5 de outubro de 2018

Capítulo 2

EU GOSTAVA DAQUELA CAMISA. Era uma pena que estivesse encharcada de sangue.
A maior parte do sangue não era minha, pelo menos. Tampouco era a camisa, que eu havia pego emprestada de Shazad e nunca me dera ao trabalho de devolver. Agora ela dificilmente ia querer de volta.
— Pare!
Obedeci de imediato. Minhas mãos estavam atadas, e a corda arranhava a pele em carne viva dos meus punhos. Xinguei baixinho enquanto inclinava a cabeça para trás, enfim desviando o olhar das botas empoeiradas para encarar o brilho do sol do deserto.
As muralhas de Saramotai produziam uma sombra longa e imponente com a última luz do dia. Esses muros eram lendários. Haviam permanecido indiferentes a uma das maiores batalhas da primeira guerra, entre o herói Attallah e a Destruidora de Mundos. Eram tão antigos que pareciam ter sido erguidos com os ossos do próprio deserto. Mas as palavras pintadas de forma descuidada em tinta branca sobre os portões eram novas.
Bem-vindos à Cidade Livre.
Dava para ver que a tinta escorrera entre as rachaduras das pedras antigas antes de secar com o calor.
Eu tinha algumas coisas a dizer sobre ser arrastada à força, amarrada como uma cabra num espeto, para um lugar chamado de “Cidade Livre”, mas até eu sabia que era melhor ficar quieta.
— Se apresente ou vou atirar! — alguém gritou do muro da cidade. As palavras eram bem mais impressionantes do que a voz que as pronunciara. A rouquidão da juventude era audível. Apertei os olhos atrás do sheema e avistei o garoto magricela apontando um rifle para mim do alto da muralha. Não devia ter mais do que treze anos. Era puro osso. Não parecia capaz de segurar a arma direito mesmo que sua vida dependesse disso. E provavelmente dependia, já que estávamos em Miraji.
— Somos nós, Ikar, seu idiota — gritou no meu ouvido o homem que me segurava. Fiz uma careta de dor. Não precisava gritar tão alto. — Abra os portões agora mesmo, ou juro por Deus que vou fazer seu pai te bater com mais força do que ele bate nas ferraduras, até entrar um pouco de juízo na sua cabeça.
— Hossam? — Ikar não baixou a arma de imediato. Parecia muito nervoso, um péssimo sinal para alguém com o dedo no gatilho. — Quem é essa aí com você?
Ele apontou a arma na minha direção, o cano balançando loucamente. Virei o corpo por instinto. Ikar não seria capaz de acertar nem um roc se tentasse, mas eu não podia descartar a hipótese de ser atingida por acidente. Se ele atirasse, era melhor que acertasse meu ombro do que meu peito.
— Essa aqui… — uma ponta de orgulho tremulou na voz de Hossam enquanto erguia meu rosto como se eu fosse um animal — é a Bandida de Olhos Azuis.
Aquilo soou mais impressionante do que costumava ser, deixando um rastro de silêncio. Ikar nos encarou do alto do muro. Mesmo àquela distância, vi sua boca abrir e pender por um momento, depois fechar.
— Abram os portões! — ele finalmente gritou, então desceu correndo. — Abram os portões!
As enormes portas de ferro se moveram terrivelmente devagar, lutando contra a areia que havia se acumulado durante o dia. Hossam e os homens que nos acompanhavam me empurraram com pressa enquanto as antigas dobradiças gemiam.
Os portões não se abriram por completo, apenas o suficiente para passar um de cada vez. Mesmo após milhares de anos pareciam tão fortes quanto nos primórdios da humanidade. Eram de ferro sólido, tão espessos quanto o comprimento dos braços de um homem, e funcionavam graças a algum sistema de pesos e engrenagens que nenhuma outra cidade conseguira duplicar. Não havia como derrubá-los. E não havia como escalar a muralha. Todo mundo sabia disso.
Parecia que a única forma de entrar na cidade era como uma prisioneira, arrastada pelos portões com alguém segurando seu pescoço. Que sorte a minha.
Saramotai ficava a oeste das montanhas centrais. O que significava que era nossa. Ou pelo menos deveria ser. Após a batalha de Fahali, Ahmed declarou o território como seu. A maioria das cidades tinha jurado fidelidade rapidamente, expulsando de suas ruas os invasores gallans que haviam ocupado aquela metade do deserto por tanto tempo. Conquistamos a confiança das outras sem muita dificuldade.
Ali era outra história.
Bem-vindos à Cidade Livre.
