29 de outubro de 2018

Capítulo 26

Aelin engoliu em seco uma vez. Duas vezes. O retrato do medo incerto enquanto estava acorrentada na mesa de metal, Cairn esperando por sua resposta.
E então ela falou, com a voz embargada:
— Quando termina de me quebrar por um dia, como se sente sabendo que você continua sendo nada?
Cairn sorriu.
— Algum fogo resta em você, parece. Bom.
Ela sorriu de volta através da máscara.
— Você foi dada em juramento para isto. Para mim. Sem mim você não é nada. Voltará a ser nada. Menos do que nada, pelo que ouvi.
Os dedos de Cairn se apertaram ao redor do sílex.
— Continue falando, cadela. Vamos ver aonde isso a leva.
Uma risada rouca rompeu dela.
— Os guardas falam quando você se vai, sabe. Eles esquecem que eu sou feérica também. Posso ouvir como vocês.
Cairn não disse nada.
— Pelo menos eles concordam comigo em uma coisa. Você é mole. Tem que amarrar as pessoas para machucá-las porque isso faz com que se sinta como um macho. — Aelin deu um olhar penetrante entre as pernas. — Inadequado nas maneiras que contam.
Um tremor passou por ele.
— Gostaria que eu lhe mostrasse o quanto sou inadequado?
Aelin bufou outra risada, arrogante e fria, e olhou para o teto, na direção do céu reluzente. O último que ela veria, se ela jogasse direito.
Sempre havia outro, um sobressalente, para ocupar o lugar dela se ela falhasse. Que a morte dela significaria a de Dorian, mandaria aqueles odiosos deuses exigirem a vida dele para forjar o cadeado... Não era estranho, odiar-se por isso. Ela falhou o suficiente com pessoas, falhou com Terrasen, que esse peso a mais mal fez diferença. Ela não teria muito mais tempo para senti-lo, de qualquer maneira.
Então ela arrastou-se para o céu, as estrelas.
— Ah, eu sei que não há muito que valha a pena ver a esse respeito, Cairn. E você não é macho suficiente para poder usá-lo sem alguém gritando, não é? — Ao silêncio dele, ela sorriu. — Foi o que pensei. Eu lidei com muitos como você na Guilda de Assassinos. Vocês são todos iguais.
Um grunhido profundo.
Aelin apenas riu e ajustou seu corpo, como se estivesse ficando confortável.
— Vá em frente, Cairn. Faça o seu pior.
Fenrys soltou um gemido de alerta. Ela esperou, esperou, mantendo o sorriso, a frouxidão em seus membros. Uma mão acertou em seu intestino, forte o suficiente, ela se curvou em torno dele, o ar fugindo.
Então outro golpe, nas costelas, um grito rouco dela.
Fenrys latiu.
Cadeados clicaram, destrancados. O hálito quente fez cócegas no ouvido dela quando ela foi arrancada da mesa.
— As ordens de Maeve podem me segurar, puta, mas vamos ver o quanto você fala depois disso.
Suas pernas acorrentadas não conseguiram segurar o seu peso antes de Cairn agarrar a parte de trás de sua cabeça e bater seu rosto na borda da mesa de metal.
Estrelas explodiram, cegando e agonizando, enquanto o impacto de metal sobre metal sobre osso ecoava através dela. Ela tropeçou, recuando, seus pés acorrentados a fazendo cair esparramada.
Fenrys latiu de novo, frenética e furiosamente.
Mas Cairn estava lá, segurando o cabelo dela com tanta força que seus olhos lacrimejaram, e ela gritou mais uma vez quando ele a arrastou pelo chão em direção ao grande braseiro aceso.
Ele puxou-a pelos cabelos e empurrou o rosto mascarado para a frente.
— Vamos ver como você zomba de mim agora.
O calor instantaneamente a chamuscou, as chamas lambendo tão perto de sua pele. Oh deuses, oh deuses, o calor daquilo...
A máscara aqueceu seu rosto, as correntes ao longo de seu corpo também.
Apesar de seus planos, ela lutou contra, mas Cairn a segurou firme no lugar. Empurrou-a em direção ao fogo enquanto seu corpo se esforçava, lutando por qualquer bolsão de ar frio.
— Eu vou derreter tanto o seu rosto que nem mesmo os curandeiros serão capazes de consertar você — ele sussurrou em seu ouvido, abaixando-a, os membros dela começando a tremer, o calor chamuscando sua pele, as correntes e a máscara. Ele a empurrou um centímetro mais perto da chama.
O pé de Aelin deslizou para trás, entre as pernas apoiadas. Agora. Tinha que ser agora...
— Aproveite o bafo do fogo — ele sussurrou, e ela deixou que ele a empurrasse mais um centímetro para baixo.
Deixou que ele saísse do seu centro de equilíbrio, apenas uma fração, enquanto ela não forçava o corpo para cima, mas para trás, o pé enganchando em seu tornozelo enquanto ele cambaleava.
Aelin girou, esmagando o ombro em seu peito. Cairn caiu no chão.
Ela correu – ou tentou. Com as correntes em seus pés, em suas pernas, ela mal podia andar, mas ela passou por ele, sabendo que ele já estava se contorcendo, já se levantando.
Corra...
As mãos de Cairn se enrolaram em torno de suas panturrilhas e puxaram. Ela caiu, dentes sibilando enquanto batiam contra a máscara, tirando sangue do lábio. Então ele estava sobre ela, chovendo golpes em sua cabeça, seu pescoço, seu peito. Ela não podia tirá-lo de cima, seus músculos tão drenados do desuso, apesar de os curandeiros manterem a atrofia afastada. Também não podia girá-lo, embora tentasse.
Cairn esticou o braço para trás – buscando um atiçador que aquecia no braseiro. Aelin se debateu, tentando levantar as mãos e passar por cima da cabeça dele, enlaçar aquelas correntes em volta de seu pescoço. Mas eles estavam presos pelos ferros ao lado dela, presos nas costas.
Os rosnados de Fenrys aumentaram. A mão de Cairn se atrapalhou novamente no atiçador. Errou.
Cairn olhou para trás para pegar o atiçador, ousando tirar os olhos dela por um instante.
Aelin não hesitou. Ela ergueu a cabeça com força e bateu o rosto mascarado em Cairn.
Ele bateu de volta, e ela se lançou na direção das abas da tenda.
Ele tinha mais contenção do que ela estimara. Não iria matá-la, e com o que ela tinha feito agora, provocando-o... Ela mal conseguira se apoiar nos joelhos quando as mãos de Cairn agarraram o seu cabelo novamente.
Quando ele a atirou com toda a força contra a cômoda.
Aelin a acertou com um crac que ecoou por seu corpo.
Algo em seu lado estalou e ela gritou, o som pequeno e quebrado, quando ela colidiu com o chão.


