5 de outubro de 2018

Capítulo 23

EU TINHA UM PLANO. Bem, plano talvez fosse exagero. Shazad era melhor com esse tipo de coisa. Estava mais para o início de uma ideia que com sorte não acabaria me matando. O que era mais meu estilo.
Eu poderia pensar nos detalhes depois. Por enquanto, não precisava escapar do palácio. Só tinha que sair do harém. E apenas um homem podia fazer isso acontecer.
— Por que você quer ir embora? — Leyla estava fazendo outro brinquedo para as crianças do harém, embora eu não soubesse exatamente por quê. A maioria das mães não deixava seus filhos brincarem com os que ela já tinha feito. Seria essa sua maneira de manter a sanidade naquele lugar onde não se encaixava? O novo brinquedo parecia uma pessoa minúscula. Estava deitado em suas mãos, esquecido, as pernas e os braços de barro esparramados, enquanto ela me fitava com seus olhos enormes e sérios. — O harém é bem melhor do que os lugares onde você pode ir parar.
Eu gostava de Leyla. Uma parte de mim queria explicar toda a verdade, torná-la uma verdadeira aliada naquele lugar. Mas ela ainda era filha do sultão. E seus olhos grandes e inocentes não bastavam para arriscar a vida de todos que eu amava. A imagem do rosto de Jin pipocou em minha mente. Do mesmo jeito que eu o vira pela última vez, nas sombras da tenda, a incerteza pendendo entre nós quando o beijo terminou. Seu rosto foi rapidamente substituído por outros. Shazad. Ahmed. Delila. Os gêmeos. Até Hala.
— Seria bom ficar longe do seu irmão — eu disse, finalmente. — Kadir, quero dizer — corrigi, lembrando que Leyla me dissera que seu único irmão de verdade era o que nascera da mesma mãe. O príncipe Rahim, o soldado em meio aos intelectuais. Eu mencionara que o vira na corte no dia anterior, mas Leyla mudara de assunto rapidamente. — Sem falar de Ayet e Uzma, que me odeiam. — Ver Shazad assustar Uzma tinha sido gratificante, mas a humilhação ainda ardia quente e feroz. — Se conseguisse convencer seu pai a me deixar perambular pelo palácio, ficaria longe do caminho delas.
Leyla abaixou a cabeça e mordiscou os lábios, ansiosa. Eu a conhecia o bastante para entender que estava refletindo. Também sabia que não era bom interromper alguém mais inteligente do que eu enquanto pensava. Mais uma coisa que tinha aprendido com Shazad.
— Bassam faz treze anos depois de amanhã — ela falou, as palavras jorrando de repente. Não sei o que esperava que Leyla dissesse, mas não era isso. — Ele é um dos filhos do meu pai com Thana. É tradição que o sultão ensine os filhos a usar arco e flecha quando completam treze anos. Meu avô fez isso. E meu bisavô antes dele. Os príncipes não podem comer novamente até que seja algo que eles mesmos mataram. Meu pai fez isso com todos os filhos.
Não todos. O que Ahmed e Jin tinham feito no aniversário de treze anos? Com certeza não caçaram com o pai. Deviam estar em um navio, ou em alguma terra estrangeira. Teriam noção de que era seu aniversário para comemorar?
Imaginei uma cena que nunca aconteceu. Os dois lado a lado com as mãos do pai no ombro, as cordas dos arcos tensionadas, competindo para impressioná-lo.
— Meu pai vai vir ao harém para falar com Bassam. — Leyla voltou seus olhos para o homenzinho de barro. Estava esculpindo seu rosto. — Pode aproveitar para pedir a ele.


O maior jardim do harém tinha duas vezes o tamanho do acampamento rebelde — era uma enorme área verde coroada por um lago azul que começava nas paredes do palácio e passava pelo penhasco com vista para o mar antes de ser interrompido bruscamente por outra parede, a fronteira do palácio. O lago era pontilhado por patos gordos, batendo preguiçosamente as asas com penas pálidas, borrifando água em arcos brilhantes que refletiam o sol.
Da minha posição, sentada perto do portão de ferro que levava ao harém, parecia um desenho em um livro de histórias. O sultão estava de pé no lago com um garoto que imaginei ser Bassam. Seu filho era magricela e esguio, e se esforçava muito para parecer mais velho do que realmente era. Tinha um arco longo junto ao corpo, e os braços tremiam um pouquinho com o esforço, o que ele tentava esconder do pai.
