5 de outubro de 2018

Capítulo 26


AGORA QUE PODIA DEIXAR O HARÉM, passava o menor tempo possível lá dentro. Mesmo se o palácio fosse um terreno estéril capaz de rivalizar com o Último Condado eu não teria me importado, contanto que estivesse livre de Kadir, Ayet e o resto.
Precisava passar algumas horas por dia nas reuniões do sultão. Ele se reuniu com cada uma das delegações estrangeiras em separado. O embaixador albish era um ancião, e suas mãos pálidas com manchas de idade tremiam a ponto de não conseguir segurar uma caneta. Ouvi-o dizer para seu escriba que eu o lembrava de sua neta. Ele não mentia descaradamente como os gallans, mas tampouco estava disposto a entregar toda a verdade. Podia ter um rosto mais gentil, mas também queria algo de nós.
Os xichan não tinham um embaixador. Eles enviaram um general que me olhava com desconfiança a cada palavra que eu dizia.
Eu ficava sentada à direita do sultão, um pouco atrás, de modo que ele pudesse trocar um olhar comigo quando alguém estava falando e conferir se era verdade.
Obriguei os homens que negociavam os termos do cessar-fogo a serem honestos. E aprendi o máximo que pude nesse meio-tempo. Descobri onde as tropas estrangeiras estavam estacionadas, em quem o sultão confiava e o que sabia sobre a rebelião. Seu filho Rahim, irmão de Leyla, participava de todas as reuniões. Ele mal falava, a menos que seu pai perguntasse alguma coisa diretamente. Flagrei-o me observando algumas vezes.
Depois de algum tempo, descobri que não podia evitar Kadir inteiramente, mesmo fora do harém. De vez em quando ele também aparecia nas negociações, forçando a barra para conseguir um lugar para si na mesa. Ao contrário de Rahim, ele dava opiniões por conta própria. Uma vez notei um dos ministros revirando os olhos enquanto Kadir falava.
Ele era a única pessoa que parecia instigar Rahim a dizer algo sem ser perguntado. Faíscas surgiam quando os dois príncipes falavam um com o outro. Lembrei o que o sultão tinha dito, que Rahim seria uma boa escolha para sultim se não fosse tão governado por suas emoções. Até agora não tinha visto muito delas, com exceção do ódio por Kadir.
Eu voltava ao harém toda noite para encontrar Sam no crepúsculo e revelar o que tinha descoberto.
O que restava dos dias era meu para gastar como quisesse, fora das paredes do harém. Explorei tanto quanto pude, tomando o cuidado de evitar os estrangeiros que aos poucos invadiam o palácio. Havia uma centena de jardins com tantas flores que eu mal conseguia abrir as portas, ou onde a música parecia flutuar pelas paredes com uma brisa que cheirava a sal e ar fresco. Foi só quando escalei uma torre que dava para a água e o mesmo ar levantou minhas roupas e meu cabelo que percebi se tratar do mar.
Tinha passado meu curto tempo na água sedada e amarrada. Mas não era aquela a memória que a brisa marinha despertava, e sim eu sentada em um chão empoeirado de loja, o mais distante que podia estar da água, com os dedos dançando ao longo das tatuagens de Jin.
Certo dia, virei uma esquina e vi uma silhueta andando à frente, mancando de um jeito tão familiar que me preparei para virar e correr. Parei de andar tão de repente que o guarda que me acompanhava naquele dia tropeçou em mim. A vergonha em seu rosto foi o máximo de expressão que consegui extrair de um deles. Pelo menos era bom saber que debaixo daquele uniforme, em algum lugar, havia um ser humano. No final das contas, a silhueta era apenas um soldado albish, ferido por uma bala mirajin antes do cessar-fogo. Depois, lembrei que Tamid não mancava mais.
Eu fingia perambular sem destino razoavelmente bem. Mas o sultão não era tolo a ponto de me dar total liberdade no palácio. Um soldado diferente a cada manhã me esperava fora dos portões do harém e grudava em mim como uma sombra silenciosa. O soldado mudava a cada dia, mas eles sempre permaneciam calados exceto para me dizer quando minha presença era exigida em uma reunião. Se eu tentasse seguir por onde não podia, ele simplesmente se tornava uma nova parede, bloqueando o caminho.
