5 de outubro de 2018

Capítulo 24

O PATO QUE EU TINHA CAÇADO foi servido com laranjas e romãs caramelizadas, em um prato da cor da pele de Hala. Minha flecha ainda atravessava seu pescoço. Me perguntei se aquilo era parte da lição. Quando uma bala desaparecia dentro de um corpo, você podia quase esquecer que ela estava lá. Uma flecha não era tão sutil.
A reunião do conselho avançou muito além do crepúsculo. Os intérpretes trabalharam freneticamente, traduzindo gallan, albish, xichan e gamanix. Minha cabeça estava transbordando, visto que eu repetia tudo o que tinha ouvido naquela sala como um mantra até decorar. Eu me esforçaria ao máximo para lembrar cada palavra até que pudesse passar a informação para Shazad. Um detalhe errado poderia custar milhares de vidas. A cada repetição, tentava filtrar as partes relevantes, mantendo apenas o que teria serventia.
O sultão ia enviar tropas para retomar Saramotai. Se as negociações fossem bem-sucedidas, a cidade voltaria para as mãos dos gallans. Era um ponto de acesso direto para o deserto e para Amonpour, que havia se aliado com os albish. Havia um acampamento albish na fronteira. Eles marchariam por três dias. O sultão ia enviar tropas para retomar Saramotai…
— Você parece distraída. — O sultão interrompeu meus pensamentos, sentando-se à minha frente.
— Os seus aposentos têm praticamente o tamanho da cidade em que cresci. — O objetivo daquilo era distraí-lo, antes que pensasse em me mandar revelar o que estava pensando. Estou pensando em tudo o que posso contar para a rebelião sobre seus planos.
A verdade era que os aposentos dele tinham o tamanho esperado para o governante de todo o deserto. Tinha sido levada só até a antessala, mas dali podia ver portas que conduziam a um quarto com tapete vermelho grosso e banhos privativos do outro lado.
As paredes na sala de recepção eram feitas de mosaicos brancos e dourados que refletiam tão bem a luz das lâmpadas a óleo ao redor de nós que parecia que era dia.
Não fosse pelo fato de que um enorme domo de vidro oferecia uma visão clara do céu lá em cima. E de que havia uma varanda lateral com vista para uma queda abrupta pelo penhasco até o mar.
— Vila da Poeira. — O sultão parecia puxar o nome dos recantos distantes de sua mente. — Conte-me sobre ela. — Era uma ordem. Quer aquela fosse sua intenção ou não.
— É uma cidadezinha nos confins do deserto. Eu cresci lá. — Era verdade e eu estava obedecendo sua ordem. Mesmo que não fosse exatamente o que ele queria saber. Uma palavra errada sobre a Vila da Poeira e eu poderia entregar tudo. — Prefiro não falar sobre ela.
Apesar do tamanho do aposento, a mesa em que estávamos era tão pequena que, se quisesse, o sultão poderia ter esticado a mão e cortado minha garganta com a faca longa que manuseava.
Não me agradava ficar perto dele mais tempo que o necessário. Não quando tinha tanto poder sobre mim. Não quando bastava uma palavra em falso para descobrir quem eu era. Além disso, já estava escuro. O que significava que eu estava atrasada para meu encontro com Sam no Muro das Lágrimas. Não havia contado a ele meu plano para poder sair do harém, porque não tinha como saber se daria certo. Eu com certeza não esperava terminar sentada de frente para o sultão. Pela primeira vez eu tinha muito mais para contar a Sam do que ele a mim. Só precisava voltar a tempo de encontrá-lo.
E antes que entregasse a rebelião inteira para o sultão sem querer.
Ele estava me observando. Como se estivesse se perguntando se deveria insistir sobre minha cidade natal ou me libertar do comando. Mas eu estava começando a entender como o sultão funcionava. Se desse a ele alguma verdade, alguma vulnerabilidade, por conta própria, pararia de me pressionar. Então ofereci uma confissão:
— Eu odiava aquele maldito beco sem saída. Por favor, não me obrigue a falar daquele lugar.
Ele me olhou serenamente.
— Você odiava tudo naquela cidade?
Tentei dizer que sim, mas a palavra não saía. Percebi que era por causa de Tamid. Era ele que me impedia. Cocei uma das cicatrizes no meu braço, sentindo o pedacinho de metal se mexer embaixo. Eu deveria odiá-lo agora. Mas não o odiava naquela época.