Fenrys assistira o seu gêmeo enfiar uma faca no próprio coração. Tinha assistido Connall sangrar sobre os azulejos e morrer. E então foi ordenado a ajoelhar-se diante de Maeve sobre todo aquele sangue, enquanto ela lhe ordenava que a atendesse.
Ele ficou sentado em uma sala de pedra por dois meses, testemunhando o que fizeram com o corpo de uma jovem rainha, com seu espírito. Tinha sido incapaz de ajudá-la quando ela gritou e gritou. Ele nunca deixaria de ouvir esses gritos.
Mas foi o som que saiu dela quando Cairn a atirou na cômoda onde Fenrys o observara arrumando suas ferramentas, o som que ela fez ao cair no chão, que o estilhaçou por completo.
Um pequeno som. baixo. Sem esperança.
Ele nunca ouvira isso dela, nem uma vez.
Cairn se levantou e limpou o nariz quebrado e sangrando.
Aelin Galathynius se mexeu, tentando se erguer sobre os antebraços. Cairn puxou o atiçador incandescente do braseiro. Ele apontou para ela como uma espada.
Fenrys se esforçou contra suas amarras invisíveis enquanto Aelin olhava para ele, na direção de onde ele estivera nos últimos dois dias, naquele mesmo local da parede da tenda.
Desespero brilhou nos olhos dela.
Verdadeiro desespero, sem luz nem esperança. O tipo de desespero que desejava a morte. O tipo de desespero que começava a corroer a força, a consumir qualquer resolução de suportar.
Ela piscou para ele. Quatro vezes. Eu estou aqui, estou com você. Fenrys sabia por que era isso. A mensagem final. Não antes da morte, mas antes do tipo de quebra que ninguém se afastaria. Antes de Maeve voltar com o colar de Wyrd.
Cairn girou o atiçador em suas mãos, o calor ondulando dele.
E Fenrys não podia permitir isso.
Não podia permitir.
Em sua alma despedaçada, no que restava dele depois de tudo o que fora forçado a ver e fazer, ele não podia permitir isso.
O juramento de sangue mantinha seus membros plantados. Uma corrente escura que corria em sua alma.
Ele não permitiria isso. Essa quebra final.
Ele forçou contra a corrente escura do elo, gritando, embora nenhum som viesse de sua boca aberta.
Ele empurrou e empurrou e empurrou contra aquelas correntes invisíveis, contra aquela ordem jurada de sangue para obedecer, para ficar parado, para assistir.
Ele desafiou. Desafiou tudo o que o juramento de sangue era.
Dor o atravessou, atravessou seu âmago.
Ele a bloqueou quando Cairn apontou o atiçador fumegante para a jovem rainha com um coração de fogo selvagem.
Ele não permitiria isso.
Rosnando, o macho dentro dele se debatendo, Fenrys gritou com a corrente escura que o prendia.
Ele a atacou, mordendo e rasgando com cada fragmento de desafio que possuía.
Que isso o matasse, destruísse. Ele não serviria. Nem por mais uma batida de coração. Ele não obedeceria.
Ele não obedeceria.
E lentamente, Fenrys se levantou.


