5 de outubro de 2018

Capítulo 20

O garoto sem nome

EM UM REINO ALÉM-MAR, um fazendeiro e sua esposa viviam em um casebre com seis filhos. Eles eram pobres e não tinham nada para dar às crianças além de amor, aprendendo logo que aquilo não era suficiente para mantê-las alimentadas ou aquecidas. Três morreram no primeiro inverno, fracas demais para sobreviver ao frio.
Então, quando o sétimo filho nasceu, no dia mais escuro e frio de um inverno implacável, nem lhe deram um nome, tão preparados que estavam para sua morte.
Mas o filho sem nome sobreviveu àquele dia escuro. E ao dia seguinte. Ele sobreviveu ao primeiro inverno até chegar a primavera. Sobreviveu ao segundo inverno. E, na segunda primavera, finalmente ganhou um nome.
O garoto era rápido, inteligente e tinha um talento natural para entrar em lugares proibidos, contanto que as paredes fossem feitas de pedra. Ele viu que sua família era pobre enquanto outras eram ricas e não achou justo. Então, quando sua mãe ficou doente, no seu sétimo inverno, ele roubou comida de cozinhas com mais prateleiras que a dele, e pegou prata de outras casas para comprar remédios. Foi assim que acabou indo parar no castelo na colina que pertencia ao lorde da região, e conheceu sua jovem filha.
A garota estava solitária no grande castelo, mas ela era rica e aprendera que podia ter qualquer coisa — bastava pedir. De fato, quando pediu a amizade do garoto, ele a deu de bom grado. Ele a ensinou brincadeiras e ela o ensinou a ler. Ela descobriu que tinha talento para fazer pedras quicarem na superfície do lago num dia claro de verão, e ele aprendeu que tinha facilidade para aprender idiomas falados nos recantos mais distantes do mundo.
Conforme cresceu, ele se tornou saudável, forte e charmoso. Tão bonito que a filha do lorde percebeu. Ela ainda era rica e sempre conseguia tudo o que queria com um simples pedido. De fato, quando pediu o coração do garoto, ele o entregou de bom grado.
Os dois se encontraram em segredo em todos os esconderijos que tinham descoberto quando criança.
Os irmãos do garoto que um dia não tivera nome o alertaram sobre a filha do lorde. Tinham todos se casado com garotas humildes que viviam à sombra do grande castelo e, embora fossem pobres, eram felizes. Mas o garoto que um dia não tivera nome havia lido histórias demais sobre filhos valorosos de fazendeiros que se casavam com princesas e bandidos de beira de estrada que roubavam o coração de damas ricas, então ignorou os avisos dos irmãos. Ele acreditava que tinha roubado o coração dela, assim como entregara o seu.
Então ficou muito surpreso quando foi anunciado para o país todo que a filha do lorde se casaria com o segundo filho do lorde de uma região vizinha.
O garoto que um dia não tivera nome deixou um recado para a filha do lorde pedindo que o encontrasse num esconderijo perto do lago. Ele esperou lá a noite inteira, mas ela não apareceu. Esperou na noite seguinte, e nada; e na outra noite foi a mesma coisa.
Finalmente, na véspera do casamento da filha do lorde, o garoto que um dia não tivera nome atravessou as paredes do castelo e lá encontrou a filha do lorde, os cabelos claros espalhados no travesseiro branco de seda, linda e resplandecente à luz da lua.
Ele ajoelhou perto da cama e a despertou de seu sono, pedindo que fugisse e se casasse com ele. Ele estava de joelhos, mas não implorou, porque nunca achou que precisaria.
Não passava pela sua cabeça que ela recusaria. Mas a filha do lorde não pegou sua mão. Em vez disso, riu dele e chamou os guardas, devolvendo o coração dele na saída do castelo.
E assim ele aprendeu que garotas com títulos não se casavam com garotos que um dia não tiveram nome.
Prometeu a si mesmo que a partir de então teria um nome. Jurou lealdade à rainha e vestiu um uniforme, dedicando-se a conquistar sua honra lutando por sua soberana e sua terra. Viajou para um reino do outro lado do oceano, uma terra sem inverno.
