22 de outubro de 2018

Capítulo 24

KEVIN,
Oi, filho. Sei que não sou muito de escrever cartas, mas não tenho certeza de que você deixou comigo e com a sua mãe o telefone certo aí do alojamento da equipe. Toda vez que ligo o telefone só toca, ninguém atende, e isso acontece a qualquer hora do dia ou da noite. Ou você passou o número errado pra gente, ou o telefone está com algum problema, ou então está todo mundo trabalhando tanto que não tem nem como atender as ligações. Não me agradaria a ideia de dividir o telefone com uma equipe de trinta pessoas. Será que você não arranja um celular? Quem sabe assim a sua família consiga falar com você de vez em quando?
Espero que não esteja fazendo nada de errado por aí. A Rosie de fato se arriscou muito pra conseguir esse trabalho pra você. Não estrague tudo como fez com os outros. Essa é a oportunidade de ter um bom começo para a sua vida. Seu velho aqui está com 60 anos agora; você sabe muito bem que não pode contar comigo pra sempre, pois não vou estar por perto eternamente.
Que pena que não tenha conseguido vir para a festa que fizemos pra comemorar a minha aposentadoria. A empresa convidou a família inteira. Eles nos receberam muito bem, de verdade — pra ser sincero, têm me tratado muito bem há mais de 35 anos. Stephanie, Pierre e Jean-Louis vieram da França. Rosie, Greg e a Katie compareceram também. Foi uma noite bacana. Não estou pegando no pé, filho, só queria que você estivesse lá também, só isso. Foi uma noite muito emocionante. Se tivesse vindo, teria visto o seu velho aqui chorar.
É engraçado como a vida passa. Passei quarenta anos trabalhando pra eles e me lembro do primeiro dia como se fosse ontem. Eu tinha acabado de me formar e estava muito ansioso para agradar. Queria começar a ganhar dinheiro logo pra pedir a sua mãe em casamento e poder comprar uma casa para morarmos. Na minha primeira semana de trabalho, fizemos uma festa no escritório para um dos caras mais velhos que estava se aposentando. Nem dei muita bola pra ele. As pessoas fizeram discursos, deram presentes a ele, conversaram sobre os velhos tempos. Mas a minha preocupação naquele momento era só o fato de me fazerem ficar no trabalho até tarde sem me pagarem por isso, quando tudo o que eu queria era sair dali pra pedir a sua mãe em casamento. O cara que estava se aposentando trabalhou a vida inteira ali, estava com os olhos cheios de lágrimas, contrariado por precisar sair, e o discurso dele demorou uma eternidade. Achei que ele nunca calaria a boca pra eu poder ir embora. Estava com o anel de noivado no bolso. Mantive a mão no bolso da calça o tempo todo, para assegurar que a caixinha de veludo continuava lá. Não via a hora de aquele cara parar de falar.
Ele se chamava Billy Rogers.
Ele quis me chamar no canto pra explicar algumas coisas sobre a empresa antes de sair, já que sabia que eu era um funcionário novo. Não ouvi uma só palavra do que ele disse. Ele falou, falou e falou, como se não tivesse a menor intenção de sair daquele maldito escritório.
Eu o apressei. Até então, a empresa não era importante pra mim.
Toda semana, ele continuou indo ao escritório nos visitar. Circulava pelas nossas mesas, aborrecendo os caras novos e alguns dos mais velhos também, distribuindo conselhos e verificando as coisas que já não eram mais da conta dele. Só queríamos fazer o nosso trabalho. Ele vivia e respirava aquele lugar. Todos nós dissemos a ele que arranjasse um hobby para se manter ocupado. Pensamos que o estávamos ajudando com isso. Sugerimos aquilo do fundo dos nossos corações — e também porque ele estava mesmo começando a irritar alguns colegas. Ele morreu algumas semanas depois. Teve um infarto no campo de golfe. Seguiu o nosso conselho e estava fazendo a sua primeira aula.
Não pensei em Billy Rogers por quase trinta anos. Tinha me esquecido completamente dele, para ser sincero. Mas, desde aquela noite, não consigo tirar Billy Rogers do pensamento. Ao olhar ao meu redor, com lágrimas nos olhos, ouvindo discursos, aceitando os presentes, percebendo os caras novos olhando de relance para os seus relógios e pensando quando poderiam escapulir e voltar pra casa, para as suas namoradas ou esposas com quem se casaram há pouco tempo, ou para os seus filhos ou quem quer que fosse... Não consegui deixar de pensar em todos aqueles caras que atravessaram as portas daquele escritório. Pensei nos caras que começaram comigo, no mesmo dia: Colin Quinn e Tom McGuire, que nunca conseguiram chegar à aposentadoria como eu. Suponho que isso seja a vida. As pessoas vêm e vão.
Então, não preciso mais levantar cedo todas as manhãs. Recuperei umas boas noites de sono de que jamais imaginei que precisava. O jardim está perfeito, e tudo que havia de quebrado em casa agora está consertado. Esta semana já joguei golfe três vezes, visitei a Rosie duas, levei a Katie e o Toby para passear e, mesmo assim, ainda sinto vontade de pular dentro do carro, correr para o escritório e ensinar àqueles novatos alguma coisa sobre negócios. Mas eles não vão nem ligar; querem e precisam aprender por si mesmos.
Então pensei em me unir à mulherada da família Dunne que escreve. Parece que todas elas fazem isso. Acho que é pra não gastar muito com o telefone. Conte-me como andam as coisas com você por aí, filho.
Ficou sabendo sobre o emprego da Rosie?
Papai