A dor estremeceu Aelin quando ela estava esparramada, ofegante, os braços se esticando para manter a cabeça e o peito erguidos do chão.
Não era para Cairn e o atiçador que ela olhava. Mas Fenrys, levantando-se para cima, seu corpo ondulando com tremores de dor, focinho enrugado de raiva.
Até Cairn parou. Olhou para o lobo branco.
— Fique aí.
Fenrys rosnou, profundo e vicioso. E ainda assim ele se esforçou para ficar de pé.
Cairn apontou o atiçador para o tapete.
— Deite. Esta é uma ordem da sua rainha.
Fenrys se sacudiu, as costelas subindo e descendo. Mas ele estava de pé. Em pé.
Apesar da ordem, apesar dos comandos do juramento de sangue.
Levante-se.
Ao longe, as palavras soaram.
Cairn rugiu:
— Deite-se!
A cabeça de Fenrys se agitou de um lado para o outro, seu corpo lutando contra correntes invisíveis. Contra um juramento invisível.
Seus olhos escuros encontraram os de Cairn.
Sangue começou a correr das narinas do lobo. Isso o mataria – romper o juramento. Isso quebraria sua alma. Seu corpo iria logo depois.
Mas Fenrys colocou uma pata para frente. Suas garras cravaram no chão.
O rosto de Cairn empalideceu àquele passo. Àquele passo impossível.
Os olhos de Fenrys deslizaram para os dela. Não era necessário o código silencioso entre eles para a palavra que ela viu em seu olhar. A ordem e o pedido.
Corra.
Cairn leu a palavra também. E ele sussurrou:
— Com uma espinha quebrada, ela não conseguirá — antes de descer o atiçador com força para as costas de Aelin.
Com um rugido, Fenrys saltou. E com isso, ele quebrou o juramento de sangue completamente.

10 comentários:

  1. MEU DEUS DO CÉEEEEEEU...
    SOCORRO!!!!

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  2. Fenrys .... OMG ... POR FAVOR SOBREVIVA !

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  3. "E então foi ordenado a ajoelhar-se diante de Maeve sobre todo aquele sangue, enquanto ela lhe ordenava que a atendesse."
    Isso me lembra da Amarantha, não sei quem é mais cruel Maeve ou Amarantha..
    Aquele momento da Aelin e Fenrys(logo depois do Fenrys 'atender' a Maeve) lembrou tbm do rhys e feyre

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  4. MEU DEUUUUUS!!!
    ERA DISSO O QUE EU TAVA FALANDO MEU BRASIL!!!
    AAAAAAAAH, NAO ESTOU SENDO CAPAZ DE ME CONTER, O POVO DEVE TA TUDO ACHANDO QUE EU SOU DOIDA. FODA-SE, TO MUITO FELIZ CACETE!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!