Saramotai havia criado suas próprias leis, levando a rebelião um passo além. Ahmed falava bastante sobre igualdade. O povo local havia decidido que o único modo de alcançá-la era derrubar quem estava acima deles. O único jeito de ficar rico era tomar a riqueza alheia. Então os pobres se voltaram contra os ricos usando o discurso da igualdade de Ahmed como justificativa.
Mas Ahmed sabia reconhecer um golpe. Sabíamos pouco a respeito de Malik Al-Kizzam, o homem que tomara Saramotai, além do fato de ter sido um servo do emir.
Agora, Malik vivia no palácio e o emir estava morto.
Então enviamos pessoas para descobrir mais. E fazer algo a respeito se não gostássemos das notícias.
Elas não retornaram.
Aquilo era um problema. Outro problema era como entrar lá para procurá-las. Por isso eu estava ali, com as mãos tão fortemente atadas atrás das costas que já perdiam a sensibilidade, e com uma ferida recém-aberta na clavícula, causada por uma faca que errara por pouco meu pescoço. Era engraçado como ser bem-sucedida e ser capturada despertavam exatamente a mesma sensação.
Hossam me empurrou à sua frente pela abertura estreita dos portões. Cambaleei e me estatelei de cara na areia, o cotovelo batendo dolorosamente no ferro enquanto eu desabava.
Aquilo doía mais do que eu julgara possível.
Um gemido de dor escapou enquanto eu rolava para o lado. A areia grudou em minhas mãos onde o suor havia se acumulado sob as cordas. Então Hossam me agarrou, me botou de pé e continuou empurrando. O portão se fechou rápido atrás de nós. Era quase como se estivessem com medo.
Uma pequena multidão já havia se reunido para observar. Metade portava armas. Uma parte considerável delas estava apontada para mim.
Minha reputação realmente me precedia.
— Hossam — disse um homem mais velho do que meus captores, abrindo caminho e analisando com olhos sérios meu estado lastimável. Ele me encarou de igual para igual, diferente dos demais, sem se deixar cegar pela ansiedade. — O que aconteceu?
— Nós a capturamos nas montanhas. — Hossam se aproximou do homem. — Tentou nos emboscar quando estávamos voltando da negociação pelas armas.
Orgulhosos, dois dos homens que nos acompanhavam soltaram as bagagens cheias de armas, como se quisessem mostrar que eu não os havia impedido. Elas não tinham sido fabricadas em Miraji. Eram de Amonpour. Pareciam ridículas, ornadas e esculpidas, feitas por mãos em vez de máquinas, custando o dobro do preço porque alguém tinha se dado ao trabalho de enfeitá-las. Não importava o quanto uma arma era bonita, ela te mataria do mesmo jeito. Aprendi isso com Shazad.
— Só ela? — perguntou o homem de olhos sérios. — Sozinha? — Seu olhar se voltou para mim, como se pudesse extrair a verdade. Como se uma garota de dezessete anos realmente pensasse que poderia enfrentar e vencer meia dúzia de homens com nada além de um punhado de balas. Como se a famosa Bandida de Olhos Azuis fosse idiota.
Eu preferia “imprudente”.
Mas mantive a boca fechada. Quanto mais falasse, maior era a probabilidade de dizer algo que se voltaria contra mim. Fique em silêncio, faça cara feia e tente continuar viva.
Se tudo der errado, se concentre na última parte.
— Você é realmente a Bandida de Olhos Azuis? — Ikar perguntou, chamando a atenção de todos. Ele havia descido de seu posto de observação para me olhar com cara de idiota junto aos demais. Inclinou a cabeça para a frente por cima do cano da arma, ansioso. Se ela disparasse, arrancaria suas mãos e parte de seu rosto junto. — É verdade o que dizem a seu respeito?
Fique em silêncio. Faça cara feia. Tente continuar viva.
— Depende do que dizem. — Droga. Não resisti muito tempo. — E você não deveria segurar a arma desse jeito.
Ikar ajeitou a arma distraído, sem desgrudar os olhos de mim.
— Dizem que você consegue acertar a testa de um homem no escuro a quinze metros de distância. Que atravessou uma saraivada de balas em Iliaz e saiu de lá com os planos secretos de guerra do sultão. — Minha lembrança dos eventos em Iliaz era um pouco diferente. Pra começo de conversa, eu tinha levado um tiro. — E que seduziu uma das esposas do emir de Jalaz enquanto elas visitavam Izman.
Aquilo era novidade. Já havia escutado uma versão na qual eu seduzia o próprio emir. Talvez a esposa também gostasse de mulheres. Ou talvez a história tivesse mudado no boca a boca, já que muitos boatos julgavam que eu era um homem.
