29 de outubro de 2018

Capítulo 23

Elide nunca tinha visto um lugar como Doranelle.
A Cidade dos Rios, eles chamavam. Ela nunca imaginou que uma cidade podia ser construída no coração onde vários enquanto deles se encontravam e se derramavam em uma bacia poderosa.
Ela não deixou o espanto aparecer em seu rosto enquanto caminhava pelas ruas sinuosas e limpas.
O medo era outro parceiro que ela mantinha à distância. Com o olfato aguçado dos feéricos, eles podiam detectar coisas como emoção. E embora uma boa dose de medo ajudasse em seu disfarce, muito dele significaria sua morte.
No entanto, este lugar parecia um paraíso. Flores rosas e azuis pendiam das janelas; pequenos canais se estendiam entre ruas, transportando pessoas em canoas longas e brilhantes.
Ela nunca vira tantos feéricos, nunca pensou que eles seriam totalmente normais. Bem, o mais normal possível, dado sua graça, orelhas e caninos. Assim como os animais correndo ao seu redor, tantas formas que ela não conseguia acompanhar. Todos perfeitamente felizes em cuidar de suas tarefas diários, comprando de tudo, de pães crocantes a jarros de algum tipo de óleo a faixas vibrantes de tecido.
Ainda dominando tudo, de seu palácio no lado oriental de Doranelle, estava Maeve. E esta cidade, dissera Rowan a Elide, fora construída em pedra para impedir que Brannon ou qualquer um de seus descendentes a queimasse até o chão.
Elide lutou contra o manquejar que aumentava a cada passo que se aproximava da cidade – mais distante da magia de Gavriel. Ela os deixou no sopé da floresta onde acamparam na noite anterior, e Lorcan tentou novamente argumentar com ela. Mas ela vasculhou seus vários pacotes até encontrar o que precisava: frutas que Gavriel colhera no dia anterior, um cinto sobressalente e uma capa verde-escura de Rowan, uma camisa branca amarrotada de Lorcan e um pequeno espelho que ele usava para fazer a barba.
Ela não falou nada quando encontrou as tiras brancas de linho no fundo da bolsa de Lorcan. Esperando por seu próximo ciclo. Ela não foi capaz de encontrar as palavras, de qualquer maneira. Não com o que comprimiria seu peito ao sequer pensar nelas.
Elide manteve os ombros relaxados, embora seu rosto permanecesse apertado enquanto ela se detinha nos limites de uma linda praça que rodeava uma fonte borbulhante. Vendedores e compradores passeavam, conversando ao sol do meio da manhã. Elide fez uma pausa na entrada arqueada da praça, virando as costas para ela e puxando o pequeno espelho do bolso da capa, tomando cuidado para não mostrar as facas escondidas ali também.
Ela abriu a tampa, franzindo a testa para o seu reflexo – parte da expressão não totalmente falsificada. Ela havia esmagado as frutinhas ao amanhecer e cuidadosamente contornado seus olhos com os sucos, tornando-os vermelhos e de aparência miserável. Como se ela estivesse chorando há semanas.
De fato, o rosto que fez uma careta para ela estava bastante infeliz. Mas não era o reflexo que ela queria ver. Mas sim o quadro atrás dela. Examiná-lo por muito tempo poderia levantar muitas questões, mas se ela estivesse apenas olhando para um espelho, não mais do que uma garota vaidosa tentando consertar sua aparência desgastada. Elide alisou alguns fios de cabelo enquanto monitorava a praça atrás dela.
Um centro variado. Duas tabernas ladeavam a praça, a julgar pelos barris de vinho que serviam como mesas na faixada e os copos vazios em cima deles, ainda a serem recolhidos. Entre as duas tavernas, esta parecia atrair mais homens, alguns em roupas de guerreiro. Das três praças que ela visitara, das tavernas que vira, esta era a única com soldados.
Perfeito.
Elide alisou o cabelo de novo, fechou a tampa do espelho e se voltou para a praça, erguendo o queixo. Uma garota tentando reunir alguma dignidade.
Deixe-os ver o que queriam ver, deixe-os olhar para a camisa branca que ela vestia em vez do couro das bruxas, a capa verde segurada no meio por um cinto, e pensar que ela era uma viajante fora de moda. Uma garota longe de seu elemento nesta cidade linda e bem vestida.