— Não — eu disse, enfim. — Nem tudo.
Achei que ele insistiria, mas apenas assentiu.
— Pegue um pouco de comida. — Outra ordem que eu não podia desobedecer.
Eu tinha que fazer com que me pedisse para partir. Não aguentaria um jantar inteiro com o sultão arrancando pequenas verdades de mim, uma por uma.
— Por que estou aqui? — Comecei a espetar as laranjas em torno do pato e colocá-las no prato. — Você tem um jardim inteiro de esposas e filhas. Pode escolher qualquer uma delas para comer com você se estiver se sentindo solitário.
Eu sabia que estava entrando em terreno perigoso. Mas se quisesse ser expulsa para a relativa segurança do harém em tempo de encontrar Sam, não podia medir as palavras. O sultão só suspirou resignado, empurrando meu garfo para o lado e começando a retalhar a carne marrom tostada com a faca.
— Talvez eu aprecie sua companhia.
— Não acredito em você. — Observei a faca abrir caminho pela pele, cortando um círculo perfeito em volta do osso.
— Você está certa, talvez apreciar seja uma palavra muito forte. — Ele colocou a carne cuidadosamente no meu prato. — Eu a considero interessante. Agora coma.
Ignorei a carne e espetei outra laranja caramelizada do outro lado da mesa, arrancando-a da pele do pato. Ela atingiu minha língua em uma explosão doce e cítrica como nunca havia sentido. Me inclinei para pegar outra enquanto ainda estava mastigando a primeira. Identifiquei um esboço de sorriso no rosto do sultão.
— O que foi? — perguntei, de boca cheia.
— Nada. — Ele ainda estava brincando com a faca. — Só queria que visse a expressão em seu rosto. Se pudesse ser engarrafada, seria o elixir pelo qual Midhat procurava. — Nas histórias, Midhat era um alquimista de grande talento que perdeu a sanidade tentando criar e engarrafar alegria, já que não conseguia encontrá-la no mundo. — Aliás — o sultão disse, mudando a pegada na faca para cortar a carne do pato que eu tinha matado —, ficaria muito satisfeito se pudesse engarrafar a expressão no rosto de nossos amigos estrangeiros quando você largou isso na mesa do conselho. — Ele destrinchou uma coxa e a colocou no próprio prato. Da última vez que havia comido um pato, Izz o capturara em Iliaz. Ainda dava pra ver as marcas de dente de crocodilo nele, e a gordura caiu e espirrou no fogo, fazendo Jin praguejar quando respingou no seu pulso. Agora eu estava aceitando comida das mesmas mãos que tinham segurado a mãe dele e a tomado à força no passado.
Provavelmente naqueles mesmos aposentos.
— Aclamado sultão. — O serviçal tinha aparecido na porta tão silenciosamente que levei um susto. Ele fazia uma mesura. — O embaixador gallan pediu para vê-lo. Eu informei que estava ocupado, mas está sendo bem insistente.
— O embaixador gallan me convoca no meu próprio palácio. — O sultão pareceu praticamente resignado ao empurrar a mesa para levantar. — Com licença. — Meus olhos o seguiram até a porta.
Fiquei de pé assim que ele desapareceu.
Abri duas portas erradas até encontrar a que levava ao seu escritório.
Na minha frente, em vez de uma parede, havia uma enorme janela de vidro com vista para Izman. Ali de cima, à noite, a cidade parecia um segundo céu, as janelas dançando com luzes como estrelas em um mar escuro. O reino do sultão se estendia abaixo dele.
Era o mais próximo que eu havia chegado da cidade desde o dia em que acordara na sala de operações de Tamid. Resisti ao impulso de pressionar as mãos contra o vidro como uma criança.
As outras três paredes pareciam ter sido projetadas para combinar com a janela à noite. Gesso azul, com estrelas de vidro amarelo incrustadas que deviam refletir a luz do sol durante o dia.
Aquilo me lembrou o pavilhão de Ahmed. Em um lar que não existia mais.
Tentei imaginar meu príncipe ali, quando tomássemos a cidade, mantendo a paz. Mas naquele exato momento ainda estávamos no meio de uma guerra, e eu não deixaria passar a oportunidade de encontrar algo que pudesse nos ajudar a vencê-la.
