5 de outubro de 2018

Capítulo 25

A ALVORADA ESTAVA MAIS PRÓXIMA do que o crepúsculo quando retornei ao harém. Eu odiava o silêncio. Tornava meus medos mais audíveis.
No acampamento rebelde sempre tinha algum barulho, mesmo em plena madrugada. O tilintar das armas do pessoal montando guarda. As conversas sussurradas no meio da noite. O farfalhar de papéis na tenda de Ahmed, ainda preocupado bem depois de todos já termos relaxado. No palácio, qualquer ruído noturno era abafado pelo som suave de água corrente ou pelo ruído de pássaros.
Meus dedos ainda estavam escorregadios e grudentos por causa da gordura da pele do pato e da laranja caramelizada. Limpei as mãos na bainha do kurti enquanto entrava nos meus aposentos e comecei a tirar as roupas.
— Isso são horas, mocinha?
Dei um pulo. Larguei a bainha da camisa e levei a mão à cintura tentando agarrar uma arma que não estava lá. Exaustão e confusão borraram minha visão por um instante. Tinha alguém de khalat sentado na minha cama. Um khalat que reconheci…
Porque pertencia a Shazad, percebi depois de um momento. Só que aquela pessoa era mais alta que Shazad e tinha ombros mais largos, que puxavam o tecido a ponto de esgarçar as costuras. O rosto estava oculto por um sheema, uma mecha loira escapando e caindo desleixadamente sobre os olhos de um azul pálido.
Sam.
— O que está fazendo aqui? — sussurrei, olhando em volta nervosa enquanto me aproximava dele. — Alguém pode te ver.
— Ah, muitas pessoas viram. — Sam também baixou a voz. Ele soltou o sheema do rosto. Estava preso corretamente daquela vez. Imaginei que o modo desleixado e infantil como o amarrava também havia incomodado Shazad. — Mas quem presta atenção em outra mulher aqui dentro? — Ele estava certo. Mulheres apareciam e desapareciam no harém sem muito alarde. — Foi ideia de Shazad. Ela achou que não seria uma boa você ser pega com um homem no quarto. Mas acho que este khalat não veste muito bem no meu corpo. — Ele o apertou na cintura, como se estivesse tentando ajustá-lo.
— Não se preocupe, ninguém veste um khalat tão bem como Shazad — eu disse. Mas tinha alguma coisa me incomodando. — Jin não voltou ainda. — Não era uma pergunta nem um teste. A verdade estava na ponta da língua antes mesmo de dizê-la. Se estivesse de volta, Sam não estaria ali sozinho.
Sam relaxou, entrelaçando as mãos atrás da cabeça.
— É o irmão perdido do príncipe rebelde do qual falam o tempo todo? Imagino que seja o cara que você queria que estivesse te esperando aqui. — Ele piscou para mim.
Tentei mudar de assunto.
— O disfarce de Jin não seria tão convincente quanto o seu. Nem de perto — eu disse. — Está usando maquiagem?
— Ah, sim, só um pouco. Shazad que passou. — Ele estufou um pouco o peito.
— Ela deve gostar de você. Só costuma fazer isso comigo.
— Shazad ficou preocupada quando soube que você não tinha aparecido para me encontrar no Muro das Lágrimas hoje. — Já tinha passado muito da hora do nosso encontro quando consegui ir embora. — Estava particularmente preocupada que você pudesse, nas palavras dela, “ter feito algo típico da Amani” e tivesse sido pega. Ela fez o acampamento inteiro se preparar para partir se eu não te encontrasse até a alvorada.
Em algum ponto no meio do jantar com o sultão eu deixara de ter medo de que descobrisse quem eu era. As palavras de Sam eram um lembrete mordaz de que eu não estava arriscando apenas minha vida. Já tínhamos sido descobertos uma vez.
— Fiquei esperando por tanto tempo que comecei a achar que ela estava certa e que eu teria de assumir o papel do Bandido de Olhos Azuis em definitivo. Depois que descobri o que “algo típico da Amani” significa, não sei se estou à altura. Você realmente se jogou sob os cascos de um buraqi? Eu perderia uma costela fazendo isso.
Revirei os olhos, deixando o tom jocoso de sua voz dissipar parte da culpa.
— Agora sim estou motivada para continuar viva… — Não podia dizer a ele que Shazad não tinha motivos para se preocupar. Eu realmente havia quase sido atropelada por um buraqi duas vezes. Sentara frente a frente com nosso inimigo e conversara sobre Ahmed durante o jantar daquela noite. — Pode contar a Shazad que estou viva. E que estou livre para andar pelo palácio agora. Comece com isso. — Me agachei perto dele. — Antes de dizer a ela que faltei ao nosso encontro porque estava jantando com o sultão.
Sam gargalhou tão alto que fiquei preocupada que pudesse acordar alguém. O harém tinha paredes finas.
— E o que uma rebelde tem para conversar com o sultão? Minha mãe sempre dizia que não se deve discutir política à mesa. Vocês falaram sobre o tempo? Até onde sei, vocês só tem um tipo de clima aqui.
Senti o gosto de laranja nos lábios quando passei a língua neles. Refleti sobre o que o sultão tinha dito, sobre estar tentando parar uma guerra. Uma guerra que Ahmed ajudava a instigar. Talvez passar aquela informação adiante ajudasse a rebelião, mas fosse ruim para Miraji.
— Saramotai está na mira do sultão. — Enfiei a mão na camisa e puxei o mapa da rota de suprimentos. O desenho da armadura de Noorsham estava enrolado em torno do meu braço. — Quinhentos homens vão partir de Izman em três dias, marchando em direção à cidade e passando por Iliaz. — Sam ficou calado enquanto eu puxava informações confidenciais de dentro das roupas. O que era louvável, na verdade. — É um agrupamento grande demais para ser contido. Izz ou Maz podem chegar lá facilmente antes das tropas do sultão com um aviso e evacuar todo mundo.
— Para onde? — Sam perguntou.
— Não sei. — Finalmente puxei o mapa de Izman da cintura e me recostei, estendendo as pernas doloridas na cama de travesseiros, enroscando-as na bainha do khalat emprestado dele. — Mas se não forem tirar a população de lá, o jeito vai ser alguém convencer Ahmed a deixar Delila tentar fazer uma cidade inteira desaparecer por tempo suficiente para confundir as tropas do sultão. Fale com Shazad. Ela vai saber o que fazer.
— Parece que você já sabe.
Dei de ombros. Tinha passado os seis meses anteriores ouvindo Shazad e Ahmed discutindo estratégia. Tinha aprendido algumas coisas.
— Tem mais. — Descrevi a movimentação do Exército para Sam, me esforçando para lembrar todos os detalhes da reunião do conselho de guerra.
Havia outros soldados viajando para o sul no território reivindicado por Ahmed. Percebendo uma vulnerabilidade. Mas era uma distração. Saramotai era a única cidade que retomariam por enquanto.
— Quando as tropas começarem a deixar a cidade, haverá uma oportunidade — eu disse. — Shazad falou que a rebelião tinha pouca coisa para fazer; bem, essa é a hora de mudar isso. Aqui estão as rotas de suprimentos para o Exército. Não sei o que são essas marcações — apontei para os pontos vermelhos —, mas merece uma investigação. — Entreguei a ele uma pilha de papéis e contei tudo o que conseguia lembrar do conselho de guerra, cada informação um tijolo para a construção de uma paz precária em Miraji, que poderíamos desmontar e usar como arma na rebelião.
Enquanto isso, tentei afastar a sensação de que estava traindo meu país a cada palavra que dizia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!