5 de outubro de 2018

Capítulo 22

SHAZAD ESTAVA ALI. Parte do medo que tinha se aninhado no meu peito desde o momento em que havia acordado em um navio se dissipou. Tive vontade de beijar o rosto idiota de Sam por ter levado minha mensagem até ela.
— Bem — o sultão disse —, essa é uma honraria inesperada.
— A honra é toda minha, aclamado sultão. — Sua voz soou dolorosamente familiar naquele lugar estranho. Era a voz que lembrava uma centena de noites no acampamento sob os céus do deserto, que lembrava conspiração, traição e rebelião. — Retornei da minha peregrinação. — Ela se ajoelhou. — Vim prestar homenagem aos meus aclamadíssimos sultão e sultim. — Ela se inclinou para a frente em uma grande mesura, seu nariz quase encostando no chão. Shazad era muito boa naquilo. Imaginei que fosse o resultado de dezesseis anos de prática antes da rebelião.
O sultão a examinou.
— Pensei que tivesse vindo perguntar sobre seu pai. — Se a intenção era perturbá-la com a menção ao general Hamad, ele tinha escolhido a garota errada. Shazad começou a responder, mas não conseguiu terminar. Um guincho, como uma faca raspando ferro, cortou os céus, interrompendo-a.
O pátio inteiro congelou. Alguma coisa dentro de mim despertou.
Eu conhecia aquele som.
— É um roc. — O príncipe Rahim disse em voz alta o que eu estava pensando. Ele estava de pé, os olhos fixos no céu. — E parece estar perto.
— Na cidade? — Kadir disse em tom de zombaria, mas não estava mais se reclinando com seu jeito indolente de antes. — Isso é ridículo.
— É claro, irmão. — Rahim se portava como um soldado, a mão repousando em uma arma que não estava lá, como um velho hábito. — O que eu poderia saber sobre isso? Só fui destacado para as montanhas de Iliaz por meia década. Eu ouvia rocs gritando toda noite enquanto você ainda dormia no harém perto de sua mãe. Mas deve saber melhor do que eu, claro.
Kadir deu um passo em direção a Rahim, que manteve a posição. O sultim era bem mais largo que seu irmão. Mas quando Rahim flexionou os punhos, vi a cicatriz em sua mão. Ela me lembrou das cicatrizes nas articulações de Jin.
As mãos de Kadir eram lisas. As de seu irmão mostravam marcas de luta.
O grito do roc ecoou novamente, mais perto dessa vez, atraindo a atenção dos dois.
A multidão aglomerada, outrora paralisada, foi tomada pelo caos. Homens começaram a correr em busca de abrigo, e o sultão gritou ordens para os soldados, mandando-os para as muralhas, sacando armas no caminho.
Não me mexi. Fiquei parada, inclinando a cabeça para trás. Conhecia aquele grito. E então a sombra passou. Baixa para ser vista claramente, mas alta o bastante para se manter fora do alcance das armas. Duas enormes asas azuis ocultaram o sol, mergulhando o pátio em escuridão.
Não era um roc. Era Izz.
Senti um surto de adrenalina e levantei. Ele estava ali. Na cidade.
Izz estava deixando algum tipo de rastro. Por um instante, achei que fossem panos brancos. Mas enquanto caíam flutuando, vi que era papel; uma chuva de papel.
Assim que o primeiro pedaço chegou ao meu alcance, estendi a mão e peguei antes que caísse no chão.
O sol de Ahmed estava impresso no topo. Deslizei a mão pelas linhas do mesmo modo que tinha traçado a tinta no peito de Jin tantas vezes. Embaixo vinha um texto:

UMA NOVA ALVORADA. UM NOVO DESERTO.
Exigimos que o sultão Oman Al-Hasim Bin Izman de Miraji abdique do trono e seja julgado por traição.
Ele é acusado dos seguintes crimes contra Miraji e seu povo:
• Sujeição de seu país à autoridade estrangeira indevida na forma do Exército gallan.
• Execução sem julgamento de partes acusadas de violar a lei gallan.
• Repressão de seu próprio povo sem justa causa.
• Repressão de cidadãos mirajins devido a magia djinni não comprovada em sua linhagem.
• Opressão de trabalhadores através de salários injustos.
• Opressão de mulheres em toda Miraji.

