5 de outubro de 2018

Capítulo 27

HAVIA UM PRESENTE DO MEU LADO QUANDO ACORDEI. Alguém o deixara enquanto eu dormia, perfeitamente embrulhado com papel e fita no meio da bagunça caótica de travesseiros espalhados pelo quarto. Ele entrou em foco lentamente enquanto eu emergia da névoa dos medicamentos.
Me apoiei nos cotovelos para sentar, ignorando a jarra de água perto de mim. Por mais seca que estivesse minha boca, não ia arriscar beber algo que podia me colocar para dormir novamente. Cutuquei o presente cautelosamente com o pé, meio que esperando algum truque da Ayet. Quando nada explodiu, finalmente o peguei.
Embaixo do embrulho, havia um tecido azul. Era um khalat. O tecido tinha a cor do mar, e a bainha e as mangas eram adornadas por bordados dourados. Quando os observei mais de perto, percebi que era a história da princesa Hawa, reproduzida em minúsculos detalhes. Na manga direita, onde ela cavalgava com o buraqi pelo deserto, havia até pequenas miçangas douradas mostrando a poeira levantada pelos cascos. Era a coisa mais linda que já tinha visto.
Eu odiara vestir azul a maior parte da vida. Ele só tornava meus olhos ainda mais óbvios do que já eram. Era um dos mil motivos pelos quais eu adorava o sheema vermelho que Jin roubara para mim. Só que eu não odiava aquele khalat.
Eu o coloquei, gostando da sensação do tecido na minha pele. Percebi que nunca tinha vestido uma roupa que já não tivesse sido usada por outra pessoa antes.
Minhas roupas na Vila da Poeira vinham das minhas primas. Havia comprado peças de segunda mão em Juniper quando fugira para lá. No acampamento rebelde, usava as de Shazad.
Aquela era a primeira roupa que caía realmente bem em mim. Tinha sido feita sob medida para meu corpo. E eu sabia o que significava.
Eu havia sido perdoada por ter ido falar com Bahadur.
Apesar do presente do sultão, não sabia o que eu havia perdido com meu truque. Sua confiança, com certeza. Provavelmente minha liberdade também. Nada o impedia de me tirar com algumas poucas palavras a liberdade que havia me concedido. Ele não estaria errado de não confiar em mim para deixar o harém.
Passei o dedão pelo bordado em alto-relevo na manga enquanto me dirigia até a saída do harém. Eu estava conspirando para destruí-lo, afinal de contas.
Mas, embora tenha desacelerado o passo conforme me aproximava dos portões, não esbarrei em nenhuma barreira invisível ali. Passei pelo arco que levava ao palácio da mesma forma que no dia anterior, quando Shira e eu orquestramos nosso teatro. Ainda assim, não ousava baixar a guarda. Mas não havia um batalhão de soldados esperando por mim. Só um homem, como sempre. E não era um soldado. Ou melhor: não era qualquer soldado.
Era o príncipe Rahim, irmão de Leyla, vestindo seu uniforme de comandante, com as mãos cruzadas atrás das costas. O que tinha dado sua opinião naquele dia na corte como se tivesse nascido em um campo de batalha. O que tinha me observado com frequência durante as negociações, com seus olhos escuros que me deixavam nervosa.
Ele não falava muito, mas valia a pena ouvir quando abria a boca.
— Bem, pelo menos sei que não vai conseguir fugir de mim vestida assim — Rahim disse, oferecendo seu braço direito.
— Ser minha escolta não está um pouco abaixo da posição de um príncipe? — perguntei, passando por ele e seguindo pelo caminho agora familiar até a câmara do conselho. Rahim me acompanhou.
— Consegui convencer meu pai de que talvez ele precisasse de alguém mais experiente de olho em você. Alguém inteligente o bastante para saber que ainda faltam semanas para a sultima dar à luz. Mas foi um truque e tanto.
— Devia me sentir lisonjeada por ter um comandante me vigiando? — perguntei, ao passar sob um arco de mosaico azul e branco.
As pontas dos lábios de Rahim formaram um sorriso.
— Você não lembra de mim. — Não era uma pergunta.