Eu já o vira errar uma dúzia de vezes, as flechas mergulhando inofensivas no lago.
Depois de cada tiro vinha um exercício de paciência, em que Bassam jogava um punhado de pão no lago e então se afastava, esperando os patos voltarem e se acalmarem. Até eles se sentirem seguros o suficiente para que pudesse tentar matá-los de novo. O sultão esticou a mão, repousando-a de um jeito reconfortante em seu ombro.
O garoto pareceu feliz com o toque, e me perguntei se ele não estaria errando de propósito, para ter mais tempo com seu pai.
Imaginei um Jin mais novo de pé ali, no lugar de Bassam. Nunca conheci uma pessoa que precisasse menos dos outros do que ele. Era difícil imaginar como reagiria ao sentir a mão do pai no ombro, e se também teria se endireitado, ansiando por sua aprovação.
Bassam soltou a corda com um gesto suave. Eu sabia com o olho experiente de uma garota da Vila da Poeira que aquele tiro seria diferente dos outros.
A flecha voou certeira, atravessando o pescoço de um dos patos no lago. Ele soltou um grito de dor que fez o resto do bando subir aos céus em pânico. Um serviçal correu até lá e puxou o pato para fora do lago pelo longo pescoço.
O sultão riu, jogando a cabeça para trás enquanto batia no ombro do filho com orgulho. A expressão de pura alegria que tomou conta do rosto do jovem príncipe era inconfundível. Por apenas um instante, no sol do final da tarde, eles poderiam ser qualquer pai e filho compartilhando um momento feliz.
E então o olhar do sultão caiu sobre mim, esperando na beirada do jardim. Ele deu mais um tapinha no ombro do garoto, apertando-o forte e com orgulho antes de mandá-lo embora, carregando o pato morto.
Quando o filho desapareceu, ele gesticulou para que me aproximasse.
— Quase ninguém mais usa arcos, sabia? — eu disse quando estava próxima o bastante para ser ouvida. — Armas de fogo são mais eficientes.
— Mas muito barulhentas para uma caçada — o sultão disse. — Elas assustam as presas. Além disso, é tradição. Meu pai fazia isso com os filhos dele, e meu avô também. — E o sultão tinha matado o pai, e agora um punhado de seus filhos queria seguir essa tradição também. — O que você quer, pequena demdji?
Passei a língua pelos dentes, nervosa. Ele provavelmente perceberia qualquer tentativa de ludibriá-lo. Mas Shazad tinha dito no dia em que Sayyida fora recuperada que precisávamos de alguém infiltrado no palácio. Alguém capaz de percorrê-lo por completo. Eu poderia ser essa pessoa.
— Quero poder deixar o harém.
Talvez eu não pudesse deixar o palácio, mas isso não impedia as informações de sair. Shazad tinha incluído Sam na lista de colaboradores da rebelião. Nas três noites desde que Izz havia arremessado folhetos do céu, encontrei Sam ao cair do sol no Muro das Lágrimas. Shazad encontraria algo melhor para fazer com ele mais tarde, mas por enquanto sua única tarefa era invadir o harém para me ver e garantir que eu não tinha sido descoberta nem entregado a rebelião inteira por causa de uma ordem.
Era uma tarefa terrivelmente entediante. Ou, como Sam dizia, era o dinheiro mais fácil que já ganhara: ser pago para ir olhar para uma garota bonita toda noite. Se eu fosse bem-sucedida, poderia tornar seu trabalho muito mais interessante.
O sultão mexia na corda do arco.
— E você quer partir porque…?
— Porque não aguento mais ficar aqui. — Era verdade. Uma meia verdade. Mas não seria suficiente. — E não aguento mais seu filho.
O sultão se apoiou no arco.
— Qual deles? — perguntou, irônico. E lá estava aquela sensação de novo: o leve arrepio na pele, como se compartilhássemos um segredo, como se ambos estivéssemos em um jogo. Não, era ridículo. Se ele soubesse que eu era aliada de Ahmed, bastaria ordenar que dissesse onde ele estava. O sultão poderia me usar para chegar a Shazad e ao resto da rebelião.
— Kadir — eu disse, afastando a sensação. — Ele olha para mim como se eu fosse uma flor que poderia simplesmente arrancar do jardim.
O sultão dedilhou a corda do arco novamente, como se tocasse um instrumento musical.
