29 de outubro de 2018

Capítulo 19

Quinze minutos depois, Chaol ainda podia sentir Yrene tremendo quando eles entraram em um quarto pequeno, porém quente. Um dos poucos lugares aconchegantes nesta horrível fortaleza. Uma cama e uma bacia meio enferrujada preenchiam a maior parte do espaço, um jarro de água fumegante ao lado.
Não exatamente um quarto adequado para o filho de um senhor. Ele lutou contra o calor que aqueceu suas bochechas.
— Eu fui deserdado, lembre-se — disse Chaol, encostado na porta fechada, as bolsas descartadas a seus pés. — Este quarto é para um hóspede.
— Tenho certeza de que seu pai o escolheu só para você.
— Tenho certeza que sim.
— Ele é pior do que você pintou — Yrene rosnou.
Chaol deu-lhe um sorrisinho cansado.
— E você foi brilhante. — Totalmente brilhante.
Seu pai, pelo menos, concordara em iniciar as evacuações para os que se encontravam nos arredores da cidade e, quando chegaram à sala, a fortaleza já ganhara vida com a preparação para um cerco. Se seu pai precisava de ajuda para planejar, o homem não deixara transparecer. No dia seguinte, depois de descansarem esta noite, ele veria por si mesmo o que seu pai tinha em mente.
Mas por enquanto, depois de quase dois dias voando no ar gelado, ele precisava descansar.
E sua esposa, por mais ousada e destemida que fosse, precisava descansar também, admitisse ela ou não.
Então Chaol fechou a porta, rumando para onde Yrene andava na frente da cama.
— Sinto muito pelo o que ele falou para você.
Ela acenou em dispensa.
— Sinto muito por você ter sido forçado a lidar com ele por mais tempo do que essa conversa.
O temperamento dela, apesar de tudo o que descia sobre eles, apesar do bastardo que governava esta cidade, aqueceu algo nele. O suficiente para que Chaol acabasse com a distância entre eles, impedindo-a de andar ao segurar sua mão. Ele passou o polegar sobre sua aliança de casamento.
— Eu gostaria que você a tivesse conhecido em vez disso, minha mãe — ele falou suavemente.
A ferocidade em seus olhos diminuiu.
— Eu também. — Sua boca se curvou para o lado. — Embora eu esteja surpresa que seu pai tenha se importado o suficiente para mandá-los embora à sugestão de uma ameaça.
— Eles são recursos, para ele. Eu não ficaria surpreso se tiver mandado uma boa parte do tesouro junto.
Yrene olhou ao redor, em dúvida.
— Anielle é um dos territórios mais ricos de Adarlan, apesar do que isso sugere. — Ele beijou seus nós dos dedos, seu anel. — Há câmaras cheias de tesouros nas catacumbas. Ouro, joias, armaduras – há rumores de que a riqueza de todo um reino está lá embaixo.
Yrene murmurejou, mas falou:
— Eu deveria ter dito a Sartaq e Nesryn para trazerem mais curandeiras do que as cinquenta que selecionamos. — Hafiza permaneceria com a infantaria e a cavalaria, mas Eretia, sua segunda em comando, voaria com os ruks e lideraria o grupo, inclusive Yrene.
— Vamos nos contentar com o que temos. Duvido que houvesse um único curandeiro magicamente talentoso nesta cidade até uma hora atrás.
Ela engoliu em seco.
— Este lugar pode sobreviver a um cerco por tempo suficiente para o exército terrestre chegar aqui? Não parece que pode suportar outro inverno, muito menos um exército à sua porta.
— Esta fortaleza durou mais de mil anos – sobreviveu ao segundo exército de Erawan, mesmo quando saquearam Anielle. Vai durar essa terceira guerra dele também.
— Para onde as pessoas serão evacuadas? As montanhas já estão cobertas de neve.
— Há passagens através delas – perigosas, mas elas poderiam chegar até os Desertos se ficarem juntas e levarem suprimentos suficientes. — Rumar para o norte de Anielle seria uma armadilha mortal, com as bruxas guardando o Desfiladeiro Ferian, e ir muito longe para o sul os levaria para a porta de Morath. Ir para o leste os levaria para o caminho do exército que eles procuravam aguentar. — Eles poderão se esconder em Carvalhal, ao longo do limite dos Caninos. — Ele balançou a cabeça. — Não há boas opções, não nesta época do ano.
— Muitas delas não vão conseguir — ela falou suavemente.
— Elas terão uma chance melhor nos Caninos do que aqui — disse ele com a mesma calma. Eles ainda eram seu povo, ainda mostravam-lhe bondade, mesmo quando seu próprio pai não mostrava. — Eu vou fazer com que meu pai mande alguns dos soldados que estão velhos demais para lutar com eles – eles lembrarão o caminho.
— Eu sei que não sou nada mais do que a plebe — Yrene falou, e Chaol riu — mas aqueles que escolhem ficar, que forem deixados na fortaleza... Talvez enquanto esperamos por nossas próprias forças, eu poderia ajudar a encontrar espaço para eles. Suprimentos. Ver se há algum curandeiro entre eles que tenha acesso às ervas e ingredientes de que precisamos. Preparar ataduras.
Ele assentiu com orgulho, enchendo seu peito ao ponto de doer. Uma lady. Se não por nascimento, então por nobreza de caráter. Sua esposa era mais uma lady do que qualquer outra que ele conheceu, em qualquer corte.
— Então vamos nos preparar para a guerra, marido — Yrene falou, tristeza e medo enchendo os olhos.
E foi a visão daquele núcleo de medo, não por si mesma, mas do que eles, sem dúvida, em breve tomariam parte, testemunhariam, que ele o fez toma-la em seus braços e colocá-la sobre a cama.
— A guerra pode esperar até a manhã — disse ele, e baixou a boca sobre a dela.


