29 de outubro de 2018

Capítulo 1

A neve havia chegado cedo.
Mesmo para Terrasen, a primeira das rajadas outonais chegara muito antes de seu habitual.
Aedion Ashryver não tinha certeza se era uma bênção. Mas se ela mantivesse as legiões de Morath afastadas de sua porta por mais algum tempo, ele se ajoelharia para agradecer aos deuses. Mesmo que esses mesmos deuses ameaçassem tudo o que ele amava. Se seres de outro mundo pudessem ser considerados deuses.
Aedion supôs que ele tivesse coisas mais importantes em que pensar, de qualquer maneira. Nas duas semanas desde que se reuniu com sua Devastação, eles não viram nenhum sinal das forças de Erawan, seja terrestre ou aérea. A neve espessa começara a cair apenas três dias após o seu regresso, dificultando o processo já lento de transportar as tropas da sua armada montada para o vasto acampamento da Devastação na Planície de Theralis.
Os navios tinham subido o Florine até os portões de Orynth, estandartes de todas as cores agitando-se ao vento vindo das Montanhas Galhada do Cervo: o cobalto e o ouro de Wendlyn, o preto e o carmesim de Ansel de Penhasco dos Arbustos, o cintilante prateado da família real Whitethorn e seus muitos primos. Os Assassinos Silenciosos, espalhados por toda a frota, não tinham estandarte, embora uma identificação não fosse necessária – não com suas roupas claras e a variedade de armas belas e cruéis.
Os navios logo se juntariam à retaguarda deixada na foz do Florine e patrulhariam a costa de Ilium a Suria, mas a infantaria – a maior parte dos soldados do príncipe herdeiro Galan Ashryver – iria para o front.
Um front que agora estava enterrada sob várias dezenas de centímetros de neve. Com mais vindo.
Escondido acima de uma estreita passagem nas Montanhas Galhada do Cervo atrás de Allsbrook, Aedion fez uma careta para o céu escuro.
Sua pele clara misturava-o ao cinza e branco do afloramento rochoso, um capuz escondendo seu cabelo dourado. E mantendo-o aquecido. Muitas das tropas de Galan nunca tinham visto neve, graças ao clima temperado de Wendlyn. A família real Whitethorn e seu pequeno exército dificilmente seriam melhores. Assim, Aedion deixara Kyllian, seu mais confiável comandante, encarregado de garantir que eles estivessem tão aquecidos quanto possível.
Estavam longe de casa, lutando por uma rainha que não conheciam e talvez nem acreditassem. Aquele frio gélido solaparia o espírito e faria a dissidência brotar mais rápido do que o vento uivante entre esses picos.
Um lampejo de movimento do outro lado da passagem chamou a atenção de Aedion, visível apenas porque ele sabia onde procurar.
Ela se camuflava melhor do que ele. Mas Lysandra tinha a vantagem de usar um casaco que havia sido criado para essas montanhas.
Não que ele tivesse dito isso para ela. Ou até mesmo olhado para ela quando partiram nesta missão de reconhecimento.
Aparentemente, Aelin tinha negócios secretos em Eldrys e deixara um bilhete com Galan e seus novos aliados para explicar seu desaparecimento. O que permitiu a Lysandra acompanhá-los nesta tarefa.
Ninguém notou, nos quase dois meses em que mantiveram essa farsa, que a Rainha do Fogo não tinha uma brasa para mostrar. Ou que ela e a metamorfa nunca apareciam no mesmo lugar. E ninguém, nem os Assassinos Silenciosos do Deserto Vermelho, nem Galan Ashryver, nem as tropas que Ansel de Penhasco dos Arbustos enviara com a armada à frente do grosso de seu exército, notara a fala leve que não pertencia a Aelin. Nem notaram a marca no pulso da rainha que não importava a pele que usasse, Lysandra não podia mudar.
Ela fez um bom trabalho ao esconder a marca com luvas ou mangas compridas. E se um vislumbre de pele cicatrizada alguma vez aparecesse, poderia ser confundida como parte das cicatrizes que já havia ali.
As cicatrizes falsas que ela também acrescentou, exatamente onde Aelin as tinha. Assim como a risada e o sorriso malicioso. A arrogância e a calma.