— Você sabe que é minha prisioneira, Amani. Se eu quisesse, poderia ordenar que ficasse parada em um canto, completamente imóvel, até que precisasse de você para alguma coisa. Poderia fazer com que criasse raízes aguardando um comando. Ou — o sultão parou, esticando e soltando a corda — até que fosse arrancada. — Senti um arrepio de nojo. — Mas… admiro o fato de ter vindo falar comigo. Diga, pequena demdji: você sabe atirar?
— Sim — respondi, porque por mais que não quisesse que ele soubesse quão boa eu era com uma arma, não podia mentir. Shazad sempre dizia que nosso maior trunfo era o fato de nos subestimarem. Mas o sultão sempre sabia quando eu estava tentando escapar da verdade. — Eu sei atirar.
Ele estendeu a mão, oferecendo o longo arco para mim. Não aceitei de imediato.
— Você quer algo — o sultão disse. — Então precisa fazer por merecer.
— Sei como conquistar as coisas. Não cresci em um palácio.
— Bom — o sultão disse, um pouco do sorriso de Jin no rosto. — Então deve entender isso. Pegue o arco.
Fiz o que ele disse porque não tinha escolha, embora não soubesse se ele tinha planejado me dar uma ordem.
— Se conseguir matar um pato, poderá andar livre pelo palácio… Ou pelo menos tão livre quanto os outros. Se não… Bem, nesse caso espero que sua cama seja confortável, porque ficará deitada ali por muito, muito tempo.
Passei os dedos pela corda retesada do arco. Era uma arma antiga. Algo que só tinha visto nos livros de histórias. Anterior às armas de fogo. Lembrei de uma lenda sobre um arqueiro que acertou o olho de um roc com uma flecha.
Fiquei em posição e tentei puxar a corda para trás.
— Não assim. — As mãos do sultão estavam nos meus ombros. Fiquei tensa no mesmo instante, mas não havia malícia no modo como me tocava. Era como fizera com o jovem príncipe. Como eu tinha visto pais na Vila da Poeira fazerem para ensinar os filhos a atirar. Ninguém jamais fizera aquilo por mim. Eu tinha aprendido sozinha enquanto meu pai bebia. E ele nem era meu pai de verdade. Embora se importasse com a minha vida tanto quanto meu pai verdadeiro. — Corrija a postura — ele ordenou, afastando meus tornozelos gentilmente com o pé. — E aproxime o arco do corpo.
Sentia seu olhar enquanto puxava a corda para trás. Mirei no pato mais próximo como faria com uma arma de fogo. Alinhei a mira com atenção. Se tivesse uma pistola, a bala acertaria o pato em cheio. Tinha ficado boa em matar aves nos últimos meses. Quando você acampa nas montanhas, é útil saber caçar.
Soltei a corda do arco. Ela raspou dolorosamente no meu braço. A flecha voou e errou o pato por meio metro, mergulhando na água. O bando entrou em pânico com o barulho, voando em espirais em uma confusão de penas e gritos.
Praguejei, deixando o arco cair e segurando o braço machucado.
— Deixe-me ver. — Eu não podia desobedecer a ordem. O sultão segurou meu punho. Meu antebraço já estava ficando roxo.
— É melhor usar uma braçadeira — ele disse. — Aqui. — O sultão tirou o sheema do pescoço. Era da cor do açafrão fresco usado nos pratos do harém. Ele o amarrou habilmente em torno do meu braço.
Aquilo me fez lembrar do meu antigo sheema vermelho, e senti uma pontada de saudade. Jin.
O sultão deu uma última puxada no sheema, apertando o nó em torno do meu pulso.
— Quando os patos voltarem, tente de novo. Dessa vez, puxe a corda mais alto, mais perto da sua bochecha. — Eu tinha que obedecer, embora achasse que o sultão tinha esquecido com quem estava falando. Talvez estivesse apenas dando instruções, não ordens.
Aguardamos em silêncio até os patos voltarem e ficarem confortáveis. Pensei que deviam ser muito burros para retornar a um lugar onde poderiam ser facilmente mortos.
Por outro lado, lá estava eu ao lado do sultão, dessa vez por vontade própria.
Errei meu segundo tiro. E o terceiro. Podia sentir o rosto queimando de vergonha, ciente do olhar do sultão me observando errar repetidas vezes. Eu tinha que conseguir. Precisava deixar o harém. Precisava salvar minha família do meu pai.