O dia amanheceu, e os ruks chegaram.
Tantos ruks que eles taparam a luz do sol, o bater de asas e o farfalhar de penas enchendo os céus.
As pessoas gritavam dessa vez, suas vozes anunciando os gritos que viriam quando aquele exército chegasse à porta deles.
Na planície diante do lado sul da fortaleza, voando para a beira do lago em si, os ruks pousaram. Aquela área havia muito era livre de moradias, a extensão plana crivada de fontes termais e propensa a inundações anuais, embora alguns agricultores persistentes ainda tentassem estimular colheitas do solo duro. Fazia parte do próprio lago, antes que as Cataratas do Oeste, enfiadas nos Caninos, tivessem sido represadas, suas águas barulhentas se aquietando e formando um fio que alimentava o lago. Durante séculos, os ancestrais de Chaol haviam debatido destruir a represa, permitindo que o rio se tornasse livre mais uma vez, agora que suas antigas forjas haviam cedido espaço a alguns moinhos movidos a água que poderiam facilmente ser transferidos para outro lugar.
No entanto, a destruição que a barragem causaria, mesmo se reunissem todos os manipuladores de água do reino para controlar o fluxo, seria catastrófica. Toda a planície inundaria em questão de minutos, parte da cidade seria varrida também. As águas desceriam das montanhas destruindo tudo em seu caminho em uma onda poderosa que fluiria para a própria Carvalhal. Os níveis mais baixos da fortaleza, o portão que se abria para a planície, seriam totalmente submersos.
Então a represa ficou, e a planície gramada também. Os ruks instalaram-se em fileiras bem organizadas, e Chaol e Yrene observavam das ameias, outras sentinelas saindo de seus postos para se juntarem a eles, enquanto os cavaleiros começavam a montar o acampamento com quaisquer suprimentos que suas montarias tivessem carregado. As curandeiras seriam trazidas mais tarde, embora algumas pudessem permanecer no acampamento até que a legião de Morath chegasse.
Duas formas escuras decolaram, e as sentinelas voltaram para seus postos quando Nesryn e Sartaq pousaram na muralha, um pequeno falcão parando ao lado do último ruk. Falkan Ennar, então.
Nesryn saltou de seu ruk em um movimento fácil, seu rosto sério como qualquer um que viesse dos domínios de Hellas.
— Morath está a três dias de distância, possivelmente quatro — ela falou sem fôlego.
Sartaq apareceu atrás dela, os ruks não precisando de um poste de amarração.
— Nos mantivemos voando alto, fora de vista, mas Falkan foi capaz de chegar mais perto. — O metamorfo permaneceu em forma de falcão perto de Salkhi.
Yrene se adiantou.
— O que você viu?
Nesryn balançou a cabeça, sua pele normalmente dourada e bronzeada, pálida.
— Valg e homens, principalmente. Mas todos eles parecem rápidos – cruéis.
Chaol controlou sua careta.
— Nenhum sinal das bruxas?
— Nenhum — disse Sartaq, passando a mão pelo cabelo trançado. — Embora elas possam estar esperando para descer do Desfiladeiro Ferian quando o exército chegar aqui.
— Vamos rezar para que não desçam — disse Yrene, examinando os ruks no vale abaixo.
Mil ruks. Parecia um presente dos deuses, parecia um número incrivelmente grande. E, ainda assim, vendo-os reunidos na planície...
Até mesmo os poderosos pássaros podiam ser varridos na maré da batalha.

Um comentário:

  1. Tá tudo bom, tá tudo muito legal, mas sério...CADÊ A AELIN????? Preciso da protagonista de volta na história, não pode deixar pra ela entrar só no final não, o melhor da história é a astúcia, arrogância e o temperamento dela...

    PRECISAMOS DA AELIN DE VOLTAAAAA!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!