Uma parede fortemente armada que permanecia com o olhar fixo adiante até eu entender o recado.
Mas não estava disposta a desistir. Precisava achar um jeito de reencontrar Bahadur. O djinni. Meu pai. A nova arma secreta do sultão. Tinha que descobrir como libertá-lo antes que o sultão o usasse para nos aniquilar.
Eu queria não estar tão familiarizada com a sensação de acordar em perigo. Mas o harém estava me deixando mole. A presença de um intruso teria me despertado muito antes de ele poder chegar perto o suficiente para colocar uma lâmina em meu pescoço.
Sentei rápido, o coração acelerado, pronta para enfrentar qualquer ameaça que a noite tivesse trazido. Soldados. Carniçais.
Mas o que vi foi ainda pior: Ayet.
A luz da lua quase cheia refletia ao longo da lâmina em sua mão enquanto ela se afastava de mim. Não era uma faca, percebi: era uma tesoura. Ainda mais perigoso era o sorriso em seu rosto. Na outra mão, ela segurava uma trança escura e comprida.
Imediatamente levei a mão à cabeça. A última pessoa que tinha se dado o trabalho de cortar meu cabelo fora minha mãe antes de morrer. Desde então, ele tinha crescido até a metade das minhas costas, embora passasse a maior parte do tempo trançado sob o sheema. Agora terminava em um corte cego, logo acima dos ombros.
— Vamos ver se ele vai te desejar agora que parece um garoto. — Ayet brincou com meu cabelo mutilado, mantendo um sorriso de escárnio no rosto.
Fui tomada pela raiva, mais feroz do que algo tão tolo e fútil merecia. Mas não me importava se era tolo e fútil. Me movi tão rápido quanto possível, avançando em sua direção. Antes que ela pudesse reagir, a tesoura estava na minha mão. Eu não podia feri-la, mas Ayet não sabia disso. Pressionei a lâmina em sua garganta e tive a satisfação de vê-la arregalar os olhos.
— Escute o que estou dizendo. — Segurei a frente de seu khalat antes que saísse correndo. — Tenho coisas mais importantes com que lidar do que seu ciúme por causa dos olhares maliciosos de seu marido. Então por que não se distrai com alguém que realmente deseja roubar o sultim de você?
Ayet riu, amarga, o pescoço pressionando a tesoura cega.
— Você realmente pensa que é ciúme? Acha que desejo Kadir? O que eu quero é sobreviver. Esse lugar é um campo de batalha. Você sabe disso muito bem. O que você fez com Mouhna e Uzma?
— Do que está falando? — Eu vinha tentando me manter afastada de Kadir e das esposas, então não passava tempo suficiente no harém para notar o que tinha acontecido com Uzma desde que tentara me humilhar na corte.
— Uzma desapareceu. — Uma expressão de desdém surgiu no rosto de Ayet, mas dava para enxergar o medo por baixo daquele olhar agora. Garotas como ela estavam desaparecendo em um piscar de olhos e tudo o que tinha para se proteger era uma tesoura. — Assim como Mouhna. As pessoas desaparecem do harém o tempo todo. Mas Kadir tinha quatro esposas mirajins. Então você chega e duas delas desaparecem. Acha que é coincidência?
— Não. — A coincidência não tem um senso de humor tão cruel. Jin dissera isso para mim uma vez. — Mas não fiz nada.
Foi só no meio da manhã do dia seguinte que finalmente consegui achar Shira. Ela estava esparramada em um trono de almofadas à sombra de uma enorme árvore, sendo paparicada por meia dúzia de serviçais. Duas mulheres estavam de guarda, uma colocava panos frios em sua pele, outra a abanava, e outra ainda massageava seus pés.
A última estava imóvel mas pronta, a jarra em suas mãos suando. Ela parecia corada e desconfortável de pé ali, ligeiramente fora da sombra.
Parecia que o futuro sultão de Miraji já tinha sua própria corte, mesmo que na verdade fosse filho do falso Bandido de Olhos Azuis. E Shira estava aproveitando as mordomias nas poucas semanas que faltavam antes de dar à luz. Ela estava bem longe da Vila da Poeira agora.