Ela se aproximou dos sete feéricos que estavam do lado de fora da taverna, avaliando quem falava mais, ria mais alto, para quem os cinco machos e duas fêmeas frequentemente se viravam. Uma das mulheres não era uma guerreira, estava vestida com calças femininas suaves e uma túnica azul-centáurea que se encaixava em sua figura exuberante como uma luva.
Elide marcou aquele a quem pareciam mais buscar em confirmação e esperança de aprovação. Uma fêmea de ombros largos, o cabelo escuro cortado rente à cabeça. Ela usava proteção nos ombros e nos pulsos – mais finos do que os outros homens usavam. A comandante, então.
Elide se demorou a alguns metros de distância, uma mão erguendo-se para segurar onde sua capa cobria o coração, a outra mexendo no anel de ouro em seu dedo, a inestimável herança – pouco mais do que a lembrança – de um amante. Mordendo o lábio, lançou olhos incertos e hesitantes para os soldados, para a taverna. Fungou um pouco.
A outra fêmea – a que estava nas finas roupas azuis – a notou primeiro. Ela era linda, Elide percebeu. Seu cabelo escuro caía em uma trança grossa e lustrosa nas costas, sua pele marrom-dourada brilhava com uma luz interior. Seus olhos eram suaves com bondade. E preocupação.
Elide aceitou essa preocupação como convite e tropeçou para eles, curvando a cabeça.
— E-eu sinto muito por interromper — ela murmurou, falando mais para a beleza de cabelos escuros.
A gagueira sempre deixava as pessoas desconfortáveis, sempre as tornava tolamente desprevenidas e ansiosas para fugir. Para dizer o que ela precisava saber.
— Há algo errado? — a voz da fêmea era rouca – adorável. O tipo de voz que Elide sempre imaginou que grandes belezas possuíssem, o tipo de voz que fazia os homens caírem um por cima do outro. Pela maneira como alguns dos machos ao redor dele sorriam, Elide não tinha dúvida de que a fêmea também tinha esse efeito sobre eles.
Elide tremeu o lábio, mordeu-o.
— E-eu estava procurando alguém. Ele falou que estaria aqui, mas... — ela olhou para os guerreiros e brincou com o anel em seu dedo novamente. — Eu vi seus uniformes e pensei que v-vocês poderiam conhecê-lo.
A alegria da pequena companhia desaparecera, substituída pela cautela.
E pena – vindo da beldade. Ou pela gagueira ou pelo o que ela tão claramente viu: uma jovem mulher ansiando por um amante que provavelmente não estava lá.
— Qual é o nome dele? — perguntou a mulher mais alta, talvez irmã da outra, a julgar pela mesma pele bronzeada e pelos cabelos escuros.
Elide engoliu em seco o suficiente para fazer sua garganta balançar pateticamente.
— Eu od-d-deio incomodá-los — ela hesitou. — Mas vocês todos são muito s-simpáticos
Um dos machos murmurou algo sobre pegar outra rodada de bebidas, e dois de seus companheiros decidiram se juntar a ele. Os dois machos que permaneceram pareciam inclinados a ir também, mas um olhar penetrante da comandante fez com que ficassem.
— Não é um incômodo — disse a beldade, acenando com a mão bem cuidada.
Ela era tão baixa quanto Elide, embora se movimentasse como uma rainha.
— Você gostaria que trouxéssemos algumas bebidas?
As pessoas eram fáceis de elogiar, fáceis de enganar, independentemente de terem orelhas pontudas ou redondas.
Elide se aproximou.
— Não, obrigada. Eu não gostaria d-de incomodá-los.
As narinas da fêmea se abriram quando Elide parou perto o suficiente para tocá-las. Sem dúvida, cheirando as semanas na estrada. Mas ela educadamente não falou nada, embora seus olhos percorressem o rosto de Elide.
— O nome do seu amigo — insistiu a comandante, a voz grunhida oposta à da irmã.
— Cairn — Elide sussurrou. — O nome dele é Cairn.
Um dos machos praguejou; o outro examinou Elide dos pés à cabeça. Mas as duas fêmeas ficaram imóveis.
— Ele s-serve a rainha — disse Elide, olhos saltando de rosto para rosto, o retrato da esperança. — Vocês o conhecem?
— Nós o conhecemos — disse a comandante, com o rosto sombrio. — Você... você é amante dele?
