5 de outubro de 2018

Capítulo 21

SABIA QUE ALGUMA COISA ESTAVA ACONTECENDO quando fui acordada por três serviçais em vez do sol. Me colocaram sentada e tive meu kurti puxado por cima da cabeça antes mesmo de despertar de verdade.
— O que está acontecendo? — Estendi a mão para pegar minha camisa, mas já estavam pondo outra coisa em mim.
— O sultim ordenou que você o acompanhasse na corte hoje. — A serviçal que respondeu era a mesma que havia me levado para o harém. Eu não sabia seu nome.
Até então tinha pensado que era intocável. Mas imaginei que isso só valia para ser tratada como esposa, não como algo a ser polido e exibido. Puxei o braço para trás quando a mulher raspou algo áspero nas minhas unhas. Ela pegou minha mão de novo e recomeçou, com um barulho perturbador.
— É uma grande honra. — A serviçal suspendeu meu cabelo, puxando-o da base do pescoço, e prendeu alguma coisa na minha nuca. Não era um colar, percebi; era algo feito para se passar por um khalat. Era um tecido azul fino com bordados pretos, que combinava com meu cabelo. Só que deixava metade de mim exposta. Meus braços, meus ombros e metade das minhas costas. Quase ri. Aquilo nunca serviria como roupa no deserto, não onde o sol massacrava qualquer pedaço de pele exposta. Era o luxo de uma cidade. E a degeneração de um harém. A serviçal me puxou para me levantar, de modo que as roupas caíssem sobre meu shalvar solto. Pelo menos parecia que eu poderia continuar com ele.
Eu poderia tornar o processo realmente difícil para elas se quisesse. Poderia resistir e obrigar o sultão a ditar cada movimento meu. Mas a última coisa que queria era receber mais ordens.
E tinha a sensação de que o sultim poderia tornar minha vida muito mais difícil do que eu tornaria a vida delas.
Além disso, estavam me oferecendo a chance de sair do harém, mesmo que continuasse dentro do palácio. Fazia sete dias que tinha enviado Sam para Shazad. Sete dias da mesma indiferença preguiçosa que marcava todos os meus dias no harém. Não era como acordar no acampamento rebelde. Ninguém correspondia à tensão dentro de mim. O nervosismo de uma batalha iminente, o medo de não saber o que estava acontecendo — só eu sentia aquilo. Tinha visitado o jardim do Muro das Lágrimas uma ou duas vezes e pendurado o pano branco na enorme árvore, torcendo para que o sinal o trouxesse de volta. Nada.
Tudo dependia de um garoto tolo que não conseguia nem amarrar um sheema direito.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer além de esperar por notícias. Só me restava esperar, como Sabriya esperara no Muro das Lágrimas. Impotente e cega, aguardando para descobrir quem morreria na batalha. Eu ia acabar enlouquecendo. Seria muito idiota em recusar uma chance de dar uma olhada lá fora.
As áreas do palácio pelas quais me conduziam não estavam tão vazias quanto aquelas que percorrera seguindo o sultão. Serviçais passavam rápido por nós, com a cabeça baixa, carregando pratos pesados com frutas ou roupas limpas e finas. Um pequeno bando de homens xichans vestidos com o que pareciam ser roupas de viagem estava sentado em um dos jardins. Meu pescoço virou na direção deles instintivamente quando Jin passou pelos meus pensamentos. Um homem com vestes nobres o suficiente para ser um emir, seguido de três mulheres vestidas de forma idêntica, passou por um corredor à nossa frente, desaparecendo ao subir uma escada. Um par de homens com cara estrangeira em uniformes estranhos abriu caminho para passarmos. Meu coração saltou ao vê-los. Eles pareciam gallans. Mas não, o uniforme era diferente. Albish, talvez?
Viramos em outro corredor. Reconheci na hora a delegação gallan. Dois soldados acompanhavam um homem em roupas civis comuns. Seus uniformes eram deslumbrantemente familiares e me causaram um arrepio de medo. Mas os soldados não eram o mais perturbador da cena. Havia algo estranho no gallan de roupas comuns; seus olhos pareciam me atravessar. Eu podia senti-los em minhas costas enquanto seguíamos em frente.
Duas dezenas de pares de olhos se viraram na minha direção no instante em que as portas para o jardim de recepção do sultão foram abertas. Todos pertenciam a homens, sentados de forma desorganizada em almofadas ao longo do jardim. Os conselheiros do sultão. Todos do tipo intelectual, molengas. Como Mahdi. Pálidos com a falta de sol, horas demais gastas estudando o mundo em vez de viver nele. Serviçais flutuavam ao redor deles como um enxame, portando leques e jarras de sucos.
Só havia um homem à parte do circo. Tinha mais ou menos a mesma idade de Ahmed e Jin e vestia um uniforme imaculado do Exército, branco e dourado. Ele não estava sentado. Mantinha-se de pé, ereto como uma estátua, braços fixos atrás das costas, olhando diretamente para a frente como se esperasse uma ordem. Havia algo terrivelmente familiar nele, mas eu não sabia dizer o quê.