A sala era dominada por uma enorme mesa coberta de papéis, livros, mapas e canetas. Duvidava que o sultão sentiria falta se parte daquilo desaparecesse. A única dúvida era o que pegar.
O sultão está voltando. Tentei dizer as palavras em voz alta, mas minha boca se recusava. Estava segura por um tempo, e comecei a pegar papéis da mesa com cuidado, segurando-os contra a luz da cidade que entrava pela janela. Tentei dizer a frase várias e várias vezes enquanto trabalhava. Como uma espécie de alarme.
Encontrei uma folha de papel com números e imagens rabiscados que não entendia. Em outro papel, um mapa de Miraji. Ele detalhava a movimentação das tropas, mas já tinham falado daquilo na reunião mais cedo. Meus dedos hesitaram sobre o desenho de uma armadura metálica de aparência familiar. Era a carcaça que tinham colocado em Noorsham.
Havia palavras rabiscadas ao longo das bordas. Usadas para controlá-lo.
Havia diagramas similares embaixo. E outros que pareciam peças de máquinas.
Um pedaço de metal do tamanho de uma moeda repousava sobre um dos papéis. Meu nome estava entalhado nele, junto com uma confusão de palavras na língua primordial.
Então era aquilo que estava sob minha pele. Lutei contra a tentação de arremessá-lo pela janela e observar o vidro estilhaçar.
Guardei um dos desenhos e continuei a explorar. Dei uma olhada em alguns papéis que pareciam interessantes. Um deles descrevia rotas de suprimentos. Shazad seria capaz de decifrá-lo melhor do que eu. Havia outro que parecia um mapa de Izman, com manchas de tinta vermelha espalhadas. Segurei-o contra a luz, tentando entender o que poderiam estar marcando. Mas não conhecia Izman.
— O sultão está voltando. — As palavras romperam o silêncio da sala, espalhando pânico no meu peito. Eu não tinha bolsos. Enfiei os papéis na cintura do salvar enquanto corria para fora do escritório, puxando o kurti para cobrir tudo.
Estava de volta à mesa mexendo na comida quando o sultão reapareceu e sentou à minha frente.
— O que ele queria? — perguntei, quando pegou a faca novamente. Rezei para que não percebesse que eu estava sem fôlego.
— Você. — O sultão disse isso de uma forma tão prática que me surpreendeu. — Sabia que a suposta religião dos gallans acredita que seres primordiais são criaturas malignas? E que seus filhos são monstros?
— Eu sei no que eles acreditam. — Minha boca ficou seca de repente. Estendi a mão para uma jarra de vinho. O movimento súbito fez os papéis enfiados embaixo da roupa farfalharem. Congelei.
— Os gallans querem que eu a entregue. — Se o sultão notou o barulho, disfarçou muito bem. — Para ser levada à justiça, dizem. O que é só um pretexto, claro. Eles se escondem atrás de indignação religiosa porque não querem admitir que você é uma ameaça séria às mentiras descaradas que contam para tirar mais proveito da aliança.
— Um deles me chamou de bárbara. — Senti a bile na língua. Na minha opinião, matar seres primordiais e demdjis era um ato muito mais bárbaro do que matar um pato.
— É bom que eles se lembrem do que os mirajins são capazes — o sultão disse. — Mesmo que seja só contra um pato. — Não sabia dizer de onde viera a onda de orgulho que senti. — Você quer saber por que está aqui, Amani, jantando em meus aposentos? É uma mensagem. Quando estávamos aliados aos gallans, eu a entregaria para ser enforcada. Agora — ele pegou a jarra que eu tinha ficado com medo de alcançar —, pode ser minha convidada.
— Você os odeia. — Eu não aguentava mais ficar calada. — Eles nos odeiam. Estão nos usando. Por que fazer outra aliança? — Eu tinha levantado a voz sem perceber.
O sultão me encarou. Mais uma vez me dei conta de que Ahmed tinha herdado seus olhos escuros. Então ele sorriu, como se estivesse surpreso com a esperteza de uma criança.
— Você parece muito com o pessoal que segue meu filho rebelde.
— Você me perguntou sobre a Vila da Poeira. — Tentei mudar de assunto. — Venho das partes mais profundas e sombrias de seu deserto. Vi com meus próprios olhos o que suas alianças fizeram com as pessoas. As cidades sob controle gallan onde era lei atirar na cabeça de demdjis. Todos na Vila da Poeira trabalhavam fabricando armas para os estrangeiros pelo mínimo necessário para não passar fome. Isso deixou o deserto pobre, com fome e com medo.
