29 de outubro de 2018

Capítulo 25

Cairn a deixou definhar na caixa por um tempo.
Era mais silencioso aqui, sem o rugido sem fim do rio. Nada além daquela pressão, aumentando e aumentando e aumentando sob sua pele, em sua cabeça.
Ela não podia fugir dela, mesmo no esquecimento.
Mas os ferros ainda se enterravam, restringindo sua pele. A umidade se acumulava sob ela enquanto o tempo passava. Enquanto Maeve indubitavelmente trazia aquele colar mais perto a cada hora.
Ela não conseguia se lembrar da última vez que tinha comido. Ela afundou novamente em um bolsa de escuridão, onde contou a si mesma aquela história – a história – repetidas vezes.
Quem ela era, o que ela era, o que ela destruiria se cedesse à quase falta de ar da caixa, à tensão crescente.
Não importaria, no entanto. Uma vez que o colar lhe rodeasse o pescoço, quanto tempo demoraria até que o príncipe valg lhe tirasse tudo o que Maeve desejava saber? Violasse e mergulhasse em todas as barreiras internas para os seus segredos vitais?
Cairn começaria de novo em breve. Seria miserável. E então os curandeiros voltariam com sua fumaça de cheiro adocicado, como vieram nesses meses, naqueles anos, pelo tempo que tivesse sido.
Mas ela viu além deles, por um instante. Tinha visto um tecido de lona pendurado acima, um chão coberto de tapetes sob os pés calçados de sandálias. Braseiros ardiam por toda parte.
Uma tenda. Ela estava em uma tenda.
Murmúrios soavam do lado de fora – não perto, mas próximos o suficiente para a audição de feérico ouvir. Pessoas falando na língua dela e no idioma antigo, alguém murmurando sobre as condições do acampamento.
Um acampamento do exército, cheio de feéricos. Um local mais seguro, Cairn dissera. Maeve a queria aqui para protegê-la de Morath. Até que Maeve colocasse o frio colar de pedra de Wyrd em volta do seu pescoço.
Mas então o esquecimento chegou. Quando ela acordou, limpa e sem dor, soube que Cairn logo começaria. Sua tela fora limpa, pronta para ele pintar de vermelho. Seu terrível e grandioso final, não para obter informações dela, não para o triunfo de Maeve, mas para seu próprio prazer.
Aelin estava pronta também. Eles não a acorrentaram em um altar desta vez. Mas numa mesa de metal, colocada no centro da grande tenda. Ele os fizera trazer o conforto de casa – ou o que quer que Cairn considerasse sua casa.
Uma cômoda alta ficava ao lado de uma parede de lona. Ela duvidava que contivesse roupas.
Fenrys estava ao lado dele, a cabeça nas patas dianteiras, dormindo. Por uma vez, dormindo. O pesar pesava sobre ele, embotando seu pelo, sombreando seus olhos brilhantes.
Outra mesa havia sido colocada perto daquela em que ela estava deitada. Um pano cobria três objetos. Ao lado do mais próximo, um pedaço de veludo preto também havia sido deixado para fora. Os instrumentos que ele usaria nela. Da maneira como um comerciante exibiria suas melhores joias.
Duas cadeiras estavam de frente uma para a outra do outro lado da segunda mesa, diante do grande braseiro cheio até a borda com troncos crepitantes. A fumaça subia, subia...
Um pequeno buraco fora cortado no teto da tenda. E através dele... Aelin não pôde lutar contra o tremor em sua boca ao ver o céu noturno, ao ver os pontinhos de luz que brilhavam nele.
Estrelas. Apenas duas, mas havia estrelas no céu. O céu em si... não tinha o peso da noite toda, mas sim um preto desbotado, acinzentado.
Alvorecer. Provavelmente uma hora ou mais de distância, se as estrelas permanecessem ali. Talvez ela durasse o suficiente para ver a luz do sol.
Os olhos de Fenrys se abriram e ele ergueu a cabeça, as orelhas se contraindo.
Aelin respirou fundo enquanto Cairn passava através das abas da tenda, oferecendo um vislumbre de fogueiras iluminando a escuridão além. Nada mais.
— Aproveitou o seu descanso?
Aelin não disse nada.
Cairn passou a mão pela borda da mesa de metal.
— Eu tenho debatido o que fazer, você sabe. Como realmente saborear isso, tornar especial para nós dois antes que o nosso tempo acabe.
O rosnado de Fenrys retumbou pela tenda. Cairn apenas puxou o pano da mesa menor.
Pratos de metal baixos com três pernas, cheios com lenha apagada. Aelin endureceu quando ele puxou um e o colocou entre aos pés da mesa de metal.
Um braseiro menor, com as pernas encurtadas para que a tigela ficasse logo acima do chão.
Ele colocou o segundo braseiro abaixo do centro da mesa. O terceiro sob a cabeça.
— Nós brincamos com suas mãos antes — disse Cairn, endireitando-se.
Aelin começou a tremer, começou a puxar as correntes que prendiam seus braços acima da cabeça. O sorriso dele cresceu.
— Vamos ver como todo o seu corpo reage à chama sem o seu pequeno dom especial. Talvez você queime como o resto de nós.
Aelin puxou inutilmente, seus pés deslizando contra o metal ainda frio. Não assim...
Cairn enfiou a mão no bolso e retirou uma pederneira. Isso não era apenas uma quebra de seu corpo. Mas uma quebra dela – do fogo que ela veio amar. Para destruir a parte dela que cantava.
Ele derreteria sua pele e ossos até que ela temesse a chama, até que ela a odiasse, como odiava os curandeiros que tinham vindo de novo e de novo para consertar seu corpo, para esconder o que era real do que tinha sido um sonho.
O rosnado de Fenrys continuou sem parar.
Cairn disse suavemente;
— Você pode gritar o quanto quiser, se isso lhe agradar.
A mesa ficaria vermelha, e o cheiro de carne queimada encheria seu nariz, e ela não seria capaz de impedir isso, impedir a ele... ela soluçaria em agonia quando as queimaduras fossem tão fundo, através da pele e dentro do osso...
A pressão em seu corpo, sua cabeça, diminuiu. Tornou-se secundária quando Cairn puxou uma bolsa enrolada do outro bolso. Ele colocou sobre a faixa de veludo preto, e ela podia distinguir os traços das ferramentas finas ali dentro.
— Para quando o aquecimento da mesa ficar entediante — disse ele, dando um tapinha no kit de ferramentas. — Eu quero ver o quão longe as queimaduras se aprofundarão em sua pele.
Bile subiu pela sua garganta enquanto ele pesava o sílex em suas mãos e se aproximava.
Ela começou a se desfiar então, quem ela era estava se derretendo enquanto seu próprio corpo logo derreteria quando esta mesa esquentasse.
A mão que ela recebeu. Era a mão que ela havia recebido e ela suportaria. Mesmo quando duas palavras tomaram forma em sua língua.
Por favor. Ela tentou engoli-las. Tentou mantê-las trancadas enquanto Cairn se agachava ao lado da mesa, com as pedras prontas.
Você não cede.
Você não cede.
Você não cede.
— Espere. — A palavra era um grunhido.
Cairn fez uma pausa. Levantou-se de seu agachar.
— Espere?
Aelin tremeu, sua respiração irregular.
— Espere.
Cairn cruzou os braços.
— Você tem algo que gostaria de dizer, finalmente?
Ele deixaria que ela prometesse qualquer coisa para ele, para Maeve. E então ainda acenderia aqueles fogos. Maeve não ouviria falar de sua rendição até depois de dias.
Aelin se obrigou a encará-lo, os dedos cobertos pelas manoplas pressionando a chapa de ferro abaixo dela.
Uma última chance. Ela olhou para as estrelas no céu. Era um presente tão grande quanto o que recebera, maior do que as joias, vestidos e a arte que uma vez cobiçara e acumulara em Forte da Fenda. O último presente que ela receberia, se jogasse com a mão que recebera. Se jogasse certo.
Para acabar com isso, acabar com ela. Antes que Maeve pudesse colocar o colar de Wyrd em volta do seu pescoço.