Uma das serviçais de guarda bloqueou meu caminho.
— A abençoada sultima não deseja companhia hoje. — Claro, ela parece solitária como uma eremita. Aquilo estava na ponta da minha língua, mas meu lado demdji não reconhecia a diferença entre sarcasmo e mentira. Tive que me contentar em erguer a sobrancelha diante da pequena multidão em torno dela. A mulher não pareceu apreciar a ironia da situação.
— Shira — chamei por cima do ombro da serviçal. Ela levantou a cabeça e apertou os olhos na minha direção, chupando um caroço de tâmara que segurava entre os dedos.
Fez uma cara de irritação, mas acenou.
— Deixem ela passar. — A serviçal saiu do caminho, relutante. Olhei para Shira como quem diz “me poupe”. Com outro suspiro dramático, minha prima dispensou todo mundo. Tudo nela, dos gestos até a posição do corpo, parecia preguiçoso, mas seus olhos atentos estavam focados em mim. — Então era para isso que Ayet queria uma tesoura — ela disse em vez de me cumprimentar, enquanto sua corte dispersava. — Eu estava me perguntando o motivo. Sabe, cheguei a pensar em cortar seu cabelo lá na Vila da Poeira quando você dormia a poucos metros de mim, mas achei que talvez fosse ficar bem de cabelo curto. Ela inclinou a cabeça. — Pelo visto eu estava errada.
— Você pediu que Sam contrabandeasse uma tesoura para você? — Me peguei pondo as mãos onde antes estava meu cabelo e então as deixei cair. Mas não antes de Shira perceber.
— Está surpresa? — Ela passou as mãos na barriga.
Na verdade, não. Talvez ela e Sam não fossem mais do que ferramentas um para o outro, mas Shira estava carregando uma criança que significava algo para ambos.
Ainda assim, eu tinha pensado que ele estava do nosso lado agora. Saber que estava assumindo outros riscos desconhecidos enquanto agia como nosso mensageiro me deixava desconfortável. E estaria mentindo se dissesse que não me irritava que estivesse levando e trazendo informações para mim ao mesmo tempo que contrabandeava ferramentas para me humilhar enquanto eu não estava olhando.
— Fique grata de eu ter me recusado a conseguir uma faca para ela. Uma garganta cortada cairia ainda pior em você do que — Shira apontou vagamente — isso.
Engoli a resposta que queria dar. Não podia começar uma guerra verbal com minha prima naquele momento.
— Que tipo de jogo é esse, Shira?
— Chama-se sobrevivência. — Ela estendeu a mão na minha direção, flexionando os dedos como uma criança mimada. Peguei sua mão, ajudando minha prima a se endireitar para que pudesse me encarar da mesma altura. Ela se movia lentamente, uma mão aberta de forma protetora sobre a barriga. — Eu faria qualquer coisa pelo meu filho.
— E o que vai fazer se ele nascer parecido com Sam? — perguntei em tom de desafio. — Olhos azuis são bem suspeitos em pessoas do deserto, posso garantir.
— Isso não vai acontecer — ela disse com tal determinação que quase dava para acreditar que podia profetizar essa verdade, embora a demdji fosse eu. — Não tive todo esse trabalho só para falhar no fim. Sabe como dei duro para nunca ficar sozinha aqui no harém desde que souberam que eu estava grávida? Troquei a tesoura por um segredo de Ayet que posso guardar como um escudo contra ela. Preciso manter aquela garota longe de mim mais do que longe de você. Não me leve a mal, você é uma excelente distração, mas quando eu der à luz as outras esposas estarão perdidas, a menos que possam fazer o mesmo. E elas não podem. E todas sabem disso. Acha sinceramente que Ayet não mataria uma grávida para sobreviver? Já vi do que você é capaz, Amani. Sei que me entende.
Afastei da cabeça a imagem de Tamid sangrando na areia.
— Foi por isso que Mouhna e Uzma desapareceram? Para que você possa sobreviver?