Aedion mal conseguia olhar para ela. Falar com ela. Só fazia isso porque tinha que sustentar a farsa também. Fingir que ele era seu fiel primo, seu destemido comandante que levaria a ela e a Terrasen à vitória, por mais improvável que fosse.
Então ele fez o papel. Um dos muitos que ele incorporou em sua vida. No entanto, no momento em que Lysandra mudava seu cabelo de dourado para escuro, de olhos Ashryver para esmeralda, ele parava de reconhecer a sua existência. Em alguns dias, o nó de Terrasen tatuado em seu peito, os nomes de sua rainha e a nova corte tecida entre eles, parecia um estigma. O nome dela, especialmente.
Ele só a trouxe nessa missão para tornar mais fácil. Mais segura. Havia outras vidas além dele em risco, e embora ele pudesse ter deixado essa tarefa de reconhecimento para uma unidade da Devastação, ele precisava de ação.
Levou mais de um mês para navegar de Eyllwe com seus novos aliados, esquivando-se da frota de Morath em torno de Forte da Fenda, e depois mais duas últimas semanas para se moverem para o interior.
Eles tinham visto pouco ou nenhum combate. Apenas alguns bandos errantes de soldados adarlanianos, nenhum valg entre eles, que haviam sido despachados rapidamente.
Aedion duvidava que Erawan fosse esperar até a primavera. Duvidava que o silêncio tivesse algo a ver com o clima. Ele discutira isso com seus homens, Darrow e os outros lordes há alguns dias. Era provável que Erawan esperasse até o fim do inverno, quando a mobilidade seria mais difícil para o exército de Terrasen, quando os soldados de Aedion ficariam fracos por meses na neve, com os corpos duros de frio. Até mesmo a fortuna de um rei que Aelin conquistara para eles na primavera passada não poderia impedir isso.
Sim, comida, cobertores e roupas poderiam ser comprados, mas quando as linhas de suprimento estão enterradas sob a neve, de que adianta? Todo o ouro em Erilea não poderia parar o lento e constante esvaimento de força causado por meses em um acampamento de inverno, expostos aos elementos impiedosos de Terrasen.
Darrow e os outros lordes não acreditavam em sua afirmação de que Erawan atacaria no inverno profundo – ou em Ren, quando o Lorde de Allsbrook expressou sua concordância. Erawan não era tolo, eles alegaram.
Apesar de sua legião alada de bruxas, nem mesmo soldados valg conseguiam atravessar a neve quando ela tinha três metros de profundidade. Eles decidiram que Erawan esperaria até a primavera.
No entanto, Aedion não queria arriscar. Nem o príncipe Galan, que permaneceu em silêncio naquela reunião, mas procurou Aedion mais tarde para dar seu apoio. Eles tinham que manter suas tropas aquecidas e alimentadas, mantê-las em forma e prontas para marchar a qualquer momento.
Esta missão de reconhecimento, se a informação de Ren se provasse ser correta, ajudaria a causa deles.
Perto dali, uma corda de arco gemeu, quase inaudível sob o vento. Sua ponta e haste tinham sido pintadas de branco, e agora eram pouco visíveis, pois apontavam com precisão mortal para a abertura da passagem.
Aedion chamou a atenção de Ren Allsbrook de onde o jovem lorde estava escondido entre as rochas, a flecha pronta para voar. Vestindo as mesmas peles brancas e cinzentas que Aedion, um lenço pálido sobre a boca, Ren era pouco mais do que um par de olhos escuros e a sugestão de uma cicatriz cortante.
Aedion fez um gesto para esperar. Mal olhando para a metamorfa do outro lado da passagem, Aedion transmitiu a mesma ordem.
Que seus inimigos se aproximassem.
Som de neve triturada misturava-se com a respiração ofegante.
Bem na hora.
Aedion colocou uma flecha em seu próprio arco e abaixou-se no afloramento.
Tal como a batedora de Ren dissera quando entrou correndo na tenda de guerra de Aedion cinco dias atrás, havia seis deles.