Elide fez seu rosto ficar vermelho, pensando em todos os momentos mortificantes na estrada: seu ciclo, ter que explicar quando ela precisava se aliviar...
— Eu preciso falar com ele — foi tudo o que Elide disse. Descobrir o paradeiro de Maeve viria depois.
A beldade de cabelos escuros disse em um tom baixo demais:
— Qual o seu nome, criança?
— Finnula — mentiu Elide, dando o nome de sua babá.
— Aqui está um conselho — o segundo macho falou, tomando sua cerveja. — Se você escapou de Cairn, não o procure novamente.
Sua comandante lançou-lhe um olhar.
— Cairn é jurado pelo sangue à nossa rainha.
— Ainda faz dele um idiota — disse o macho.
A fêmea rosnou de maneira tão cruel que o macho sabiamente foi ver suas bebidas.
Elide fez seus ombros se curvarem para dentro.
— Vocês... vocês o conhecem, então?
— Cairn deveria encontrá-lo aqui? — a beldade perguntou em seu lugar.
Elide assentiu.
As duas fêmeas trocaram olhares.
— Não sabemos onde ele está — a comandante falou.
Mentira. Ela viu o olhar entre elas, entre irmãs. A decisão de não contar a ela, fosse para proteger a garota mortal indefesa que acreditavam que ela fosse, ou por alguma lealdade a ele. Ou talvez por todos os feéricos que decidiram encontrar camas em reinos mortais e depois ignorar as consequências meses depois.
Lorcan fora o resultado de tal união e depois descartado à mercê dessas ruas.
O pensamento foi o suficiente para fazê-la trincar os dentes, mas Elide manteve a mandíbula relaxada.
Não fique com raiva, Finnula ensinou-a. Seja esperta.
Ela fez uma nota disso. Não parecer patética demais na próxima taverna. Ou como uma amante abandonada que pudesse estar carregando o filho dele.
Pois ela teria que ir para outra. E se conseguisse uma resposta na seguinte, teria que ir para outra depois dessa para confirmar.
— A... a rainha está em sua residência? — Elide perguntou, aquela voz soando suplicante aos seus próprios ouvidos. — Ele d-disse que viaja com ela agora, mas se ela não est-tá aqui...
— Sua Majestade não está em casa — falou a comandante, com tanta forla que Elide sabia que sua paciência estava se esgotando. Elide não permitiu que seus joelhos se dobrassem, não permitiu que os ombros caíssem com nada além do que consideravam decepção. — Mas onde Cairn está, como falei, nós não sabemos.
Maeve não estava aqui. Eles tinham isso a seu favor, pelo menos. Se era sorte ou devido ao estratagema, ela não se importou. Mas Cairn... ela não saberia nada mais com essas fêmeas. Então Elide inclinou a cabeça.
— O-obrigada.
Ela recuou antes que as fêmeas pudessem dizer mais, e fez um bom show ao esperar na fonte por cinco minutos. Quinze. O relógio na praça bateu a hora, e ela sabia que ainda estavam observando enquanto fazia sua melhor tentativa de caminhar cabisbaixa até a outra entrada da praça.
Ela manteve-se vagando sem direção por alguns quarteirões, até que se abaixou em uma passagem estreita e soltou um suspiro.
Maeve não estava em Doranelle. Quanto tempo isso permaneceria verdadeiro?
Ela tinha que encontrar Cairn – e rápido. Tinha que fazer sua próxima performance valer.
Precisaria ser menos patética, menos carente, menos chorosa. Talvez tivesse acrescentado vermelhidão demais ao redor dos olhos.
Elide pegou o espelho. Passando o mindinho debaixo de um olho, ela esfregou algumas das manchas vermelhas. Não saíram. Umedecendo a ponta do mindinho com a língua, ela correu o dedo pela pálpebra inferior novamente. Saiu ligeiramente.
Ela estava prestes a fazê-lo novamente quando um movimento foi capturado pelo espelho.
Elide se virou, mas tarde demais. A beldade de cabelos escuros da taverna estava atrás dela.


Lorcan nunca sentira o peso das horas com tanta força.
Enquanto ele explorava a fronteira sul daquele exército, observando os soldados em seus turnos, observando as principais vias do acampamento, ele manteve um olho na cidade.
