29 de outubro de 2018

Capítulo 21

Rowan conhecia cada caminho, utilizado e oculto, para Doranelle. Tanto o exuberante reino quanto a vasta cidade em que ele fora batizado.
O mesmo acontecia com Gavriel e Lorcan. Eles venderam seus cavalos na noite anterior, Elide negociando por eles. Os guerreiros feéricos eram reconhecíveis demais, e se seus rostos não fossem notados, a pura presença de seu poder seria. Poucos não saberiam quem eram.
Ao contrário da fronteira norte com Wendlyn, nenhum lobo selvagem guardava as estradas do sul para o reino. Mas eles ainda continuavam escondidos, tomando caminhos meio esquecidos em sua jornada para o norte.
E quando estavam a poucos dias dos limites externos da cidade, eles haviam preparado sua armadilha para Maeve.
O que ele sabia que a rainha não seria capaz de resistir a conseguir: colares de Wyrd.
Aelin ainda não havia quebrado. Ele sabia disso, sentira isso. Provavelmente estava deixando Maeve louca. Assim, a tentação de usar um dos colares de Wyrd, a arrogância que ele sabia que Maeve possuía, permitiria que ela acreditasse que poderia controlar o demônio interior, arrancá-lo do próprio Erawan... seria de fato uma oportunidade grande demais para a rainha deixar passar.
Então eles começaram com rumores, alimentados por Elide em tabernas e mercados, nos lugares onde Rowan sabia que os espiões de Maeve estariam escutando. Sussurros de uma guarnição feérica que havia capturado um príncipe valg – os estranhos colares que encontraram com ele. A localização: um posto avançado afastado. Os colares: de quem quiser pegar.
Ele não se incomodou em rezar aos deuses para que Maeve se obcecasse pela busca. Que ela não enviasse um de seus batedores para recuperar os colares ou confirmar sua existência. Uma jogada tola, mas a única que eles poderiam fazer.
E quando escalaram as íngremes colinas do sul que finalmente lhes ofereceram uma visão da cidade velada pela noite, o coração de Rowan trovejou no peito. Eles podiam não ter as habilidades de camuflagem de Maeve, mas sem o juramento de sangue, poderiam permanecer indetectáveis.
Embora os olhos de Maeve estivessem por toda parte, sua rede de poder se espalhando por toda esta terra. E em muitas outras.
Sua respiração estava difícil enquanto eles subiam até a mais alta das colinas arborizadas. Havia outros caminhos para a cidade, sim, mas nenhum que oferecesse uma visão do terreno diante deles. Rowan não se arriscara a voar, não quando patrulhas de olhos aguçados sem dúvida procuravam um gavião de cauda branca, mesmo sob a cobertura da escuridão.
Apenas trinta metros até o cume agora. Rowan continuou subindo, os outros logo atrás. Ela estava aqui. Ela esteve aqui o tempo todo. Se eles tivessem ido diretamente para Doranelle...
Ele não se permitiu considerar. Não quando chegou o topo da colina.
Sob o luar, a cidade de pedras cinzentas estava banhada em branco, coberta da névoa dos rios e cachoeiras circundantes. Elide, em meio à sua respiração difícil, ofegou.
— Eu... eu pensei que seria como Morath — ela admitiu. A sossegada cidade ficava no coração de uma bacia fluvial. Lanternas ainda brilhavam apesar da hora tardia, e ele sabia que em algumas praças, música estaria tocando.
Lar. Ou assim fora. Os cidadãos dali ainda eram seu povo, depois que se casou com uma rainha estrangeira? Quando lutou e matou tantos deles nas águas de Eyllwe? Ele não procurou as bandeiras de luto que pendiam de tantas janelas.
Ao seu lado , ele sabia que Lorcan e Gavriel evitavam contá-las também. Durante séculos, eles conheceram essas pessoas, viveram entre elas.
Chamaram-nas de amigas.
Mas alguém sabia quem estava no meio deles? Eles ouviram seus gritos?
— Aquele é o palácio — falou Gavriel para Elide, apontando para o aglomerado de cúpulas e edifícios elegantes na fronteira leste, ao longo da beira da enorme cachoeira.
Nenhum deles falou enquanto examinavam o prédio alinhado por colunas que abrigava os aposentos privados da rainha. E as suítes deles. Nenhuma luz brilhava lá dentro.
— Não confirma nada — disse Lorcan. — Se Maeve partiu ou se Aelin permanece.
Rowan ouviu o vento, cheirou-o, mas não sentiu nada.
— A única maneira de confirmar é entrar na cidade.
