5 de outubro de 2018

Capítulo 19

O MURO DAS LÁGRIMAS FICAVA NA PAREDE mais ao leste do harém, uma pequena porção fechada do jardim dominada pela maior árvore que eu já tinha visto. Precisaria de umas três de mim para abraçá-la completamente, e os galhos iam tão longe que tocavam o topo das paredes dos dois lados.
De acordo com as mulheres do harém, era o lugar onde a sultima Sabriya tinha esperado pelo sultim Aziz mil anos antes. Ele havia partido para a guerra na fronteira oriental e deixado seu amor no harém. O Muro das Lágrimas foi o mais perto que ela conseguiu chegar dele enquanto estava lutando. Sabriya ficava ali todo dia esperando por ele, as lágrimas regando a árvore e fazendo com que crescesse mais a cada dia.
Até que um dia ela alcançou altura suficiente para que a sultima pudesse subir e ver por cima dos muros onde o exército do seu marido estava. Naquele dia, as outras mulheres a encontraram no chão, gritando, lamentando e arranhando o muro. Ela estava inconsolável e chorou até perder a voz. A árvore cresceu ainda mais imponente.
Três dias depois veio a notícia de que Aziz tinha morrido em batalha. Era isso que Sabriya tinha visto do topo da árvore, por cima dos muros, através de desertos, cidades e mares.
O muro parecia igual a qualquer outro no harém à luz fraca da minha lamparina. Heras repletas de flores com as cores do sol poente subiam da terra perto da pedra, tentando ocultar o fato de que estávamos em uma prisão. Afastei a vegetação, tocando a pedra sólida. Meus dedos encontraram uma superfície irregular. Ao levantar a lamparina percebi que parecia uma ranhura — várias delas. Do tipo que unhas poderiam criar.
— E sua lamentação persistiu por sete dias e sete noites. — Levei um susto com a voz de Shira atrás de mim. Ela estava coberta por um khalat azul-escuro, fundindo-se às sombras. — Até que o sultão não aguentou mais seu pesar e a pendurou onde apenas as estrelas poderiam ouvir.
Deixei minhas mãos caírem.
— Quem diria que um amor assim poderia existir no harém?
Shira percebeu o sarcasmo em minha voz.
— Qualquer pessoa menos egoísta que você. — Estava prestes a retrucar que ela não amava Kadir, assim como não tinha amado Naguib, mas então percebi que suas mãos tinham deslizado para a barriga enquanto falava. As pessoas faziam coisas terríveis por quem amavam. Isso eu já havia aprendido com as histórias. Tinha até a cicatriz de um ferimento de bala conseguido em Iliaz como prova disso.
— E agora? — Ergui uma sobrancelha para ela, na expectativa, um truque que aprendera com Jin.
— Ah, agora nós esperamos, prima. — Shira se apoiou na enorme árvore, inclinando a cabeça para trás.
Eu teria que fazer seu jogo. Desabei na árvore ao lado dela.
— Por quanto tempo?
Shira inclinou mais ainda a cabeça para trás.
— Pode demorar. Não sei dizer. É difícil ver o céu na cidade.
Recostei a cabeça no tronco, o cabelo prendendo na casca grossa. Ela não estava errada. Por entre os galhos da enorme árvore era possível ver o céu escuro, mas com as luzes não dava para enxergar as estrelas.
— Então… — Shira quebrou o silêncio depois de um instante. — Você está mesmo com o príncipe rebelde? — Ela mexia em algo, e percebi que era uma corda que percorria a extensão da árvore, como uma polia. Minha prima a puxava distraidamente, para cima e para baixo. No topo, acima dos muros do harém, um pedaço de pano balançava ao vento.
— Sim. — Shira estava sinalizando para alguém. Podia ser uma armadilha, até onde eu sabia. Nesse caso, não havia muito a fazer além de encará-la quando chegasse a hora.
— Quem teria imaginado? — Shira sorriu. — Duas garotas da Vila da Poeira com a realeza. O que era mesmo que o pai sagrado costumava dizer? — Seu sotaque estava falhando. Me perguntei se ela percebia. — Homens que rezam aos pés do poder ou ascendem com ele…
— Ou são esmagados — eu disse, completando o ditado. — Ainda bem que não somos homens. — Eu não sabia por que estava fazendo o jogo dela. Mas tinha poucas pessoas com quem falar naquele lugar. Leyla era gentil, mas ainda assim era filha do sultão. E não valia a pena pensar em Tamid. Ele podia estar vivo, mas meu amigo tinha morrido nas areias da Vila da Poeira. Os olhos escuros de Shira encontraram os meus.