Lá, em vez de um nome, encontrou sangue, armas e areia. Sabia que ninguém perdia o nome tão rápido quanto os mortos, então fugiu mais uma vez. Escondeu-se na grande cidade de Izman, um caleidoscópio de sensações como nunca havia conhecido. Quando ficou com fome, lembrou que tinha sido bom em chegar a lugares aos quais não pertencia. Roubou um pão na sua primeira noite na cidade, saboreando-o em cima de uma casa de oração, observando os telhados em volta. Na segunda noite, roubou um punhado de moedas estrangeiras e trocou por uma cama. Na terceira, roubou um colar que teria facilmente alimentado todos os seus irmãos por um ano. Enquanto aprendia a deslizar de um canto a outro nas ruas, ouviu um nome sendo sussurrado. Um que não parecia pertencer de fato a ninguém. Uma lenda. Então o pegou para si. Usou-o para pegar outras coisas. As joias de pessoas ricas e esposas de homens descuidados. Roubou até o coração de uma princesa, como os ladrões das histórias que conhecia.
Mas dessa vez não foi tolo de dar o seu em troca. Havia aprendido a não entregar nada a quem pedisse.
Então ele tinha um nome. E combinava tanto com ele que quase começou a acreditar que realmente lhe pertencia. Até que conheceu a dona do nome. A garota no harém com olhos que podiam incendiar o mundo. Ela pediu sua ajuda.
Ele deveria levar uma mensagem à filha do general. Encontrou a casa dela sem dificuldades. Era uma casa grande com uma porta vermelha na área mais rica da cidade. Esperou em um canto, observando a porta, serviçais indo e vindo, assistindo às pessoas com uma pequena fortuna em joias acenando umas para as outras, enquanto esperava pela filha do general.
Finalmente ele a viu.
Soube quem era antes de tocar a porta vermelha. Sua beleza era tanta que tornava difícil olhar diretamente para ela, como acontecia com o sol. A filha do general parecia ter sido moldada a vida inteira com o único propósito de ser vista e desejada. E ela se movia com a certeza confiante de alguém que sabia que seu lugar no mundo era no alto.
Ele a reconheceu assim que a viu, embora nunca tivessem se encontrado antes. A pele, os olhos e o cabelo dela eram escuros, enquanto os da filha do lorde eram tão claros quanto o leite. Suas roupas eram de cores roubadas dos djinnis, enquanto as da filha do lorde tinham as cores de céus chuvosos, rios e grama fresca. Mas eram as mesmas. Ela era o tipo de garota que achava que merecia ter tudo o que pedisse.
E ele sabia que se batesse na porta vermelha seria rejeitado com uma zombaria e um aceno de desprezo. Porque bandidos sem nome não eram convidados para entrar e conversar com filhas de generais.
Então ele esperou pela noite. Luzes foram acesas, uma por uma, e então apagadas enquanto o silêncio se espalhava pela cidade. Exceto pela janela que pertencia à filha do general. Ele a observou até a madrugada, quando a luz finalmente se apagou também. E o garoto que um dia não tivera nome fez o que fazia de melhor: caminhou até um lugar onde não devia poder chegar, atravessando a parede e subindo as escadas até onde ela dormia.
Ela estava esparramada sobre travesseiros coloridos, o cabelo escuro cobrindo seu rosto. Ele se agachou do lado dela, para despertá-la de seu sono. Mas antes que pudesse dizer uma palavra, sentiu uma faca na garganta.
Aconteceu tão rápido que ele nem viu a filha do general se mexer.
— Quem é você? — ela perguntou. Não parecia ter medo. Ele percebeu então que tinha se enganado completamente. Ela não era nem um pouco como a filha do lorde. Não tinha sido moldada para ser vista e cobiçada. Tinha se moldado para enganar o mundo. E a certeza tranquila de seus passos era porque sabia que estava sendo subestimada. Conseguia o que queria porque pedia com a ponta afiada de uma lâmina. — Responda rápido e com sinceridade ou nunca mais vai contar outra mentira. — Ela pressionou a lâmina contra sua garganta.
E, de súbito, ele não queria um nome roubado, maculado pelo uso. O que queria desesperadamente era um nome bom o suficiente para dar a ela. Mas, até que o conseguisse, teria que usar outro.
— Vim em nome da Bandida de Olhos Azuis.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!