Eles não se incomodaram em se misturar à neve e às rochas. Seu pelo escuro, desgrenhado e estranho, poderia muito bem ter sido um farol contra o branco da Galhada do Cervo. Mas foi o fedor deles, carregado em um vento rápido, que disse a Aedion o suficiente.
Valg. Nenhum sinal de colar em alguém no pequeno grupo, nenhuma sugestão de um anel escondido por suas grossas luvas. Aparentemente, mesmo vermes infestados de demônios podiam ficar com frio. Ou seus hospedeiros mortais podiam.
Seus inimigos avançaram mais na garganta do desfiladeiro. A flecha de Ren se manteve firme.
Deixe um vivo, Aedion ordenara antes que tomassem suas posições. Tinha sido um palpite de sorte que eles tivessem escolhido essa passagem, uma porta dos fundos meio esquecida nas terras baixas de Terrasen. Larga o bastante para dois cavalos andarem lado a lado, havia sido ignorada pelos exércitos conquistadores e pelos comerciantes que procuravam vender seus produtos no interior do país além da Galhada do Cervo. O que morava lá fora, que ousava ganhar a vida além de qualquer fronteira conhecida, Aedion não sabia. Assim como ele não sabia por que esses soldados haviam se aventurado tão longe nas montanhas.
Mas ele descobriria em breve. A companhia demoníaca passou por baixo deles, e Aedion e Ren se moveram para reposicionar seus arcos.
Um tiro direto no crânio. Ele escolheu seu alvo. O aceno de Aedion foi o único sinal antes de sua flecha voar.


Sangue negro ainda derretia a neve quando a luta terminou.
Durou apenas alguns minutos. Apenas poucos, depois que as flechas de Ren e Aedion encontraram seus alvos e Lysandra saltou de seu poleiro para destruir três outros. E arrancar os músculos das panturrilhas do sexto e único membro sobrevivente da companhia.
O demônio gemeu quando Aedion se aproximou dele, a neve aos pés do homem agora negra, as pernas em tiras. Como restos de uma bandeira ao vento.
Lysandra se sentou perto da cabeça dele, sua boca manchada de preto e seus olhos verdes fixos no rosto pálido do homem. Garras afiadas brilhavam em suas enormes patas.
Atrás deles, Ren verificou os outros em busca de sinais de vida. Sua espada subiu e desceu, decapitando-os antes que o ar gelado pudesse torná-los rígidos demais para atravessar.
— Traidor imundo — o demônio rosnou para Aedion, o rosto estreito, coalhado de ódio. O mau cheiro dele encheu as narinas de Aedion, cobrindo seus sentidos como óleo.
Aedion puxou a lâmina de sua cintura – a longa e perversa adaga que Rowan Whitethorn lhe dera – e sorriu sombriamente.
— Isso pode acontecer rapidamente, se você for esperto.
O soldado valg cuspiu nas botas cobertas de neve de Aedion.


O Castelo Allsbrook se mantinha com a Galhada do Cervo às suas costas e Carvalhal a seus pés por mais de quinhentos anos.
Andando em frente ao fogo crepitante em uma de suas muitas amplas lareiras, Aedion podia contar as marcas de cada inverno brutal sobre as pedras cinzentas. Podia sentir o peso da história do castelo naquelas pedras também – os anos de valor e serviço, quando esses corredores estavam cheios de cantoria e guerreiros, e os longos anos de tristeza que se seguiram.
Ren reivindicara uma poltrona estofada gasta, posicionada de um lado do fogo, seus antebraços apoiados nas coxas enquanto olhava para as chamas.
Eles haviam chegado tarde na noite passada, e até mesmo Aedion fora drenado pela jornada através da neve de Carvalhal para fazer um tour pelo lugar. E depois do que eles fizeram esta tarde, ele duvidava que reuniria energia para conhecer o castelo agora.
O outrora grande salão estava silencioso e escuro além do fogo, e acima deles, tapeçarias desbotadas e estandartes com o brasão da família Allsbrook balançavam na corrente de ar que vinha pelas janelas altas alinhadas em uma das paredes da câmara. Uma variedade de pássaros aninhava-se nas vigas, encolhidos contra o frio letal além das antigas muralhas da fortaleza.
E entre eles, um falcão de olhos verdes ouvia cada palavra.