— Quantos anos você tem, Amani?
— Dezessete. — Me endireitei um pouco, tentando parecer mais velha. Tomei cuidado com os papéis roubados colando na minha pele enquanto me mexia.
O osso da coxa do pato rachou sob a faca do sultão.
— Nem era nascida quando tomei o trono do meu pai. Mesmo aqueles que presenciaram já esqueceram como eram as coisas naquela época. Estávamos em guerra. E não deveríamos estar, porque era uma guerra entre gallans e albish. Éramos um prêmio em uma disputa envolvendo nossos amigos estrangeiros. Metade dos países do mundo queria dominar nossas terras. Mas, no fim, tudo se resumia a esses dois inimigos antigos e sua guerra eterna de falsas crenças.
A coxa do pato finalmente se libertou em um estalo de cartilagem e tendões sob o corte da faca do sultão. O ruído de ossos quebrando ecoando pelos corredores de mármore polido e pelo domo de vidro me deixava mais ansiosa. O sultão derramou calda de laranja sobre a carne com toda a calma do mundo enquanto falava.
— E foi meu pai quem deixou aquilo acontecer. Ele era tolo e covarde. Achava que poderíamos lutar do mesmo modo que na época do meu avô. Achou que poderíamos ficar entre dois exércitos e de alguma forma não ser aniquilados. Até o general Hamad avisou meu pai que não conseguiria ganhar uma guerra em duas frentes. Bem, ele era capitão Hamad naquela época. Eu o promovi a general depois que seu conselho se provou tão correto.
Ele se referia ao pai de Shazad. O general Hamad não tinha qualquer lealdade ao novo sultão. Shazad sempre soubera que ele desprezava o governante. Mas Hamad tinha apoiado suas ideias vinte anos antes. Houve um tempo em que até um homem do nosso lado pensava que o atual inimigo estava certo.
— A única forma de vencer era formar uma aliança, dar acesso ao que queriam de nós, nos nossos termos. Meu pai não queria fazer isso. Nem meu irmão, que tinha vencido os jogos do sultim. Só porque de alguma forma ele conseguiu ganhar de outros onze em uma arena isso o tornava apto a decidir o destino deste país?
Não mais do que Kadir. Mas não interrompi. Ir embora não parecia tão importante agora. Eu tinha aprendido aquela história na escola. Mas era diferente ouvi-la da boca do próprio sultão. Seria como ouvir Bahadur contar a lenda do primeiro mortal, visto que estivera presente com os outros djinnis no nascimento da mortalidade e o observara enfrentar a morte.
O sultão pareceu notar imediatamente minha atenção. Levantou a cabeça, alternando o olhar entre minhas mãos vazias e meu prato ainda cheio.
— Eu fiz o que precisava ser feito, Amani — o sultão disse calmamente.
Ele tinha escolhido um lado para evitar que fôssemos dilacerados. Em uma noite sangrenta, o então príncipe Oman, um ninguém entre os filhos do sultão, tão novo que nem podia competir pelo título de sultim, conduziu os exércitos gallans para dentro do palácio, matou o pai e os irmãos que sabia que se colocariam no caminho do trono: o sultim e todos os outros que tinham lutado nos jogos. Na manhã seguinte, ocupava o lugar de seu pai e os gallans eram nossos aliados. Ou invasores.
— O que fiz vinte anos atrás foi a única forma de evitar que esse país caísse por completo nas mãos deles. Os gallans já tinham anexado vários países. Eu não podia permitir que fôssemos os próximos. — O sultão cortava a comida com calma enquanto falava. — O mundo é muito mais complicado do que parece quando se tem dezessete anos, Amani.
— E que idade você tinha quando entregou nosso país para os gallans? — Eu sabia que não podia ser muito maior que a minha. A idade de Ahmed, mais ou menos.
O sultão sorriu, passando o pedaço de pato que mastigava de um lado da boca para o outro.
— Eu era jovem o suficiente para gastar os dezenove anos seguintes tentando achar uma forma de expulsá-los. E cheguei bem perto de conseguir, sabia? — Noorsham. Ele tentara usar meu irmão, um demdji, como arma para matar os gallans, pouco se importando com seu próprio povo pego no fogo cruzado. — Um pouco mais de tempo e poderia ter livrado esse país deles para sempre. — O sultão ergueu a taça de vinho e deu um grande gole.