Tivemos um momento de reconhecimento. Ambas havíamos pegado carona com gente poderosa, só que de lados diferentes. Se aquela era a escolha, ascender ou ser esmagada, provavelmente uma de nós prosperaria e a outra acabaria morta.
— Shira — comecei a falar, sem ter certeza de como ia terminar.
Mas não precisei continuar, porque um homem emergiu do Muro das Lágrimas. Eu já tinha visto muitos demdjis fazerem coisas impossíveis, mas estaria mentindo se dissesse que esperava algo assim.
Ele era de carne e osso, e embora à primeira vista estivesse vestindo roupas do deserto, certamente não era mirajin. Seu cabelo tinha a cor da areia, preso por um sheema mal amarrado, e sua pele era pálida a ponto de brilhar à luz da lamparina. Seus olhos eram quase tão azuis quanto os meus. Por um instante, pensei que fosse um demdji.
— Abençoada sultima — ele disse com a voz baixa e um sotaque carregado. Não era um demdji, então; apenas um forasteiro.
Ele se endireitou e pude ter uma visão melhor. Botas escuras polidas, diferentes de qualquer coisa que já vira, iam até seus joelhos, as pontas da calça típica do deserto enfiadas nelas. Ele vestia uma camisa branca aberta no colarinho. Tive a estranha sensação de que estava fazendo uma pausa para efeito dramático.
Depois de um instante, deu um passo teatral para a frente.
Foi então que seu braço ficou preso em uma das vinhas que pendiam do muro.
O que meio que estragou o efeito.
Ele se recuperou tão bem quanto pôde, desenroscando-se. Então puxou uma das flores da vinha e a ofereceu para Shira com uma mesura extravagante.
— Sua beleza cresce a cada dia que passa.
Seu sheema frouxo abriu sozinho, caindo do rosto, então pude ver seus traços mais claramente. Ele era pouco mais velho que nós, mas uma leve constelação de sardas sobre seu nariz pálido o fazia parecer mais novo. Era do norte, mas eu já tinha visto gallans o bastante para saber que não era um deles. Ele se aprumou e arremessou o sheema por cima do ombro como se fosse uma capa. Shira pegou a flor e a levou ao nariz.
Então era assim que Shira contrabandeava coisas para dentro do harém. E a julgar pelo jeito como o garoto olhava para ela, fora assim que engravidara.
Finalmente, o forasteiro pareceu perceber que eu estava lá.
— Essa é… — Shira começou a dizer, mas ele não a deixou terminar.
— Permita que eu me apresente. — Ele pegou minha mão direita. Resisti à tentação de puxá-la. Shazad chamaria isso de um gesto pouco diplomático. — Especialmente a uma jovem tão bela como você. — Ele levou minha mão aos lábios, em algum gesto estrangeiro, e a beijou. Então declarou, levantando dramaticamente: — Sou o Bandido de Olhos Azuis.
Soltei um riso sarcástico que ficou preso na garganta e se transformou em uma crise de tosse incontrolável. Shira deu batidinhas desajeitadas nas minhas costas enquanto eu me contorcia, apoiando a mão livre nos joelhos.
— Sim, eu sei, minha reputação me precede. — minha reputação é que te precede, pensei. Mas ainda não conseguia falar em meio ao acesso de tosse. — Não se sinta intimidada. Não é verdade que derrotei mil soldados em Fahali. — Ele se inclinou para a frente, assumindo um tom conspiratório, ainda segurando minha mão, mas agora entrelaçando os dedos aos meus. — Eram apenas centenas.
— Verdade? — Eu tinha finalmente recuperado o fôlego. A memória de Fahali era um borrão na minha mente. Pólvora, sangue e areia, e eu no meio de tudo aquilo. — Então me conta: como inundou a casa de oração em Malal?
— Bem. — Havia um brilho em seus olhos. Seu sotaque vinha do topo da boca, diferente dos gallans, que usavam mais a parte de trás. — Eu poderia contar, mas prefiro não encher sua cabecinha de ideias perigosas.
Eu provavelmente deveria parar de me divertir com aquilo. Mas não conseguia lembrar a última vez que tivera um motivo para rir naquela maldita rebelião.
Com certeza fora antes de fugir do vale de Dev.
— E quanto à luta em Iliaz? É verdade o que dizem? Que o Bandido de Olhos Azuis estava cercado de inimigos armados por todos os lados?
Ele não hesitou, seu peito inchando conforme me puxava para perto.
— Ah, bem, você sabe, o que os outros chamam de inferioridade numérica eu chamo de desafio.
— Ouvi falar que o Bandido de Olhos Azuis levou um tiro na barriga. — Deixei que me puxasse para perto o suficiente, nossos peitos quase se encontrando agora. — Posso ver a cicatriz?