Nunca nos vimos antes. Estava na ponta da língua. Mas eu não conseguia falar.
Olhei para ele de soslaio enquanto caminhávamos, tentando lembrar o mais rápido possível.
Eu o tinha achado familiar da primeira vez que o vira, mas pensara que fosse por causa de sua semelhança com Leyla. E com seu pai.
— Faz sentido — ele tocou o lugar onde ficava minha cicatriz, na lateral da barriga —, considerando que a bala a derrubou imediatamente.
De repente entendi tudo. A explosão. O cheiro de pólvora. A dor lancinante na barriga. E então a escuridão. Em Iliaz. Um soldado atrás de Jin levantando a arma, com o dedo no gatilho.
Parei.
— Foi você quem atirou em mim em Iliaz.
— De fato. — Rahim continuou a caminhar, aparentemente satisfeito porque agora éramos velhos amigos com uma história em comum envolvendo pólvora e minha quase morte. — Embora, para nossa sorte, não tenha feito um bom trabalho. Espero que possa me perdoar e que possamos recomeçar do zero.
Rahim sabia. Ele tinha me visto em Iliaz, o que significava que conhecia minha identidade. Ele sabia que eu não era apenas uma demdji do Último Condado.
O príncipe percebeu que eu não o acompanhava mais. Ele também parou, virando para me encarar.
— Suspeitei assim que te vi na corte naquele dia. Mas não tive certeza até a gentil esposa do meu irmão decidir… te expor. — Ele parecia um pouco envergonhado, mas eu ainda sentia o calor da velha humilhação pinicando minha pele. — Soube assim que vi a cicatriz na sua barriga.
— Então por que estou caminhando para uma reunião do conselho em vez de estar pendurada pelos tornozelos em uma cela contando todos os segredos da rebelião para seu pai?
— Penduramos as pessoas pelos pulsos agora — Rahim retrucou. — Os prisioneiros ficam mais lúcidos quando o sangue não está fluindo todo para a cabeça. — Não dava para saber se ele estava brincando.
— Já te disseram que você não tem muito jeito com as palavras?
— É por isso que sou um soldado, não um político. Ou pelo menos costumava ser. — Rahim tamborilou os dedos na espada que ficava na cintura. — Meu pai e eu não andamos nos melhores termos um com o outro.
— E entregar de bandeja a Bandida de Olhos Azuis não te colocaria nas boas graças dele novamente? — perguntei.
— Meu pai não tem boas graças. Ele só é muito bom em fingir isso quando serve seus propósitos. O que deixa nós dois do mesmo lado: o que o odeia.
Eu o observei com atenção. Tinha que ser um truque. Algum estratagema do sultão.
Só que eu estava à mercê dele. O sultão não precisava enviar um falso traidor; ele podia simplesmente ordenar que eu contasse tudo o que sabia sobre a rebelião. Você está mentindo para mim, tentei dizer, mas as palavras não saíram.
Era verdade. Mas apenas uma parte dela.
— O que você quer? Ao sugerir que estamos do mesmo lado, digo.
— Uma nova alvorada. — Rahim tirou do bolso do uniforme um dos folhetos que tinha caído do céu e me passou. Tinha marcas de dobra. — Um novo deserto.
— Está me dizendo que quer colocar Ahmed no trono? — Parecia que Shira estava completamente errada sobre ele ter planos de se tornar o novo sultão.
— Estou dizendo que quero meu pai fora e posso te ajudar. Com uma condição. Quero que você e sua rebelião tirem minha irmã do harém.
— Leyla? — A menina de rosto arredondado que fazia brinquedos para as crianças e me lembrava dos meus primos pequenos, embora tivesse uma década a mais de vida. — Por quê? Leyla está tão segura lá quanto em qualquer lugar. Ela mesma me disse que pode ser bem pior do lado de fora.
— Se eu estiver certo, minha irmã corre perigo.
Lembrei de Shira pedindo para descobrir os segredos de Leyla, observando-a de canto de olho, pronta para eliminar qualquer ameaça antes que pudessem fazer o mesmo com ela. Mas de alguma forma achei que não era disso que Rahim falava.
Homens não costumavam dar atenção à política das mulheres.
— Que tipo de perigo?