— Aclamada eminência. — A voz de um serviçal fez com que nos virássemos. Ele estava curvado. — O embaixador gallan o espera. — Minha atenção foi despertada.
Estavam começando as negociações. Para nos devolverem a eles. O motivo por que eu precisava conseguir informações para repassar.
— Espere — falei quando o sultão se virou para ir embora. — Posso fazer isso.
O sultão refletiu por um instante e assentiu com a cabeça.
— Então me encontre quando conseguir.
O sol se arrastava no céu enquanto eu me esforçava. Podia sentir o suor escorrendo pelo pescoço e estava tentada a desamarrar o sheema do braço e colocá-lo em volta da cabeça. Mas o machucado latejante me dizia que não era uma boa ideia. Não havia nada a ser feito em relação às bolhas nos dedos. Ou à dor crescente no braço enquanto meus músculos protestavam, fatigados. Tremendo enquanto eu soltava a corda do arco.
Alguns serviçais vieram e deixaram uma jarra de água e uma cumbuca de tâmaras do meu lado quando o sol subiu. Simplesmente ignorei. Eu ia conseguir.
Puxei. Outra flecha mergulhou na água. Os patos se espalharam.
Praguejei em voz baixa.
Maldição.
Já tinha conseguido coisas mais difíceis.
Antes que os patos pudessem escapar de vez, peguei outra flecha. Armei-a rapidamente e apontei para a confusão de aves ainda gritando e batendo as asas. Achei o pato que queria atingir. E não hesitei. Não perdi tempo tentando ser perfeita. Mirei com confiança, como sempre fizera com a arma de fogo.
E soltei a flecha.
O pato se separou do bando, caindo na grama enquanto eu sentia o coração acelerado pela vitória.
Irrompi no palácio, deixando um rastro de sangue atrás de mim, do pato morto que carregava pelo pescoço.
O sultão me dissera que devia encontrá-lo quando fosse bem-sucedida, e o puxão da ordem nas minhas entranhas me mantinha em movimento. Não pensei no que estava fazendo até passar à força pelo guarda, que não tentou me impedir, e abrir as portas abruptamente.
Dezenas de cabeças se viraram para me olhar enquanto invadia a sala. Um pensamento passou pela minha cabeça: eu não deveria estar fazendo isso. Mas era tarde demais. Andei a passos largos até a mesa, com os olhos no sultão, e arremessei a presa na mesa à sua frente, fazendo um copo estremecer.
O sultão olhou para o cadáver.
Foi só então que parei para estudar o ambiente. A sala do conselho estava lotada. Havia homens de uniforme de todos os tipos. Uniformes mirajins dourados. Uniformes gallans azuis.
Estavam todos encarando a garota com olhar selvagem que tinha acabado de jogar um pato morto com uma flecha atravessada no pescoço na mesa à frente do sultão. O príncipe Rahim ocultava um sorriso fingindo coçar o nariz, mas ninguém mais parecia achar aquilo divertido.
Eu tinha acabado de interromper uma das reuniões do sultão que decidiria o resultado do cessar-fogo e o destino do país inteiro.
Me perguntei se seria dessa vez que acabaria com a corda no pescoço.
— Bem, parece que você não é tão ruim de tiro afinal de contas — o sultão disse, baixo demais para os outros ouvirem. — Pode sair do harém quando quiser. — Houve uma pequena pausa e por um instante tive esperança de que ele realmente me daria aquela brecha, permitindo que eu escapasse de suas garras e voltasse para a rebelião… — Mas não do palácio. — E lá se foi minha esperança. Tinha sido tolice alimentá-la. O sultão não era imprudente. Ele levantou a voz: — Alguém leve esse pato para a cozinha e minha demdji para seu devido lugar. — Vi as cabeças da delegação gallan se erguerem diante da palavra “demdji”. Eles me chamavam de demônio, mas sabiam o que a palavra significava. Imaginei se o sultão estaria me esfregando na cara deles.
Não parecia uma estratégia política muito boa.
Um serviçal levantou o pato com cuidado pelo pescoço. Os papéis espalhados na mesa foram arrastados juntos. Notei um mapa de Miraji, desenhado em tinta preta desbotada. Tinha sido marcado com linhas azuis. Na nossa metade do deserto. Era só um detalhe em um canto, mas foi suficiente. Circulado em tinta azul fresca, vi um minúsculo ponto preto, identificado em letras bem desenhadas: Saramotai.