A lista continuava.

Exigimos que o traidor seja retirado do trono e que seu herdeiro legítimo, o príncipe Ahmed Al-Oman Bin Izman, verdadeiro vencedor dos jogos do sultim, assuma o governo em seu lugar e devolva este deserto à glória que é sua por direito.
Se o sultão não abdicar do trono, vamos tomá-lo em nome do povo de Miraji.
UMA NOVA ALVORADA. UM NOVO DESERTO.

A rebelião tinha chegado a Izman.
Li tudo de novo. Estava tão distraída que não notei ninguém por perto até sentir a mão na minha nuca. Virei, mas Uzma já tinha se esgueirado atrás de mim, furtiva como uma sombra, soltando o fecho do khalat na minha nuca.
O tecido deslizou para o chão. Eu o agarrei, deixando o sol de Ahmed cair no chão, mas era tarde demais para manter meu corpo oculto.
Os olhos cruéis de Uzma o analisaram, julgando-o, achando mil defeitos com um único olhar.
— Ora, essa cicatriz é bem feia. O alfaiate Abdul não costurou você direito? — Ela estava falando da marca onde a bala havia me atingido em Iliaz. Meus dedos se atrapalhavam para fechar o khalat de novo. Podia sentir a pele ardendo sob seu olhar de escárnio. — Tudo faz sentido agora. Posso adivinhar: você é uma puta que ficou grávida, então tiveram que tirar a coisa de dentro de você.
Eu estava louca para retrucar, como sempre. Sem serviçais para me ajudar, desisti do fecho e tentei amarrar as pontas soltas do tecido. Uzma deu um passo sorridente na minha direção. Um dos panfletos foi esmagado sob seus pés descalços, amarrotando o sol de Ahmed.
— Que tal se afastar dela? — A voz era ferro e seda, e totalmente familiar. — Antes que eu acabe com você.
Shazad não estava armada, mas quando se colocou entre mim e Uzma, parecia tão perigosa quanto se estivesse com suas duas lâminas em punho. Apertei o nó na nuca.
Quando levantei a cabeça, o sorrisinho no rosto de Uzma vacilava.
Shazad se inclinou para a frente, forçando Uzma a cambalear para trás.
— Lamento — ela disse em um tom que deixava claro que não lamentava nada. — Talvez tenha soado como uma sugestão, mas não é. Dê o fora.
Uzma deu dois passos para trás, correndo direto para Ayet, que observava da sombra de um dos pilares. Então Izz guinchou novamente e ambas desapareceram, correndo em busca de abrigo. O que me deixou cara a cara com minha melhor amiga no caos do pátio que se esvaziava.
— Já falei para cuidar da retaguarda — Shazad disse.
— E eu falei que sabia que podia contar com você para fazer isso por mim. — Eu queria abraçá-la, mas ainda havia pessoas demais em volta. Poderia me explicar se fôssemos vistas conversando, mas demonstrando afeto ficaria mais difícil. Tive que me satisfazer puxando as mangas decoradas de seu khalat. — Acho que é a única pessoa que conheço que consegue parecer intimidadora vestindo algo tão florido.
Shazad me ofereceu um sorriso desajeitado.
— Ideal para ser subestimada. Vamos. — Ela agarrou minha mão e olhou em volta. — Vamos sair daqui. Agora. — Shazad começou a me puxar em direção aos portões.
Ninguém nos observava quando Izz sobrevoou o palácio gritando. O sultão tinha desaparecido e todos os outros estavam correndo. Era uma boa oportunidade de escapar.
— Era para isso servir de distração? — Gesticulei em direção aos panfletos espalhados no chão.
— Distrações também podem servir à causa. — Shazad ainda me arrastava em direção ao portão. — Consegue andar mais rápido?
Minha mente demorou a entender o que estava acontecendo. Eu a parei.
— Não importaria se eu conseguisse correr mais rápido que um buraqi. Estou presa aqui. — Expliquei tudo o mais rápido que pude, enquanto o caos ainda reinava ao nosso redor. O ferro sob minha pele, a peça de bronze que me controlava.