De: Kevin
Para: Stephanie
Assunto: Papai
Como vão as coisas? Acabei de receber uma carta do papai. O fato de ele escrever por si já é muito estranho, mas o que escreveu é ainda mais bizarro. Está tudo bem com ele? Ele falou sobre um tal de Billy Rogers que morreu já faz trinta e cinco anos. Melhor verificar se ele não está surtando. Enfim, foi bom receber notícias dele, mas o papai parece um homem bem diferente. Não que isso seja necessariamente ruim. Sinto muito por não ter ido à festa de comemoração da aposentadoria dele. Deveria ter feito um esforço maior pra conseguir comparecer.
Diga pro Pierre e pro Jean-Louis que perguntei por eles. E, pro Pierre, diga também que na próxima vez em que nos virmos vou superar as mãos hábeis dele na cozinha! Papai comentou com você alguma coisa sobre o trabalho da Rosie? O que foi que ela fez agora?

De: Stephanie
Para: Mamãe
Assunto: Kevin e papai
Alguma coisa deve estar pegando por aí na Irlanda, porque acabo de receber um e-mail do seu filho, meu irmãozinho Kevin — sim, o Kevin, o cara que nunca entra em contato com a família a não ser para pedir dinheiro emprestado. Ele me escreveu pra dizer que o papai tinha mandado uma carta pra ele e que por isso estava preocupado! Você sabia que o papai seria capaz de lamber um selo que fosse?
Kevin disse que o papai mencionou o Billy Rogers de novo. Ele também falou comigo sobre esse Billy Rogers. O papai está bem? Deduzo que esteja num estado contemplativo por causa dessa nova fase de vida em que se encontra. Agora, pelo menos ele tem tempo pra pensar. Vocês dois trabalharam demais a vida inteira. Agora Kevin (seu bebezinho) foi embora, Rosie e Katie também, assim como eu, e afinal a casa é toda de vocês. Acho que consigo entender o quanto é difícil pro papai aceitar tudo isso. Vocês dois estavam acostumados com a casa cheia de crianças gritando e adolescentes brigando. Quando enfim crescemos, veio outro bebê chorando e vocês o acolheram e ajudaram a Rosie. Sei que financeiramente foi muito difícil pra vocês também. Mas agora chegou a hora de cuidar de si mesmos.
Kevin comentou alguma coisa em relação ao emprego da Rosie; não quero ligar pra ela antes de saber de você. Ela estava muito preocupada com a possibilidade de ser demitida.
Mande notícias pra mim.

De: Mamãe
Para: Stephanie
Assunto: Re: Kevin e papai
Você tem toda a razão. Acho que o seu pai tem muito em que pensar e tempo suficiente durante o dia pra fazer isso agora. Adoro tê-lo aqui em casa! Não fica correndo o tempo todo nem pensando em nenhum problema do trabalho que precisa ser resolvido enquanto tento conversar com ele. É como se agora ele fosse todinho meu — de corpo e alma. Também me senti assim quando deixei o trabalho, mas acho que foi um pouco diferente comigo. Eu já tinha reduzido a minha carga horária para ajudar a Rosie quando a Katie nasceu. Então não me pareceu uma mudança tão drástica assim quando deixei o trabalho de vez. Mas o seu pai está tentando se reencontrar.
Fico surpresa em ver que você não está sabendo do emprego da Rosie. Achei que você seria a primeira a saber (tirando o Alex, claro), mas talvez ela não se sentisse preparada ainda pra contar. Às vezes aquela menina me deixa muito preocupada. Sinceramente, ela passou a semana inteira me dizendo que seria demitida, e aí por fim ela me liga pra dizer que teve uma reunião com os chefes e que foi promovida!
Ah, Stephanie, estamos tão felizes! Fico surpresa por ela não ter te contado a novidade ainda, mas faz poucos dias que aconteceu. De qualquer modo, vou deixar que ela mesma te conte, senão vou ser tachada de “estraga-prazer”. Melhor eu ir agora, seu pai está me chamando. Vamos descer lá pro jardim. Se ele plantar mais alguma flor naquele lugar, vamos ter de solicitar licença à prefeitura pra construir uma selva!
Cuide-se, querida, e mande muitos beijos e abraços do vovô e da vovó para o meu bebezinho Jean-Louis!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!