Pensei imediatamente em Samira. Nos rebeldes que Shazad enviaria para proteger a cidade. Em Ikar na muralha. E nas mulheres que tinham escolhido ficar para trás. Todos sentados como alvos dentro do círculo de tinta azul.
Um serviçal já estava segurando meu braço, tentando me arrastar para fora da sala.
Mas eu não podia ir. Não sem saber o que estava acontecendo com a cidade que tínhamos libertado com tanto sacrifício. Minha mente acelerou, tentando encontrar uma maneira de ficar. De pegar aqueles papéis.
O embaixador gallan estava falando com o sultão agora.
— Temos um exército de mil homens vindo para o Auranzeb, com sua majestade no comando. Os homens precisarão de armas para manter o controle de Saramotai. Além disso…
— Ele está mentindo. — As palavras escaparam. O serviçal segurando meu braço proferiu um aviso entre os dentes, me puxando com mais força em direção à porta. Mas o sultão levantou a mão, interrompendo-o.
— O que disse, pequena demdji?
— Ele está mentindo — repeti, mais alto daquela vez. Saboreei as próximas palavras na minha língua, verificando se havia inverdades. — As tropas gallans que vêm com seu rei não são tão numerosas quanto diz. — Pronto.
O sultão passou o dedo calejado pela borda do copo. Sua mente era tão rápida quanto a de Ahmed. Eu era uma demdji. Se dizia que alguém estava mentindo, então aquilo era verdade.
— Onde aprendeu o idioma gallan? — o sultão me perguntou.
Era uma pergunta perigosa. A verdade envolvia Jin e uma longa travessia pelo deserto, com incontáveis noites de guarda.
— O Último Condado sofreu sob a aliança com os gallans. — Era uma meia verdade enrolada em pura enganação, normalmente óbvia demais para o sultão não perceber. Mas eu estava oferecendo um presente a ele. Talvez fosse suficiente. — E nós, demdjis, aprendemos rápido.
O dedo do sultão deu mais uma volta na borda do copo enquanto refletia.
— Lamento que tenha sofrido — ele disse finalmente. — Muito do meu deserto sofreu. — Finalmente, ele se dirigiu ao intérprete: — Diga ao embaixador gallan que sei que não há mil soldados chegando com seu rei. E que quero o número real.
Os olhos do intérprete se alternaram nervosos entre mim e o sultão enquanto ele falava. O embaixador gallan pareceu surpreso quando as palavras chegaram até ele.
Ele olhou para mim rapidamente, parecendo entender que eu tinha algo a ver com aquilo. Mas não hesitou e voltou a falar do modo gutural do oeste. Não entendi todas as palavras, mas peguei o número.
— Ele ainda está mentindo — rebati. — Não são quinhentos.
O sultão me estudou enquanto falava com o intérprete.
— Diga ao embaixador que talvez mentir seja tolerado em Gallandie, mas em Miraji é pecado. Diga que não é a primeira vez desde que nossa aliança se rompeu que um gallan tenta me enganar para obter armas minhas para suas tropas no além-mar continuarem sua guerra no norte, alegando que precisavam equipar os aliados que vinham para o deserto. Diga que ele só tem mais uma chance de dizer o número real ou vou interromper as negociações completamente até a chegada do seu rei.
— Duzentos. — O intérprete disse, finalmente, depois de um momento de tensão.
O sultão virou para olhar para mim, junto com o resto da sala.
— É verdade. — Foi fácil pronunciar as palavras.
— Bem. — Ele bateu na borda do vidro. — É uma diferença substancial, não acha, embaixador? Não, não precisa traduzir isso. — O sultão acenou quando o intérprete começou a se inclinar para a frente para falar. — Ele entendeu o que eu quis dizer. E acho que, assim como todos aqui, percebeu que é melhor não mentir para mim. Sente-se, Amani.
O sultão indicou com a mão um assento atrás dele. Era uma ordem. Eu não podia desobedecer. E queria ficar. Aquele era meu objetivo. Mas minhas pernas ainda tremiam um pouco enquanto me agachava na almofada atrás do sultão.
Foi só quando me acomodei que percebi que ele tinha me chamado pelo nome. Não “pequena demdji”.
Eu tinha sua atenção agora. Só rezava para que não fosse tanta a ponto de começar a me chamar de Bandida de Olhos Azuis.

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