— Interessante. — Shira chupou o caroço da tâmara. — E eu achando que você é que tinha feito alguma coisa com elas. Considerando que está na maior intimidade com o sultão agora. As duas não foram exatamente gentis com você. E me parece que agora você tem o poder de fazer com que garotas desapareçam, se quiser…
Se eu fosse me livrar delas, teria começado por Ayet. Afastei esse pensamento também.
— Então se não foi nenhuma de nós… Garotas não desaparecem simplesmente.
— Só nas histórias. — Shira passou a língua pelos dentes. Com o olhar perdido, franziu o cenho com uma discreta expressão de preocupação. Então sua atenção se voltou subitamente para mim. — Digamos que eu precise de sua ajuda. — Ela tirou um dos panos da testa. — O que desejaria em troca?
— Por que ajudaria você? — Cruzei os braços. — Tenho sua vida como moeda de troca se precisar de algo. O que mais tenho a ganhar?
— Você é bem pior nesse jogo de sobrevivência do que imaginei. — Shira parecia realmente irritada. Como se ainda fôssemos crianças e eu me mostrasse burra demais para entender as regras de um jogo que tinha inventado na escola.
— Então por que não me explica como funciona?
— Quero informações — Shira disse. — Vi você com Leyla. A princesa magricela sem graça.
— O que tem ela? — Até eu achei que havia soado na defensiva. Geralmente passava meu tempo no harém com ela. Comíamos juntas. Na verdade, eu comia enquanto a comida dela esfriava, já que sua atenção estava sempre voltada para os brinquedinhos mecânicos que construía.
— Ela está armando alguma coisa — Shira disse.
— Leyla? — Não consegui dizer aquilo sem parecer cética. — Foram os brinquedos que ela constrói que levantaram sua suspeita, ou o fato de ela ser praticamente uma criança?
— Ela anda se escondendo por aí. — Shira esticou a mão para pegar uma toalha fresca. — Deixa o harém, e não sei aonde vai. Não posso seguir a menina, mas você pode.
— Quer saber por onde ela anda? — Era difícil levá-la a sério quando estava levantando acusações contra alguém dois anos mais nova que nós. — Está preocupada com Leyla?
— É claro que não. — Shira revirou os olhos. — Estou preocupada com o irmão dela. — O príncipe Rahim. Ah. aquilo já não soava tão tolo. — Dizem que ele tem bastante influência sobre o sultão. — Até ali era verdade. Lembrei do que o governante dissera sobre o filho enquanto comia o pato.
— Você acha que ele tem ambições em relação ao trono. — De repente entendi seu raciocínio. Os dois príncipes não se bicavam. Eu só não sabia se Rahim odiava Kadir o suficiente para sumir com suas esposas. Mas, se fosse o caso, Shira seria um alvo.
— Olha só, você não é tão burra quanto parece. — Shira colocou o pano úmido na testa; gotas de água escorreram por suas sobrancelhas até suas bochechas. — Há rumores de que, antes de Kadir provar ser capaz de conceber um herdeiro — ela passou a mão pela barriga —, o sultão estava quase tirando o trono dele. Aparentemente Rahim era seu favorito. Por que mais ele estaria na corte, se é comandante em Iliaz? — A menção provocou uma pontada de dor onde a cicatriz da bala ficava. Iliaz era um lembrete doloroso de ter levado um tiro. — Se Rahim tem ambições de ocupar o trono e está usando o conhecimento da irmã sobre o harém para isso, preciso saber. E deve ter alguma coisa que você deseja em troca dessas informações.
Leyla tinha me ajudado a conseguir acesso ao restante do palácio. Ela havia me guiado nos meus primeiros dias no harém. Me salvara de Kadir. Era o mais próximo que eu conseguiria de uma amiga entre aquelas paredes.
E eu não era mais a garota que traía os amigos. Só que Shira não sabia disso. Ela me conhecia como a garota da Vila da Poeira que deixara Tamid sangrando na areia. Que faria o que precisasse para conseguir o que queria.
Mas uma ideia nascia na minha cabeça. Eu vinha procurando uma forma de me livrar da minha escolta. Talvez essa fosse minha chance.
— E se eu precisasse de uma distração? Para os guardas.