Eu já não me vestia como garoto, mas aparentemente precisava ganhar mais algumas curvas para convencer as pessoas de que era mulher.
— Você matou uma centena de soldados gallans em Fahali — Ikar prosseguiu. Suas palavras se atropelavam, ignorando meu silêncio. — E ouvi que escapou de Malal nas costas de um roc azul gigante depois de inundar uma casa de oração.
— Você não devia acreditar em tudo o que escuta por aí — eu disse quando ele finalmente parou para respirar, os olhos arregalados como dois louzis de tanto entusiasmo.
Ikar pareceu desapontado. Era apenas uma criança, ansioso para acreditar em todas aquelas histórias, assim como eu quando tinha sua idade — embora parecesse mais novo do que eu jamais lembrava ter sido. Ele não devia estar ali, segurando uma arma daquela maneira. Mas era isso que o deserto fazia. Transformava as pessoas em sonhadores armados. Passei a língua pelos dentes.
— E a casa de oração em Malal foi um acidente… mais ou menos.
Um burburinho percorreu a multidão. Estaria mentindo se dissesse que isso não me deixou arrepiada. E mentir era pecado.
Fazia quase seis meses que eu estivera em Fahali com Ahmed, Jin, Shazad, Hala e os gêmeos Izz e Maz. Nós sete contra dois exércitos e Noorsham, um demdji transformado em arma pelo sultão — e que por acaso era meu irmão.
Enfrentamos forças muito maiores que nós e um ser devastadoramente poderoso.
Mas sobrevivemos. A história da batalha de Fahali viajou pelo deserto mais rápido do que a dos jogos do sultim. Eu a ouvi dezenas de vezes, contada por pessoas que não sabiam que a rebelião estava ali. Nossas proezas ficavam maiores e menos plausíveis cada vez que eram recontadas, mas o relato sempre terminava do mesmo jeito, com a sensação de que a história ainda não tinha acabado. De um jeito ou de outro, o deserto não seria o mesmo após aquela batalha.
A lenda da Bandida de Olhos Azuis havia crescido para além desse relato, até eu me transformar numa história que mal reconhecia. Diziam que a Bandida de Olhos Azuis era uma ladra, e não uma rebelde. Que seduzia pessoas para obter informações para o príncipe. Que havia assassinado o próprio irmão no campo de batalha. Essa era a versão que eu mais odiava. Talvez porque, por um momento, com o dedo no gatilho, ela quase tivesse se tornado realidade. Mas eu o deixara escapar. O que era tão ruim quanto matá-lo. Ele estava em algum lugar, com todo aquele poder. Mas, diferente de mim, não tinha outros demdjis para ajudá-lo.
Às vezes, tarde da noite, depois de todo mundo ir dormir, eu dizia em voz alta que ele estava vivo, só para saber se era verdade ou não. Até então, conseguira pronunciar as palavras sem pestanejar. Mas tinha medo de que chegasse o dia em que não seria assim. Isso significaria que era mentira, que meu irmão havia morrido, sozinho e assustado, em algum lugar do deserto impiedoso e devastado pela guerra.
— Se ela é tão perigosa quanto dizem, deveríamos matá-la de uma vez — alguém da multidão gritou. Era um homem com uma faixa militar amarela brilhante cruzando o peito. Parecia que tinha sido costurada a partir de farrapos. Notei que outros também a vestiam. Deviam ser os recém-nomeados guardas de Saramotai, já que a guarda real havia sido assassinada. O homem que falou segurava uma arma apontada para minha barriga. Feridas naquela região não eram nada legais. Matavam lentamente.
— Mas se ela for a Bandida de Olhos Azuis, trabalha para o príncipe rebelde — outra pessoa falou. — Isso não significa que está do nosso lado? — Essa era a pergunta de um milhão de fouzas.
— Jeito curioso de tratar um aliado — eu disse, exibindo as mãos atadas. Um burburinho percorreu a multidão. Aquilo era bom. Significava que eles não eram tão unidos quanto pareciam de fora de sua muralha impenetrável. — Então, já que somos
todos amigos, que tal me desamarrar para podermos conversar?
— Bela tentativa, Bandida. — Hossam me segurou mais firme. — Não vamos te dar a chance de botar as mãos numa arma. Ouvi dizer que matou uma dúzia de homens com uma única bala. — Eu tinha certeza de que isso não era possível.
Mas não precisava de uma arma para derrubar doze homens.