Seu rosto ficou sombrio enquanto ouvia. Ela absorveu tudo com o mesmo foco de quando sabia se tratar de coisa séria.
— Então vamos arrancar esse negócio fora.
— Sei que não sou tão inteligente quanto você, mas isso passou pela minha cabeça — eu disse, séria. — Pode estar em qualquer lugar, e se começar a cravar facas em mim é bem possível que eu sangre até morrer.
— Não vou deixar você aqui — Shazad argumentou.
— Você não tem escolha no momento — repliquei. — Shazad… — eu tinha muitas coisas para dizer e pouco tempo. Logo, logo a confusão criada por Izz passaria e alguém nos notaria. Só havia uma coisa realmente importante. Uma última informação que não tinha contado. — O sultão tem um djinni.
Shazad abriu a boca. Então a fechou.
— Repita, por favor.
Havia pouca coisa que Shazad não era capaz de fazer. Ela comandava exércitos, formulava estratégias e pensava oito passos à frente de todos. Podia lutar e talvez até vencer uma guerra na qual estávamos em menor número e com menos armas. Mas uma coisa era ter menos armas, e outra bem diferente era tentar lutar contra uma arma de fogo tendo apenas um graveto. Se o sultão tivesse um único djinni, não havia nada que um exército de mortais poderia fazer.
— Então precisamos tirar você e esse djinni…
— Bahadur — completei, embora não tivesse certeza de por que aquele dado era relevante. Ele era apenas mais um djinni. Um djinni que era meu pai e cujo nome me pertencia também. Mas ele não era meu pai. Izz gritou e mergulhou. Houve disparos.
Ambas nos abaixamos por instinto.
— Precisamos tirar você e Bahadur deste palácio. — Do jeito que ela falava, parecia simples.
— Libertar um djinni não vai ser tão fácil quanto tirar Sayyida da prisão. — Não que aquilo tivesse terminado bem. — Ele também está preso aqui.
— Vou conversar com algumas pessoas e arrumar uma solução. — Shazad tirou o cabelo do rosto, impaciente. De alguma forma, mesmo vestida para parecer tão inofensiva quanto uma flor, ficava claro do que era capaz. — Deus sabe que metade da rebelião não está fazendo nada de muito útil no momento. Izman é uma espécie de prisão também. E está cheia de soldados desde o cessar-fogo.
— Cessar-fogo? — interrompi.
Shazad me encarou, surpresa, como se por um instante tivesse esquecido que eu estivera ausente. Sua boca formou uma linha severa antes de contar a notícia:
— O sultão pediu um cessar-fogo. Uma trégua nas batalhas contra os invasores até que os líderes estrangeiros possam vir a Izman negociar uma nova aliança. Era essa a notícia que Jin trazia do acampamento xichan antes de… — Ela hesitou. — Antes de tudo o que aconteceu.
A menção a Jin fez meu coração apertar. O jeito que ela tinha mencionado seu nome soara estranho. Mas eu era orgulhosa demais para pedir notícias dele quando estávamos no meio da guerra. Em vez disso, falei:
— É por isso que o palácio está cheio de estrangeiros. — Lembrei da multidão de uniformes e homens estranhos que encontramos pelos corredores. — Você acha que os líderes vão vir?
— Segundo os rumores, um dos príncipes de Xicha já está a caminho. E o imperador gallan e a rainha albish já mandaram seus embaixadores na frente. — Pensei no homem de roupas comuns cujos olhos me arrepiavam. — Eles virão. Se não vierem, a chance de o sultão firmar um acordo com um de seus inimigos é grande. Enquanto isso, soldados vindos de todo canto estão inundando a cidade por todos os lados, preparando o terreno. — Shazad tamborilou cada um dos dedos no dedão numa sequência rápida. Era um tique nervoso. Significava que ainda não tinha revelado tudo.