— Se Erawan está procurando um caminho para Terrasen — Ren falou finalmente — as montanhas seriam um caminho tolo. — Ele franziu a testa em direção às bandejas de comida que devoraram minutos atrás. Ensopado de carne de carneiro e legumes assados. Na maior parte insosso, mas estava quente. — A terra não perdoa facilmente aqui. Ele perderia inúmeras tropas apenas para os elementos.
— Erawan não faz nada sem razão — respondeu Aedion. — A rota mais fácil para Terrasen seria através das fazendas, nas estradas do norte. É onde alguém esperaria que ele marchasse. Ou lá, ou lançando suas forças da costa.
— Ou ambos – por terra e mar.
Aedion assentiu. Erawan tinha espalhado sua rede em seu desejo de acabar com a resistência que havia surgido neste continente. Foi-se o disfarce do império de Adarlan: de Eyllwe à fronteira norte de Adarlan, das margens do Grande Oceano à imponente parede de montanhas que dividia seu continente em dois, a sombra do rei valg crescia a cada dia. Aedion duvidava que Erawan parasse antes de prender colares negros em volta de todos os pescoços.
E se Erawan conseguisse as outras duas chaves de Wyrd, se pudesse abrir o portão de Wyrd à sua vontade e libertar hordas de valg de seu próprio reino, talvez até mesmo escravizar exércitos de outros mundos e manejá-los para a conquista... Não haveria chance de impedi-lo. Neste mundo ou em qualquer outro.
Toda a esperança de impedir esse destino terrível agora estava com Dorian Havilliard e Manon Bico Negro. Onde eles tinham ido esses meses, o que aconteceu com eles, Aedion não ouviu um sussurro. O que ele supunha ser um bom sinal. Sua sobrevivência era um segredo.
— Então Erawan desperdiçar um grupo de batedores para encontrar pequenas passagens nas montanhas parece imprudente — Aedion continuou. Ele coçou a bochecha coberta com barba por fazer. Eles partiram antes do amanhecer no dia anterior, e ele optara por dormir em vez de usar a lâmina. — Não faz sentido estrategicamente. As bruxas podem voar, então enviar batedores para descobrir as armadilhas do terreno é de pouca utilidade. Mas se a informação for para exércitos terrestres... Forçar esquadras através de pequenas passagens como aquela levaria meses, sem mencionar o risco do clima.
— O batedor deles continuou rindo — disse Ren, balançando a cabeça. Seus cabelos negros na altura dos ombros balançaram com o movimento. — O que estamos perdendo aqui? O que não estamos vendo?
À luz do fogo, a cicatriz que cortava seu rosto era mais nítida. Um lembrete dos horrores que Ren tinha suportado, aos quais sua família não sobrevivera.
— Pode ser para nos impedir de adivinhar. Para nos fazer reposicionar nossas forças. — Aedion apoiou a mão no suporte da lareira, o calor da pedra penetrando em sua pele ainda gelada.
Ren preparara de verdade a Devastação nos meses em que Aedion estivera trabalhando de perto com Kyllian para posicioná-los tão ao sul de Orynth quanto a coleira de Darrow permitisse. O que, no fim das contas, era pouco além dos contrafortes que se estendiam no extremo sul da planície de Theralis.
Desde então Ren cedera o controle a Aedion, embora o reencontro de lorde Allsbrook com Aelin tivesse sido gelado. Tão gelado quanto a neve caindo fora desta fortaleza, para ser exato.
Lysandra desempenhara bem o papel, dominando a culpa e a impaciência de Aelin. E, desde então, sabiamente evitando qualquer situação em que pudessem falar sobre o passado. Não que Ren tivesse demonstrado um desejo de relembrar os anos anteriores à queda de Terrasen. Ou os eventos do inverno passado.
Aedion só podia esperar que Erawan também não soubesse que eles não tinham mais a Portadora do Fogo entre eles. O que as tropas de Terrasen diriam ou fariam quando percebessem que a chama de Aelin não as protegeria em batalha, ele não queria considerar.
— Também poderia ser uma manobra verdadeira que tivemos a sorte de descobrir — ponderou Ren. — Então, corremos o risco de mover soldados para as passagens? Já há alguns na Galhada do Cervo atrás de Orynth e nas planícies do norte além dela.