Era quase engraçado. Eles haviam usado uma corda para me prender, não o ferro que me tornaria tão humana quanto eles. Daquele jeito, eu poderia erguer todo o deserto contra aquelas pessoas. O que significava que era capaz de causar mais dano de mãos atadas do que com uma arma. Mas o plano não era causar estrago nenhum.
— De qualquer modo, Malik deve decidir o que fazer com a Bandida — disse o homem de olhos sérios, esfregando a mão no queixo, nervoso, ao mencionar seu autoproclamado líder.
— Eu tenho um nome, sabia? — comentei.
— Malik ainda não voltou. — O guarda que apontava a arma para mim estava impaciente. Parecia do tipo tenso. — Ela pode aprontar alguma.
— É Amani. Meu nome, quer dizer. — Ninguém me ouvia. — Caso estejam se perguntando.
Aquela discussão provavelmente seria longa. Tomar decisões em grupo nunca era rápido. E praticamente nunca funcionava.
— Então tranquem-na até Malik voltar — disse uma voz no fundo da multidão.
— Ele está certo — uma voz gritou do outro lado. Outro rosto que eu não podia ver.
— Joguem-na numa cela onde não poderá causar problemas.
A multidão murmurou em aprovação. Finalmente o homem de olhos sérios assentiu decidido.
A multidão foi abrindo caminho às pressas conforme Hossam me puxava, mas não se afastaram muito. Todos queriam ver a Bandida de Olhos Azuis. Todos disputavam espaço para me encarar. Eu sabia exatamente o que estavam vendo. Uma menina mais nova do que algumas de suas filhas, com o lábio rachado e o cabelo escuro colado no rosto com sangue e suor. Lendas nunca são o que se espera delas, e eu não era exceção.
A única coisa que me diferenciava das outras garotas magrelas de pele escura do deserto eram os olhos azuis, mais brilhantes do que o céu do meio-dia. Como a parte mais quente do fogo.
— Você é um deles? — Essa voz, que se sobressaía estridente ao barulho da multidão, era nova. Uma mulher com um sheema amarelo abriu caminho. As flores bordadas no tecido eram quase da mesma cor que meus olhos. A urgência desesperada em seu rosto me deixou nervosa. Havia algo no jeito como dissera “um deles”. Como se quisesse dizer “demdji”.
Mesmo aqueles que sabiam sobre demdjis não conseguiam me identificar como um.
Nós, filhos de djinnis e mulheres mortais, parecíamos mais humanos do que as pessoas imaginavam. Bem, eu mesma havia me enganado por quase dezessete anos. Na maioria das vezes não parecia diferente, só estrangeira.
Eram meus olhos que me entregavam, mas só se você soubesse o que procurar. E pelo visto aquela mulher sabia.
— Hossam. — Ela cambaleou para nos acompanhar enquanto o homem me puxava pelas ruas. — Se for um deles, ela vale tanto quanto minha Ranaa. Poderíamos usá-la numa troca. Poderíamos…
Mas Hossam a enxotou, deixando a multidão engoli-la enquanto me arrastava mais para dentro da cidade.
As ruas de Saramotai eram tão estreitas quanto antigas, forçando a multidão a se afunilar e depois se dissipar conforme nos movíamos. As paredes ficavam cada vez mais próximas, e em alguns lugares meus ombros tocavam ambos os lados.
Passamos entre duas casas de cores brilhantes com as portas escancaradas por explosões. A pólvora marcava as paredes. Entradas e janelas estavam cobertas por tábuas. Conforme avançávamos, as marcas da guerra aumentavam. Naquela cidade, a luta tinha começado dentro das muralhas. Imagino que chamassem aquilo de rebelião.
O cheiro de carne apodrecendo me alcançou antes que eu visse os corpos.
Passamos sob um arco estreito com um tapete pendurado, secando ao sol. Abaixei para passar por ele, mas franjas roçaram meu pescoço. Quando levantei o olhar, vi alguns corpos pendurados pelo pescoço ao longo da grande muralha exterior, como lanternas.
Lanternas que tiveram os olhos arrancados por abutres.
Era difícil dizer se eram novos ou velhos, bonitos ou cheios de cicatrizes. Mas tinham sido ricos. As aves não haviam destruído as camisas costuradas com linha ricamente tingida, ou as mangas delicadas de musselina dos khalats. Quase vomitei com o cheiro pútrido. A morte e o calor do deserto agiam rápido sobre os corpos.
O sol estava se pondo atrás de mim. Quando nascesse de novo, os corpos brilhariam sob a luz do amanhecer.
Uma nova alvorada. Um novo deserto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!