— Uma distração como uma sultima grávida fingindo um parto prematuro? — Shira entendia rápido.
— E pensar que o pessoal na Vila da Poeira costumava dizer que você era tão burra quanto bonita. — Não consegui me conter, por mais mesquinho que fosse. Eu ainda estava com raiva dela por causa do meu cabelo.
— Sobrevivi dezesseis anos naquela cidade me metendo em bem menos encrenca do que você — Shira apontou. — Por que precisa de uma distração, posso saber? Está tentando escapulir para visitar um certo amigo aleijado? Porque acho que deveria saber que as boas-vindas talvez não sejam tão calorosas quanto espera.
— Tamid não é da sua conta. — Meu dedão apertou o metal sob meu braço dolorosamente. Era quase um tique nervoso agora. Ela tinha descoberto meu ponto fraco. E o sorriso em seus lábios indicava que percebera aquilo.
— Ah, então você sabe que ele está aqui. — Minha prima viu a resposta estampada na minha cara. — Eles levaram nós dois. Porque você nos abandonou.
— Você queria ir, porque Fazim não queria mais saber de você. — O golpe foi tão forte que quase me arrependi quando a expressão de desolação apareceu em seu rosto.
Mas ela tinha atacado primeiro. Era uma má ideia pagar pra ver com alguém que você conheceu a vida inteira. Ninguém ganhava nessas situações.
Shira vestiu novamente a máscara de sultima.
— Diga que me trará informações sobre Leyla e serei sua distração. — Ela estendeu a mão carregada de novos braceletes de ouro. Um deles certamente já tinha sido trocado com Sam pela tesoura usada para cortar meu cabelo. Shira os sacudiu, impaciente. — Temos um acordo?
Peguei sua mão e a puxei até ela conseguir levantar.
— Então vamos.


Eu tinha que admitir que Shira era boa atriz. Seus gritos soavam tão convincentes que por alguns instantes fiquei preocupada que o destino realmente fosse cruel o bastante para fazê-la entrar em trabalho de parto enquanto fingia um. Minha prima desabou sobre mim com força enquanto cambaleávamos pelos portões do harém. Seus gritos e choros abafaram as palavras que eu disse para o guarda esperando por mim. Ele era jovem, os olhos se arregalando em pânico quando a sultima caiu em seus braços.
E, simples assim, Shira foi transferida do meu ombro para o dele, atraindo toda a sua atenção e o puxando para baixo enquanto eu dava no pé e saía de seu campo de visão.
Por um instante, sua cabeça se virou para me seguir, lembrando do seu dever.
Mas um novo grito de Shira logo recuperou sua atenção.
Sumi, correndo o mais rápido que podia. Os gritos atrás de mim foram ficando cada vez mais distantes enquanto atravessava o pátio para entrar nos corredores do palácio, acelerando em direção ao mosaico de Hawa.
Já tinham me dito que meus olhos eram da cor do mar em um dia claro. Que tinham o tom do céu do deserto. Olhos de forasteira. Olhos que me traíam.
Mas a verdade era que eu nunca tinha visto nada exatamente da mesma cor que meus olhos até conhecer Noorsham. Tínhamos os olhos de nosso pai.
Era uma sensação estranha ter aqueles mesmos olhos azuis me observando de onde Bahadur sentava no círculo de ferro conforme eu descia até as catacumbas do palácio.
Ele não falou quando me aproximei da borda do círculo. Nem eu.
— Você não deveria estar aqui, não é? — Bahadur por fim quebrou o silêncio.
Eu tinha me perguntado sobre meu pai ao longo dos anos desde que entendera que ele não era o marido da minha mãe. Com meus olhos azuis, sempre achei que fosse algum soldado estrangeiro, e eu não queria ser parte estrangeira. Então não pensava muito nisso.
Tinha ficado um pouco mais curiosa depois de descobrir que era uma demdji. Depois de descobrir que meus olhos eram uma marca deixada pelo meu pai junto com meu poder. Imaginara como me sentiria quando finalmente nos encontrássemos, a sós.
Mas não esperava sentir tanta raiva.