— As duas pontes são os únicos jeitos de entrar? — Elide franziu o cenho para as pontes gêmeas de pedra nos lados sul e norte de Doranelle. Ambas abertas, ambas visíveis por quilômetros ao redor.
— Sim — confirmou Lorcan, sua voz firme.
O rio era muito largo, selvagem demais para nadar. E se existiam outras maneiras, Rowan nunca as aprendera.
— Devemos fazer uma ampla varredura da bacia — disse Lorcan, estudando a cidade no coração da planície. Ao norte, os contrafortes da floresta corriam para a imponente parede das montanhas cambrianas. Para o oeste, a planície se esticava para terras agrícolas, infinitas e abertas, até o mar. E para leste, além da cachoeira, a planície coberta de grama rendia-se a florestas antigas, mais montanhas além delas.
Suas montanhas. O lugar que ele uma vez chamou de ler, onde o chalé da montanha ficava até ter sido queimado. Onde ele enterrou Lyria e um dia esperou ser enterrado também.
— Também precisamos de uma estratégia de saída — disse Rowan, embora já estivesse considerando isso. Para onde correr depois. Maeve enviaria os seus melhores para caçá-los.
Isso o incluiu uma vez. Ele fora enviado para rastrear e despachar os féericos que se tornavam monstruosos demais até mesmo para Maeve, feéricos inescrupulosos que não tinham mais solução. Ele treinara os caçadores que Maeve agora libertaria. Ensinara-lhes os caminhos velados, os esconderijos preferidos de feéricos.
Nunca considerou que algum dia isso seria usado contra ele.
— Nós precisaremos de um dia — falou Lorcan.
Rowan lançou um olhar frio para ele.
— Um dia é mais do que podemos esperar. — Aelin estava lá embaixo. Nessa cidade. Ele sabia, podia sentir.
Ele estava mergulhando em seu poder nos últimos dois dias, preparando-se para a matança que desencadearia, o voo que fariam. A tensão de segurar o poder o repuxava, puxava qualquer controle que restava.
— Pagaremos caro se nos apoiarmos em um plano apressado — Lorcan falou. — Sua parceira também pagará.
O controle de seu ex-comandante também estava no limite de uma faca. Até mesmo Gavriel, calmo e firme, andava de um lado para o outro. Todos eles haviam descido fundo em seu poder, retirando-o das próprias profundezas.
Mas Lorcan estava certo. Rowan diria o mesmo se suas posições estivessem invertidas.
Gavriel apontou para um afloramento rochoso no morro abaixo deles.
— É protegido da vista. Acampamos ali esta noite, fazemos nossas avaliações amanhã. Vamos descansar um pouco.
A ideia era abominável. Dormir enquanto Aelin estava a poucos quilômetros de distância. Seus ouvidos se aguçaram, como se ele pudesse pegar seus gritos no vento. Mas Rowan disse:
— Tudo bem.
Ele não precisava declarar que não arriscariam uma fogueira. O ar estava frio, mas calmo o suficiente para que pudessem sobreviver.
Rowan desceu o rosto da colina, oferecendo uma mão para Elide para ajudá-la a evitar a queda perigosa e rochosa. Ela pegou a mão dele com dedos trêmulos. Ainda assim, não recusara ir com eles, a fazer nada. Rowan encontrou outro ponto de apoio antes de se virar para ajudá-la.
— Você não precisa ir para a cidade. Nós vamos decidir sobre a rota de fuga e você pode nos encontrar lá.
Quando Elide não respondeu, Rowan olhou para ela. Seus olhos não estavam nele. Mas na cidade a frente. Arregalados de terror. Seu cheiro estava repleto dele.
Lorcan estava ali em um piscar de olhos, a mão no ombro dela.
— O que...
Rowan se virou para a cidade. O topo da colina era uma fronteira. Não dos limites da cidade, mas de uma ilusão. Uma ilusão bonita e idílica para qualquer viajante em suas margens. Pois o que agora cercava a cidade por todos os lados, até mesmo na planície do leste...
Um exército. Um grande exército estava acampado ali.
— Ela convocou a maior parte de suas forças — Gavriel respirou, o vento chicoteando o cabelo em seu rosto.
Rowan contou as fogueiras que cobriam o terreno escuro como um manto de estrelas. Ele nunca tinha visto tal força feérica reunida. As que ele e a equipe levaram para a guerra não chegavam perto.
Aelin poderia estar em qualquer lugar nessa força. Nos acampamentos ou na própria cidade. Eles teriam que ser espertos. Agir com destreza. E se Maeve não tivesse caído no engodo...