Um passo inteligente de Ren – convencer Darrow a deixá-lo colocar parte da Devastação nos fundos de Orynth, se Erawan contornasse pelo norte e atacasse de lá. Ele não esperava nada menos do bastardo.
— Eu não quero a Devastação espalhada demais — Aedion falou, estudando o fogo. Tão diferente, essa chama – tão diferente do fogo de Aelin. Como se aquele diante dele fosse um espectro comparado com a coisa viva que era a magia de sua rainha. — E ainda não temos tropas suficientes para esbanjar.
Mesmo com as manobras desesperadas e ousadas de Aelin, os aliados que ela conquistara não chegavam perto do poder total de Morath. E todo aquele ouro que ela juntara pouco adiantava para contratar mais – não quando restavam tão poucos para atrair para a causa.
— Aelin não parecia muito preocupada quando se esgueirou para Eldrys — Ren murmurou.
Por um momento, Aedion quase cuspiu a maldita verdade.
Uma caixa de ferro. Maeve a havia chicoteado e guardado em um verdadeiro caixão. E partiu para Mala sabia onde, um sádico imortal junto.
— Aelin — disse Aedion, segurando um grunhido da melhor maneira que podia, mesmo quando a mentira o sufocou — tem seus próprios planos que só vai nos contar quando for a hora certa.
Ren não respondeu. E embora a rainha que Ren acreditava ter retornado fosse uma ilusão, Aedion acrescentou:
— Tudo o que ela faz é por Terrasen.
Ele falara coisas tão terríveis para ela naquele dia, quando ela destruíra os ilken. Onde estão nossos aliados?, ele exigira. Ele ainda tentava se perdoar por isso. Por tudo. Tudo o que ele tinha era essa única chance de fazer o certo, fazer o que ela pediu e salvar seu reino.
Ren olhou para as espadas gêmeas que deixara na antiga mesa atrás deles.
— Ela foi mesmo assim. — Não para Eldrys, mas há dez anos.
— Todos nós cometemos erros na última década. — Os deuses sabiam que Aedion tinha muito pelo o que pagar.
Ren ficou tenso, como se as escolhas que o assombravam tivessem cutucado suas costas.
— Eu nunca falei para ela — Aedion disse em voz baixa, para que o falcão empoleirado nas vigas não ouvisse. — Sobre o antro de ópio em Forte da Fenda.
Sobre o fato de que Ren conhecera a dona e frequentara o estabelecimento de mulheres muito antes da noite em que Aedion e Chaol puxaram um Ren quase inconsciente para se esconder dos homens do rei.
— Você consegue ser um idiota de verdade, sabia? — a voz de Ren ficou rouca.
— Eu nunca usaria isso contra você. — Aedion segurou o olhar furioso do jovem lorde, deixou Ren sentir o domínio subir dentro dele. — O que eu quis dizer, antes de você perder o controle — ele acrescentou quando Ren abriu a boca novamente — foi que Aelin lhe ofereceu um lugar nesta corte sem conhecer aquela parte do seu passado. — Um músculo tremeu no queixo de Ren. — Mas mesmo que conhecesse, Ren, ela ainda teria feito essa oferta.
Ren estudou o chão de pedra sob suas botas.
— Não há uma corte.
— Darrow pode gritar o que quiser, mas eu imploro para diferir. — Aedion deslizou na poltrona em frente a Ren. Se Ren apoiasse Aelin, com Elide Lochan agora de volta, e Sol e Ravi de Suria provavelmente do lado dela, isso dava a sua rainha três votos a favor. Contra os quatro se opondo a ela.
Havia pouca esperança de que o voto de Lysandra, como Senhora de Caraverre, fosse reconhecido.
A metamorfa não pedira para ver a terra que seria seu lar se eles sobrevivessem a esta guerra. Apenas se transformara num falcão no caminho para cá e voara por um tempo. Quando voltou, ela não falou nada, embora seus olhos verdes estivessem brilhantes.
Não, Caraverre não seria reconhecido como um território, não até que Aelin assumisse seu trono.
Até que Lysandra fosse coroada rainha, se a verdadeira não voltasse.