Sua cidade, ou assim fora. Ele nunca imaginou, mesmo durante a infância que passou sobrevivendo em suas sombras, que se tornaria uma fortaleza inimiga. Que Maeve, enquanto o chicoteava e punia por qualquer desafio ou por sua própria diversão, se tornaria um grande inimigo como Erawan. E mandar Elide para as garras de Maeve... foi preciso toda a sua força de vontade para deixá-la partir.
Se Elide fosse capturada, se fosse descoberta, ele não ouviria, não saberia. Ela não tinha magia para empunhar, a não ser pelos olhos aguçados da deusa sob seu ombro e uma habilidade misteriosa de permanecer despercebida, para atuar dentro das expectativas. Não haveria reluzir de poder, nenhum sinal para alertá-lo de que ela estava em perigo.
Mas ele ficou longe. A tinha assistido cruzar aquela ponte mais cedo, a respiração dele apertada em se tórax, e passou inquestionável e despercebida pelos guardas postados em seus limites. Enquanto Maeve não permitia que semifeéricos ou humanos vivessem dentro das fronteiras de Doranelle sem provar seu valor, eles ainda podiam visitar – brevemente.
Então ele foi espionar. Sabia que Whitethorn tinha ordenado que ele vigiasse a borda sul, esta borda, porque era precisamente por onde ela sairia. Se saísse.
Whitethorn e Gavriel haviam dividido os outros campos, o príncipe reclamando o oeste e o norte, o Leão ficando o acampamento oriental acima da bacia da cachoeira.
O sol da tarde afundava em direção ao mar distante quando voltaram para sua pequena base.
— Algo? — a pergunta de Rowan retumbou para eles.
Lorcan balançou a cabeça.
— Não de Elide, não na minha área. As trocas de turnos das sentinelas são rigorosas, mas não impenetráveis. Eles postaram batedores nas árvores nove quilômetros acima. — Ele conhecia alguns deles. Os tinha comandado. Eles eram seu inimigo agora?
Gavriel se aproximou e sentou em uma pedra, igualmente sem fôlego.
— Eles têm patrulhas aéreas no campo leste. E sentinelas na beira da floresta.
Rowan encostou-se a um pinheiro imenso e cruzou os braços.
— Que tipo de pássaros?
— Rapinas, principalmente — disse Gavriel. Soldados altamente treinados, então. Eles sempre foram os mais afiados dos batedores. — Eu não reconheci nenhum da sua Casa.
Todos eles estavam naquela armada, agora em Terrasen, ou Maeve os havia abatido.
Rowan passou a mão pelo queixo.
— O acampamento ocidental é tão bem guardado quanto. Um pouco menos ao norte, mas os lobos nas passagens provavelmente fazem a metade do trabalho para eles.
Eles não se preocuparam em discutir por que aquele exército poderia ter sido reunido. Onde poderia estar indo. Se a derrota de Maeve na costa de Eyllwe podia ser o suficiente para levá-la a uma aliança com Morath – e levar este exército para finalmente esmagar Terrasen.
Lorcan contemplou a encosta arborizada, os ouvidos esforçando-se para ouvir galhos ou folhas quebradas.
Meia hora. Ele esperaria meia hora antes de descer aquela colina.
Ele se forçou a ouvir Whitethorn e Gavriel estabelecerem pontos de entrada e estratégias de saída para cada acampamento, forçou-se a participar desse debate. Forçou-se a discutir também as possíveis entradas e saídas da própria Doranelle, onde poderiam ir na cidade, como poderiam entrar e sair sem trazer a ira daquele exército. Um exército que eles haviam supervisionado e comandado. Nenhum deles mencionou isso, embora Gavriel continuasse olhando para as tatuagens pintadas em suas mãos. Quantas vidas a mais ele precisaria acrescentar antes que terminasse? Seus soldados não abatidos por golpes inimigos, mas por sua própria espada?
O sol avançou mais perto do horizonte. Lorcan começou a andar de um lado para o outro.
Demorado demais. Isso estava demorando demais.
Os outros também ficaram em silêncio. Olhando para baixo da colina. Esperando.
Um ligeiro tremor sacudiu as mãos de Lorcan, e ele as fechou em punhos, apertando com força.
Cinco minutos. Ele iria em cinco minutos, Aelin Galathynius e os planos deles que se danassem.