Um pouco mais de tempo. Se não tivéssemos interferido. Se não tivéssemos salvado Fahali. Salvado nosso povo. Salvado meu irmão. Ele achava que poderia ter libertado o país inteiro. Teria sido um sacrifício pelo bem maior.
— Você não está comendo.
Eu não estava com fome, mas espetei um pedaço de carne fria. A laranja também tinha esfriado e virado uma pasta gosmenta em torno dela. O sabor parecia doce demais na minha língua agora. Você está errado. Eu sentia as palavras pegajosas na boca. Não conseguia botá-las para fora. Desejei que Shazad estivesse ali. Ela sabia mais do que eu. Tinha lido sobre história e filosofia e tivera uma educação mais completa com os tutores de seu pai do que eu em uma escola caindo aos pedaços nos confins do deserto. Shazad era melhor defendendo seu ponto de vista do que eu.
Mas nós duas estivemos em Saramotai. Uma jogada por poder disfarçada de justa causa.
— Muito conveniente que salvar o país tenha permitido que se tornasse sultão sem vencer os jogos.
— Essa é uma tradição antiquada. — O sultão devolveu a taça de vinho à mesa, segurando pela haste. — Combate físico entre irmãos e charadas para provar que um homem tem um mínimo de cérebro podem ter sido a melhor forma de escolher um líder quando éramos apenas um agrupamento de tendas no deserto, lutando contra os monstros da Destruidora de Mundos. Mas as guerras são diferentes agora. Inteligência e sabedoria não são a mesma coisa. Tampouco habilidade e conhecimento. Sultões não partem mais para o campo de batalha com uma espada. Há formas melhores de liderar.
— Você realizou os jogos do sultim mesmo assim. — Estendi a mão para arrancar outra laranja do pato, me mexendo com cuidado para o mapa da rota de suprimentos não farfalhar.
— Sim, e veja qual foi o resultado. Um filho rebelde querendo meu trono. — Ele riu de si mesmo, empurrando o prato de ouro para mais perto de mim. Um riso baixo, autodepreciativo, que me lembrava de Jin. — Eu tinha que realizar os jogos para mostrar às pessoas que, embora tivesse conquistado meu trono por… outras maneiras, ainda manteria as tradições do país. Apesar de antiquadas, elas ainda podiam servir a um propósito. — Ele se reclinou na cadeira, me observando comer. — Em alguns países, as pessoas adoram quando a realeza está celebrando casamentos ou o nascimento de novos príncipes e princesas. Se fosse assim com meu povo, eu nunca deixaria de ser adorado. Mas os mirajins não são tão fáceis de entreter. Eles gostam bem mais da minha família quando lutamos até a morte pelo direito de governá-los. Gostam mais de mim no Auranzeb, quando são lembrados que matei doze irmãos com as próprias mãos em uma única noite. — O sultão disse isso de um jeito tão tranquilo que qualquer calor que seu riso pudesse ter trazido à sala se dissipou no mesmo instante. — Tento não lembrá-los que isso aconteceu na mesma noite que os entreguei para um inimigo que odeiam. Mas esse é realmente um país violento, Amani. Você é prova disso. Nosso jantar é prova disso. — Ele indicou a flecha no pescoço do pato. — Deixei uma faca na sua mão e seu primeiro instinto foi cravá-la no meu pescoço.
— Você tentou me esfaquear primeiro — protestei, sem pensar. Ele riu abertamente.
— É um deserto severo. É preciso um homem severo para governá-lo. — Um homem mais severo que Ahmed. O pensamento cruzou minha cabeça de novo. Eu o afastei com o máximo de força que pude. Como o próprio sultão tinha dito, governantes eram diferentes agora. E o que faltava de força em Ahmed ele compensava com bondade. Era um homem melhor do que muitos de nós. Tão bom, aliás, que Shazad e eu não tínhamos nem hesitado em levar Delila para Saramotai. Tínhamos desobedecido nosso governante sem pensar duas vezes. Sem medo das consequências.
Shazad diria que apenas um governante fraco precisava depender do medo para fazer as pessoas obedecerem. Talvez eu não fosse tão versada em filosofia, mas tinha a impressão de que sem obediência um homem não tinha como liderar.
Será que Ahmed realmente conseguiria governar, se não podia nem fazer com que eu, Shazad e sua irmã obedecêssemos aos seus comandos?