Ela voltaria. Tinha que voltar.
Uma porta se abriu no final do corredor, e seguiu-se o som de passos leves e apressados. Ele levantou uma batida de coração antes de um alegre “Aedion!” ecoar por entre as pedras.
Evangeline estava radiante, vestida da cabeça aos pés com roupas de lã verde bordadas com fio branco, o cabelo vermelho-dourado preso em duas tranças. Como as garotas da montanha de Terrasen.
Suas cicatrizes se esticaram quando ela sorriu, e Aedion abriu os braços antes de ela se lançar sobre ele.
— Disseram que você chegou tarde da noite, mas você saiu antes da primeira luz, e me preocupei de tê-lo perdido mais uma vez...
Aedion deu um beijo no topo de sua cabeça.
— Você parece ter crescido desde que a vi pela última vez.
Os olhos cítricos de Evangeline brilharam quando ela olhou dele para Ren.
— Onde está...
Um flash de luz, e lá estava ela. Brilhando. Lysandra parecia brilhar enquanto passava um manto ao redor de seu corpo nu, a roupa deixada em uma cadeira próxima exatamente para esse propósito. Evangeline se jogou nos braços da metamorfa, meio soluçando de alegria. Os ombros de Evangeline tremiam e Lysandra sorria profunda e calorosamente, acariciando a cabeça da moça.
— Você está bem?
Para todo o mundo, a metamorfa teria parecido calma, serena. Mas Aedion a conhecia – conhecia seu humor, suas maneiras secretas. Sabia que o leve tremor em suas palavras era a prova da torrente furiosa sob a bela superfície.
— Oh, sim — disse Evangeline, afastando-se para ir na direção de Ren. — Ele e Lorde Murtaugh me trouxeram aqui logo depois. Ligeirinha está com ele, a propósito. Murtaugh, quero dizer. Ela gosta mais dele do que de mim, porque ele lhe dá guloseimas o dia todo. Ela está mais gorda do que uma gata preguiçosa agora.
Lysandra riu, e Aedion sorriu. A garota fora bem cuidada. Como se percebendo o mesmo, Lysandra murmurou para Ren, sua voz um ronronar suave:
— Obrigada.
As bochechas de Ren ganharam uma cor vermelha quando ele se levantou.
— Imaginei que ela estaria mais segura aqui do que no acampamento de guerra. Mais confortável, pelo menos.
— Oh, é o lugar mais maravilhoso, Lysandra — Evangeline falou, segurando a mão de Lysandra entre as suas. — Murtaugh até me levou a Caraverre uma tarde – antes de começar a nevar, quero dizer. Você deveria ver. Belas colinas e rios e árvores, tudo contra as montanhas. Pensei ter visto um leopardo fantasma escondido entre as rochas, mas Murtaugh falou que era um truque da minha mente. Mas eu juro que era – e ainda maior que você! E a casa! É a casa mais linda que já vi, com um jardim murado nos fundos que Murtaugh diz que estará cheia de folhas e rosas no verão.
Por um instante, Aedion não pôde suportar a emoção no rosto de Lysandra enquanto Evangeline tagarelava com sua grandiosa eloquência. Planos para a propriedade. A agulhada de anseio por uma vida que provavelmente seria arrebatada antes que ela tivesse a chance de reivindicá-la.
Aedion se virou para Ren, o olhar do lorde preso em Lysandra. Como sempre ficava quando ela estava em sua forma humana.
Lutando contra o desejo de travar a mandíbula, Aedion disse:
— Você reconhece Caraverre, então.
Evangeline continuou tagarelando alegremente, mas os olhos de Lysandra deslizaram na direção deles.
— Darrow não é lorde de Allsbrook — foi tudo o que Ren disse.
De fato. E quem não gostaria de uma vizinha tão bela? Quer dizer, quando ela não estivesse vivendo em Orynth sob a pele e a coroa de outra, usando Aedion para criar uma linhagem real falsa.
Pouco mais que um garanhão de reprodução.
Lysandra novamente acenou seu agradecimento, e o rubor de Ren se aprofundou. Como se eles não tivessem passado o dia todo viajando pela neve e matando valg. Como se o cheiro de sangue não prendesse neles.