Aelin havia sido treinada para suportar a tortura. Elide... Ele podia ver aquelas cicatrizes de algemas. Ver seu pé e tornozelo machucados. Ela já havia sofrido muito sofrimento e terror. Ele não podia permitir que ela enfrentasse outro segundo de...
Galhos estalaram sob pés leves e Lorcan se levantou, uma mão indo para sua espada.
Whitethorn puxou o machado ao seu lado, uma faca aparecendo na outra mão, e Gavriel desembainhou a espada.
Mas então um assobio de duas notas soou, e as pernas de Lorcan tremeram tão violentamente que ele se sentou de volta na rocha onde estava empoleirado.
Gavriel assobiou de volta, e Lorcan ficou grato por isso. Ele não tinha certeza se ele tinha ar para isso.
Então ela estava ali, ofegante da escalada, suas bochechas rosadas ao ar fresco da noite.
— O que aconteceu? — Whitethorn perguntou.
Lorcan examinou o rosto dela, sua postura.
Ela estava bem. Estava ilesa. Não havia inimigo atrás dela.
Os olhos de Elide encontraram os dele. Desconfiada e incerta.
— Conheci alguém.


Elide pensara que estava prestes a morrer.
Ou pelo menos acreditara que seria vendida para Maeve quando enfrentou a beldade de cabelos escuros no beco escuro.
Ela disse a si mesma, durante aqueles batimentos cardíacos, que faria o melhor possível para resistir à tortura, para manter em segredo a localização de seus companheiros, mesmo que eles quebrassem seu corpo. Mas a perspectiva do que fariam com ela...
A mulher levantou uma mão delicada.
— Eu só quero conversar. Em particular. — Ela gesticulou mais abaixo no beco, para um batente de porta coberto com um toldo de metal. Para protegê-las de quaisquer olhos – aqueles no chão e acima.
Elide a seguiu, uma mão deslizando para a faca no bolso. A fêmea liderava o caminho, nenhuma arma à vista, seu andar sem pressa.
Mas quando pararam nas sombras sob o toldo, a mulher levantou a mão mais uma vez.
Chama dourada dançou entre seus dedos.
Elide recuou e o fogo desapareceu tão rapidamente quanto aparecera.
— Meu nome é Essar — a mulher falou suavemente. — Eu sou uma amiga de seus amigos, acredito.
Elide não disse nada.
— Cairn é um monstro — Essar falou, dando um passo mais perto. — Fique longe dele.
— Eu preciso encontrá-lo.
— Você fez o papel da amante maltratada bem o suficiente. Deve saber algo sobre ele. O que ele faz.
— Se você sabe onde ele está, por favor, me diga. — Ela não estava acima de implorar.
Essar examinou Elide. Então respondeu:
— Ele esteve nesta cidade até ontem. Depois foi para o acampamento a leste. — Ela apontou com o polegar por cima do ombro. — Ele está lá agora.
— Como você sabe?
— Porque ele não está aterrorizando os donos de todos os bons estabelecimentos desta cidade, fartando-se das moedas que Maeve lhe deu quando fez o juramento de sangue.
Elide piscou. Ela esperava que alguns dos feéricos pudessem se opor a Maeve, especialmente após a batalha em Eyllwe, mas encontrar tal desgosto absoluto...
— E porque minha irmã – a soldado com quem você falou – me contou. — Essar acrescentou. — Ela o viu no acampamento esta manhã, sorrindo como um gato.
— Por que eu deveria acreditar em você?
— Porque você está vestindo a camisa de Lorcan e o manto de Rowan Whitethorn. Se não acredita em mim, informe a eles quem deu a informação e eles acreditarão.
Elide inclinou a cabeça para o lado.
Essar disse suavemente:
— Lorcan e eu estivemos envolvidos por um tempo.
Estavam no meio da guerra e viajaram milhares de quilômetros para encontrar sua rainha, e ainda assim a tensão torceu as entranhas de Elide àquelas palavras de alguma forma encontrou espaço. Amante de Lorcan.
Esta beldade delicada com voz de quarto fora amante de Lorcan.
— Sentirão minha falta se eu ficar fora por muito tempo, mas diga a eles quem sou. Diga a eles que eu te contei. Se é Cairn eles procuram, é onde ele estará. Sua localização precisa, não sei. — Essar recuou um passo. — Não pergunte de Cairn em outras tavernas. Ele não é bem visto, mesmo entre os soldados. E aqueles que o seguem... Você não deseja atrair o interesse deles.