— A dama é muito ousada. — Ele sorriu abertamente para mim. — De onde venho, é preciso conhecer uma garota por mais do que alguns minutos antes de ela tentar arrancar sua roupa. — Ele inclinou a cabeça, piscando para mim.
— Bem, que tal eu tirar a minha, então? — Antes que pudesse mudar de ideia, dei um passo para trás e puxei a lateral da camisa. Era difícil não notar a horrível cicatriz, mesmo no escuro. — Porque ouvi falar que parecia com esta aqui. — Tinha quase certeza que nada que ele tivesse levado para o harém a pedido de Shira valia tanto quanto a expressão em seu rosto naquele momento. Quase compensava o risco de revelar minha identidade. Talvez não fosse a coisa mais inteligente a fazer, mas não deixava de ser gratificante. Ele deixou minha mão cair conforme eu soltava a camisa e me afastava. — Engraçado, eu estava em Fahali e não lembro de você.
Ele coçou a nuca, envergonhado, enquanto eu continuava:
— Lembro de lutar contra soldados gallans na areia e lembro de homens sendo queimados vivos dos dois lados, mas não lembro de você. — O fingimento tinha sido abandonado, e ele me observava com interesse verdadeiro. — Mas imagino que você seja o motivo pelo qual todo mundo acha que posso estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso também explica por que continuo a ouvir rumores do Bandido de Olhos Azuis seduzindo tantas mulheres. — Aquela parte fazia sentido agora. Ele era bem bonito, mesmo quando parecia ridículo. E sabia disso.
— O que posso fazer? Eu entro em suas casas atrás das joias e elas me dão seu coração. — O garoto piscou para Shira, que sorriu enigmática atrás da flor que tinha ganhado. Não, ela era inteligente demais para se entregar a um homem que não podia realmente ter. Havia apenas se aproveitado dele. Usado-o para ter um filho, e continuava usando-o para outras coisas agora.
— Então essa é sua porta para o mundo lá fora? — perguntei à minha prima.
Shira estava girando a flor que tinha recebido nos dedos, com uma expressão presunçosa no rosto.
— Sam costumava entrar escondido para seduzir uma das filhas mais ingênuas do sultão, Miassa. Notei que ela vivia desaparecendo e voltando com o cabelo e as roupas bagunçados. Não levou muito tempo para pegar os dois no flagra. Ela foi muito tola de encontrar outros homens quando já estava prometida para o emir de Bashib. Prometi não entregar os dois ao sultão se Sam me ajudasse.
— No fim, deu tudo certo. — O forasteiro deu de ombros novamente, como se dissesse que não estava interessado nela de verdade. — O emir de Bashib passa bastante tempo longe da esposa. Não é difícil para o Bandido de Olhos Azuis fazer uma visita de vez em quando.
E lá ia ele usando meu nome de novo. Aquilo me irritou.
— Acredite em mim, conheço a Bandida de Olhos Azuis, e você não é ela. Eu sou. Então me conte quem realmente é.
— Bem. — Ele se recostou no muro. — Não dá para culpar um cara por se aproveitar de uma ótima história. Ninguém me contou que o Bandido de Olhos Azuis era muito mais do que parecia… — Ele me olhou de cima a baixo, parecendo parar o olhar nos lugares onde eu havia ganhado corpo recentemente. Seis meses de refeições decentes com a rebelião significavam que não podia mais passar por garoto. Levantei a sobrancelha para ele em desafio. Sam pigarreou. — Muito mais mesmo. E eu sou um bandido. Bem, um ladrão, na verdade. Quando todas essas histórias começaram a se espalhar, fazia todo o sentido do mundo aproveitar a beleza que Deus me deu. — Ele piscou o olho azul maroto para mim. — Você não acredita como é fácil conseguir um bom negócio quando se é praticamente uma lenda viva. Dizem que você é muito boa. Embora obviamente não tão boa assim, se acabou trancada aqui.
Resisti à tentação de socá-lo.
— Como consegue entrar aqui? — perguntei apenas.
— Sou albish. — Ele disse isso como se explicasse tudo. Quando fiz cara de paisagem, Sam continuou: — Nosso país está cheio de magia. Minha mãe é um quarto faye, e meu pai é metade. — Faye. Essa era a palavra que o povo do norte usava para seus djinnis. Só que os deles eram criaturas de água e terra macia. — Posso atravessar qualquer coisa feita de pedra. Vê? — Ele se permitiu afundar até o cotovelo na parede de pedra do palácio.
Tinha que admitir que era tão impressionante quanto qualquer coisa que eu podia fazer.
— O que um ladrão albish está fazendo em Izman?