— Ela trouxe um exército para nos manter do lado de fora? — perguntou Elide.
Lorcan olhou para Rowan, seus olhos escuros cheios de advertência.
— Ou para manter Aelin do lado de dentro.
Rowan examinou o exército acampado. O que aqueles que moravam em Doranelle, que raramente viam qualquer tipo de guarnição além dos guerreiros que às vezes andavam pela cidade, pensavam do exército?
— Temos aliados na cidade — Gavriel lembrou. — Nós poderíamos tentar fazer contato. Descobrir onde está Maeve, por que o exército se reuniu aqui. Se houve alguma menção a Aelin.
O tio de Rowan, Ellys, o chefe de sua casa, permaneceu ali quando a armada de Maeve navegara. Um macho duro, esperto, mas leal. Ele treinou Enda à sua imagem, para ser um cortesão de mente afiada. Mas também treinou Rowan quando pôde, dando a ele algumas de suas primeiras lições de esgrima. Ele cresceu na casa de seu tio, e foi a única casa que conheceu até encontrar a montanha. Mas a lealdade de Ellys se voltaria para Maeve ou para sua própria linhagem, especialmente na esteira da traição da Casa Whitethorn em Eyllwe?
Seu tio poderia já estar morto. Maeve poderia tê-lo castigado em nome de todos os primos que Rowan implorou para ajudá-los. Ou Ellys, procurando cai novamente nas boas graças de Maeve depois da traição deles, poderia vendê-los antes que conseguissem encontrar Aelin.
E quanto aos outros, os poucos aliados que poderiam ter...
— Maeve é capaz de se infiltrar na mente de uma pessoa — Rowan falou. — Ela provavelmente sabe quem são nossos aliados e pode já tê-los comprometido. — Ele apoiou a mão no punho de Goldryn, o metal quente um toque reconfortante. — Não nos arriscaremos.
Lorcan resmungou seu acordo.
— Maeve não me conhece – ou mal conhece —Elide falou. — Ninguém aqui me reconheceria, especialmente se eu puder... ajustar minha aparência. Como eu fiz espalhando aquelas mentiras sobre o príncipe valg. Eu poderia tentar entrar na cidade amanhã e ver se há alguma coisa para descobrir.
— Não. — A resposta de Lorcan era uma faca cortando o escuro.
— Você não é meu comandante. —Elide disse a ele, fria e imperturbável. — Não faz parte da minha corte.
Ela se virou para Rowan. Mas ele fazia.
Estava acima dela. Rowan tentou não recuar. Aelin havia colocado isso em cima dele
— Ela não conhece o layout da cidade, não sabe como lidar com os guardas... — Lorcan assobiou.
— Então nós a ensinaremos — interrompeu Gavriel. —Ensinamos o que sabemos.
Lorcan mostrou os dentes.
— Se Maeve permanece em Doranelle, ela vai sentir o cheiro.
— Ela não vai — disse Elide.
— Ela encontrou você naquela praia — retrucou Lorcan.
Elide levantou o queixo.
— Eu vou para a cidade amanhã.
— E o que vai fazer? Perguntar se Aelin Galathynius está passeando pela cidade? Perguntar se Maeve está disponível para o chá da tarde? — o grunhido de Lorcan rasgou o ar.
Elide não recuou por um instante.
— Eu perguntarei por Cairn.
Todos eles ficaram em silêncio. Rowan não estava inteiramente certo de tê-la ouvido corretamente. Elide os encarou com firmeza.
— Certamente uma mulher jovem e mortal pode procurar um macho feérico que a abandonou.
Lorcan ficou pálido como a lua acima deles.
— Elide. — Quando ela não respondeu, Lorcan virou-se para Rowan. — Vamos investigar, há outras maneiras de...
Elide apenas disse a Rowan:
— Encontre Cairn, e encontraremos Aelin. E saberemos se Maeve continua aqui.
O medo não mais florescia nos olhos de Elide. Nenhum vestígio permanecia em seu cheiro.
Então Rowan assentiu, mesmo quando Lorcan ficou tenso.
— Boa caçada, senhora.

5 comentários:

  1. Ainda bem que temos Elide como aliada kkkk imagina essa diabinha como inimiga ?! Kkk

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  2. Minha gente que livro, e da uns baita exemplo de mulheroes da porra😍😍

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  3. Eu acho que a Elide é uma personagem incrivel que ta sempre, SEMPRE, em desenvolvimento, mesmo quando eu não dava muita coisa por ela eu me surpreendi e agr EU AMO ESSA MULHER!

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  4. Eu só queria Manon e Elide como um casal, mas tudo bem. Vida que segue...Mas que casalzao seriam

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Boa leitura, E SEM SPOILER!