De fato, Evangeline sentiu o cheiro da capa que Lysandra mantinha enrolada em torno de si e franziu o cenho.
— Você está fedendo. Todos vocês estão.
— Tenha boas maneiras — advertiu Lysandra, mas riu.
Evangeline colocou as mãos nos quadris em um gesto que Aedion vira Aelin fazer tantas vezes que seu coração doeu ao ver.
— Você me pediu para dizer se estivesse cheirando mal. Especialmente sua respiração.
Lisandra sorriu e Aedion resistiu ao repuxar em sua própria boca.
— Assim eu pedi.
Evangeline puxou a mão de Lysandra, tentando puxar a metamorfa pelo corredor.
— Você pode dividir o quarto comigo. Há uma câmara de banho lá.
Lysandra cedeu um passo.
— Um bom quarto para uma hóspede — Aedion murmurou para Ren, suas sobrancelhas subindo. Deveria ser um dos melhores aqui, para ter sua própria câmara de banho.
Ren baixou a cabeça.
— Pertencia a Rose. — Sua irmã mais velha. Que foi massacrada junto com Rallen, o irmão Allsbrook do meio, na escolha de magia de que faziam parte. Perto da fronteira com Adarlan, a escola ficava diretamente no caminho das tropas invasoras.
Mesmo antes da magia cair, eles teriam poucas defesas contra dez mil soldados. Aedion não se permitiu lembrar do massacre de Devellin – aquela escola fabulosa. Quantas crianças estiveram lá? Nenhuma escapou.
Ren fora próximo das irmãs mais velhas, mas, acima de tudo, da mais animada Rose.
— Ela teria gostado dela — Ren esclareceu, movendo o queixo em direção a Evangeline. Marcada por uma cicatriz, Aedion percebeu, como Ren era. O corte no rosto de Ren fora conquistado enquanto escapava dos blocos de execução, a vida de seus pais foi o custo da distração que livrou a ele e Murtaugh. As cicatrizes de Evangeline vinham de um tipo diferente de fuga, de evitar por pouco a vida infernal que sua patrona suportara.
Aedion também não se deixou recordar desse fato.
Evangeline continuou afastando Lysandra, alheia à conversa.
— Por que você não me acordou quando chegou?
Aedion não ouviu a resposta de Lysandra quando ela se deixou levar pelo corredor. Não quando o olhar da metamorfa encontrou o dele.
Ela tentou falar com ele nos últimos dois meses. Muitas vezes. Dezenas de vezes. Ele a ignorou. E quando finalmente chegaram às terras de Terrasen, ela desistiu.
Ela mentiu para ele. Enganou-o tão completamente que todo momento entre eles, toda conversa... ele não sabia o que tinha sido real. Não queria saber. Não queria saber se ela quis dizer alguma coisa, quando ele estupidamente deixou tudo exposto diante dela.
Ele acreditava que esta era sua última caçada. Que ele poderia levar seu tempo com ela, mostrar tudo o que Terrasen tinha a oferecer. Mostrar tudo o que ele tinha para oferecer também.
Puta mentirosa, ele a chamara. Gritou as palavras. Reuniu clareza suficiente para ter vergonha disso. Mas a raiva permanecia. Os olhos de Lysandra eram cautelosos, como se lhe perguntassem: Não podemos, neste raro momento de felicidade, conversar como amigos?
Aedion apenas voltou a olhar para o fogo, bloqueando seus olhos de esmeralda, seu rosto primoroso.
Ren poderia tê-la. Mesmo que o pensamento o fizesse querer quebrar alguma coisa.
Lysandra e Evangeline desapareceram no corredor, a garota ainda falando.
O peso da decepção de Lysandra permaneceu como um toque fantasma.
Ren limpou a garganta
— Wuer me dizer o que está acontecendo entre vocês dois?
Aedion encarou-o com um olhar que faria homens menores fugirem.
— Consiga um mapa. Quero examinar as passagens novamente.
Ren, para seu crédito, foi em busca de um. Aedion olhou para o fogo, tão pálido sem a faísca de magia de sua rainha. Quanto tempo demoraria até que o uivar do vento do lado de fora do castelo fosse substituído pelo uivo do bando de feras de Erawan?