— Estou aqui porque preciso saber como libertar você. — Cruzei os braços, trancando a raiva dentro de mim. Não havia espaço ou tempo para ela. — Não porque me importo se vai fazer mais alguns filhos demdjis para destruir o mundo. Mas não quero que o sultão use você para queimar todos os inimigos dele vivos ou enterrar suas cidades na areia. Eu e muitas pessoas com quem me importo não estamos exatamente do lado dele.
— Só enterrei uma cidade na areia uma vez. — Ele estava falando de Massil. Eu passara por lá com Jin. Antes mesmo de saber quem eu era. Antes de cruzarmos o Mar de Areia.
— Um pouco excessivo, não acha? — perguntei.
Bahadur me observava com toda a atenção, sem jamais piscar aqueles olhos azuis.
— Não preciso que me liberte, Amani. Eu existo desde os primórdios do tempo. Esta não é a primeira vez que sou conjurado e preso por um mortal com mais cobiça do que bom senso. Um dia encontrarei um modo de me libertar daqui, de um jeito ou de outro. Quando isso vai acontecer não me importa.
— Bem, importa para mim. — As palavras saíram com mais violência do que eu pretendia. — Você pode viver para sempre, mas nós somos conhecidos por nossa mortalidade. Eu tenho um tempo limitado. Todos nós temos. E precisamos vencer uma guerra antes dele terminar, vidas terminarão mais cedo se não conseguirmos. Então me diga, se já foi capturado tantas vezes antes, existem palavras capazes de te libertar?
— Existem, mas não sei quais são. Há outra forma, no entanto. Uma que você já conhece. Porque sabe a história de Akim e sua esposa.
Minha mãe tinha me contado aquela história quando eu era criança. Eu não pensava nela havia anos. Akim era um acadêmico. Um homem sábio, mas pobre. Conhecimento nem sempre trazia riqueza, não importava o que os textos sagrados dissessem. E em seus estudos ele descobriu o nome verdadeiro de um djinni. Akim o usou para conjurá-lo e prendê-lo em um círculo de moedas de ferro. Um dia, quando descera para pegar mais açúcar do porão, a esposa de Akim encontrou o djinni. Ela era negligenciada pelo marido, que preferia seus livros. Então foi facilmente tentada pelo djinni, que disse a ela que se o libertasse lhe daria a criança que tanto desejava. A esposa de Akim quebrou o círculo de moedas que prendia o djinni, libertando-o.
Nesse ponto da história, minha mãe normalmente fazia uma pausa dramática antes de jogar um punhado de pólvora na lareira e deixá-lo explodir. Soltar o djinni sem bani-lo com as palavras certas era como soltar uma barragem de fogo.
O djinni queimou a esposa de Akim viva, e o resto da casa com ela.
— Você matou Akim e sua esposa. — Não era uma pergunta. Era uma verdade.
— Sim. — Não havia nem um pingo de remorso ali. — Talvez tenha sido um pouco excessivo — ele admitiu.
Teríamos que quebrar o círculo. Só que aquele não era feito de moedas. Estava fixo no chão. Seria preciso usar algo forte. Como pólvora.
Bahadur era meu pai. Eu não achava que ele ia me queimar. Mas não havia como ter certeza.
— Existem outras formas de descobrir como me libertar. Algumas pessoas têm esse conhecimento. — Bahadur me observava de dentro do círculo. Ele permanecia absurdamente parado. Não mudava de posição, não se inquietava e não ajeitava a própria roupa, como um humano faria. — Por que realmente se esforçou tanto para vir me ver, Amani?
— Você lembra da minha mãe? — Eu me odiei por perguntar aquilo. Por me importar se ele se lembrava de uma mulher no meio de milhares de anos vividos. — Zahia Al-Fadi. Da Vila da Poeira. Você lembra dela?
— Eu lembro de todo mundo. — Será que tinha imaginado a mudança na voz de meu pai, a pequena alteração no tom monótono e vazio que ele tinha usado até agora? — Sua mãe era muito bonita. Você se parece com ela. Ela estava fugindo de casa. Pelas montanhas. Não teria conseguido ir muito longe. Só tinha suprimentos para alguns dias, não para uma fuga de verdade. Seria obrigada a voltar ou acabaria morrendo. Eu estava preso a uma das armadilhas antigas de seu povo. As que vocês deixavam para os buraqi. Primitiva, mas, sendo de ferro, fez seu trabalho. Zahia me encontrou e me libertou.