Essar se virou, mas Elide deixou escapar:
— Para onde Maeve foi?
Essar olhou por cima do ombro. Estudou-a. Os olhos da fêmea se arregalaram.
— Ela tem Aelin do Fogo Selvagem — Essar respirou. Elide não disse nada, mas Essar murmurou: — Foi isso... esse foi o poder que sentimos na outra noite. — Essar voltou para Elide. Segurou as mãos dela. — Aonde Maeve foi há alguns dias, eu não sei. Ela não anunciou, não levou ninguém com ela. Costumo servi-la, sou solicitada a... Não importa. O que importa é que Maeve não está aqui. Mas não sei quando voltará.
Alívio novamente ameaçou derrubar Elide no chão. Os deuses, ao que parece, ainda não os haviam abandonado.
Mas se Maeve tivesse levado Aelin ao posto avançado onde haviam mentido que o príncipe valg estivera contido...
Elide agarrou as mãos de Essar, encontrando-as quentes e secas.
— Sua irmã sabe onde Cairn mora no acampamento?
Durante longos minutos, então uma hora, elas conversaram. Essar saiu e voltou com Dresenda, sua irmã. E naquele beco, elas haviam tramado.
Elide terminou de contar a Rowan, Lorcan e Gavriel o que descobriu.
Eles ficaram sentados em silêncio atordoado por um longo minuto.
— Pouco antes do amanhecer — repetiu Elide. — Dresenda falou que a patrulha no acampamento oriental é mais fraca ao amanhecer. Que ela encontraria um jeito de os guardas estarem ocupados. É a nossa única janela.
Rowan olhava para as árvores, como se pudesse ver a planta do acampamento, como se estivesse planejando entrar.
— Ela não confirmou se Aelin estava na tenda de Cairn — Gavriel advertiu. — Maeve se foi – Aelin também pode estar com ela.
— É um risco que corremos — disse Rowan. Um risco, talvez, que eles deveriam ter considerado.
Elide olhou para Lorcan, que ficara em silêncio por todo aquele tempo. Mesmo que tivesse sido a amante dele quem os ajudou, talvez guiada pela própria Anneith.
Ou pelo menos tinha sido avisada pelo cheiro nas roupas de Elide.
— Você acha que podemos confiar nela? — Elide perguntou a Lorcan, embora soubesse a resposta.
Os olhos escuros de Lorcan se voltaram para ela.
— Sim, embora eu não veja por que ela se incomodaria.
— Ela é uma boa mulher, é por isso — disse Rowan. À sobrancelha erguida de Elide, ele explicou: — Essar visitou Defesa Nebulosa nesta primavera. Ela conheceu Aelin. — Ele lançou um olhar para Lorcan. — E me pediu que mandasse os cumprimentos dela a você.
Elide não tinha visto nada que chegasse perto do rosto de Essar, mas deuses, ela era linda. E inteligente. E gentil. E Lorcan a deixou ir, de alguma forma.
— Se vamos para o acampamento oriental, precisamos bolar nosso plano agora — Gavriel interrompeu. — Entrar em posição. Fica a quilômetros de distância.
Rowan olhou novamente para aquele acampamento distante.
— Se está pensando em voar para lá agora — resmungou Lorcan — então você merece qualquer que sofrimento que venha da sua estupidez.
Os dentes de Rowan reluziram, mas Lorcan disse:
— Todos entramos. Todos saímos.
Elide assentiu, concordando por uma vez. Lorcan pareceu endurecer de surpresa.
Rowan chegou a essa conclusão também, porque se agachou e fincou a adaga na terra coberta de musgo.
— Esta é a tenda de Cairn — disse ele sobre a adaga, e apontou uma pinha próxima. — Esta é a entrada sul do acampamento.
E assim eles planejaram.


Rowan se separou de seus companheiros uma hora atrás, enviando-os para assumir suas posições.
Nem todos entrariam e sairiam. Rowan invadiria o acampamento oriental, tomando a entrada mais ao sul. Gavriel e Lorcan aguardavam seu sinal perto da entrada leste, escondidos na floresta logo depois das colinas ondulantes e gramadas daquele lado do acampamento. Prontos para libertar o inferno quando ele enviasse uma explosão de sua magia, desviando soldados para o lado deles enquanto Rowan fazia sua corrida para Aelin.