O amanhecer se aproximava, as estrelas sumindo uma a uma.
Rowan se esgueirou pela entrada mais ao sul do acampamento, seu poder vibrando.
A tenda de Cairn ficava no centro do acampamento. Dois quilômetros e meio estavam entre Rowan e sua presa.
Quando os guardas começassem a mudança de turno, ele arrancaria o ar de seus pulmões. Arrancaria o ar dos pulmões de todos os soldados em seu caminho. Quantos ele conheceria? Quantos teria treinado? Uma pequena parte dele rezava para que o número fosse pequeno. Que se eles o conhecessem, que fossem sábios e se afastassem. Ele não tinha intenção de parar, no entanto.
Rowan libertou o machado em sua lateral, uma longa adaga já cintilando na outra mão.
A calmaria da matança se instalara sobre ele horas atrás. Dias atrás. Meses antes.
Apenas mais alguns minutos.
Os seis guardas na entrada do acampamento se mexeram em seus turnos. As sentinelas nas árvores atrás dele, inconscientes de sua presença naquela noite, localizariam a ação no momento em que seus companheiros sentinelas caíssem. E certamente o localizariam no momento em que ele partisse das árvores, atravessando a estreita faixa de grama entre a floresta e o acampamento.
Ele tinha debatido a ideia de voar, mas as patrulhas aéreas tinham circulado a noite toda, e se ele as enfrentasse, gastaria mais energia do que precisava, enquanto também lutaria contra as flechas e a magia que atirariam por baixo... Ele desperdiçaria reservas vitais de sua energia. Então, a pé, seria uma corrida dura e brutal até o centro do acampamento. E depois sair, fosse com Aelin ou Cairn.
Ainda vivo. Ele tinha que manter Cairn vivo por enquanto. Tempo suficiente para fugir deste acampamento e alcançar a um ponto onde pudessam cortar todas as respostas dele.
, uma voz calma incitou. Vá agora.
A irmã de Essar havia aconselhado a esperar até o amanhecer. Quando a patrulha fosse mais fraca. Quando ela se certificaria de que certos guardas não chegassem a tempo.
Vá agora. Aquela voz, quente e insistente, o puxava. Empurrava-o para o acampamento. Rowan mostrou os dentes, sua respiração tornando-se áspera.
Lorcan e Gavriel estariam esperando o sinal, um clarão de sua magia, quando ele chegasse longe o suficiente no acampamento.
Agora, príncipe.
Ele conhecia aquela voz, sentiu seu calor. E se a própria Senhora da Luz sussurrava ao ouvido dele...
Rowan não se deu tempo para pensar, para enfurecer-se com a deusa que o instigava a agir, mas sacrificaria de bom grado sua parceira para o cadeado.
Então Rowan se fortaleceu, colocando gelo em suas veias. Calmo. Preciso. Mortal. Cada balanço de suas lâminas, cada explosão de seu poder, tinha que contar.
Rowan lançou sua magia para a entrada do acampamento. Os guardas agarraram suas gargantas, frágeis escudos tremulando ao redor deles. Rowan quebrou-os com meio pensamento, sua magia arrancando o ar de seus pulmões, seu sangue.
Eles caíram um segundo depois. Sentinelas gritavam das árvores, ordens de “Soem o alarme!” ecoando. Mas Rowan já estava correndo. E as sentinelas nas árvores, seus gritos demorando-se no vento enquanto ofegavam, já estavam mortas.