Na cabeceira do jardim, acima da corte, estava o sultão. Ele ergueu um pouco as sobrancelhas quando me viu. Então não sabia que seu filho tinha me tirado do harém.
Kadir estava sentado à direita dele. Ayet estava esparramada nos ombros do marido, vestindo o mesmo khalat que eu, só que em vermelho vibrante com linhas prateadas.
Ela estava ali para ser exibida e sabia disso, virando as costas nuas para a corte, mostrando os desenhos complexos de hena que decoravam sua coluna. Aos pés de Kadir estava Uzma, vestindo a mesma roupa em verde sobre seu corpo miúdo. Olhei em volta procurando Mouhna. Ela havia sumido.
Kadir indicou com a mão a almofada do outro lado de Ayet. Faria qualquer coisa para não ter que sentar ali. Mas não havia opção.
Uma serviçal ajustou a longa bainha do meu khalat. Kadir a dispensou com um aceno. Assim que ela foi embora, coloquei o pé descalço para fora, por baixo da bainha. Não era muito, mas era o melhor que podia fazer em termos de rebeldia.
Troquei olhares com o homem de uniforme militar quando levantei a cabeça. Ele estava me observando e escondia um sorriso com a mão, fingindo coçar a sobrancelha.
— Kadir. — O sultão falou baixo para o restante da corte não ouvir. — Já não tem mulheres suficientes para mantê-lo entretido?
— Eu teria, pai. — Algo silencioso se passou entre Kadir e o sultão que não pude entender. — Mas parece que uma delas sumiu. — Ele devia estar falando de Mouhna. Lembrei- de Leyla dizendo que as mulheres desapareciam do harém o tempo todo. Como a mãe dela. — Precisava de outra para completar meu conjunto mirajin. — Kadir estendeu a mão e passou-a suavemente por uma das cicatrizes nas minhas costas.
Meu corpo se contorceu violentamente em resposta.
O modo como o sultão sorriu faria o resto da corte pensar que ele estava tendo uma conversa agradável com o filho.
— Encoste a mão nela de novo e mandarei cortá-la. — Senti um surto inesperado de gratidão pelo sultão por me defender. Esmaguei esse impulso. Era por causa dele que eu estava ali, indefesa.
O sultão se endireitou.
— Tragam o primeiro suplicante — ele disse, elevando a voz e se posicionando no portão que levava à corte.
— O comandante Abbas Al-Abbas — um serviçal anunciou. — Do Décimo Primeiro Comando.
O soldado que chegou fez uma mesura profunda antes de falar.
— Aclamado sultão. Vim pedir para ser liberado do meu comando.
— Essa é uma solicitação séria em tempos de guerra. — O sultão o estudou. — Claramente não é por covardia que deseja ser liberado, ou não estaria aqui. — O soldado pareceu se encher de orgulho por um momento com o elogio implícito.
— Notícias chegaram do lar de meu pai. Meu irmão mais velho foi chamado por Deus para a Ordem Sagrada. Meu pai não tem outros filhos. Se eu não retornar, os maridos de minhas irmãs brigarão por suas terras. Desejo retornar para casa e assumir meu lugar como herdeiro.
O sultão o encarou, pensativo.
— O que acha, Rahim? — Ele estava falando com o jovem soldado, aquele que me parecera familiar. Rahim. Eu conhecia aquele nome. Era o irmão de Leyla. O único no exército de filhos do sultão que ela realmente considerava parte de sua família.
De fato, tinha os mesmos olhos observadores e inteligentes dela. Porém, os anos de Leyla no harém tornaram perceptível a palidez de sua mãe gamanix. Já os anos fora dos muros do palácio deixaram Rahim bem mais próximo de um mirajin. Ele até parecia compartilhar com Ahmed alguns traços mais marcantes de seu pai.
— Duvido muito que minha opinião possa adicionar algo que já não saiba, aclamado pai. — As palavras de Rahim eram respeitosas, mas havia algo mais por trás delas. Tive a sensação de que os dois estavam em meio a um jogo cujas regras eu não entendia muito bem.
— A modéstia nunca lhe caiu bem, Rahim — o sultão continuou, acenando com a mão. — Estou certo de que tem algumas ideias, por ser soldado há tanto tempo. Compartilhe-as.
— Acho que a fronteira oriental está exposta e que o Décimo Primeiro Comando precisa de um líder que deseje liderá-los — Rahim disse. O sultão manteve o silêncio.
Ele esperava mais alguma coisa. Uma batalha silenciosa foi travada na corte.
— Além disso — Rahim cedeu primeiro —, os Livros Sagrados nos ensinam que o primeiro dever de um homem é para com seu pai.
O sultão sorriu, como se tivesse obtido uma vitória.