Ele não respondeu.
— Você é uma demdji. Vi como faz seu pequeno truque todo dia nas reuniões de guerra de meu pai. Então, estou dizendo a verdade?
— Sim. — Aquilo saiu facilmente.
— Estou tentando te enganar?
Tentei dizer “sim” de novo, mas não consegui.
— Não.
— Pode confiar em mim?
Não confio em ninguém aqui.
— Sim. — Eu não ia desistir tão fácil. — Mas quero saber por quê. Muita gente não se dá bem com os pais. — Eu mesma aprendera aquilo no dia anterior, nas catacumbas. — Mas isso não significa que queiram que morram.
— Pais não costumam mandar os filhos para a morte quando completam doze anos. — Rahim disse isso de modo tão prático que me surpreendeu. — Ou pelo menos foi o que ouvi dizer. Não tenho muita base para comparação. — Ele voltou a caminhar, e o segui.
— Como conseguiu ser enviado para longe? — Acompanhei seu ritmo. — Pelo que pude ver, metade do harém mataria por uma chance de escapar daqui. Inclusive eu.
Rahim demorou para responder, parecendo escolher as palavras com cuidado, decidindo o que poderia me contar e o que deveria esconder.
— Tentei rachar o crânio de Kadir com as próprias mãos. — Eu não esperava aquela resposta.
— O que aconteceu depois? — perguntei.
Ele me olhou de esguelha.
— É essa sua dúvida? E não “por quê”?
— Conheci Kadir, posso imaginar o motivo.
— Queria tirar algo do meu pai da mesma forma que ele havia tirado de mim. Mulheres desaparecem do harém todo dia. A maioria das crianças simplesmente precisa aceitar quando suas mães somem sem uma palavra. Eu não estava preparado para ser uma delas. — Lembrei da calma aparente de Leyla quando me contou que sua mãe tinha sido tirada dela. Imaginei que Rahim não tinha aceitado aquilo tão bem. — Foram necessários três soldados para me arrancar de cima de Kadir. O nariz dele ficou torto, pode reparar.
Rahim coçou o nariz perfeitamente reto, escondendo um sorriso. Era o mesmo nariz do sultão, percebi. Aquilo que o tornava parecido com Ahmed.
— Então como ainda está vivo? — perguntei.
— Não veem com bons olhos quando o sultão mata os próprios filhos. Ainda mais quando já se tem tanto sangue da família nas mãos. Então meu pai decidiu me enviar para uma guerra para morrer em silêncio, ou pelo menos longe de sua vista. Só que ele me subestimou.
— Em vez de morrer, você se tornou comandante.
— O mais novo que já existiu. E o melhor. — Rahim não estava se gabando. Ele soava como Shazad. Tranquilamente confiante de que estava certo. — E então, você vai libertar minha irmã?
Eu não deveria estar fazendo isso. Ahmed, Shazad ou até Jin é que deveriam estar negociando com ele. Não era um trabalho para a Bandida de Olhos Azuis. Mas eu era a única ali.
— Depende do que você tem para oferecer.
— Que tal um exército? — Nada mau para uma primeira oferta. — O emir de Iliaz virá para o Auranzeb. Ele tem tão pouco apreço pelo sultão quanto eu, e sua força é quase equivalente ao que restou das forças de Miraji combinadas. Uma palavra minha e aquele exército pode lutar ao lado do seu príncipe rebelde. — Tínhamos chegado.
O sultão levantou a cabeça quando entramos.
— Ah, Rahim, vejo que conseguiu trazer Amani até aqui sem que ela saísse correndo. — Foi uma farpa suave. — Parabéns. Parece que isso não é nada fácil.
Bastariam algumas palavras. Algumas palavras para seu pai agora, contando que eu era a Bandida de Olhos Azuis. E, assim, estaria tudo terminado. Ele podia me trair antes mesmo de fazermos uma aliança.
Mas Rahim não fez isso. Ele deu um passo para o lado e me deixou entrar na sala antes dele, como um cavalheiro. Enquanto passava, sussurrou:
— Diga que estou mentindo.
Fiquei em silêncio e assumi meu lugar ao lado do sultão. Eu só podia falar a verdade.

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