— Não há nada que eu não faria por este país, Amani. Ainda assim… — Ele sorriu, indulgente. — Admito que Kadir talvez não fosse minha primeira escolha para me suceder. — Ele brincava com a haste da taça, sua consciência parecendo flutuar para longe.
— Quem você teria escolhido? — Eu não tinha certeza se era uma pergunta sincera ou um desafio para ver se ele realmente conhecia um dos filhos bem o suficiente para escolhê-lo. Mas o sultão pareceu refletir honestamente a respeito.
— Rahim é bem mais forte do que eu achava que seria quando era garoto. — O irmão de Leyla. O príncipe que se portava como militar, que tinha desafiado Kadir na corte e sentado no conselho de guerra com ele. — Teria dado um bom governante, se eu o tivesse mantido mais próximo. E se não se deixasse levar pelas emoções. — A luz que atravessava o domo de vidro refletiu na borda da taça enquanto ele a girava. — Mas, verdade seja dita, se tivesse sido criado no palácio, Ahmed talvez fosse a melhor escolha. — Aquilo me pegou desprevenida.
— Está falando do príncipe rebelde? — eu disse, com cautela, ciente de que estava em terreno perigoso.
— Meu filho realmente acredita que está ajudando o país, eu sei disso. — Ele o chamara de filho. E Ahmed sempre o chamava de pai. Jin não: para ele era sempre “o sultão”. Como se estivesse tentando romper qualquer ligação com o governante. Parecia que Ahmed e o sultão tinham menos interesse nisso. — O problema é que crenças nem sempre correspondem à verdade.
De uma parte quieta da minha mente, onde ficava a maioria das minhas memórias de Jin, uma lembrança veio de repente. Uma noite no deserto. Ele me dizendo que crença era um idioma estrangeiro à lógica. Mas o que mais nos restava?
O sultão largou a haste da taça. Limpou a gordura e a calda de laranja dos dedos antes de puxar um pedaço familiar de papel amarelo do bolso. Estava tão dobrado que parecia gasto. Do outro lado da mesa, vi o sol de Ahmed impresso, de cabeça para baixo. Uma nova alvorada. Um novo deserto.
— Essas ideias são muito bonitas e tudo mais — o sultão disse. — Mas você sentou no conselho hoje, Amani. Acha que meu filho sabe quantas armas podemos prometer aos gallans sem sobrecarregar nossos próprios recursos? Acha que ele conhece os rumores de que a rainha albish, a última em uma longa linhagem de feiticeiras, praticamente não tem mais magia para usar na defesa de seu país? E que o imperador xichan ainda não escolheu um herdeiro, portanto seu país está à beira da guerra civil? — Ele realmente parecia esperar uma resposta de mim.
— Não sei. — Era a verdade. Eu não tinha conhecimento de tudo que Ahmed sabia.
Mas, se tivesse que ser honesta, a resposta seria: Não. Ele não sabe.
— Se o mundo fosse simples — o sultão disse, enquanto alisava o folheto na mesa —, poderíamos viver livres de potências estrangeiras, ser uma nação independente. Mas somos um país com amigos e inimigos em todas as fronteiras. E, ao contrário do meu filho, não estou interessado em alistar o país inteiro para defendê-las. Quantos homens e mulheres sem treinamento você acha que morreram lutando pelas crenças dele?
O rosto de Ranaa veio à minha mente. A pequena demdji de Saramotai. A bala perdida. A luz em suas mãos se extinguindo com o fim de seu poder, e então de sua vida.
O Exército do sultão estava atrás dela. Mas, se não fosse a gente tentando salvá-la, Ranaa estaria ali no meu lugar. Ela poderia estar sentada em almofadas confortáveis, o cabelo limpo e perfumado com lavanda, a boca grudenta das laranjas caramelizadas.
Em vez de ter sido transformada em cinzas em uma pira funerária e espalhada pela areia do deserto.
— Se o trono mudar de mãos, seremos invadidos. Meu filho é um idealista. Eles são ótimos líderes, mas nunca se saem bem como governantes. Então eu vou te dizer no que acredito, Amani. Acredito que se a rebelião algum dia for bem-sucedida ou conseguir ganhar espaço suficiente para lançar dúvida sobre meu governo, seremos despedaçados por potências estrangeiras. Isso destruiria Miraji, assim como meu pai a teria destruído.

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