso ser sexy, dar risada e me divertir.
E obrigada por trazer o gostoso do Ricardo para a minha vida. Mal posso esperar pra me sentir assim de novo na semana que vem. Agora, depois de todas as minhas queixas e reclamações, como é que você está se sentindo?
Rosie: Ah, bem, obrigada. Nenhuma reclamação.
Ruby: Ha!
Rosie: Tá legal, tudo bem, estou com o corpo meio duro.
Ruby: Ha!
Rosie: Tá, tudo bem, o motorista do ônibus teve de baixar a plataforma de deficientes físicos pra mim hoje, porque eu não conseguia levantar as pernas.
Ruby: Bem, isso me parece mais verdadeiro.
Rosie: Ah, que lindo aquele Ricardo, Ruby!! Sonhei com ele esta noite. Acordei sem o meu top e com o travesseiro cheio de baba (quer dizer, nem tão cheio assim). O som daquela voz italiana sexy gritando: “Ro-sie!! Má preste a-tten-zione, ãh?! Ro-sie! Pare di ridere!! Ro-sie! Levanta-te dal suolo!” simplesmente me dá um arrepio na espinha. Mas o que me deixou derretida mesmo foi ouvir aquele: “Ottimo, Rosie! Eccellente movimento difianchi!”. Hummm... Ricardo gostosão com aqueles quadris...
Ruby: Sim! Os quadris! Mas, pelo o que me lembro, era a mim que ele se referia quando soltou esse “eccellente movimento difianchi”.
Rosie: Ah, Ruby, será que uma garota não tem o direito de sonhar? Fiquei surpresa por ver tanto homem lá. Você também?
Ruby: Sim! Eu me lembrei de quando era jovem e frequentava as discotecas da escola e os festivais de dança e música irlandesa; eu era sempre uma daquelas meninas que tinham de dançar com outra menina. Ontem à noite tinha mais homem dançando com homem que mulher dançando com mulher.
Rosie: Sim, eu sei, mas tive a impressão de que foram escolhas pessoais. Embora eles tenham levado muito a sério o papo de usar salto alto, você não acha? Consegue imaginar o Greg e o Teddy participando de uma aula com a gente?
Ruby: Ah, seria um colírio para os olhos! Teddy mal consegue colocar os braços ao redor de si mesmo, muito menos me abraçar. Quando ele conseguisse completar uma volta, já estaríamos no ano que vem.
Rosie: Ha! É, e é bem provável que o Greg fosse ficar tão obcecado pelo Ricardo contando os passos em voz alta que começaria a fazer cálculos mentalmente: some, multiplique todos, subtração da primeira conta a partir da raiz quadrada da sexta ou alguma coisa do tipo. Greg, o gerente de banco, e seu caso amoroso com os números. Parece que só vai rolar você e eu mesmo, Ruby.
Ruby: É, parece que sim... E aí, o que o Alex anda fazendo?
Rosie: Continua por aí vadiando com o pai da Bethany Piranha, tentando arranjar um emprego pra retalhar o corpo das pessoas.
Ruby: Er... Tá, mas quem é Bethany, por que ela é uma piranha e com que tipo de negócio o pai dela trabalha?
Rosie: Ah, desculpe. Bethany é a queridinha de infância do Alex e foi o primeiro amor dele. Ela é uma piranha porque estou dizendo que é, e o pai dela é cirurgião de alguma especialidade.
Ruby: Que interessante — o retorno de uma ex-namorada de Alex. Essa história vai dar um daqueles livros que a gente não consegue parar de ler.
Rosie: Não, ela não está mais na parada; Alex só está assistindo a umas palestras ministradas pelo pai dela.
Ruby: Ah, Rosie Dunne, espere pelo inesperado pelo menos uma vez. Talvez desta vez você não sofra um choque tão grande quando vir que as coisas não aconteceram do jeito que você esperava.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!