Aedion teve sua resposta ao amanhecer do dia seguinte.
Sentado em uma das extremidades da longa mesa no Grande Salão, Lysandra e Evangeline tomando um tranquilo café da manhã na outra, Aedion dominou a agitação em seus dedos enquanto abria a carta que o mensageiro entregara momentos antes. Ren e Murtaugh, sentados ao redor dele, se abstinham de exigir respostas enquanto lia. Uma vez. Duas vezes.
Aedion finalmente pousou a carta. Respirou fundo enquanto franzia a testa em direção à luz cinzenta e aquosa que vinha através das janelas no alto da parede.
Do outro lado da mesa, o peso do olhar de Lysandra o pressionava. No entanto, ela permaneceu onde estava.
— É de Kyllian — Aedion falou com voz rouca. — As tropas de Morath chegaram à costa – em Eldrys.
Ren praguejou. Murtaugh ficou em silêncio. Aedion continuou sentado, já que seus joelhos não pareciam ser capazes de sustentá-lo.
— Ele destruiu a cidade. Transformou-a em escombros sem usar uma única tropa.
Por que o rei sombrio esperara tanto tempo, Aedion só podia imaginar.
— As torres de bruxa? — Ren perguntou.
Aedion contara a ele tudo o que Manon Bico Negro revelara em sua jornada pelos pântanos de pedra.
— Não diz. — Era duvidoso que Erawan tivesse usado as torres, já que elas eram tão enormes que exigiriam transporte por terra, e os batedores de Aedion certamente teriam notado uma torre de 30 metros arrastada pelo território deles. — Mas as explosões aplainaram a cidade.
— Aelin?  — voz de Murtaugh era quase um sussurro.
— Tudo bem — mentiu Aedion. — Ela estava voltando ao acampamento de Orynth no dia anterior a esse. — Claro, não havia menção de seu paradeiro na carta de Kyllian, mas seu principal comandante especulara que, como não havia corpo ou comemoração do inimigo, a rainha havia conseguido sair.
Murtaugh ficou recostado no assento e Ligeirinha colocou a cabeça dourada em cima de sua coxa.
— Agradeça a Mala por essa misericórdia.
— Não agradeça ainda. — Aedion enfiou a carta no bolso da grossa capa que usava contra as correntes de ar do corredor. Não agradeça a ela por nada, ele quase acrescentou. — A caminho de Eldrys, Morath afundou dez navios de guerra de Wendlyn próximo de Ilium e afugentou o restante Florine acima, junto com a nossa armada.
Murtaugh esfregou o queixo.
— Por que não dar perseguição – segui-los rio acima?
— Quem sabe? — Aedion pensaria sobre isso mais tarde. — Erawan voltou sua atenção para Eldrys, e agora tomou a cidade. Ele parece inclinado a lançar algumas de suas tropas de lá. Se não for controlado, eles alcançarão a Orynth em uma semana.
— Temos que voltar para o acampamento — Ren disse, o rosto sombrio. — Ver se conseguimos levar nossa frota de volta pelo Florine e atacar com Rolfe do mar. Enquanto nós forçamos por terra.
Aedion não sentiu vontade de lembrá-lo de que não tinham notícias de Rolfe além de mensagens vagas sobre sua busca pelos dispersos micênicos e sua lendária frota. As chances de Rolfe emergir para salvar seus traseiros eram tão pequenas quanto a lendária Tribo dos Lobos, no extremo das Montanhas Anascaul, saindo do interior. Ou as fadas que fugiram de Terrasen há uma década retornando de onde quer que tenham ido para se juntar às forças de Aedion.
A calma calculista que guiara Aedion pela batalha e pelo massacre se instalou nele, tão sólida quanto o manto de pele que ele usava. A velocidade seria sua aliada agora. Velocidade e clareza.
As fileiras precisam aguentar, Rowan ordenou antes de se separarem. Compre-nos o tempo que puder.
Ele cumpriria essa promessa.
Evangeline ficou em silêncio quando a atenção de Aedion deslizou para a metamorfa na mesa.
— Quantos você consegue carregar em sua forma de serpente alada?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!