O céu lentamente sangrou em direção ao amanhecer.
De pé na borda da floresta que beirava o lado leste do acampamento, uns bons três quilômetros de colinas ondulantes e gramadas entre ele e a borda do exército, Lorcan monitorava as tropas em movimento.
Gavriel já havia se transformado, e o leão da montanha agora andava perto da linha das árvores, esperando pelo sinal.
Foi um esforço não espiar atrás dele, embora Lorcan não pudesse vê-la. Eles haviam deixado Elide a alguns quilômetros da floresta, escondida em um bosque de árvores margeando um vale. Se tudo corresse mal, ela fugiria mais para dentro dos bosques montanhosos, para as antigas montanhas. Onde predadores muito mais mortais e espertos que feéricos ainda rondavam.
Ela não lhe ofereceu uma palavra de despedida, embora tenha desejado sorte a todos. Lorcan não conseguira encontrar as palavras certas de qualquer maneira, então partiu sem sequer olhar para trás.
Mas ele olhou para trás agora. Orou que, se eles não voltassem, ela não viesse por eles.
Gavriel parou de andar, orelhas se contorcendo em direção ao acampamento.
Lorcan ficou rígido. Uma faísca de seu poder despertou e cintilou. A morte acenava por perto.
— É cedo demais — disse Lorcan, procurando qualquer indício do sinal de Whitethorn.
Nada.
As orelhas de Gavriel estavam apoiadas na cabeça. E ainda assim, aqueles tremores de morte chegavam.

Um comentário:

  1. O momento pelo qual eu me contorcia para que acontecesse logo. Finalmente. Por favor, que tudo dê certo... Caraca, acho que um livro nunca me fez pedir tantos, por favor, antes.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!