— Comandante Abbas Al-Abbas, considere seu pedido concedido. — Os ombros do soldado relaxaram. — Você será liberado de seu dever. Nomeie seu substituto e o colocaremos em seu lugar.
Já tinha esquecido o nome interminável e o título do suplicante seguinte antes de o serviçal terminar de anunciá-lo. Assim como já tinha esquecido o que ele pediu logo que terminou sua fala. Um depois do outro, os suplicantes foram falar com o sultão.
Observei tudo em silêncio.
Um homem queria dinheiro. Outro queria terras. O próximo queria mais guardas na sua área da cidade. Rebeldes estavam se multiplicando entre os trabalhadores das docas, ele relatou. O próximo queria que o Bandido de Olhos Azuis fosse levado à justiça. Ele supostamente tinha roubado as joias de sua esposa e seduzido sua filha.
Bem, se Sam ainda estava vivo para sujar meu nome, significava que Shazad não o havia executado antes que abrisse a boca. Ou ele ainda não tinha se dado ao trabalho de entregar minha mensagem.
O sultão ouviu com toda a paciência antes de perguntar ao homem o que mais poderia fazer quanto ao Bandido de Olhos Azuis. Eu o observei com cuidado enquanto abria os braços em compaixão. Já havia um prêmio pela cabeça do Bandido por sua colaboração com o príncipe rebelde, o sultão explicou, mas ninguém tinha sido capaz de encontrá-lo. Ele podia muito bem ser um espírito do deserto. Ou uma obra de ficção.
Me ressenti de ser chamada de ficção. Por outro lado, ficaria bem mais ressentida caso fosse descoberta e torturada até enlouquecer como Sayyida. De repente fiquei muito grata a Sam, mesmo se ele tivesse decidido que não valia a pena levar minha mensagem até Shazad.
Meu pé estava ficando dormente e tive que mudar constantemente de posição diante da procissão de pedidos entediantes.
Finalmente abandonei qualquer pose e puxei os joelhos até o queixo, abraçando-os para me manter equilibrada. Estava meio dormindo quando o homem acorrentado apareceu. Todo mundo que parecia sonolento sob o sol da tarde voltou à vida.
— Aziz Al-Asif. — O homem em roupas finas que levava o acorrentado fez uma mesura quando o serviçal o anunciou. — E seu irmão, lorde Huda Al-Asif.
— Nosso aclamado sultão. — Aziz Al-Asif se inclinou para a frente. — Lamento muito vir pedir que condene meu irmão à morte. Ele tem conspirado.
— É verdade? — Havia um tom de divertimento na voz do sultão. — Porque não foi isso que meus espiões me contaram. Parece que você tem tanta sede de poder que está disposto a se aliar com a rebelião de meu filho. O que só me leva a crer que está mentindo para conseguir que seu irmão seja executado. Sem ele por perto, pode assumir sozinho o controle das terras de seu pai. — Um murmurinho percorreu o jardim. — Solte lorde Huda. — O sultão gesticulou para os dois guardas na porta. — E levem Aziz preso.
— Sua majestade — Aziz disse alto —, não cometi qualquer crime!
— Cometeu — o sultão o interrompeu, a autoridade notável em sua voz. — Tentar matar um irmão é crime. Mentir para o sultão também. Pensar que pode se aproveitar da rebelião do meu filho em benefício próprio não é, mas nem por isso vou tolerar. Sua execução será ao pôr do sol, a menos que seu irmão decida salvá-lo. — O sultão olhou para lorde Huda, que esfregava os pulsos. Ele não fez objeção. — Espalhe a notícia na cidade, então — o sultão disse. — Quero que os homens e mulheres de Izman vejam qual é o preço de trair seu governante.
Trair seu governante. De repente eu estava de volta à tenda de Ahmed enquanto ele tentava decidir o que fazer com Mahdi. Quando se recusou a ordenar uma execução. Quando falhou em dar uma ordem direta. Tudo o que eu queria era que ele tomasse uma maldita decisão. Que fosse um líder. Um bom líder. Um ótimo líder. Um líder forte.
O sultão sequer tinha hesitado.
Os protestos de Aziz ainda ecoavam quando a próxima pessoa foi chamada. Conforme o sol mudava de posição, seus raios brilhavam com toda a força sobre nós. Eu podia sentir o suor se acumulando na nuca, escorrendo por baixo das roupas.
Podia sentir meus olhos fechando conforme o calor do meio do dia caía sobre mim. A única pessoa que não demonstrava cansaço era o sultão.
— Shazad Al-Hamad.
Despertei rápido, como se tivesse levado um tiro nas costas. Por um instante, pensei que estivesse sonhando. Que havia cochilado e imaginado Shazad vindo me salvar.
Mas ali estava ela. De pé na entrada do jardim, vestindo um khalat da cor da alvorada e com aquele sorriso discreto que indicava que sabia que estava enganando alguém.

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