— Meus talentos estavam sendo desperdiçados na minha terra. — Ele se endireitou e a pedra se deslocou um pouco, voltando ao lugar. — Pensei em trazê-los para seu deserto, onde as pessoas não esperam que um homem com meus talentos esteja atrás de suas joias. O hábito de trancar pertences valiosos em uma caixa de ferro não parece ter chegado aqui ainda. — Ele não estava mentindo. Dava para notar. Mas escondia alguma coisa. Haveria lugares mais fáceis aonde ir do que Izman se só estivesse atrás de dinheiro. Países que não estavam no meio de uma guerra, por exemplo. Mas eu precisava de alguém capaz de entrar e sair do palácio à vontade. E tinha crescido na Vila da Poeira, onde a cavalo dado não se olha os dentes.
Agarrei o braço da minha prima e a puxei para longe do muro, a uma distância que o falso Bandido de Olhos Azuis não pudesse ouvir. Ela revirou os olhos, mas não havia tempo para brigar.
— Posso confiar nele? Pra valer, Shira… Posso confiar em Sam para algo importante? Muitas vidas dependem disso.
— Já pedi para ele enviar cartas até a Vila da Poeira — ela disse, depois de alguns instantes. — Para minha família. — Me perguntei se estava imaginando a dureza na forma como disse “minha”. Mesmo agora minha prima não conseguia evitar me lembrar de que, apesar do laço de sangue e de ter vivido sob o mesmo teto, eu nunca faria parte da sua família. — Bem, cartas e algum dinheiro. — Eu mal tinha pensado na Vila da Poeira em meses, exceto para agradecer a Deus por não estar mais lá. Mas me forcei a lembrar agora. A Vila da Poeira sem uma fábrica, sem nada, destruída. Seria um milagre se a cidade inteira não tivesse migrado ou morrido de fome.
Shira confiava o bem-estar de sua família àquele homem. Eu poderia confiar o da minha. Virei para ele, que estava tentando desajeitadamente amarrar seu sheema de novo.
— Pode levar uma mensagem para mim?
— É claro. — Fiz uma careta quando ele dobrou a ponta do sheema errado. Era doloroso ver. Uma criança pequena faria melhor. — Quanto?
— Quanto o quê?
— Quanto vai me pagar por isso? — ele disse devagar, como se seu mirajin pudesse ser o problema.
Olhei de relance para Shira, que deu de ombros.
— O sultim acha que sou modesta demais para vestir as joias que me dá. — Agora que parara para pensar, ela realmente usava pouquíssimos adornos em comparação com o restante do harém. Havia dias em que Ayet usava braceletes de ouro do pulso até o cotovelo. Ela tilintava com cada gesto. — A verdade é que encontrei um bom uso para elas. Tudo o que acontece dentro das paredes do harém é uma troca. Quanto antes entender isso, maiores suas chances de sobreviver.
— Não tenho joias — eu disse a Sam. — Você já pegou minha reputação. Isso não é suficiente?
— Bem, você não a estava usando direito. Acho que te fiz um favor. Além disso, histórias pertencem às pessoas — ele respondeu. — E, considerando que está literalmente sem saída, vai precisar de mais do que isso.
Passei a língua pelos dentes, pensando. Provavelmente conseguiria algo para trocar em alguns dias. Algumas garotas no harém não eram muito cuidadosas. Não seria tão difícil roubar uma pulseira enquanto dormiam. Mas eu não tinha certeza de quanto tempo tinha. E talvez houvesse outra forma.
— A mensagem que preciso que leve é para Shazad Al-Hamad, filha do general Hamad, ele…
— Eu sei quem ele é — Sam disse, e por um instante o homem sorridente e confiante desapareceu.
— Então deve saber que ele tem dinheiro. Muito. E a filha dele também. — Parei um instante e então completei: — Ela é absurdamente linda. — Shazad me degolaria se me ouvisse descrevê-la daquele jeito para um ladrãozinho estrangeiro. Eu não tinha certeza nem de que estava em Izman, mas era minha melhor chance.
— Já estou gostando dela — Sam disse. Mas havia um fundo de sarcasmo. Ele esfregou um ponto na base de um dos dedos da mão esquerda. Era um gesto instintivo, os pensamentos distantes. Tive a impressão de que nem Sam se dava conta do que estava fazendo. — A filha rica e mimada do general. Por que ela acreditaria em mim? — Shazad com certeza arrancaria um pedaço dele por chamá-la de mimada. Torci para que tivesse o bom senso de não dizer isso na cara dela.
— Só diga a ela que a Bandida de Olhos Azuis está no palácio. — Eu não ousava dar a ele mais informações. Nada sobre o sultão ter um djinni. Pelo menos ainda não. Já havia arriscado o suficiente revelando minha identidade. — A Bandida verdadeira. E que está precisando de alguém para cuidar da retaguarda dela.

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