— Então por que não a salvou? — Ali estava. A pergunta que eu realmente queria fazer. Não se minha mãe tinha deixado alguma marca duradoura naquele ser poderoso e imortal, mas por que não tinha sido suficiente para salvar a vida dela. Como podia tê-la deixado comigo, uma criança por quem um dia ela morreria, sem ter a decência de intervir. — Você poderia ter feito isso, não? Poderia ter protegido minha mãe.
— Sim. Eu poderia ter aparecido no dia em que seu povo escolheu enforcá-la e tê-la libertado de suas amarras e a levado embora. Como em todas aquelas histórias que ela lhe contou quando criança. Mas com que propósito? Para mantê-la em uma torre por um punhado de anos como minha esposa? Zahia era mortal. Mesmo você, que tem um pouco de meu fogo, morrerá um dia. É o que vocês fazem. E a única coisa que fazem sem errar ou falhar. Mesmo que eu a tivesse ajudado a escapar, Zahia teria morrido de outra forma mais tarde.
— Mas ela teria tido mais tempo. — Eu podia ouvir o choro na minha voz. — Poderíamos ter escapado. — A morte dela não teria sido minha culpa.
— Você conseguiu escapar — ele disse.
Eu explodi.
— Não acha cansativo não se importar com nada, nunca, por toda a eternidade? — Eu não queria chorar na frente dele. Odiava o quanto me importava de chorar na frente dele. Mas era tarde demais. Enquanto as lágrimas caíam, ouvi passos ainda distantes. Soldados vindo atrás de mim. — Você deixou minha mãe ser enforcada. Deixou que eu e Noorsham, seus dois filhos, nos enfrentássemos. — Os passos estavam atrás de mim agora. Continuei gritando: — Você não fez nada quando segurei aquela faca contra minha barriga! Você nos criou. Por que não se importa conosco? — E então era tarde demais. Os soldados me agarraram, me puxando para longe de meu pai, me arrastando escada acima enquanto eu lutava contra eles, ainda gritando.
Alguma coisa espetou a lateral do meu pescoço. Uma agulha nas mãos de um guarda, percebi. Havia algo no metal. Notei no mesmo instante. Algo para me fazer dormir.
De repente, minha cabeça foi tomada por um turbilhão. Senti meu mundo desabar.
Teria caído no chão não fosse por alguém me segurando. Braços fortes.
— Amani. — Meu nome perfurou a tempestade de sensações. — Está tudo bem.
Jin.
Não. Quando minha visão clareou, estava apoiada no sultão. Ele era forte. Tentei lutar, mas com um gesto rápido passou o braço pelos meus joelhos e me levantou, carregando-me como se eu fosse uma criança. O sultão começou a andar, cada passo me aproximando de seu coração.
— Eu queria… — Procurei alguma meia verdade para cobrir o que estava fazendo.
Minha boca parecia aveludada com o efeito dos medicamentos, e o movimento me deixava tonta.
— Você queria ver seu pai.
Esperei pela punição. Pela raiva. Saímos da sombra fresca do pátio, passando por outras portas. Três copas se espalhavam lá no alto, acima de mim, a luz do sol dançando entre seus galhos.
— Sim — admiti. Aquela era a verdade mais simples. Eu queria vê-lo. Precisava de uma explicação. Estava mergulhando e emergindo do sonho agora. E começava a tremer. Cada parte de mim queria se enrolar no calor do outro corpo que me segurava.
Como se eu fosse uma criança pequena carregada pelo pai.
Só que ele não era meu pai. Era pai de Ahmed, Jin, Naguib, Kadir e Rahim, e era um assassino.
Estava vagamente ciente de que nos encontrávamos no harém. Senti o sultão se ajoelhar e então fui depositada em uma cama cheia de almofadas, que me engoliram.
— Pais nos desapontam com frequência, Amani.

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