Escondia problemas de mim. Complicações da rebelião às quais eu não tinha acesso.
— O que isso significa para nós? — Eu reconhecia o sentimento de impotência enquanto havia tanto a ser feito. Costumava me sentir assim na Vila da Poeira.
— Nada de bom. — Ela se deu conta do tique nervoso e parou, cerrando a mão num punho. — Principalmente agora. Mas o sultão só pode se aliar a uma nação. Assim que o acordo se firmar, a guerra vai eclodir novamente. Dizem por aí que ele planeja revelar o novo aliado no Auranzeb. Mas até lá… — ela deixou as palavras no ar.
Eu sabia o que queria dizer. Até lá, estávamos em apuros. E só tendia a piorar, já que o sultão tinha um djinni a seu dispor.
Pensei a respeito. Talvez houvesse outro jeito de libertar um djinni. Eu só teria que sair do harém por tempo suficiente para descobrir. Mas algo me impediu de comentar isso com Shazad. Nosso tempo estava se esgotando. Logo a distração de Izz acabaria, e não poderíamos ser pegas conspirando.
Mas não podia deixá-la partir sem perguntar:
— Shazad, está todo mundo bem? — Não era bem isso que eu queria saber. Parecia idiota e egoísta, mas seu nome explodia na minha cabeça. Jin está bem?
— Nem todo mundo. — Apesar de não ser uma demdji, Shazad sempre foi honesta. — Mahdi morreu na fuga do acampamento e não pudemos salvar Sayyida. Outros também. Mas foram poucas fatalidades, levando em conta tudo o que aconteceu. Ahmed está vivo. Delila, Hala, Imin e os gêmeos. Estão todos aqui na cidade.
— E Jin? — Não consegui me conter. Ela não o havia mencionado, o que não podia significar boa coisa. Assim como a hesitação dela em seguida.
— Ninguém sabe ao certo onde ele está agora — Shazad disse, finalmente. — Jin… — Ela ajeitou o cabelo solto na base da nuca. — Depois que você desapareceu no meio da noite, ele cavalgou até quase matar a montaria para chegar ao ponto de encontro. Quando não te encontrou lá, quebrou o nariz de Ahmed e voltou para o deserto. À sua procura. Obrigada por provar que eu estava certa em meu ceticismo quanto à falta de detalhes desse plano, pelo menos. — Eu sabia que ela estava tentando aliviar o clima, mas a preocupação estava enraizada dentro do meu peito. Não tinha passado pela minha cabeça que Jin não estaria com o resto dos rebeldes.
— Ele ainda está vivo — experimentei pronunciar em voz alta. E então me dei conta do que Shazad dissera. — Jin quebrou o nariz de Ahmed?
Ela coçou a orelha, parecendo mais encabulada do que nunca.
— Ahmed talvez tenha deixado implícito que se Jin parasse de te tratar de modo tão casual quanto uma garota que acabou de conhecer no bar, talvez você parasse de fugir. — Senti um surto de indignação ao ouvir que Ahmed pensava que eu deixaria a rebelião por uma briguinha de casal. — Jin o acertou tão rápido que nem consegui intervir. Foi bem impressionante, na verdade.
Izz gritou novamente. Mais longe dessa vez. A confusão estava acabando.
— Preciso ir — Shazad disse. Nosso tempo tinha acabado. — Vou descobrir um jeito de te tirar daqui. Até lá, prometa que vai ficar longe de encrenca. — A frase saiu como algo intermediário entre a ordem de uma general e o pedido de uma amiga.
— Você sabe melhor do que ninguém que não deve pedir a uma demdji que faça uma promessa. — Poderia ser a última vez que eu a veria. Aquilo acontecia sempre que nos despedíamos, mas agora parecia mais provável do que nunca. Afinal, eu estava em território inimigo. — E sabe melhor do que ninguém que vai ser impossível não me meter em encrenca.

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