Elide esperaria por eles mais longe naquela floresta. Ou fugiria, se as coisas corressem mal.
Ela protestou, mas até mesmo Gavriel disse a ela que ela era mortal. Não treinada. E o que ela fez hoje... Rowan não tinha palavras para expressar sua gratidão pelo que Elide fizera. A aliada inesperada que ela encontrou.
Ele confiava em Essar. Ela nunca gostou de Maeve, falava que a servia sem nenhuma disposição ou orgulho. Mas nessas últimas horas antes do amanhecer, quando tantas coisas poderiam dar errado...
Maeve não estava aqui. Isso, pelo menos, dera certo.
Rowan permaneceu nas colinas íngremes acima da entrada sul do acampamento. Ele facilmente se manteve escondido das sentinelas nas árvores, seu vento mascarando qualquer vestígio de seu cheiro.
Lá embaixo, espalhado pela planície leste, o acampamento do exército reluzia.
Ela tinha que estar lá. Aelin tinha que estar lá.
Se eles tivessem chegado tão perto, mas descobrissem que tinham sido a causa do que fez Maeve levar Aelin para longe, para o posto avançado...
Rowan afastou o peso em seu peito. O vínculo dentro dele estava escuro e adormecido. Nenhuma indicação de sua proximidade.
Essar não fazia ideia de que Aelin estava sendo mantida aqui até que Elide a informara. Quantos outros não sabiam? Quão bem Maeve a ocultou?
Se Aelin não estivesse naquele acampamento no dia seguinte, eles encontrariam Cairn, pelo menos. E conseguiriam algumas respostas então. Dariam a ele uma amostra do que ele fez com...
Rowan excluiu o pensamento. Ele não se permitiu pensar no que havia sido feito com ela.
Ele faria isso depois, quando visse Cairn. Quando ele pagasse por cada momento de dor.
No alto, as estrelas brilhavam claras e luminosas, e embora Mala tivesse aparecido apenas uma vez, ao amanhecer no sopé da mesma cidade, embora ela pudesse ser pouco mais do que um ser estranho e poderoso de outro mundo, ele ofereceu-lhe uma oração de qualquer forma.
Naquela época, implorara a Mala que protegesse Aelin de Maeve quando entrassem em Doranelle, para lhe dar força e orientação e permiti-la sair viva. Então, implorara a Mala que o deixasse ficar com Aelin, a mulher que ele amava. A deusa tinha sido pouco mais que um raio de sol no amanhecer, e ainda assim ele a sentiu sorrir para ele.
Esta noite, apenas com o fogo frio das estrelas para companhia, ele implorou a ela mais uma vez.
Uma onda de vento enviou sua oração às estrelas, à lua crescente prateando o acampamento, o rio e as montanhas.
Ele havia matado seu caminho pelo mundo; havia ido para a guerra e voltado mais vezes do que se lembrava. E apesar de tudo, apesar da raiva, do desespero e do gelo que envolvia seu coração, ele ainda encontrara Aelin. Cada horizonte que olhava, incapaz e sem vontade de descansar durante aqueles séculos, todas as montanhas e oceanos que viu e se perguntou o que havia além... Tinha sido ela. Tinha sido Aelin, o chamado silencioso do elo de parceria que o guiava, mesmo quando ele não podia senti-lo.
Eles andariam juntos neste caminho escuro de volta para a luz. Ele não deixaria a estrada terminar aqui.

2 comentários:

  1. "Elide se virou, mas tarde demais. A beldade de cabelos escuros da taverna estava atrás dela."

    E isso só me confirmou a ideia de quem eu achava que fosse as duas mulheres, e talvez um dos homens! Haha, tomara que seja pq c for essa a morena q eu tô imaginando vai ajudar a Elide, uhuul.

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  2. "Chama dourada dançou entre seus dedos.
    Elide recuou e o fogo desapareceu tão rapidamente quanto aparecera.
    — Meu nome é Essar — a mulher falou suavemente. — Eu sou uma amiga de seus amigos, acredito."

    AAAAAAAAH! Viu, viu, sabia q era ela. Uhuuuul.
    E mal acredito que enfim eles chegaram a Aelin. Por favor q ela finalmente seja libertada. Porém não sei oq vai ser de Fenrys, ele não vai poder ir com eles graça a ligação com Maeve. Merda!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!